MEMÓRIAS
4 CAPÍTULO 3 - Apenas Sarah
Harry Clearwater não deveria estar naquela estrada.
Anos mais tarde, sempre que pensasse naquele dia, essa seria a primeira conclusão a que chegaria.
Não deveria ter saído da rodovia principal.
Não deveria ter aceitado a sugestão de pegar uma estrada secundária para evitar o trânsito provocado por um acidente alguns quilômetros adiante.
E certamente não deveria ter pedido ao motorista que parasse próximo à velha ponte porque precisava atender uma ligação importante.
Mas fez todas essas coisas.
E, por causa delas, viu algo entre os galhos.
— Espere.
O motorista, que acabara de estacionar, olhou pelo retrovisor.
— Senhor Clearwater?
Harry não respondeu.
Continuou olhando para a margem.
O rio estava muito acima do nível habitual. As chuvas dos últimos dias haviam transformado a correnteza numa massa violenta de água escura, galhos e detritos.
Alguma coisa estava presa entre pedras e vegetação.
Harry estreitou os olhos.
Tecido.
Talvez uma peça de roupa.
Abriu a porta.
— Senhor Clearwater?
— Tem alguma coisa ali.
— Onde?
Harry deu alguns passos.
Então viu.
Uma mão.
Pequena.
Imóvel.
Seu coração pareceu parar.
— Meu Deus.
Começou a correr.
— Chame uma ambulância!
— O quê?
— CHAME UMA AMBULÂNCIA!
Desceu a margem quase escorregando.
Entrou na água.
A correnteza bateu contra suas pernas.
— Senhor Clearwater!
Harry se agarrou a uma pedra e avançou.
Então conseguiu enxergá-la completamente.
Era uma menina.
Pequena.
Talvez sete ou oito anos.
Os cabelos escuros estavam grudados ao rosto.
As roupas, rasgadas.
Havia sangue próximo à cabeça.
— Meu Deus...
Harry retirou os galhos que prendiam parte do corpo.
— Ei.
Nenhuma reação.
— Pequena?
Nada.
Ele tocou o pescoço dela.
Por um instante terrível, não sentiu nada.
Então percebeu uma pulsação.
Fraca.
Quase imperceptível.
— Ela está viva!
O motorista já descia a margem.
— A ambulância está vindo!
Harry puxou a menina para seus braços.
— Vamos.
Ela não reagiu.
— Fica comigo.
Não sabia se podia ouvi-lo.
Provavelmente não.
Mesmo assim continuou.
— Só mais um pouco.
Quando finalmente conseguiu tirá-la da água, percebeu alguma coisa brilhando entre os cabelos molhados.
Uma corrente fina.
Harry afastou os fios.
Havia um pequeno pingente preso ao pescoço da menina.
Uma lua.
Nenhum nome.
Nenhuma inicial.
Nenhuma informação.
Apenas uma pequena lua prateada.
Harry olhou novamente para o rosto dela.
— Quem é você?
A menina não respondeu.
Sue Clearwater chegou ao hospital algumas horas depois.
Encontrou Harry no corredor.
Ainda usava a camisa molhada.
Havia lama na calça e um pequeno corte na mão.
— Harry!
Ele se levantou.
Sue correu para abraçá-lo.
— Você está bem?
— Estou.
Ela o afastou.
— Disseram que você entrou no rio.
— Não tive escolha.
— Sempre existe uma escolha.
— Não quando tem uma criança dentro da água.
Sue parou.
Olhou para a porta da unidade de emergência.
— Onde ela está?
— Cirurgia.
— Cirurgia?
Harry assentiu.
— Traumatismo craniano. Hipotermia grave. Alguns cortes. O médico acha que ela foi arrastada por quilômetros.
Sue levou a mão à boca.
— Quantos anos?
— Não sabem exatamente. Oito, talvez.
— E os pais?
Harry balançou a cabeça.
— Nada.
— Ela não tinha documentos?
— Nenhum.
— Alguma identificação?
— Só uma corrente.
— Corrente?
— Um pingente de lua.
Sue olhou novamente para a porta.
— A polícia está procurando?
— Desde que chegamos.
— Deve ter alguém procurando por ela.
Harry assentiu.
— Com certeza.
Sentaram-se.
Nenhum dos dois sabia que, a muitos quilômetros dali, equipes de resgate procuravam outra menina de aproximadamente oito anos.
Também de cabelos escuros.
Também desaparecida em um rio.
Mas a área das buscas estava distante.
O ataque contra Carlisle Cullen mobilizava outra jurisdição.
As primeiras informações eram confusas.
E ninguém imaginava que uma criança pudesse ter sido carregada pela correnteza até tão longe.
Para Harry e Sue, aquela menina não tinha nome.
