MEMÓRIAS

1 PREFÁCIO - Antes de tudo se partir



Muito antes de a Cullen & Black se transformar em uma das maiores empresas automobilísticas do país, antes que seus sobrenomes estampassem edifícios, fábricas e carros vendidos em diferentes partes do mundo, existiam apenas duas famílias que haviam aprendido a dividir quase tudo.

Carlisle Cullen e Billy Black começaram como sócios.

Esme Cullen e Sarah Black fizeram com que se tornassem família.

As duas mulheres eram amigas desde meninas. Haviam dividido segredos de infância, primeiros namorados, sonhos que pareciam enormes demais para a pequena cidade onde cresceram e, anos mais tarde, acompanharam uma à outra até o altar. Quando Sarah se casou com Billy Black, Esme esteve ao seu lado. Quando Esme disse sim a Carlisle Cullen, Sarah chorou mais do que a própria noiva.

O tempo não diminuiu aquela amizade.

Apenas acrescentou pessoas a ela.

Primeiro veio Emmett Cullen.

Pouco depois, Jacob Black.

Os dois meninos nasceram no mesmo ano e cresceram praticamente como irmãos, correndo de uma casa para a outra, brigando pelos mesmos brinquedos e inventando problemas que normalmente terminavam com Billy e Carlisle tentando manter expressões sérias enquanto suas esposas riam.

Dois anos depois, Esme engravidou novamente.

Dessa vez, de gêmeos.

Um menino e uma menina.

Edward.

E Sarah.

A escolha do nome da menina não precisou de discussão.

Na primeira vez em que Sarah Black segurou a pequena nos braços, ainda no hospital, olhou emocionada para a amiga.

— Você realmente fez isso.

Esme, cansada e feliz, sorriu da cama.

— Fiz o quê?

— Colocou meu nome na sua filha.

— Não coloquei seu nome nela.

Sarah ergueu uma sobrancelha.

— Não?

— Dei a ela o nome da melhor pessoa que conheço. É diferente.

Sarah tentou rir, mas os olhos se encheram de lágrimas.

— Esme...

— Só espero que ela não herde seu temperamento.

Billy, parado perto da janela, soltou uma risada.

— Tarde demais. Olha a cara dela.

Sarah Black olhou para a recém-nascida em seus braços.

A menina dormia tranquilamente.

— Ela vai ser maravilhosa.

— Convencida — Carlisle comentou.

— Estou falando da sua filha, não de mim.

— Eu também.

Todos riram.

Sarah Black aproximou os lábios da testa da bebê.

— Então está bem, pequena Sarah. Já que vai carregar meu nome, vou ter que cuidar muito bem de você.

Esme sorriu.

— É exatamente por isso que escolhi.

Ninguém naquela sala poderia imaginar quanto significado aquela promessa adquiriria alguns anos depois.


A infância das quatro crianças foi construída entre duas casas e uma empresa que crescia quase tão rapidamente quanto elas.

Emmett e Jacob, os mais velhos, transformavam qualquer ambiente em território de guerra.

Aos seis anos, Jacob já possuía um sorriso capaz de convencer Sarah Black de que certamente não tinha sido ele quem quebrara uma janela cinco minutos antes.

Aos seis, Emmett já havia aprendido que, quando fosse impossível negar o crime, o melhor caminho era fazer os adultos rirem.

Edward, dois anos mais novo, observava os dois como se tivesse nascido cansado das ideias deles.

Sarah fazia exatamente o contrário.

Ela queria participar de todas.

— Você não vem — Jacob avisou certa manhã.

A pequena Sarah Cullen, com quatro anos, colocou as mãos na cintura.

— Vou.

— Não vai.

— Vou.

— É coisa de menino.

— Por quê?

Jacob abriu a boca.

Parou.

Olhou para Emmett.

— Por quê?

Emmett pensou.

— Não sei.

— Então eu vou — Sarah decidiu.

Edward continuou montando seu quebra-cabeça.

— Ela vai seguir vocês de qualquer jeito.

Jacob olhou para a menina.

Sarah sorriu.

— Viu?

— Você é muito pequena.

