MEMÓRIAS
3 CAPÍTULO 2 - Não solte minha mão
Sarah Cullen descobriu, aproximadamente vinte minutos depois de entrarem no carro, que viajar ao lado de Jacob Black não significava necessariamente receber a atenção dele.
E considerou aquilo uma grave injustiça.
— Jacob.
— Hum?
— Jacob.
— O quê?
— Jacob.
Ele finalmente desviou os olhos do videogame portátil que dividia com Emmett.
— O que foi, Sarah?
— Nada.
Jacob ficou olhando para ela.
— Você me chamou três vezes.
— Quatro.
— Então o que você quer?
Sarah deu de ombros.
— Nada.
Emmett começou a rir.
— Ela só quer que você pare de jogar comigo.
— Não quero.
— Quer sim.
— Não quero.
— Sarah — Jacob avisou.
Ela cruzou os braços.
— Você disse que ia sentar comigo.
— Eu estou sentado com você.
— Mas está jogando com ele.
Emmett se inclinou para enxergá-la.
— Está com ciúmes de mim?
— Não.
— Está.
— Não estou.
— Sarah está com ciúmes, Sarah está com ciúmes...
— Emmett! — Carlisle advertiu do banco da frente.
Edward, sentado do outro lado, levantou os olhos do livro.
— Tecnicamente, ela está.
Sarah virou-se para o irmão.
— Você não deveria estar lendo?
— Estou.
— Então continue.
Edward voltou tranquilamente ao livro.
Jacob tentou esconder o sorriso.
Sarah percebeu.
— Você está rindo de mim.
— Não estou.
— Está.
— Um pouquinho.
Ela lhe deu um tapa no braço.
— Ei!
— Bem feito.
Jacob desligou o videogame.
Emmett ficou horrorizado.
— O que você está fazendo?
Jacob entregou o aparelho a ele.
— Toma.
— Estávamos quase ganhando!
— Você continua sozinho.
— Traidor.
Jacob virou-se para Sarah.
— Pronto. Feliz?
Ela tentou esconder o sorriso.
— Talvez.
— Você é muito mimada.
— Não sou.
— É sim.
— Não sou.
— Quer apostar?
Sarah aproximou o rosto.
— Quero.
— Se eu provar que você é mimada, você fica uma hora sem falar.
Ela arregalou os olhos.
— Uma hora?!
— Está com medo?
— Não.
— Então aceita.
Sarah pensou seriamente.
— E se você não provar?
— Eu faço o que você quiser.
O sorriso que surgiu no rosto dela fez Jacob imediatamente desconfiar daquela negociação.
— Qualquer coisa?
— Calma. Qualquer coisa razoável.
— Você não falou razoável antes.
— Estou falando agora.
— Tarde demais.
Emmett se inclinou entre os bancos.
— Eu gostaria de registrar que testemunhei o acordo.
Carlisle olhou pelo retrovisor.
— Eu gostaria de registrar que ainda faltam duas horas de viagem e estou considerando deixar todos vocês no próximo posto.
Edward levantou os olhos.
— Posso ficar no carro?
Carlisle riu.
— Talvez você.
Sarah encostou a cabeça no ombro de Jacob.
Ele olhou para ela.
— O que está fazendo?
— Dormindo.
— Você acabou de acordar.
— Estou cansada.
— De quê?
— De você.
Emmett soltou uma gargalhada.
Jacob balançou a cabeça.
— Insuportável.
Sarah fechou os olhos.
Poucos minutos depois, estava realmente dormindo.
Jacob percebeu quando o peso da cabeça dela aumentou sobre seu ombro.
Olhou para baixo.
Uma mecha de cabelo cobria parte do rosto dela.
Ele a afastou.
Emmett viu.
Não perdeu a oportunidade.
— Que fofo.
Jacob imediatamente tirou a mão.
— Cala a boca.
— Está ajeitando o cabelinho dela.
— Estava no rosto.
— Sei.
— Emmett...
