MINHA OUTRA FACE
16 A maleta
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═══🎭✦✧ Ainda no vestiário da quadra... ✧✦🎭═══
Próximos à arara de roupas, Frida, Daiana e o vigia se mantinham em pé.
O vigia nervoso, mantinha o boné apertado nas mãos enquanto falava com a voz embargada.
— Eu não entrei aqui, senhora... — disse, tentando manter a calma —. Mas ontem à noite teve uma moça que veio. Disse que tinham umas peças erradas e que precisava arrumar. Eu... eu não entendo nada disso, deixei ela entrar.
Frida olhou furiosa para ele.
— E como é que o senhor deixa entrar alguém assim? Do nada? Sem autorização?
— Mas eu conheço ela, senhora. — apressou-se o vigia — Ela já veio aqui antes com as crianças do orfanato. Mil perdões, eu nunca imaginei que fosse prejudicar vocês.
Daiana questionou, intrigada.
— Espera um pouco. A moça que veio aqui é do orfanato?
— Sim, sim — confirmou o homem. — Uma moça de olhos claros, cabelo cacheado, meio loiro. Ela já trouxe as crianças pra escola algumas vezes. Por isso achei que não teria problema.
A indignação de Frida agora fervia, prestes a transbordar.
— Isso é um absurdo! Eu vou matar essa garota! Como é que alguém tem a coragem de estragar o trabalho dos outros assim?
O vigia encolheu-se, sentindo o peso da culpa sobre os ombros.
— Me perdoe. Eu... eu estou até sem jeito...
— Tudo bem, o senhor não fez por mal. Obrigada. Pode ir cuidar do seu trabalho — disse Frida, com um tom mais brando.
— Com licença! — murmurou o vigia, retirando-se com passos curtos e apressados.
Daiana voltou-se para Frida, os olhos arregalados de preocupação.
— E agora, Frida? O que vamos fazer?
— Separei as melhores peças pro desfile. Tudo estava no jeito, alinhado, perfeito. E agora isso. — murmurou Frida, frustrada. — Não dá pra acreditar numa barbaridade dessas.
Daiana analisava as roupas pichadas.
— Quem foi capaz de fazer uma monstruosidade dessas? E por quê?
— Foi alguém que não queria que o desfile acontecesse — Frida respondeu com firmeza. — E é exatamente por isso que ele vai acontecer. Eu trouxe outras roupas. Não são as mesmas, mas são boas. São essas que vamos usar. E vamos desfilar, nem que seja com trapos. Porque ninguém vai impedir o nosso desfile.
═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══
Soraia caminhava pelo corredor, ao passar em frente ao quarto de Gabriel, lançou um olhar rápido para os lados. Não havia ninguém por perto. Parou diante da porta e girou discretamente a maçaneta. Para sua surpresa, estava destrancada.
— A porta tá aberta. — murmurou para si mesma, com um meio sorriso. — É hoje. Tá todo mundo envolvido com o desfile.
Entrou, fechando a porta com cuidado atrás de si. Seus olhos percorreram o quarto com pressa. Estava decidida. Precisava encontrar qualquer coisa que pudesse incriminar Gabriel. Começou a revirar tudo: abriu o guarda-roupa, vasculhou as gavetas, passou as mãos debaixo do colchão e da cama. Nada. Mas ao puxar a última gaveta da cômoda, notou algo diferente: seus dedos tocaram o couro envelhecido de uma maleta preta, antiga.
— Mas o que é isso? — sussurrou, intrigada.
Retirou a maleta e sentou-se na cama, colocando-a ao lado. Antes que pudesse abrir, vozes soaram no corredor, se aproximando rapidamente.
— Por favor, Gabriel, joga com a gente! — insistia Pedro, a voz empolgada.
Soraia empalideceu. Com movimentos rápidos, fechou a gaveta, agarrou a maleta e se arrastou para debaixo da cama, o coração batendo forte no peito.
A porta se abriu de repente. Gabriel entrou primeiro, tirando a camisa com desleixo.
— Não dá pra jogar, Pedro, entenda — disse ele, já indo até o guarda-roupa.
— Mas tá faltando um, o time tá desfalcado! — insistiu Pedro, entrando em seguida, com uma bola nas mãos.
