MINHA OUTRA FACE
17 Passado em cinzas
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═══🎭✦✧ Ainda no quarto do Rodrigo... ✧✦🎭═══
Rodrigo não respondeu de imediato. Silenciosamente, começou a recolher os papéis e objetos espalhados sobre a cama, e guardou todos, fechou a maleta e só então se voltou para Soraia:
— Você já tá ficando é louca. Essa sua obsessão tá saindo do controle. Escute bem o que eu vou te dizer, Soraia. Eu nunca menti pra você. Eu amo a Daiana. E é com ela que eu vou ficar.
Soraia o encarou com um olhar que queimava de raiva. Rodrigo continuou:
— Agradeço tudo o que você fez por mim. De verdade. Você me ajudou muito, e eu sou grato por isso. Mas isso aqui... — ele apontou para a maleta — isso é coisa séria. A Daiana tá correndo perigo com esse cara. E eu preciso protegê-la.
— Você é nojento — rosnou Soraia, os olhos marejando, mas cheios de fúria. — Sempre se aproveitou de mim. Agora que não precisa mais, tá me jogando fora?
— Isso não é verdade. — Rodrigo elevou um pouco o tom. — Você se ofereceu pra me ajudar. A ideia de se infiltrar no orfanato foi sua. Eu só aceitei. Não te obriguei a nada.
— Mas aproveitou, né? — ela rebateu, apontando para a maleta. — Olha aí, agora já tem um trunfo nas mãos pra correr atrás da sua queridinha. Só que não, bebê...
Num movimento brusco, Soraia avançou, pegou a maleta que estava sobre a cama e saiu em disparada.
— Eu vou dar um fim nisso aqui!
— Soraia! — gritou Rodrigo, correndo atrás dela. — Volta aqui! Não faz besteira!
Soraia desceu até a cozinha como um furacão. Largou a maleta no chão, abriu-a com violência e começou a espalhar os papéis com os pés. Num gesto rápido, puxou um isqueiro e riscou a chama e jogou sobre os documentos.
O fogo lambeu os papéis com fúria, consumindo as provas enquanto Rodrigo entrava na cozinha em pânico.
— Você tá maluca?! — gritou ele. — O que você pensa que tá fazendo?
Sem pensar duas vezes, Rodrigo pegou um pano de prato e abafou o fogo com força. Soraia, com os olhos arregalados e o corpo tremendo, gritou entre dentes:
— Eu odeio você! Odeio a Daiana! Quero que aquela girafa seca morra!
Rodrigo levantou-se, ofegante, e apontou para a porta com os olhos cheios de desprezo.
— Sai daqui, Soraia. Vai embora. Some da minha frente!
Soraia o encarou por um instante, deu meia volta e saiu.
═══🎭✦✧ Enquanto isso na quadra... ✧✦🎭═══
O desfile chegava ao fim sob aplausos calorosos. Frida surgiu na passarela acompanhada por todas as modelos, encerrando o evento com um sorriso vitorioso. A plateia reagia com entusiasmo, enquanto flashes de fotógrafos registravam os últimos momentos daquela noite inesquecível.
A quadra fervilhava com o burburinho do pós-evento. Pessoas se cumprimentavam, trocavam impressões, celebravam o sucesso. Entre os convidados, Joana e Kléber permaneciam próximos às arquibancadas, observando a movimentação intensa.
— Eu vi o Gabriel indo em direção ao vestiário — comentou Joana, vasculhando a multidão com os olhos. — Nem consegui falar com ele.
— Vamos esperar aqui — sugeriu Kléber. — Logo ele aparece.
Joana balançou a cabeça, decidida.
— Não. Depois eu falo com o meu filho. O que eu quero agora é ir ao orfanato. Preciso conversar com o Epaminondas. Se ele não apareceu no desfile, é porque ficou por lá. Eu preciso entender o que aconteceu, Kléber.