— Já estou quieto.
Não estava.
Ficou sorrindo.
Jacob mostrou o dedo do meio discretamente.
— Jacob Black — Carlisle disse sem sequer olhar para trás.
Jacob congelou.
Emmett começou a rir.
— Como ele viu?
— Pais veem tudo — Carlisle respondeu.
Sarah continuou dormindo.
Com uma das mãos fechada sobre o peito.
Por baixo da blusa, escondido de todos, o pequeno pingente em forma de lua acompanhava o movimento tranquilo de sua respiração.
A propriedade ficava afastada da cidade.
A Cullen & Black pretendia adquirir uma extensa área para a construção de uma nova unidade de testes e desenvolvimento, e Carlisle queria conhecê-la pessoalmente antes de aprovar a negociação.
A estrada principal logo deu lugar a uma via estreita cercada por árvores.
Sarah acordou quando o carro passou por um buraco.
— Chegamos?
— Não — Jacob respondeu.
— Quanto falta?
— Você perguntou isso há cinco minutos — Edward comentou.
— Eu estava dormindo há cinco minutos.
— Exatamente.
Sarah olhou pela janela.
— Tem muita árvore.
Emmett também observou.
— Excelente análise.
— Cala a boca.
Carlisle sorriu.
— Estamos perto.
Jacob encostou-se no banco.
— Tem sinal aqui?
Emmett olhou o celular.
— Não.
— Ótimo.
— Vai sobreviver.
— Você também está sem sinal.
— Eu sou emocionalmente mais forte.
Jacob riu.
Então Carlisle diminuiu a velocidade.
O sorriso desapareceu de seu rosto.
Havia um veículo parado atravessado na estrada.
— O que aconteceu? — Emmett perguntou.
Carlisle não respondeu.
Olhou pelo retrovisor.
Outro carro havia surgido atrás deles.
Lentamente.
Bloqueando a estrada por onde haviam vindo.
Jacob percebeu a mudança no rosto do adulto.
— Tio Carlisle?
Carlisle colocou a mão sobre o câmbio.
— Crianças, coloquem os cintos direito.
Edward fechou o livro.
— Pai?
— Agora.
Alguma coisa na voz dele fez todos obedecerem.
Sarah sentou-se.
— O que foi?
Carlisle tentou dar ré.
O carro atrás avançou.
O veículo da frente abriu as portas.
Dois homens desceram.
Carlisle empalideceu.
— Droga.
— Pai? — Emmett chamou.
Carlisle travou as portas.
Pegou o telefone.
Sem sinal.
Um dos homens caminhava na direção deles.
Carlisle tomou uma decisão.
Jogou o carro para a lateral.
O veículo subiu parcialmente no acostamento.
Sarah gritou.
— PAI!
Carlisle acelerou.
Tentou passar entre as árvores e o carro que bloqueava a estrada.
Uma batida violenta atingiu a lateral.
As crianças foram jogadas contra os cintos.
O vidro traseiro estilhaçou.
Sarah gritou novamente.
Jacob imediatamente se inclinou sobre ela.
— Abaixa!
Outro impacto.
Carlisle perdeu o controle.
O carro saiu da pista e parou violentamente contra um barranco.
Por alguns segundos, ninguém se moveu.
— Todo mundo bem? — Carlisle perguntou.
— Pai...
— EMMETT!
— Estou bem.
— Edward?
— Sim.
— Sarah?
Ela chorava.
— Estou...
Carlisle olhou para Jacob.
— Jacob?
— Estou bem.
Então ouviu portas batendo na estrada.
Vozes.
Passos.
Carlisle virou-se.
Seu rosto havia mudado completamente.
— Escutem o que eu vou dizer.
Emmett encarou o pai.
— O que está acontecendo?
— Vocês vão sair do carro.
— Pai...
— E vão correr para a floresta.
Sarah começou a chorar.
— Não.
Carlisle soltou o cinto.
— Sarah, olhe para mim.