— A gente já tá atrasado, deveríamos estar no desfile. Você já tá pronto?
— Ainda não, mas me arrumo rapidinho.
Pedro sentou-se na cama, fazendo com que a estrutura de madeira rangesse acima de Soraia. Ela prendeu a respiração.
Gabriel vestia uma camisa limpa quando Pedro olhou para o chão, curioso.
— Oxe, o que é isso? — perguntou, abaixando-se para pegar.
Gabriel se virou para ver.
— É o brinco de uma das meninas.
Soraia fechou os olhos com força. Um calafrio percorreu sua espinha, ao passar a mão na orelha e perceber que havia perdido um dos brincos.
— Pode ser da Ana — sugeriu Pedro.
— Não me lembro da Ana usar esse tipo de brinco — respondeu Gabriel.
— Então só pode ser de alguma das outras meninas.
— Guarda direitinho aí. Depois a gente vê de quem é. Vai logo se arrumar, cara. Deixa eu terminar aqui.
Pedro levantou-se e saiu correndo do quarto. Gabriel terminou de se vestir e, alguns minutos depois, saiu também, fechando a porta atrás de si.
Soraia permaneceu imóvel por mais alguns segundos. Só quando teve certeza de que estava sozinha, rastejou para fora do esconderijo, limpando discretamente a poeira da roupa e ajeitando a peruca. Com um gesto rápido, tirou o outro brinco da orelha e o escondeu no bolso do vestido. A maleta ainda estava firme sob seu braço.
Abriu a porta devagar, espiou para os dois lados e, certificando-se de que o corredor estava vazio, saiu apressada, sumindo em silêncio.
═══🎭✦✧ Em outro canto da cidade... ✧✦🎭═══
Ludmila saía da padaria com uma sacola de pão na mão. Ela andava devagar pela calçada, mas parou ao avistar Glauber do outro lado da rua. Ele estava parado na calçada ao lado de um carro preto importado, conversando com um homem bem mais velho, talvez uns sessenta e poucos anos, elegante, de camisa social. Ludmila reconheceu aquele jeito meio cínico de rir que Glauber tinha, mas o que a deixou paralisada foi o gesto seguinte: o homem segurou o rosto dele com firmeza e lhe deu um beijo na boca. Glauber retribuiu com naturalidade, quase como quem faz aquilo sempre. Ela arregalou os olhos e ficou ali, imóvel, só observando.
— Não pode ser. Me amarrota, que tô passada! — murmurou, sem acreditar.
Depois do beijo, Glauber sorridente entrou no carro do homem, que arrancou calmamente.
═══🎭✦✧ Enquando isso na quadra... ✧✦🎭═══
Daiana observava o movimento. Os convidados iriam chegando e se sentando. Ela tirou o celular do bolso e fez uma ligação.
— Gabriel, onde você está? — perguntou assim que ele atendeu.
Do outro lado da linha, a voz de Gabriel soou, com ruídos de crianças ao fundo. Ele ainda estava no orfanato.
— Oi, meu amor... me desculpa. Eu sei que já deveria estar aí. Mas acabei me enrolando por aqui. Já estamos todos prontos, só estamos terminando de colocar as crianças na kombi. Daqui a pouco estaremos aí.
— Tudo bem... o importante é que a Ana, que vai desfilar, já está aqui. Tivemos um contratempo por aqui também. — Fez uma pausa breve antes de continuar. — Alguém aí do orfanato tentou sabotar o desfile. Picharam as roupas que iríamos usar.
— Como assim? Alguém aqui do orfanato? — Gabriel franziu o cenho. — Daiana, isso não faz sentido. Ninguém aqui faria uma coisa dessas.
— O vigia viu — retrucou ela com firmeza. — Ele garantiu que uma moça daí, que já veio aqui com as crianças apareceu aqui ontem a noite. Com desculpa de arrumar algumas peças que estavam errada. Só pode ter sido essa moça que pichou as nossas roupas.
— Só pode ser engano. Aqui ninguém seria capaz de algo assim.
— Eu não conheço direito todo mundo daí, Gabriel. Mas o vigia foi bem claro. Disse que era uma moça dos cabelos loiros, olhos claros...
— A Maria! — cortou ele, num sussurro quase inaudível.
