MEMÓRIAS

2 CAPÍTULO 1- Quatro crianças e uma promessa



Quatro anos depois

— CORRE, SARAH!

A gargalhada de Jacob Black atravessou o jardim segundos antes de um jato de água passar exatamente onde Sarah Cullen estivera.

— EMMETT!

— Eu não fiz nada!

— Você está segurando a mangueira!

— Isso não prova nada!

Sarah correu em direção à varanda, os cabelos escuros grudados no rosto, o vestido completamente molhado e os pés descalços escorregando sobre a grama.

Atrás dela, Emmett Cullen ria tanto que mal conseguia controlar a mangueira.

Aos dez anos, Emmett já havia desenvolvido uma extraordinária capacidade de negar crimes enquanto ainda os cometia.

— Jacob! Faz alguma coisa!

Jacob estava encostado em uma árvore, segurando a barriga de tanto rir.

— Você queria brincar!

— Não disso!

— Você disse que queria!

— Eu queria jogar bola!

— Você perdeu.

— Porque vocês roubaram!

— Estratégia — Emmett corrigiu.

— Trapaça!

— Estratégia avançada.

Sarah apontou para o irmão.

— Eu vou contar para o papai.

Emmett fechou a torneira.

— Isso é golpe baixo.

— Você molhou meu vestido!

— O vestido seca.

— Meu cabelo!

— Também seca.

Sarah estreitou os olhos.

Jacob conhecia aquela expressão.

— Emmett...

— O quê?

— Corre.

Emmett olhou para a irmã.

Sarah sorriu.

— Por quê?

Ela pegou um balde cheio de água que estava próximo à varanda.

Os olhos de Emmett se arregalaram.

— Sarah, vamos conversar.

— Agora quer conversar?

— Somos irmãos. Pessoas civilizadas resolvem seus problemas através do diálogo.

Sarah avançou.

Emmett correu.

— JACOB, SEGURA ELA!

Jacob imediatamente saiu da frente.

— Problema seu.

— TRAIDOR!

Sarah correu atrás do irmão.

Edward Cullen estava sentado sob uma árvore, lendo.

Aos oito anos, possuía uma tolerância limitada para as atividades dos outros três.

Principalmente quando envolviam água.

Emmett passou por ele.

Sarah veio logo atrás.

— Edward, ajuda!

Edward virou uma página.

— Não.

— Eu sou seu irmão!

— Ela também.

— Mas eu sou o seu irmão preferido!

Edward finalmente levantou os olhos.

— Quem disse?

Sarah começou a rir.

Foi o suficiente para Emmett conseguir escapar.

— Ah!

Ela tentou mudar de direção rapidamente.

O pé escorregou na grama molhada.

Jacob parou de rir.

— Sarah!

Ele correu.

Conseguiu segurá-la pelo braço antes que caísse.

Por um segundo, Sarah ficou inclinada para trás, presa pela mão dele.

Jacob a puxou.

— Eu falei para você não correr aqui!

Sarah recuperou o equilíbrio.

— Você estava correndo também.

— Eu sei correr.

— Eu também sei.

— Acabou de provar que não.

— Foi culpa do Emmett.

— Tudo é culpa do Emmett — Edward comentou sem tirar os olhos do livro.

— Ei!

Jacob segurou Sarah pelos ombros.

— Machucou?

— Não.

— Tem certeza?

— Tenho.

Ele olhou para os joelhos dela.

Depois para os braços.

— Jacob.

— O quê?

— Eu estou bem.

— Você quase caiu.

— Mas não caí.

Ela abriu um sorriso.

— Você me segurou.

Jacob soltou um suspiro.

— Alguém precisa.

Sarah sorriu ainda mais.

— Você sempre me segura.

Ele bagunçou os cabelos molhados dela.

— Porque você vive caindo.

— Não vivo.

— Semana passada caiu da bicicleta.

— Tinha uma pedra.

— Antes disso caiu da árvore.

— O galho quebrou.

— E caiu da escada.

Sarah pensou.

— Aquilo foi culpa do Edward.

Edward levantou os olhos.

— Como exatamente você cair porque tentou descer três degraus de uma vez foi culpa minha?

— Você estava olhando.

— Isso não faz nenhum sentido.

— Para ela faz — Emmett disse.

Jacob olhou para Sarah.

— Promete que vai tomar cuidado?

Ela fez uma careta.

— Prometo.

— Você está mentindo.

— Um pouquinho.

Jacob riu.