Nesse momento, Angelina se aproximou, empurrando a cadeira de Meireles.
— Bom dia, Joana! — disse ela, com um sorriso cortês. — Como vai, doutor Kléber?
— Estou bem, dona Angelina. E a senhora, e o seu Meireles? — respondeu ele, com um leve aceno.
— Bom dia — cumprimentou Joana.
— Bom dia! — replicou Meireles.
Angelina continuou:
— Estou surpresa em te ver por aqui, Joana.
— Eu vim ver o meu filho — disse ela, firme.
— O Rodrigo está aqui? — perguntou Angelina.
— Não. Estou falando do meu outro filho. O Gabriel.
Angelina engoliu em seco, desconcertada.
— Ah, claro... Imagino como sua cabeça deve estar confusa com tudo isso que vem acontecendo.
Joana manteve o olhar direto, sem se abalar.
— Infelizmente, um dos meus filhos cometeu um erro. E ele vai arcar com as consequências disso. Mas eu não quero viver presa a essa dor, e muito menos ter que escolher entre eles. Quanto às ações da empresa, já decidi: vou vender minha parte assim que o inventário sair.
— Sábia escolha, viu, Joana — disse Meireles, satisfeito. — E não se preocupe, já fiz as contas. Lhe pagarei um valor justo.
— Depois me envie, para que eu possa revisar tudo — acrescentou Kléber, profissional.
— Claro — assentiu Meireles.
— Agora, se me dão licença — disse Joana, com elegância. — Preciso encontrar alguém.
Ela deu meia-volta e seguiu com Kléber em direção à saída da quadra.
— Pobre Joana... — murmurou Angelina, depois que Joana saiu. — Talvez seja a que mais sofre com toda essa história.
O vestiário ainda fervilhava com a movimentação das modelos trocando de roupa, rindo e comentando o desfile. Gabriel se aproximava discreto, parando diante da porta entreaberta. Antes que pudesse bater, Carina surgiu, saindo às pressas.
— Poderia chamar a Daiana, por favor? — pediu Gabriel com um sorriso.
Carina olhou por sobre o ombro e, sem nem entrar, gritou de volta:
— Daiana! Seu namorado tá aqui!
Daiana surgiu poucos segundos depois, ainda com os cabelos soltos e maquiada. Sorriu ao vê-lo e, sem cerimônia, o cumprimentou com um beijo rápido e apaixonado.
— Oi, meu amor! — disse ela, com brilho nos olhos. — E aí, conseguiu assistir ao desfile?
Gabriel balançou a cabeça, com um leve suspiro.
— Cheguei atrasado... mais uma vez — disse com um tom de lamento bem-humorado. — Mas consegui ver boa parte. Especialmente o final, com vocês entrando com aquelas roupas pichadas. Foi impactante, ousado, bonito. Pelo que ouvi do público, todo mundo adorou.
— Foi ideia da Frida — contou Daiana, orgulhosa. — Mas o sucesso não apaga o crime, né? E aí, conversou com a tal Maria?
Gabriel baixou os olhos por um instante, respirando fundo antes de responder.
— Ela se emocionou, chorou, jurou que não foi ela. Mas eu tenho certeza que foi. Só não entendo por quê. Não combina com o jeito da Maria.
— Os motivos dela não interessam, Gabriel — retrucou Daiana, séria. — O que ela fez foi errado. Grave. Ela precisa se responsabilizar por isso.
— Eu sei. É que... sei lá. Como estava tudo corrido, não deu tempo de conversar direito. Mas assim que eu voltar pro orfanato, vou chamar ela pra uma conversa mais séria.
Daiana cruzou os braços, o olhar firme.
— E eu vou estar junto. Quero olhar bem na cara dessa garota. Porque, sinceramente? Tenho a impressão de que ela tá fugindo de mim. Se esquivando.