— Essa Maria, eu me lembro dela — disse Daiana, relembrando. — Foi aquela que cortou a mão no primeiro dia em que estive aí, né? Nunca vi o rosto dela direito. Sempre se esquivando...
— Ela avisou para irmã Rosália que não viria ao desfile — murmurou Gabriel. — Disse que preferia ficar aqui. Então eu... eu vou deixar a irmã levar as crianças. Vou falar com a Maria. Preciso esclarecer melhor isso.
— Faça isso, Gabriel. Por favor. — Daiana estava firme. — Agora se foi mesmo essa garota, ela tem um sério desvio de caráter. E precisa ser responsabilizada.
— Eu vou ver isso agora. — disse por fim, com a voz mais baixa. — Depois a gente se fala.
— Ok, resolve aí e vem.
A ligação terminou. Daiana desligou o telefone e guardou-o no bolso, indo em direção ao vestiário da quadra, onde as outras modelos estavam reunidas. Lá dentro, Frida tentava manter a ordem, mesmo com os olhares aflitos das jovens diante das roupas pichadas.
— Gente, silêncio, por favor! — Frida ergueu a voz, firme. — Atenção aqui, todos vocês!
As conversas cessaram, e um silêncio se instaurou.
— Como vocês podem ver, as roupas que iríamos usar estão todas pichadas. Alguém teve a maldade de sabotar o nosso desfile, tentando nos prejudicar. — Fez uma breve pausa, olhando nos olhos de cada uma. — Mas eu separei outras peças, que estão bem aqui. O nosso desfile vai acontecer, sim. Com ou sem sabotagem. Quem queira, quem não queira.
Ela apontou para um cabideiro improvisado, de onde pendiam vestidos alternativos e figurinos de reserva.
— Com cuidado, cada uma pega sua peça e pode se trocar. Carina, por favor, ajuda as meninas. E Daiana onde está?
Antes que alguém pudesse responder, Daiana entrou no vestiário.
— Estou bem aqui — anunciou, ainda ofegante.
— Que bom! — Frida respondeu, aliviada. — Já se troca também, tá quase na hora.
— A quadra tá cheia, viu? — informou Daiana, com um leve sorriso. — Tem até jornalista aí.
Os olhos de Frida brilharam por um instante.
— Então eles vieram? Ótimo... — murmurou, pensativa. — Tive uma ideia, Daiana.
— O que foi?
Frida se aproximou, seu tom agora carregado de propósito.
— A gente não vai dispensar as roupas pichadas.
— Como assim?
— Vamos usá-las. Entraremos com elas no final do desfile. Vai ser um ato de resistência.
Daiana abriu um sorriso, admirada com a coragem e criatividade da amiga.
— Gostei. E olha que pode até virar moda...
Frida assentiu, determinada.
— Quem fez isso tentando nos derrubar, não vai conseguir. Vamos transformar esse ataque em força. Ninguém vai nos impedir de desfilar.
═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══
O quarto de Soraia estava em silêncio, sentada na cama ela vasculhava o interior da maleta. Lá dentro, ela encontrava recortes antigos de jornais onde estampavam a morte de Jurandir com manchetes já amareladas; havia fotos e cartas trocadas entre Jurandir e Joana. Anotações, objetos pessoais e até o endereço de uma mulher chamada Rita.
Soraia arregalou os olhos, a respiração acelerada.
— Mas o que significa tudo isso? — murmurou para si mesma, desorientada. — O Gabriel já sabia de toda a história. Minha nossa... isso significa que foi ele mesmo. O Rodrigo tá certo, foi o Gabriel que matou o Antunes!
O som repentino da maçaneta a fez estremecer. Ela enfiou tudo de volta na maleta de qualquer jeito e a empurrou para debaixo da cama.
— Quem é? — perguntou, tentando manter a voz firme.
— Sou eu, Maria. O Gabriel. — respondeu ele do outro lado da porta, com voz gentil.
Soraia lançou um último olhar ao quarto, certificando-se de que nada estava fora do lugar. Ajeitou a peruca com mãos apressadas, respirou fundo e, com uma expressão serena forçada, abriu a porta.
— Oi, Gabriel — disse, sorrindo — Pensei que você já tivesse ido pro desfile.