Para Billy Black, Jacob, Emmett e Edward, Sarah Cullen estava desaparecida.
E entre essas duas histórias havia apenas um rio.
A cirurgia terminou horas depois.
O médico aproximou-se.
Harry e Sue se levantaram juntos.
— Ela está viva.
Sue fechou os olhos.
Harry soltou o ar que nem percebera estar prendendo.
— Mas o quadro ainda é grave — o médico continuou. — Houve um traumatismo importante. Existe edema cerebral e vamos precisar acompanhar as próximas horas.
— Ela vai acordar? — Sue perguntou.
O médico hesitou.
— Não posso responder.
Aquela resposta permaneceu com Sue.
Na primeira noite.
Na segunda.
Na terceira.
A menina não acordou.
Sue começou visitando o hospital porque Harry visitava.
Depois passou a ir mesmo quando ele não podia.
No quarto dia, levou um livro.
Sentou-se ao lado da cama.
A menina permanecia imóvel.
Máquinas monitoravam cada respiração.
Sue abriu o livro.
— Eu não sei se você consegue me ouvir.
Silêncio.
— Dizem que talvez consiga.
Olhou para o rosto da criança.
— Então vou considerar que consegue.
Começou a ler.
No dia seguinte, voltou.
E no outro.
E no outro.
— Você está indo novamente?
Harry estava sentado à mesa tomando café.
Sue colocou a bolsa no ombro.
— Estou.
— Sue...
Ela parou.
— O quê?
Harry hesitou.
— Nada.
— Fala.
— Você está lá todos os dias.
— Ela está sozinha.
— Eu sei.
— Então?
Harry colocou a xícara sobre a mesa.
— Tenho medo de você se machucar.
Sue ficou imóvel.
— Como?
— Se encontrarem a família dela.
— Eu espero que encontrem.
Harry sustentou o olhar da esposa.
— Eu sei que espera.
Sue desviou os olhos.
— Claro que espero.
— Sue.
— O quê?
— Olha para mim.
Ela olhou.
Harry conhecia aquela mulher havia anos.
Conhecia suas alegrias.
Seus silêncios.
E conhecia aquela ferida.
Sue descobrira ainda jovem que não poderia gerar filhos.
Haviam conversado sobre adoção algumas vezes.
Depois desistido.
Ou, pelo menos, Harry acreditara que tinham desistido.
Construíram uma vida feliz.
Uma vida cheia.
Mas existiam dores que aprendiam apenas a ficar quietas.
Não significava que desapareciam.
— Você está se apegando a ela — Harry disse.
Sue demorou a responder.
— Talvez.
— Ela pode ter pais.
— Eu sei.
— Uma mãe procurando por ela.
— Eu sei, Harry.
A voz saiu mais dura.
Ele percebeu.
— Não estou te julgando.
Sue respirou fundo.
— Então não diga desse jeito.
— Desse jeito como?
— Como se eu estivesse desejando que ninguém apareça.
— Eu não disse isso.
— Mas pensou.
Harry levantou-se.
— Não.
Aproximou-se.
— Eu sei exatamente quem você é.
Sue fechou os olhos.
— Eu quero que encontrem a família dela.
— Eu sei.
— Quero mesmo.
— Eu sei.
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
— Mas toda vez que entro naquele quarto...
Harry permaneceu em silêncio.
— Eu olho para ela e penso que não existe ninguém segurando aquela mão.
A voz falhou.
— Ninguém penteando aquele cabelo. Ninguém contando uma história. Ninguém dizendo para ela que tem alguém esperando quando acordar.
Harry segurou o rosto da esposa.
— Então continue indo.
Sue olhou para ele.
— E se eu me apegar?
— Acho que já se apegou.
Uma lágrima escapou.
Harry a abraçou.
— Vá.
Duas semanas.
Nenhum familiar.
A polícia ampliou a procura.
Fotografias foram distribuídas.
Hospitais, escolas e delegacias receberam informações.
Nenhuma resposta.
Nenhum registro compatível chegou até eles.
A menina continuava sem nome.
E continuava dormindo.
Sue passou a conversar com ela.
Contava sobre o dia.
Sobre Harry.
Sobre a empresa.
Sobre coisas completamente banais.
— Harry queimou o jantar ontem.
Nenhuma reação.
— Ele vai dizer que não queimou. Não acredite.
Sue ajeitou o cobertor.
— Ele sabe administrar dezenas de empresas, fábricas e restaurantes, mas não sabe fazer um macarrão.
A porta abriu.
— Isso é difamação.
Sue virou-se.
Harry entrou com dois cafés.
— Estou contando a verdade.
— Ela não pode ouvir apenas sua versão.
Harry colocou o café sobre a mesa.