Ela olhou.
— Vocês quatro vão ficar juntos.
— E você?
— Eu vou logo atrás.
Jacob percebeu.
Carlisle estava mentindo.
— Tio Carlisle...
Os olhos do homem encontraram os dele.
E alguma coisa silenciosa passou entre os dois.
Carlisle sabia exatamente o que estava pedindo a uma criança de dez anos.
— Jacob.
Ele segurou o ombro do menino.
— Cuida deles.
Jacob olhou para Emmett.
Depois Edward.
Por último, Sarah.
— Eu cuido.
Carlisle assentiu.
— Quando eu mandar, vocês correm.
Um homem apareceu próximo ao carro.
Carlisle abriu a porta de repente e o atingiu.
— AGORA!
Emmett saiu primeiro.
Edward logo atrás.
Jacob puxou Sarah.
— Corre!
— Meu pai!
— SARAH, CORRE!
Os quatro entraram na mata.
Atrás deles, Carlisle gritou alguma coisa.
Depois veio um som que nenhum deles esqueceria.
Um disparo.
Sarah tentou parar.
— PAI!
Jacob segurou sua mão.
— Não!
— Meu pai!
— Vem!
Outro disparo.
Emmett virou o rosto.
— Pai!
— NÃO VOLTA! — Jacob gritou.
As últimas palavras de Carlisle ainda estavam dentro de sua cabeça.
Cuida deles.
E Jacob correu.
As árvores pareciam não terminar.
Galhos atingiam seus rostos.
Raízes surgiam no caminho.
Sarah mal conseguia acompanhar.
— Jacob!
— Estou aqui!
— Minha perna!
Ele diminuiu.
— Consegue correr?
— Consigo.
Emmett estava alguns metros à frente.
Edward corria ao lado dele.
Atrás, vozes.
— Eles foram por aqui!
Jacob sentiu o coração disparar.
— Mais rápido!
Emmett olhou para trás.
— Para onde?
— Não sei!
Chegaram a uma bifurcação natural entre as árvores.
— Esquerda! — Emmett gritou.
Jacob puxou Sarah.
Nesse instante, outro grito veio de trás.
Sarah se assustou.
Tropeçou.
Jacob segurou-a.
Foram apenas segundos.
Mas quando voltaram a correr, Emmett e Edward já haviam desaparecido entre as árvores.
— EMMETT! — Jacob gritou.
Nenhuma resposta.
— EDWARD!
Sarah começou a entrar em pânico.
— Cadê eles?
— Emmett!
Silêncio.
Então ouviram as vozes dos homens novamente.
Mais próximas.
Jacob tomou uma decisão.
— Vem.
— Mas meus irmãos!
— Eles estão juntos.
— Jacob...
— Emmett está com Edward. Eu estou com você.
— Precisamos achar eles!
— Depois.
— Mas...
Jacob segurou o rosto dela.
— Sarah, olha para mim.
Ela chorava.
— Eu vou tirar você daqui.
— E eles?
— Também vão sair.
— Como você sabe?
Jacob engoliu o medo.
— Porque Emmett é impossível de matar.
Sarah soltou uma pequena risada entre as lágrimas.
— E Edward?
— Chato demais.
Ela riu outra vez.
Era o que ele queria.
Jacob segurou sua mão.
— Agora vem.
Emmett percebeu que Jacob e Sarah não estavam atrás deles tarde demais.
— Jacob?
Parou.
Edward também.
— Cadê eles?
— JACOB!
Edward tentou voltar.
Emmett segurou o irmão.
— Espera.
— Sarah está lá!
— Eu sei.
— Temos que voltar!
Vozes surgiram atrás deles.
Emmett puxou Edward.
— Corre!
— Emmett!
— CORRE!
Edward chorava enquanto corria.
— Não podemos deixar ela!
— Jacob está com ela!
— E daí?!
Emmett não tinha resposta.
Ele tinha dez anos.
Estava apavorado.
Seu pai estava para trás.