— Eu tô indo agora. Só passei aqui pra falar com você — respondeu ele, entrando no quarto com naturalidade.
— Já disse pra irmã Rosália que não vou ao desfile. Prefiro ajudar por aqui mesmo — respondeu ela, tentando soar casual.
Mas Gabriel não sorriu. Seus olhos estavam sérios, a voz um pouco mais firme:
— Eu sei. A irmã Rosália comentou. Mas o que eu queria saber mesmo é outra coisa. Onde você esteve ontem à noite?
Soraia piscou, fingindo surpresa.
— Eu? Bem... eu fui na casa de uma prima, aqui perto. Mas por que a pergunta?
— Você pode até ter ido em sua prima, Maria. Mas na volta passou pela quadra onde vai ser o desfile. O vigia contou. Disse que você entrou dizendo que precisava mexer nas roupas. Você pode me explicar o que realmente você foi fazer lá?
— Gabriel... eu não estou entendendo essa conversa — disse ela, com a voz embargada. — Onde você quer chegar?
— A Daiana me ligou. As roupas do desfile foram todas pichadas. E a última pessoa que foi vista lá, foi você.
Nesse momento, Soraia sentou-se na cama e cobriu o rosto com as mãos, soltando um choro falso mas convincente. A encenação era precisa, quase comovente.
— Por que você tá me acusando? Eu juro que não estive lá! Meu Deus... por que eu faria uma coisa dessas? Eu sou uma estranha aqui, eu sei. Mas tô tentando me encaixar. Se não sou bem-vinda, eu vou embora. Volto pro Maranhão, vou morar com minha avó. Vai ver esse vigia se confundiu. Que motivo eu teria pra prejudicar sua namorada?
Gabriel ficou sem jeito. O choro dela o desarmava.
— Calma, Maria — disse ele, aproximando-se. — Também não precisa chorar assim.
Ela se levantou, ainda fingindo emoção, e virou-se de costas. Sua voz, agora um pouco mais baixa, ganhou tons de melancolia.
— Desculpa, Gabriel. Ando muito emotiva. Saudade dos meus pais, da minha casa. Minha vida virou do avesso de uma hora pra outra. Me sinto tão sozinha, tão abandonada...
Gabriel, ainda desconfiado, mas comovido, aproximou-se e limpou as lágrimas do rosto dela com delicadeza.
— Tá tudo bem. Eu não tô te acusando de nada. Só quero entender o que realmente aconteceu. Mas agora preciso ir, tô super atrasado. Quando eu voltar, a gente conversa melhor, tá bom?
— Claro. E me desculpa mais uma vez. Quando você voltar eu vou te explicar direitinho o que aconteceu, você vai me entender.
Ele assentiu com um leve sorriso, deu meia-volta e saiu do quarto.
Assim que a porta se fechou, Soraia respirou fundo e enxugou as últimas lágrimas, desta vez sem emoção. Endireitou a coluna, lançou um olhar frio em direção à cama e sussurrou, sozinha:
— Mas essa agora. Acho que já deu minha estadia por aqui. Já tenho o que preciso.
═══🎭✦✧ Quadra de esportes da escola ✧✦🎭═══
A entrada da quadra fervilhava. Carros paravam lentamente à frente dos portões, enquanto outros ainda chegavam, trazendo convidados vestidos com esmero. Do lado de dentro, flashes dos fotógrafos iluminavam rostos ansiosos e sorrisos. O vozerio era constante, animado. A música ambiente embalava o clima de celebração, e a decoração transformava a quadra em uma passarela de luxo.
Do lado direito da passarela, Joana e Kléber estavam sentados juntos. A cada minuto, os olhos de Joana varriam o salão, inquietos.
— Eu ainda não encontrei o Gabriel por aqui — comentou ela.
— Talvez ele ainda não tenha chegado — disse Kléber, mantendo o tom calmo.
Joana não respondeu de imediato. Seu olhar parecia atravessar o ambiente, procurando além da decoração, além das pessoas.
— Nem o Gabriel... e nem o Epaminondas — completou, pensativa. — Depois de mais de vinte anos será que eu ainda reconheceria aquele homem?
Kléber se virou para ela, ligeiramente preocupado.