═══🎭✦✧ Casa de Diná ✧✦🎭═══
Diná organizava algumas panelas na pequena cozinha do barraco. O rádio velho, encostado num canto da pia, murmurava uma música sertaneja. Foi então que a porta se abriu, e Soraia entrou, desanimada, com a mochila nas costas e uma sacola nas mãos.
— Minha filha! — exclamou Diná, ao vê-la. — Que bom que lembrou que tem mãe. Já estava aqui de coração apertado. Por onde você andou todo esse tempo?
Soraia apenas estendeu a sacola para ela, sem muita emoção.
— Aqui estão suas roupas. Peguei emprestado, como disse. Tô devolvendo.
Diná pegou a sacola, confusa, o olhar buscando alguma explicação no rosto da filha.
— Pra que você pegou essas coisas, Soraia? Me conte melhor, onde você esteve? O que você andou aprontando?
Soraia suspirou fundo e jogou a mochila sobre uma cadeira velha, irritada.
— Pelo amor de Deus, mãe. Agora não. Não tô com cabeça pra responder interrogatório.
— Como assim "agora não"? — retrucou Diná, indignada. — Você acha que isso aqui é o quê? Um hotel? Some, passa semanas fora e aparece como se nada tivesse acontecido? O seu pai tá uma fera com você.
— Novidade — respondeu Soraia, com ironia. — E quando é que ele não tá?
Diná largou a sacola sobre o balcão.
— Você só apronta, menina. É uma besteira atrás da outra. E quer saber? Tenho certeza que esse seu sumiço tem a ver com o Rodrigo. Era com ele que você tava, não era?
Soraia sorriu e respondeu com deboche:
— Era sim. Eu e ele estávamos numa lua de mel nas ilhas do Caribe. Satisfeita agora?
— Eu vou estar satisfeita... — disse Diná, com firmeza — no dia que você se tocar que esse cara só tá te usando. E se afastar dele.
— Eu não vou me afastar do Rodrigo, e deixar o caminho livre pra Daiana? Isso, nunca!
— E do que adianta querer alguém que não te quer, minha filha?
Soraia apertou os lábios, o olhar endurecido.
— Ele pode até não ficar comigo. Mas com aquela canela de seriema, ele também não vai ficar.
Soraia saiu da cozinha, indo direto para o quarto.
═══🎭✦✧ De volta a quadra: ✧✦🎭═══
A quadra agora estava vazia. Restavam poucos convidados circulando entre cadeiras desorganizadas e taças vazias. No centro do espaço, Angelina ajeitava a gravata de Meireles. Daiana se aproximou com Gabriel ao seu lado, os dois de mãos dadas. Ela parou diante dos pais e sorriu com suavidade.
— Mãe, pai... esse é o Gabriel.
Gabriel estendeu a mão com gentileza.
— Prazer conhecer os senhores.
Meireles correspondeu ao gesto com firmeza.
— O prazer é meu, rapaz.
Angelina, no entanto, ficou boquiaberta. Os olhos não piscavam, fixos no rosto de Gabriel como se enxergasse um fantasma.
— Minha nossa! — murmurou. — Você é idêntico ao Rodrigo.
Gabriel sorriu de leve.
— Todo mundo fala isso. É normal, somos gêmeos.
— E... e... você já conhecia o Rodrigo? — Perguntou Angelina, curiosa — Digo, antes de tudo isso, antes do que aconteceu com o Antunes? Já sabia que tinha um irmão?
— Não, senhora. — respondeu Gabriel. — E pessoalmente ainda não me encontrei com o Rodrigo. Só com a minha mãe. E foi incrível. Finalmente sentir o colo de mãe, era tudo o que sempre sonhei. Eu até a vi por aqui, mas não consegui falar com ela.
— Talvez ela ainda esteja por aqui, meu amor. — disse Daiana. — Quem sabe vocês ainda se veem. Ela não iria embora sem falar com você.
Angelina continuou, cautelosa:
— E o Antunes, Gabriel? Você o conhecia?