Aos dez anos, Jacob Black ria com facilidade.

Tinha um sorriso enorme, olhos vivos e uma energia que parecia não acabar nunca. Corria, provocava, inventava competições absurdas com Emmett e conseguia transformar praticamente qualquer tarde em alguma aventura que normalmente terminava com Billy ou Carlisle perguntando qual dos dois havia tido a ideia.

Na maioria das vezes, tinha sido Emmett.

Nas outras, Jacob.

Sarah apenas os seguia.

Sempre.


— Eu quero entender uma coisa.

Billy Black estava parado na porta da varanda.

As quatro crianças congelaram.

Carlisle apareceu atrás dele.

— Eu também.

Emmett discretamente colocou a mangueira no chão.

Billy apontou para o jardim.

— Por que existe água até na janela do segundo andar?

Silêncio.

Carlisle cruzou os braços.

— Estou particularmente interessado nessa resposta.

Emmett olhou para Jacob.

Jacob olhou para Emmett.

Sarah olhou para os dois.

Edward continuou lendo.

— Edward — Carlisle chamou.

— Eu não participei.

— Eu sei. Por isso estou perguntando a você.

Emmett arregalou os olhos.

— Isso é interrogatório!

— Edward? — Carlisle insistiu.

O menino fechou o livro.

— Emmett queria descobrir se a pressão da mangueira alcançava o segundo andar.

Billy apertou os lábios.

Jacob começou a rir.

Emmett ficou indignado.

— Dedo-duro.

— Você molhou meu livro.

— Foi sem querer.

Edward mostrou uma página encharcada.

— Você apontou a mangueira diretamente para mim.

— Erro de cálculo.

Carlisle virou o rosto para esconder um sorriso.

Billy não teve a mesma preocupação.

Começou a rir.

— Pai! — Jacob reclamou. — Você deveria estar bravo.

— Estou tentando.

Carlisle balançou a cabeça.

— Vocês quatro vão limpar isso.

Edward abriu a boca.

— Eu não...

— Os quatro.

— Isso é injusto.

Emmett colocou o braço sobre os ombros do irmão.

— Bem-vindo à família.

Edward afastou o braço.

Sarah riu.

Carlisle ficou observando os filhos por alguns segundos.

Emmett, enorme para os dez anos e incapaz de ficar sério por mais de alguns minutos.

Edward, reservado, inteligente e provavelmente o único naquela casa que preferiria passar a tarde lendo.

E Sarah.

Sua menina.

A única filha.

Por alguns segundos, o sorriso de Carlisle diminuiu.

Havia momentos em que ela se parecia tanto com Esme que doía.

Não necessariamente fisicamente.

Era alguma expressão.

Algum movimento.

O jeito de franzir o nariz quando estava contrariada.

Quatro anos não haviam apagado a ausência.

Provavelmente nunca apagariam.

Billy percebeu.

Não disse nada.

Também havia aprendido a conviver com fantasmas.


Naquela noite, as duas famílias jantaram juntas.

Aquilo acontecia com tanta frequência que ninguém mais sabia exatamente onde terminava a família Cullen e começava a Black.

Billy ocupava uma das pontas da mesa.

Carlisle, a outra.

Entre eles, quatro crianças falavam ao mesmo tempo.

— Eu quero ir com vocês amanhã — Emmett anunciou.

— Não — Carlisle respondeu.

— Por quê?

— Porque tenho reuniões.

— Eu posso ficar quieto.

Edward soltou uma pequena risada.

Todos olharam para ele.

— O quê? — perguntou.

Jacob apontou.

— Edward fez uma piada.

— Não fiz.

— Fez sim!

— Eu apenas achei improvável.

Emmett colocou a mão sobre o coração.

— Meu próprio irmão não acredita em mim.

— Ninguém acredita — Sarah respondeu.

— Você deveria me defender.

— Por quê?

— Porque sou seu irmão preferido.

Sarah olhou para Edward.

Depois para Emmett.

— Posso não ter preferido?

Jacob quase engasgou com o suco.

Emmett ficou ofendido.

— Eu moro com você!

— Exatamente.

A mesa explodiu em risadas.

Carlisle olhou para Billy.

— Culpa sua.

— Meus genes só estão em um deles.

Sarah se virou para Jacob.

— Posso dormir aqui hoje?

— Por que está perguntando para mim?

— Porque o quarto é seu.

— Você tem um quarto na sua casa.

— Mas quero dormir aqui.

Jacob apontou para Emmett.