— Tem certeza de que quer se aproximar desse sujeito?
— Claro que sim. Essa história tá toda mal contada, Kléber. Quem imaginaria que o Epaminondas era irmão do Jurandir? — Joana respirou fundo. — E justo ele vai parar no orfanato onde o Gabriel foi criado? Coincidência demais, não acha?
— Acho. E é exatamente por isso que me preocupo — disse Kléber, encarando-a com seriedade.
Do outro lado da passarela, Meireles e Angelina tomavam seus lugares. Ao perceber Joana, Angelina acenou com um sorriso educado. Joana retribuiu com um breve movimento de cabeça.
— Olha ali a Joana — comentou Angelina em voz baixa. — Depois temos que contar pra ela tudo o que o Antunes aprontou contigo.
— Não vejo necessidade disso — respondeu Meireles. — Talvez ela já saiba. O melhor é manter distância dessa gente.
— Deveria falar isso pra sua filha, que tá toda de chamego com esse tal de Gabriel.
— Você não acredita mesmo na inocência dele?
— Francamente? — disse ela, olhando em volta. — Entre ele e o Rodrigo, ainda prefiro acreditar no Rodrigo. E por falar nisso, cadê ele? Ou ainda não chegou, ou já tá lá dentro... com ela.
— Também tô curioso pra conhecer esse Gabriel — murmurou Meireles.
Frida surgiu atrás do púlpito de vidro, no alto da passarela. Estava impecavelmente vestida, com postura firme e olhar confiante. O microfone em sua mão amplificou sua voz com clareza. O burburinho da plateia cessou assim que ela começou a falar.
— Senhoras e senhores, boa noite. Em nome da agência Mascarenhas, é com enorme alegria que dou as boas-vindas a todos vocês. Hoje não é apenas uma noite de moda. É uma noite de solidariedade, beleza e resistência. Toda a renda deste evento será destinada ao Lar São Tarcísio, que abriga e cuida com tanto amor de crianças que merecem todo o nosso carinho.
Ela deu uma pausa breve, respirou fundo e continuou.
— Preparei essa noite com o coração — continuou. — Escolhi, peça por peça, uma coleção pensada para emocionar. Mas, infelizmente, alguém tentou impedir o nosso trabalho.
Um murmúrio tenso se espalhou entre os convidados, mas Frida manteve a compostura.
— E assim sendo, as modelos que vocês verão agora entrarão com uma nova coleção. Igualmente linda, forte e digna deste palco. E no final... bem, no final, vocês verão as peças que seriam usadas originalmente. Exatamente como as encontramos hoje, quando chegamos aqui.
Frida então esboçou um leve sorriso. Seus olhos brilharam.
— Portanto, ajeitem-se em suas cadeiras. Porque o desfile vai começar, e eu prometo que vai ser inesquecível.
Frida afastou-se do púlpito, sob aplausos, dando lugar às luzes, à música e ao espetáculo.
═══🎭✦✧ Casa do Juca ✧✦🎭═══
Ludmila saiu da cozinha com uma tigela de pipoca e entregou a Carla, que já estava largada no sofá com o controle remoto nas mãos. A televisão estava ligada, mas sem som. Ludmila se acomodou ao lado, jogando as pernas por cima de uma almofada.
— Ludmila, será que você não se enganou? — disse Carla, pegando uma porção de pipoca. — Vai ver foi só um cumprimento de perto, uma coisa casual, e você já montou toda uma fanfic.
— Eu não sou cega, Carla. Foi beijo. Beijo na boca, com vontade, com pegada! — Ela pausou, pensativa. — Tô aqui agora me perguntando: quer dizer então que o Glauber corta para os dois lados?
Carla deu um risinho malicioso, estreitando os olhos.
— Sabe o que eu acho, então? Pra mim o Glauber é do Job.
Ludmila arregalou os olhos, chocada e divertida ao mesmo tempo.
— Não brinca. A gente aqui se achando piranha e no fim, a piranha é o boy!
Elas riram juntas, mas Ludmila logo se recolheu num ar pensativo, mordendo um grão de pipoca.
— E agora, Carla? O que eu faço?
— Nada, né, Ludmila? Você tá com o Fabinho. O que você tem a ver com isso? Glauber pode beijar quem ele quiser.