Sua irmã estava desaparecida na floresta.
E, pela primeira vez na vida, Emmett Cullen não conseguia pensar em nenhuma piada.
Eles atravessaram uma área de vegetação mais baixa.
Então ouviram um motor.
Emmett parou.
Uma estrada secundária aparecia adiante.
Um veículo se aproximava.
— Socorro! — Edward gritou.
Emmett correu para a estrada.
— SOCORRO!
O carro freou bruscamente.
Um homem desceu.
— Meu Deus! Crianças?
Emmett reconheceu-o.
— Charlie!
Charlie Swan arregalou os olhos.
Conhecia Billy.
Conhecia Carlisle.
— Emmett?
O menino praticamente caiu contra ele.
— Tem homens atrás da gente!
Charlie olhou para a floresta.
— O quê?
— Eles atacaram meu pai!
Edward agarrou sua camisa.
— Sarah está lá! Jacob também!
Charlie não fez mais perguntas.
Abriu a porta traseira.
— Entrem.
— Mas...
— AGORA!
Os dois entraram.
Charlie pegou o telefone.
Havia sinal naquela estrada.
Ligou para a polícia.
Depois para Billy.
Billy estava no meio da reunião quando o telefone tocou.
Olhou para a tela.
Charlie Swan.
Quase não atendeu.
— Charlie, estou...
— Billy.
O tom de voz fez seu corpo inteiro gelar.
— O que aconteceu?
— Estou com Emmett e Edward.
Billy levantou-se.
— Como assim está com Emmett e Edward?
— Encontrei os dois numa estrada perto da propriedade.
O mundo pareceu parar.
— Carlisle?
Silêncio.
— Charlie.
— Houve um ataque.
Billy segurou a mesa.
— Jacob?
Outro silêncio.
— Charlie, onde está meu filho?
— Jacob e Sarah ainda estão na floresta.
Billy deixou o telefone quase escapar.
— O quê?
— A polícia está vindo.
— ONDE ESTÁ MEU FILHO?
Todos na sala ficaram imóveis.
— Billy, eu vou ajudar a procurar.
— Me manda a localização.
— Já mandei.
Billy saiu da sala.
— Billy...
— CHARLIE.
— Sim?
— Encontra meu filho.
A voz dele quebrou.
— Por favor.
Jacob já não sabia havia quanto tempo estavam correndo.
Sarah estava cansada.
Muito cansada.
— Eu não consigo.
— Consegue.
— Minha perna dói.
Jacob olhou para trás.
Não ouviu ninguém.
Talvez tivessem despistado os homens.
Abaixou-se.
— Sobe.
Sarah olhou para ele.
— O quê?
— Nas minhas costas.
— Você não consegue.
— Consigo.
— Jacob...
— Sobe logo.
Ela passou os braços ao redor de seu pescoço.
Jacob levantou.
— Você está pesada.
Sarah deu um tapa em seu ombro.
— Não estou!
Ele riu.
Mesmo com medo.
— Está sim.
— Me põe no chão.
— Agora não.
— Você é idiota.
— E você é pesada.
— Quando a gente sair daqui, eu vou contar para o tio Billy.
— Pode contar.
— E para o meu pai.
Jacob ficou em silêncio.
Sarah percebeu.
— Meu pai está bem, né?
Jacob continuou andando.
— Jacob?
— Está.
Mentiu.
— Ele falou que ia atrás da gente.
— Eu sei.
— Então vai encontrar a gente.
— Vai.
Sarah apoiou o rosto no ombro dele.
— Estou com medo.
Jacob apertou as pernas dela.
— Eu também.
Foi a primeira vez que admitiu.
Sarah levantou a cabeça.
— Você está?
— Um pouco.
— Você nunca tem medo.
— Tenho sim.
— De quê?
Jacob pensou.
— De perder vocês.
Sarah ficou quieta.
Depois apertou os braços ao redor do pescoço dele.
— Você não vai me perder.