— Dorme no quarto dele.

— Não.

— Por quê?

Sarah respondeu como se fosse evidente:

— Porque quero ficar com você.

Emmett fez um som exageradamente romântico.

— Ahhhhh.

Jacob ficou vermelho.

— Cala a boca!

— Sarah e Jacob sentados numa árvore...

— EMMETT!

Sarah começou a rir.

— O que tem?

Jacob chutou Emmett por baixo da mesa.

— Ai!

— Crianças — Billy advertiu.

Carlisle tentava não rir.

Edward simplesmente continuou comendo.

Emmett aproximou-se de Sarah.

— Você sabia que o Jacob vai casar com você?

Jacob quase derrubou o copo.

— EU NÃO VOU!

Sarah olhou para ele.

— Por que não?

A pergunta foi tão séria que todos ficaram em silêncio por um segundo.

Jacob piscou.

— Porque...

Ele não tinha pensado nisso.

— Porque não.

Sarah franziu a testa.

— Essa não é uma resposta.

Billy começou a rir.

Carlisle cobriu a boca.

Emmett parecia prestes a cair da cadeira.

— Então você vai — Sarah concluiu.

— Não vou!

— Vai.

— Sarah!

— Você sempre faz tudo que eu quero.

— Não faço!

Ela apontou para o prato dele.

— Me dá sua batata.

Jacob olhou para a própria batata.

Depois para Sarah.

Pegou-a com o garfo e colocou no prato dela.

Emmett bateu as duas mãos na mesa.

— CASAMENTO MARCADO!

— Cala a boca!

Sarah comia a batata satisfeita.

Edward observou tudo.

— Ela ganhou.

— Ninguém perguntou sua opinião — Jacob resmungou.

Sarah encostou a cabeça no ombro dele.

— Eu gosto de você.

Jacob tentou permanecer irritado.

Não conseguiu.

— Eu também gosto de você, pirralha.

— Não sou pirralha.

— É sim.

Ela levantou a cabeça.

— Então não vou casar com você.

— Ótimo.

— Vou casar com o Edward.

Edward parou de comer.

— Não me coloca nisso.

Todos começaram a rir outra vez.


Mais tarde, Sarah conseguiu o que queria.

Carlisle e Emmett voltaram para casa.

Edward preferiu ir com eles.

Sarah ficou.

Billy já nem discutia mais.

Havia roupas dela naquela casa.

Escova de dentes.

Livros.

Brinquedos.

Assim como existiam coisas de Jacob na casa dos Cullen.

Para aquelas crianças, havia simplesmente duas casas.

Sarah apareceu no quarto de Jacob usando um pijama grande demais que provavelmente pertencera a ele.

— Sai.

— Por quê?

— Vou dormir.

— Eu também.

— No quarto de hóspedes.

— Não quero.

Jacob apontou para a cama.

— Você chuta.

— Não chuto.

— Chuta sim.

— Você ronca.

— Eu não ronco.

— Ronca.

— Mentira.

Sarah subiu na cama.

— Então pronto.

— Pronto o quê?

— Eu chuto e você ronca.

Jacob ficou olhando para ela.

— Isso não resolve nada.

Sarah puxou o cobertor.

— Boa noite.

— Sarah!

Ela fechou os olhos.

Jacob pegou um travesseiro e jogou nela.

Sarah abriu os olhos.

— Você jogou um travesseiro em mim?

— Joguei.

— Vai se arrepender.

Cinco minutos depois, Billy abriu a porta.

Encontrou os dois no chão, cercados por travesseiros.

— Eu nem vou perguntar.

Jacob apontou para Sarah.

— Ela começou.

— Mentiroso!

— Boa noite — Billy disse, fechando a porta.

— Pai!

— Resolva!

Jacob ouviu Billy rir no corredor.

Sarah também.

Os dois se olharam.

Começaram a rir.


Algum tempo depois, o quarto ficou silencioso.

Sarah dormia.

Jacob ainda estava acordado.

Virou-se para ela.

O pijama havia escorregado um pouco no pescoço e Sarah tinha uma das mãos fechada contra o peito, por baixo do tecido.

Ela fazia aquilo às vezes.

Principalmente quando estava triste.

Jacob nunca soubera por quê.

— Sarah.

Ela não respondeu.

— Sarah.

— Hum...

— Você está com a mão aí de novo.

Ela abriu os olhos sonolentos.

— Onde?

— No peito.

Sarah percebeu.