— Mas é que... — Ludmila fez um biquinho manhoso. — Foi tão gostosinho a noite com ele. Eu tinha esperança de repetir, sabe?
Carla fez uma pausa dramática, encarando Ludmila.
— Garota, decide. Você mesma disse que não curtiu. Que tava com o Glauber, mas o tempo inteiro pensando no Fabinho.
— Justamente por isso! — rebateu Ludmila. — Queria repetir, pra ver se dessa vez eu curtia de verdade. Não posso mentir: o Glauber tem uma pegada que derrete qualquer uma. Já o Fabinho...
Ela suspirou, virando os olhos.
— O Fabinho é devagar, quase parando. Fofo, mas... né?
Carla riu com gosto.
— Então depois da boate ontem não deu em nada?
— Deu sim. — Ludmila se jogou no sofá. — Bebemos, dançamos, ficamos olhando as estrelas. Mas na hora que o bom devia acontecer, ele nem se moveu.
Carla jogou uma pipoca na direção da amiga.
— Piranha, que dedo duro que você tem pra homem, hein?
═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══
Rodrigo estava sentado na beira de sua cama, com a maleta de Gabriel aberta diante de si. Puxava recortes de jornais antigos, fotos, cartas amareladas pelo tempo, tudo espalhado sobre o lençol. Soraia permanecia de pé ao lado, observando-o.
— Olha só tudo isso... — murmurou Rodrigo. — Recortes de jornal da época, cartas trocadas entre meu pai e minha mãe... esse cara já sabia de muita coisa, Soraia. Muita coisa mesmo.
— E com isso a gente pode provar que você é inocente, né? Que foi ele quem matou o Antunes?
Rodrigo fez que não com a cabeça, soltando um suspiro frustrado.
— Isso aqui ainda não é o bastante pra polícia. Levanta suspeitas, sim. Mostra que ele conhecia toda a história, sabia da conexão com a Mulambo. Mas não prova nada sobre o assassinato. Ainda assim, é o suficiente pra abrir os olhos da Daiana. Pra ela entender que esse cara tá mentindo, que ele pode ser muito perigoso.
— O quê?! Daiana? — Soraia exclamou, dando um passo à frente. — Eu tive todo o trabalho de encontrar essa maleta, de me arriscar entrando no quarto dele, quase fui pega! Fiz isso por você, Rodrigo! Porque eu te amo! E você quer usar isso pra se reconciliar com aquela vara pau seca?
— Calma, Soraia! Você só pensa em você? Não percebe que a Daiana pode estar correndo perigo ao lado desse marginal?
— Eu não tô nem aí pra Daiana! — gritou Soraia. — Quero mesmo é que ela se lasque!
— A gente ainda não sabe do que esse cara é capaz. Isso aqui mostra que ele já sabia da nossa história, sabia que o Antunes era um dos donos da Mulambo. Mas nada aqui prova que ele matou. Ainda não temos o que incrimine de fato o Gabriel. E você vai ter que se arriscar mais um pouco. A gente precisa de mais provas.
Soraia cruzou os braços com força e desviou o olhar.
— Eu não vou poder fazer mais nada.
Rodrigo a fitou com desconfiança.
— E por que não?
— Porque o Gabriel me confrontou. Ele tá desconfiado. Não posso me arriscar mais. Isso aí é tudo o que eu consegui.
— Você aprontou alguma coisa, Soraia?
Ela desviou o olhar, depois ergueu o queixo e o encarou confessando:
— Eu pichei as roupas que eles iam usar no desfile. Pronto, falei.
Rodrigo arregalou os olhos, descrente.
— O quê?! Porque fez isso?
— Fiz mesmo! — continuou ela, agora exaltada. — Tô cansada de ver aquela canela de seriema tendo êxito em tudo! Fiz porque quis! E digo mais...
Ela se aproximou da cama, apontando para a maleta com um olhar ameaçador.
— Eu trouxe essa maleta achando que você ia levar pra polícia. Achando que você ia provar sua inocência. Agora, se você usar isso aqui pra se reaproximar da Daiana, Rodrigo... pode ter certeza: eu taco fogo em tudo.
Rodrigo a fitou, sem dizer nada.
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