Jacob sorriu.
— Não vou.
Ele a carregou até não conseguir mais.
Quando finalmente a colocou no chão, Sarah imediatamente segurou sua mão.
— Não solta.
— Não vou.
Continuaram.
O terreno começou a mudar.
Mais pedras.
Menos árvores.
Jacob percebeu tarde demais.
Quando atravessaram a última fileira de vegetação, pararam.
À frente havia um penhasco.
Muito abaixo, um rio corria violentamente entre as pedras.
Sarah apertou a mão dele.
— Jacob...
— Calma.
Ele olhou para os lados.
Precisavam voltar.
Então ouviram vozes.
— Eles estão aqui!
Jacob virou.
Dois homens surgiam entre as árvores.
— Corre!
— Para onde?!
Havia uma passagem estreita seguindo pela lateral do penhasco.
Jacob apontou.
— Ali.
Sarah olhou para baixo.
— Não.
— Sarah.
— Eu não consigo.
— Consegue.
— É muito alto.
Jacob segurou os dois lados do rosto dela.
— Olha para mim.
Ela obedeceu.
— Não olha para baixo. Só olha para mim.
— E se eu cair?
— Não vai.
— Como você sabe?
— Porque eu estou aqui.
Os olhos dela encontraram os dele.
— Promete?
Jacob respondeu sem hesitar.
— Prometo.
Ele pegou sua mão.
— Vamos.
Um passo.
Depois outro.
Jacob ia na frente.
Sarah atrás.
— Não olha para baixo.
— Não estou olhando.
— Está sim.
— Só um pouquinho.
— Sarah.
— Parei.
Mais um passo.
As vozes se aproximavam.
— Eles estão ali!
Sarah se assustou.
Olhou para trás.
— Jacob!
— Não olha!
Ela tentou avançar.
O pé encontrou uma pedra solta.
A pedra cedeu.
Sarah escorregou.
— JACOB!
Ele se jogou no chão.
Sua mão encontrou a dela.
O corpo de Sarah ficou suspenso sobre o vazio.
— JACOB!
— EU PEGUEI!
Ela gritou.
Jacob fincou os pés contra uma pedra.
Tentou puxá-la.
Não conseguiu.
— Me dá a outra mão!
Sarah tentou alcançar.
— Não consigo!
— CONSEGUE!
— Jacob!
— OLHA PARA MIM!
Ela olhou.
E foi naquele instante que tudo parou.
Os olhos.
Jacob nunca esqueceria aqueles olhos.
Verdes.
Enormes.
Cheios de lágrimas.
Cheios de medo.
E, pior do que tudo, cheios de confiança.
Sarah acreditava nele.
— Estou com medo.
— Eu sei.
— Não me deixa cair.
Jacob começou a chorar.
— Não vou.
A mão dela escorregou um pouco.
— Jacob!
— NÃO!
Ele apertou com toda a força que possuía.
— Segura!
— Estou tentando!
Mais um pouco.
Os dedos dela estavam molhados de suor.
Jacob sentiu sua mão deslizando.
— Não, não, não...
— Jacob...
— ME DÁ A OUTRA MÃO!
Ela tentou.
Os dedos tocaram os dele.
Não conseguiram se prender.
Sarah chorava.
Jacob também.
— Você prometeu.
A frase destruiu alguma coisa dentro dele.
— Eu sei.
— Você prometeu que não ia me deixar cair.
— E NÃO VOU!
A mão deslizou novamente.
Jacob gritou.
— SARAH, SEGURA!
— EU ESTOU SEGURANDO!
Um dedo escapou.
Depois outro.
Jacob tentou alcançá-la com a outra mão.
— Não!
Sarah olhou para ele.
E, naquele último segundo, pareceu deixar de sentir medo.
Talvez porque ainda acreditasse que Jacob conseguiria.
Talvez porque, aos oito anos, algumas promessas parecessem maiores do que a própria gravidade.
— Jacob...
— Não.
Os dedos escaparam.