— Mãe, por favor, né? — repreendeu Daiana. — Não há necessidade desse interrogatório.
Gabriel ergueu a mão com calma.
— Tudo bem, Daiana. Eu entendo a preocupação da sua mãe. Se estivesse no lugar dela, talvez também tivesse dúvidas. Afinal, ainda sou um estranho, e suspeito de um crime. E respondendo à senhora, dona Angelina: não, eu não conhecia o Antunes. Apenas por fotos, vez ou outra na internet.
Meireles soltou um leve suspiro.
— Acredito então que também já tenha me visto por aí, em alguma reportagem? Sempre tem um jornalista de olho no andamento da Mulambo.
— Sim. Já vi o senhor em reportagem da internet. Mas só isso. Nada além disso.
Angelina continuava desconfiada.
— Me desculpe, mas ainda estou impressionada com a semelhança entre você e o Rodrigo. E... sinceramente, esse namoro entre você e minha filha não me deixa confortável. Talvez, quando tudo for esclarecido, e se você provar que é inocente, eu pense diferente.
Gabriel desviou o olhar brevemente para Daiana. Depois, voltou-se para Angelina com serenidade.
— A verdade pode demorar, dona Angelina. Mas uma hora ela aparece. Eu durmo tranquilo, porque minha consciência não me pesa por esse crime.
Daiana, querendo encerrar o assunto, interveio:
— Ela sabe disso, amor. Ela só está preocupada comigo. Mas agora, chega de perguntas, né? Deixa a polícia cuidar das investigações. Pai, e o que o senhor achou do desfile?
Meireles sorriu, quebrando o gelo.
— Esplêndido. E olha, quero comprar uma daquelas roupas que foram pichadas. Achei o estilo bem revolucionário.
Gabriel e Daiana riram juntos, aliviando a tensão.
═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══
A kombi estacionou diante do orfanato. Irmã Rosália desceu primeiro, segurando o hábito de um lado e com o outro braço organizando o grupo de crianças que ainda estavam eufóricas pelo evento recém-vivido. Uma a uma, elas foram descendo, rindo, falando alto. Na porta do orfanato, Irmã Tereza já os aguardava, com o semblante sereno e atento.
— Nossa, estou me sentindo nas nuvens! — exclamou Ana, desfilando enquanto caminhava. — Estava tudo tão perfeito. A Frida falou que tenho talento. Desfilei como uma profissional!
— Já vi tudo, vai ficar toda metida agora — resmungou Pedro.
Irmã Rosália os acompanhava de perto e lançou um olhar reprovador à empolgação de Ana.
— Cuidado, viu, Ana. Vaidade é um dos pecados capitais.
— Eu sei, irmã — respondeu Ana. — Eu faço catequese.
Eles entraram no orfanato. Pedro, lembrando de algo, enfiou a mão no bolso e puxou o brinco.
— Ah! Já ia esquecendo, encontrei seu brinco no quarto do Gabriel.
Ana olhou para o acessório e franziu o cenho.
— Mas esse brinco não é meu. Ah, ele é da Maria, eu já vi ela usando ele.
— E o que o brinco da Maria estava fazendo no quarto do Gabriel? — Quis saber irmã Rosália.
— Não sei — respondeu Pedro, dando de ombros. — Talvez ela tenha esquecido lá na hora de limpar?
— O Gabriel não gosta nem que eu limpe o quarto dele, imagine Maria — rebateu Ana com convicção.
— De toda forma, procure a Maria e devolva. Ela deve estar no quarto dela. — Propôs Irmã Rosália.
— No quarto dela, não — corrigiu Ana. — No meu quarto, que ela tomou conta.
— Olha o egoísmo, Ana — repreendeu Irmã Tereza, que acabara de se aproximar. — Temos que saber dividir.
— Me dê aqui o brinco. Deixe que eu mesmo levo — decidiu Rosália, firme. — Preciso mesmo conversar com a Maria.