— Tenho quatro.

— Exatamente.

— Edward também.

Jacob olhou para Edward.

— Mas ele não quer ir.

Edward nem levantou a cabeça.

— Não quero mesmo.

Sarah aproximou-se de Jacob e segurou sua mão.

— Eu vou com você.

Jacob soltou um suspiro exagerado.

— Está bem.

Ela abriu um enorme sorriso.

— Mas fica perto de mim.

— Por quê?

— Porque você dá trabalho.

Sarah não entendeu muito bem a lógica.

Mesmo assim, concordou.

— Tá bom.

E foi assim que começou.

Sem que ninguém percebesse.

Jacob simplesmente passou a cuidar dela.

Se as quatro crianças brincavam no jardim, ele sabia onde Sarah estava.

Se ela caía, Jacob normalmente chegava antes de Esme.

Se Emmett a provocava demais, era Jacob quem mandava parar, embora frequentemente tivesse participado da provocação segundos antes.

Sarah, por sua vez, desenvolveu uma confiança absoluta nele.

Para ela, Jacob conseguia resolver tudo.

Esme e Sarah Black percebiam.

E achavam graça.

— Seu filho está novamente mandando na minha filha — Esme comentou certa tarde.

As duas estavam sentadas na varanda enquanto observavam as crianças.

Sarah Black tomou um gole de café.

— Não está mandando. Está protegendo.

— Ele tem seis anos.

— E já acha que é responsável por ela.

No jardim, Sarah tentou subir em uma árvore.

Jacob correu imediatamente.

— Sarah, desce daí!

— Eu consigo!

— Você vai cair!

— Não vou!

Esme olhou para a amiga.

— Está vendo?

Sarah Black riu.

— Estou.

— Sua culpa.

— Minha?

— Com certeza.

— Então agradeça. Pelo menos alguém vai impedir essa menina de se matar antes dos dez anos.

Esme riu.

Foi uma tarde absolutamente comum.

Talvez por isso, muitos anos depois, Billy se lembrasse dela com tanta clareza.

Porque ninguém sabe qual será o último dia comum de sua vida.


Na manhã do acidente, Sarah Black entrou na casa dos Cullen sem bater.

Como sempre.

— Esme!

— Cozinha!

Ela encontrou a amiga terminando o café enquanto organizava algumas pastas.

— Você ainda não está pronta?

— Estou.

Sarah olhou para ela.

— Você está de pantufas.

Esme olhou para os próprios pés.

— Tecnicamente, estou quase pronta.

— Temos uma reunião em quarenta minutos.

— Carlisle diz que eu fico linda atrasada.

— Carlisle está apaixonado. A opinião dele não conta.

Esme riu.

Na sala, as crianças faziam barulho.

Emmett e Jacob discutiam sobre alguma coisa que provavelmente não importava.

Edward estava sentado no chão com um livro.

Sarah Cullen corria atrás deles.

— Jacob!

— Para de me seguir!

— Não!

— Mãe! — Jacob gritou. — A Sarah não para de me seguir!

Sarah Black respondeu da cozinha:

— Resolva!

— Como?

— Você é muito inteligente!

— Isso não ajuda!

Esme e Sarah riram.

Pouco depois, Esme apareceu pronta.

Beijou Emmett.

Depois Edward.

Quando se abaixou diante de Sarah, ajeitou os cabelos da filha.

— Comporte-se.

— Eu sempre me comporto.

Emmett começou a rir.

Esme olhou para ele.

— Algum comentário?

— Nenhum.

Sarah Cullen abraçou a mãe.

— Você volta cedo?

— Antes do jantar.

— Promete?

Esme beijou sua testa.

— Prometo.

Sarah Black se aproximou de Jacob.

— E você...

— Eu sei.

— O quê?

— Não subir em árvore, não correr perto da piscina, não mexer nas ferramentas do papai...

— E?

Jacob pensou.

Sarah Cullen apareceu ao lado dele.

Sarah Black apontou para a menina.

— Cuide dela.

Jacob revirou os olhos como se tivesse recebido a tarefa mais cansativa do mundo.

— Eu sempre cuido.