— DESCULPA!
A mão dela deixou a sua.
Sarah caiu.
— SARAH!
O grito dela se misturou ao dele.
Jacob rastejou até a borda.
Viu o corpo pequeno atingir o rio.
A correnteza a engoliu.
— SARAH!
Ele levantou.
Correu pela margem.
— SARAH!
Conseguiu vê-la por um instante.
Os cabelos escuros.
Um braço.
Depois nada.
— NÃO!
Jacob correu.
Tropeçou.
Caiu.
Machucou as mãos nas pedras.
Levantou.
— SARAH!
Nenhuma resposta.
— SARAH!
Continuou correndo.
Não percebeu quando os homens desapareceram.
Não percebeu as sirenes distantes.
Não percebeu o sangue em seus joelhos.
Só conseguia olhar para a água.
— Sarah...
Caiu de joelhos.
Olhou para as próprias mãos.
Dez anos.
E, pela primeira vez na vida, Jacob Black odiou as próprias mãos.
— Eu tentei...
Começou a chorar.
— Eu tentei.
Fechou os dedos como se ainda pudesse sentir a mão dela.
— Desculpa.
A palavra saiu quebrada.
— Desculpa, Sarah.
Charlie encontrou Jacob quase uma hora depois.
O menino caminhava sozinho pela margem do rio.
— JACOB!
Ele não reagiu.
Charlie correu.
— Jacob!
Segurou seus ombros.
O menino finalmente levantou os olhos.
Charlie sentiu o coração apertar.
Não havia mais nada do garoto sorridente que conhecia.
— Onde está Sarah?
Jacob olhou para o rio.
— Eu soltei.
— O quê?
— A mão dela.
Charlie empalideceu.
— Jacob...
— Eu tentei segurar.
— Meu Deus.
— Eu tentei.
Charlie o abraçou.
Jacob permaneceu rígido.
— Eu prometi.
— Jacob...
— Eu prometi que não ia deixar ela cair.
— Você tentou salvar ela.
— Não consegui.
— Você é uma criança.
Jacob afastou-se.
— Ela confiou em mim.
Charlie não encontrou resposta.
Ao longe, homens das equipes de resgate começavam a chegar.
— Vamos encontrá-la.
Jacob olhou para ele.
Por um segundo, alguma esperança apareceu.
— Viva?
Charlie não conseguiu prometer.
— Vamos procurar.
Jacob voltou os olhos para o rio.
E repetiu tão baixo que Charlie quase não ouviu:
— Desculpa, Sarah.
Billy chegou pouco depois.
Encontrou Emmett primeiro.
O menino correu para ele.
Billy o abraçou.
— Tio Billy...
— Está tudo bem.
— Meu pai...
Billy fechou os olhos.
Já sabia.
Carlisle Cullen fora encontrado morto próximo ao veículo.
— Eu sei.
Edward estava sentado dentro de uma ambulância.
Billy o abraçou também.
— Sarah? — Edward perguntou imediatamente.
Billy não respondeu.
— Cadê a Sarah?
— Estão procurando.
— E Jacob?
Antes que Billy respondesse, viu Charlie se aproximando.
Jacob caminhava ao lado dele.
Billy correu.
— Filho!
Abraçou Jacob.
O menino não reagiu.
— Meu Deus...
Billy examinou seu rosto, braços, pernas.
— Você está machucado?
Jacob olhou para ele.
— Sarah caiu.
Billy parou.
— O quê?
— Eu não consegui segurar.
Edward ouviu.
— Não.
Desceu da ambulância.
— Não!
Emmett segurou o irmão.
— Edward...
— NÃO!
Edward correu até Jacob.
— Onde ela está?
Jacob apontou para o rio.
— Caiu.
Edward empurrou-o.
— NÃO!
— Edward!
Billy tentou segurá-lo.
— Você estava com ela!
Jacob não respondeu.
— VOCÊ ESTAVA COM ELA!
Emmett agarrou o irmão.