Enquanto Irmã Rosália seguiu em direção ao quarto, batidas suaves soaram na porta principal. Irmã Tereza voltou para atender. Ao abrir, deparou-se com Joana e Kléber.
— Bom dia — disse Joana com um leve sorriso. — Eu sou a Joana. Gostaria de falar com o Epaminondas, por favor.
Irmã Tereza assentiu com gentileza.
— Claro. Venham comigo — respondeu, abrindo passagem e tomando a direção do jardim.
Enquanto caminhavam, Irmã Tereza não resistiu à curiosidade.
— A senhora é parente do Epaminondas?
Joana a olhou de lado, a voz firme, mas suave:
— Eu sou a mãe do Gabriel. Conheço o Epaminondas de outras datas. Ele trabalhou pra mim alguns anos atrás.
A freira parou no meio do caminho. Seus olhos se arregalaram com a revelação.
— Minha nossa Senhora da Abadia! — exclamou, emocionada. — Então a senhora é a mãe do Gabriel! Que alegria recebê-la aqui.
Epaminondas estava um pouco adiante mexendo nas plantas. Ao notar a presença de Joana, ficou surpreso.
— Dona Joana?!
Ela sorriu, emocionada.
— Epaminondas! Você não mudou nada, continua o mesmo.
— Bondade sua, Dona Joana... envelheci foi muito.
— Com licença — disse Irmã Tereza, com um sorriso discreto. — Vou deixá-los mais à vontade.
Quando ela se afastou, Epaminondas enxugou as mãos na calça e fez um gesto com a cabeça, indicando uma direção.
— Vamos entrar no meu humilde barraco. Passei um café fresquinho.
Joana trocou um olhar silencioso com Kléber e, em seguida, acompanhou Epaminondas.
═══🎭✦✧ Casa da Diná✧✦🎭═══
Diná estava de costas, lavando as louças na pia, quando Charles entrou. Ele aproximou-se dela com naturalidade e lhe deu um beijo.
— Oi, querida! — disse ele.
— Já chegaram? — perguntou Diná. — Pensei que esse desfile fosse demorar mais um pouco.
— O desfile acabou faz tempo. Seu Meireles e dona Angelina é que ficaram enrolando por lá.
Diná enxugou as mãos no pano de prato e virou-se para o marido:
— A Soraia voltou. Tá lá no quarto dela. Some por dias e aparece como se nada tivesse acontecido.
Charles fechou o semblante.
— Voltou foi? Pois já vai arrumar as traias de novo.
— Charles, por favor — implorou Diná, tentando manter a calma. — Não vai se alterar, não vai colocar a menina pra fora de casa.
— Ela não falou que isso aqui era uma espelunca? Que ia morar com o Rodrigo? — rebateu ele. — E agora aparece aqui com a cara lavada? O que veio fazer?
— Ela fala essas coisas no calor da hora, da boca pra fora. Essa menina tá perdida, Charles... não sabe o que quer da vida.
— Vou apenas conversar com ela — disse ele, com firmeza.
Charles caminhou até o quarto da filha. Diná foi atrás, temendo o pior. Ao abrir a porta, encontrou Soraia deitada na cama, mexendo displicentemente no celular.
— A princesinha voltou? — disparou Charles. — O que foi? O Rodrigo já se cansou de você?
Soraia levantou os olhos, impassível.
— Eu não estava com o Rodrigo. Eu só fiz uma viagem pra espairecer, clarear as ideias. Vocês fazem tempestade em copo d'água.
— Espaireceu? — questionou ele. — E a que conclusão chegou?
— Qual é, hein, pai? Vocês me tratam como se eu fosse uma criança de cinco anos! Eu cresci, sabia? Já sou de maior, dona da minha vida.
Charles soltou um riso seco.