Sarah Cullen sorriu.

Sarah Black bagunçou os cabelos do filho.

— Eu sei.

Foram as últimas palavras que Jacob ouviu de sua mãe.


Chovia quando o carro deixou a estrada.

O relatório posterior diria que o veículo perdeu estabilidade em uma curva.

As condições meteorológicas estavam ruins.

A pista estava molhada.

O carro atravessou a proteção lateral e despencou por uma ribanceira.

Não houve outro veículo envolvido.

Não houve testemunhas.

Não houve tempo para socorro.

Esme Cullen e Sarah Black morreram antes da chegada dos paramédicos.

Acidente.

Essa foi a palavra usada.

Acidente.

Carlisle recebeu a notícia no escritório.

Billy recebeu a mesma notícia poucos minutos depois.

E, naquele dia, duas famílias aprenderam que uma única palavra podia dividir uma vida inteira entre antes e depois.


Jacob não chorou imediatamente.

Ficou sentado no sofá, olhando para Billy.

Seu pai estava diante dele, mas parecia diferente.

Menor.

Quebrado.

— Minha mãe vai voltar amanhã?

Billy fechou os olhos.

Carlisle estava sentado próximo aos filhos. Edward chorava silenciosamente contra seu peito.

Emmett tinha o rosto escondido.

Sarah Cullen não entendia.

Era pequena demais para compreender completamente a morte, mas grande o suficiente para perceber que alguma coisa terrível havia acontecido.

— Tio Billy?

Billy abriu os olhos.

A menina aproximou-se.

— Cadê a mamãe?

Carlisle virou o rosto.

Billy tentou responder.

Não conseguiu.

Sarah olhou para Jacob.

Como sempre fazia quando não entendia alguma coisa.

— Jacob?

Ele também não sabia.

Mas viu o medo no rosto dela.

Então estendeu a mão.

Sarah caminhou até ele.

Jacob segurou sua mão pequena.

— Vem cá.

Ela sentou ao lado dele.

— Elas vão voltar?

Jacob olhou para o pai.

Depois para Carlisle.

Nenhum dos dois respondeu.

Sarah começou a chorar.

Jacob apertou a mão dela.

Ele também queria chorar.

Queria a mãe.

Queria que alguém dissesse que tudo aquilo estava errado.

Mas Sarah estava com medo.

Então o menino de seis anos fez aquilo que faria muitas outras vezes.

Abraçou-a.

— Eu estou aqui.

Sarah escondeu o rosto em seu peito.

E Jacob permaneceu segurando-a.


A morte de Esme Cullen e Sarah Black aproximou ainda mais Carlisle e Billy.

Os dois homens, agora viúvos, criaram os filhos praticamente juntos.

A Cullen & Black continuou crescendo.

As crianças cresceram.

A vida, de alguma maneira, continuou.

O acidente foi investigado.

O carro foi examinado.

O caso foi encerrado.

Uma tragédia.

Uma fatalidade.

Durante anos, ninguém teve motivos para acreditar em outra coisa.

Ninguém imaginou que algumas tragédias não acontecem por acaso.

E ninguém percebeu que aquele acidente não seria o último a atingir as famílias Cullen e Black.

Anos mais tarde, outra estrada.

Outra emboscada.

Outro Cullen morto.

Quatro crianças correndo por uma floresta.

E uma menina chamada Sarah desapareceria pela segunda vez da vida de Billy Black.

Mas, naquela primeira noite, enquanto Jacob dormia abraçado a um travesseiro que ainda tinha o perfume de sua mãe, ele não sabia nada disso.

Não sabia que perderia Carlisle.

Não sabia que perderia Sarah.

Não sabia que passaria quinze anos pedindo perdão a uma menina que acreditava estar morta.

Naquela noite, Jacob Black era apenas uma criança que havia perdido a mãe.

E, no quarto ao lado, Sarah Cullen dormia usando uma pequena corrente que Sarah Black lhe dera no último aniversário.

Uma lua.

Uma marca que, muitos anos depois, ajudaria a devolver a uma família aquilo que todos acreditavam ter perdido para sempre.