Soltou alguma coisa por baixo do pijama.

— Ah.

— O que é?

— Nada.

Jacob tentou puxar o tecido.

— Deixa eu ver.

Sarah imediatamente segurou a gola.

— Não!

— Por quê?

— Porque é meu.

— Eu sei que é seu.

— Então pronto.

Jacob estreitou os olhos.

— É segredo?

Sarah pensou.

— É.

— Você tem segredo comigo?

— Tenho.

— Isso é injusto.

— Você também tem.

— Qual?

— Você escondeu meu chocolate semana passada.

Jacob ficou em silêncio.

Sarah abriu um sorriso.

— Sabia.

— Vai dormir.

Ela riu baixinho.

Por baixo do pijama, seus dedos encontraram novamente o pequeno pingente.

Uma lua.

Sarah sabia apenas que pertencera a alguém importante.

Carlisle lhe contara que tia Sarah havia lhe dado aquela corrente antes de morrer.

Por isso nunca a tirava.

Era pequena demais quando recebera para guardar lembranças claras daquele momento, mas sabia que havia sido amada pela mulher cujo nome carregava.

Jacob não viu o pingente.

Não naquela noite.

E, muitos anos depois, não se lembraria daquela conversa.

Apenas se lembraria de que Sarah tinha o estranho hábito de tocar o peito quando estava nervosa ou triste.


Na manhã seguinte, Carlisle chegou cedo.

As crianças tomavam café quando ele entrou.

— Bom dia.

Sarah correu para abraçá-lo.

— Pai!

Carlisle a pegou no colo.

— Dormiu aqui outra vez?

— O Jacob deixou.

— Eu não deixei — Jacob respondeu.

— Deixou sim.

— Você simplesmente ficou.

— Mesma coisa.

Carlisle beijou a filha.

— Tenho uma surpresa.

Emmett, que havia chegado com Edward, apareceu imediatamente.

— Para mim?

— Para todos.

— Dinheiro?

— Emmett.

— Estou perguntando.

Carlisle sorriu.

— Preciso visitar uma propriedade da empresa amanhã.

Jacob olhou para Billy.

— E?

Carlisle continuou:

— Pensei em levar vocês.

Quatro rostos se iluminaram.

— Todos? — Sarah perguntou.

— Todos.

Emmett levantou os braços.

— Finalmente uma decisão sensata nessa família!

Edward fechou o livro.

— Onde?

Carlisle explicou a região.

Billy apoiou a xícara sobre a mesa.

— Eu deveria ir também.

— Deveria — Carlisle respondeu. — Mas você tem a reunião com os japoneses.

Billy fez uma careta.

— Posso remarcar.

— Não precisa. É uma visita rápida. Vamos de manhã e voltamos no dia seguinte.

Jacob olhou para o pai.

— Posso ir?

Billy hesitou.

— Se Carlisle concordar.

— Já concordei.

Sarah agarrou o braço de Jacob.

— Você vai!

— Pelo jeito.

— Vamos ficar no mesmo quarto?

Jacob olhou para ela.

— Não.

— Por quê?

— Porque você chuta.

— Você ronca.

Emmett começou a rir.

Carlisle olhou para Billy.

— Quero saber?

— Provavelmente não.

Sarah continuou segurando o braço de Jacob.

— Você vai sentar comigo no carro.

— Vou sentar com Emmett.

— Não.

— Sarah...

— Você vai sentar comigo.

Jacob soltou um suspiro.

— Está bem.

Ela sorriu imediatamente.

Emmett apontou para ele.

— Você é muito fácil.

— Cala a boca.

Billy observou o filho.

Sorridente.

Barulhento.

Feliz.

Depois olhou para Emmett, que já planejava alguma travessura para a viagem.

Para Edward, fazendo perguntas sobre a propriedade.

E para Sarah, agarrada ao braço de Jacob.

Billy sorriu.

Naquele momento, seus maiores problemas pareciam ser impedir Emmett e Jacob de destruírem alguma coisa e convencer Sarah de que não podia acompanhar os meninos em absolutamente todos os lugares.

Ele não sabia que estava olhando para o último dia daquela infância.

Não sabia que, poucas horas depois, Carlisle Cullen estaria morto.

Que Emmett e Edward correriam pela floresta fugindo pela própria vida.

Que seu filho chegaria à beira de um precipício segurando a mão da menina que prometera proteger.

E que Jacob Black voltaria daquela viagem.

Mas o menino sorridente que estava sentado naquela mesa, não.