— Agora você falou uma verdade. Já é de maior, dona da sua vida. Pois levante dessa cama e vá arrumar suas coisas.
Soraia arregalou os olhos.
— Como assim? Vai me pôr pra fora de casa?
— Charles, por favor... — tentou intervir Diná, em pânico.
Charles respirou fundo, como quem calcula bem cada palavra antes de soltá-la.
— Eu pensei muito, Soraia — começou, com a voz firme. — Conversei com sua mãe. Chegamos a cogitar mandar você para o Maranhão...
Soraia nem esperou que ele concluísse.
— Ah, mas eu não vou mesmo! — esbravejou. — Vocês perderam completamente a noção, é isso?
Diná, que assistia à cena com o coração apertado, interveio de pronto:
— Olha o jeito que você fala com o seu pai, menina!
— Pode deixar Diná.— disse ele, firme, sem encarar a esposa. — Eu pensei em te mandar pro Maranhão. Mas não seria justo com seus tios, nem com sua avó, que já é idosa, doente... Ninguém lá tem obrigação de lidar com filha malcriada dos outros.
Ele então encarou Soraia, com os olhos endurecidos.
— Mas aí eu me dei conta que você tem razão: é de maior. Dona da própria vida. Assim sendo, pode muito bem se sustentar. Nessa casa, você só fica se arrumar um emprego e ajudar a pagar as contas. Caso contrário, arrume suas trouxas e suma.
Sem esperar resposta, Charles virou-se e saiu do quarto. Diná foi atrás dele, aflita.
— Charles, por favor, não faça isso, ela pode fazer uma besteira...
Soraia ficou pensativa, engoliu em seco.
═══🎭✦✧ Lar São Tarcísio ✧✦🎭═══
Gabriel e Daiana estavam escorados em uma mureta que separava o pátio do jardim. Algumas crianças estavam espalhadas pelo o pátio, outras brincavam pelo o jardim. Ana estava sentada na mureta, próxima aos dois.
— Então minha mãe está é aqui? — perguntou Gabriel.
— Está, sim. Tem é horas que ela tá lá no barraco do Epaminondas — respondeu Ana.
— Mas de onde sua mãe conhece o Epaminondas? — Perguntou Daiana, curiosa.
— Não sei — respondeu Gabriel, desconcertado. — Depois eu falo com ela. Agora, o mais urgente é a Maria. A gente precisa conversar com ela.
Ana soltou um suspiro carregado.
— Nem adianta, Gabriel. A gente já procurou a Maria pelo orfanato inteiro. Aqui ela não tá.
— Deve ter ido pra casa da prima dela. — sugeriu Gabriel.
— Se foi pra lá, foi de vez — retrucou Ana. — As coisas dela já não estão mais no meu quarto.
Daiana olhou para os dois, sentindo uma certeza se formar dentro de si.
— Se ainda existia alguma dúvida, agora não há mais. Foi ela. Foi a Maria quem pichou as roupas do desfile.
Gabriel negou com a cabeça, ainda resistindo à ideia.
— Mas por quê? Por que ela faria isso? Não faz sentido nenhum. Tem que haver alguma explicação.
Ana ergueu as sobrancelhas, como quem diz o óbvio.
— A explicação tá na cara, Gabriel. Ela ficou com ciúmes. Você não percebeu? Ciúmes de você com a Daiana.
— Que isso, Ana? — reagiu ele, incomodado. — Não fale bobagem.
— Eu sempre ficava observando. — disse Ana. — Todas as vezes que vocês ficavam sentados ali no jardim, ela ficava espionando.
Daiana lançou um olhar enviesado a Gabriel, visivelmente incomodada.
— Ah, é? Não meu amor, a gente precisa encontrar essa garota. Essa Maria não tem nenhum celular que a gente possa entrar em contato?
— Isso é coisa da cabeça da Ana. Não tem nada a ver.
— Se tem a ver ou não, vou saber quando eu estiver de cara a cara com ela. — disse Daiana, decidida. — Cadê, não tem como ligar pra ela?