— Para!
Edward chorava.
— Você tinha que cuidar dela!
Cada palavra atingiu Jacob.
Porque era exatamente o que ele acreditava.
Carlisle tinha pedido.
Cuida deles.
Sarah tinha pedido.
Não me deixa cair.
E ele falhara com os dois.
— Eu sei — Jacob sussurrou.
Edward parou.
Jacob olhou para ele.
— Eu tentei.
Edward viu o sangue nas mãos dele.
As unhas quebradas.
Os joelhos feridos.
E então viu alguma coisa que nunca havia visto antes.
Jacob estava destruído.
Edward começou a chorar.
Jacob também.
Emmett aproximou-se.
Os três meninos ficaram juntos enquanto, atrás deles, homens percorriam o rio procurando a quarta criança.
Procuraram durante toda a noite.
Depois durante o dia seguinte.
Helicópteros acompanharam o curso do rio.
Equipes entraram na água.
Cães percorreram a mata.
Billy não saiu dali.
Jacob também não.
— Filho, você precisa dormir.
— Não.
— Jacob.
— Ela pode voltar.
Billy fechou os olhos.
— Se encontrarem Sarah, vão nos avisar.
— Ela vai me procurar.
Billy sentiu o peito apertar.
— Jacob...
— Ela sempre me procura.
Não havia resposta para aquilo.
Então Billy sentou-se ao lado do filho.
E esperou.
Três dias.
Nenhum sinal.
Cinco.
Nada.
Sete.
O rio devolveu pedaços de roupas.
Galhos.
Objetos carregados pela correnteza.
Nunca Sarah.
O corpo de Carlisle foi enterrado.
O de Sarah Cullen, não.
Porque não havia corpo.
A pequena corrente que ela usava escondida por baixo das roupas também nunca foi encontrada.
Ninguém pensou nela.
Ninguém sabia que ainda estava presa ao pescoço da menina quando ela caiu.
Naquela noite, depois do funeral de Carlisle, Jacob ficou sentado sozinho no quarto.
Billy abriu a porta.
— Posso entrar?
Jacob não respondeu.
Billy entrou.
Sentou-se ao lado dele.
— Você não foi culpado.
Silêncio.
— Jacob.
— Eu soltei.
— Não.
— Soltei.
— Você tentou segurá-la.
— Não consegui.
— Você tem dez anos.
Jacob finalmente olhou para o pai.
— Se eu fosse mais forte, ela estaria aqui.
Billy sentiu os olhos arderem.
— Não faça isso com você.
— Ela pediu para eu não deixar ela cair.
— Filho...
— E eu prometi.
Billy abraçou-o.
Dessa vez, Jacob chorou.
Não como havia chorado na floresta.
Chorou como uma criança.
Porque ainda era uma.
— Eu quero ela de volta.
Billy apertou o filho contra o peito.
— Eu sei.
— Eu quero a Sarah.
— Eu sei.
— Eu devia ter segurado.
— Você fez tudo que podia.
Jacob balançou a cabeça.
— Não foi suficiente.
Billy não conseguiu convencê-lo do contrário.
E talvez aquele tenha sido o momento em que o menino começou a desaparecer.
Não aconteceu de uma vez.
Jacob ainda sorriria algumas vezes.
Ainda riria das piadas de Emmett.
Ainda provocaria Edward.
Mas alguma coisa fundamental havia ficado naquela pedra.
Naquela mão.
Naqueles olhos.
E, durante os quinze anos seguintes, sempre que Jacob Black fechasse os olhos e o sono fosse cruel o bastante para levá-lo de volta àquele penhasco, Sarah estaria ali.
Com oito anos.
Pendurada pela mão dele.
Olhando para ele.
Confiando nele.
E todas as vezes o sonho terminaria exatamente da mesma maneira.
Os dedos escapariam.
Sarah cairia.
E Jacob acordaria dizendo a mesma palavra que gritara naquele dia:
— Desculpa.
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