Ana balançou a cabeça em negativa.
— Não adianta, Daiana. A irmã Rosália já tentou várias vezes. O telefone só dá desligado.
═══🎭✦✧ Casa dos Antunes ✧✦🎭═══
Rodrigo havia espalhado o conteúdo chamuscado da maleta sobre a mesa da cozinha, com cuidado. Alguns papéis estavam parcialmente queimados, mas ainda legíveis. Ele examinava tudo com atenção, separando o que podia ser salvo.
— Soraia ficou completamente louca — murmurou, irritado. — Ela não poderia ter tacado fogo nessas coisas. Agora ela passou dos limites...
Com cuidado, ele separava o que ainda podia ser salvo. Pegou uma carta intacta, olhou fixamente.
— Mas ainda conseguir recuperar muita coisa. A Daiana precisa ver essa maleta — disse, convicto. — Essa é a chance que tenho de afastar ela daquele cara.
═══🎭✦✧ Equando isso no barraco do Epaminondas... ✧✦🎭═══
Joana e Kléber estavam sentados lado a lado no sofá. Diante deles, Epaminondas ocupava uma poltrona. Sobre a mesa de centro, uma bandeja trazia uma garrafa de café e três xícaras já vazias.
— Foi isso que aconteceu, dona Joana — disse Epaminondas. — Eu vim pra cá pra ficar perto do meu sobrinho.
— Mas não havia nada que o senhor pudesse fazer pela Rita? — disse Kléber, pensativo. — Sei lá, tentar tirá-la da cadeia com seu testemunho? Procurar uma forma de provar que o verdadeiro culpado era o Antunes?
Epaminondas soltou um suspiro cansado e desviou o olhar.
— O seu Antunes já havia sujado as mãos da pobre Rita com o sangue do meu irmão. E não havia nada que eu pudesse fazer para mudar isso. Não tinha como eu encarar um déspota. Acho que, no fundo, a Rita nunca me perdoou por isso.
Joana apertou os lábios, com um nó na garganta.
— E aqui... aqui ninguém sabe quem você é, Epaminondas?
— Recentemente falei com a irmã Rosália. Ela é a única que sabe da verdade.
Kléber o observou por um momento, depois perguntou com cautela:
— O Gabriel ainda não sabe que o senhor é tio dele?
Epaminondas permaneceu em silêncio por alguns segundos. Em vez de responder, levantou-se lentamente e começou a recolher a bandeja da mesa. Ele caminhou até o balcão de tijolos sem reboco que separava a cozinha da sala e colocou a bandeja ali.
— Talvez ele até tenha desconfiado — disse, finalmente, de costas para os dois. — Mas nunca falei abertamente com ele.
Virou-se, o semblante agora mais fechado.
— Agora, se os senhores me dão licença, preciso voltar pro meu jardim.
Joana e Kléber se levantaram devagar.
— Obrigada, Epaminondas — disse Joana com suavidade. — Obrigada por abrir seu coração, obrigado por ter cuidado do meu filho todos esses anos.
Epaminondas deu um leve aceno com a cabeça. Seus olhos, no entanto, pareciam mais distantes do que nunca.
— Esse coração de mãe ainda vai chorar muito, quando a verdade finalmente vier à tona.
═══🎭✦✧ Ainda no Lar São Tarcísio... ✧✦🎭═══
Gabriel entrou em seu quarto, mas parou subitamente ao notar no chão, próxima à cômoda, uma pequena foto 3x4. Ele se abaixou e a pegou — era a imagem de seu pai. Franziu o cenho, desconfiado. Com passos rápidos foi até a última gaveta da cômoda e a abriu de uma vez só. Seus olhos se arregalaram. O espaço onde deveria estar a maleta estava vazio.
— Minha maleta... — murmurou, atônito. — Alguém pegou minha maleta!
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