Aproximou-se da cama.
— Para registro, pequena, o macarrão estava perfeitamente comestível.
Sue olhou para a menina.
— Estava preto.
— Dourado.
— Preto.
— Dourado escuro.
Sue riu.
Harry também.
Por alguns segundos, aquele quarto de hospital parececeu menos triste.
Na terceira semana, Sue chegou e encontrou uma enfermeira ajeitando os objetos pessoais da menina.
Sobre uma pequena bandeja estava a corrente.
— O que é isso?
— Estava com ela quando chegou.
Sue aproximou-se.
Pegou cuidadosamente o pingente.
Uma lua pequena.
Delicada.
— O hospital retirou durante a cirurgia — explicou a enfermeira. — A polícia já fotografou e catalogou. Não encontraram nenhuma inscrição.
Sue passou o polegar sobre o metal.
— É bonito.
— Talvez alguém reconheça.
Sue assentiu.
— Talvez.
Colocou-o novamente sobre a bandeja.
Não imaginava que Billy Black conhecia aquela corrente.
Não imaginava que ela havia pertencido a Sarah Black.
E muito menos que a mulher que dera aquele pingente à menina também era a razão pela qual ela se chamava Sarah.
Quase quatro semanas haviam se passado quando Sue finalmente disse em voz alta aquilo que vinha tentando esconder de si mesma.
Estava sentada com Harry na cafeteria do hospital.
— Posso te perguntar uma coisa?
— Claro.
Sue mexeu no café.
— E se ninguém aparecer?
Harry já sabia que aquela pergunta chegaria.
— Sue...
— Só responde.
— Não sei.
— Eu sei.
Ele esperou.
Sue levantou os olhos.
— Eu quero ficar com ela.
Harry permaneceu em silêncio.
— Se ninguém encontrar a família — Sue continuou rapidamente. — Se todas as buscas forem feitas. Se ela acordar e não souber de onde veio. Se legalmente for possível...
Respirou.
— Eu quero adotá-la.
Harry não pareceu surpreso.
Isso deixou Sue ainda mais nervosa.
— Fala alguma coisa.
— Estou pensando.
— Você acha absurdo?
— Não.
— Harry...
Ele segurou sua mão.
— Eu estava esperando você dizer.
Sue piscou.
— O quê?
— Você acha que eu não vejo como olha para ela?
Sue baixou os olhos.
— Eu não planejei isso.
— Eu sei.
— E não quero tirar a filha de ninguém.
— Eu sei.
— Se a família aparecer amanhã...
A voz falhou.
— Nós entregamos.
Harry apertou sua mão.
Sue chorou.
— Mesmo que doa.
— Mesmo que doa.
Ela assentiu.
— Mas se ninguém aparecer...
Harry olhou através do vidro da cafeteria na direção do corredor que levava aos quartos.
— Se ninguém aparecer e ela acordar...
Voltou os olhos para a esposa.
— Então nós descobrimos como trazer nossa filha para casa.
Sue levou a mão à boca.
— Você está falando sério?
— Muito.
Ela levantou-se e o abraçou.
Harry fechou os braços ao redor dela.
— Primeiro ela precisa acordar — murmurou.
Sue fechou os olhos.
— Ela vai.
Naquela mesma noite, Sue sentou-se ao lado da cama.
— Você ouviu isso?
Segurou a mão pequena.
— Harry concordou.
Sorriu.
— Ele vai fingir que foi ideia dele mais tarde. Não acredite.
Nenhuma reação.
Sue acariciou os dedos da menina.
— Mas você precisa fazer sua parte.
A voz ficou baixa.
— Precisa acordar.
Sue respirou fundo.
— Eu sei que talvez exista uma mãe em algum lugar pedindo exatamente a mesma coisa.
Seus olhos se encheram de lágrimas.
— E se ela existir, eu prometo que vou devolver você para ela.
Uma pausa.
— Mas se não existir...
Sue levou a mão da menina até os lábios.
— Eu gostaria muito de ser sua mãe.
Uma lágrima caiu sobre os dedos pequenos.
— Então acorda.
Na manhã seguinte, Harry recebeu uma ligação.
Era do hospital.
Saiu de uma reunião sem explicar nada.
Quando chegou ao quarto, Sue já estava lá.
— O que aconteceu?
Ela estava chorando.
— Sue?
Então viu.
A menina estava com os olhos abertos.
Harry parou.
Ela olhava para Sue.
Assustada.
Confusa.
Mas acordada.
— Oi — Sue disse suavemente.
A menina tentou falar.
Nenhum som saiu.
— Não precisa.
Sue segurava sua mão.
— Você está segura.
Os olhos da criança percorreram o quarto.
Pararam em Harry.
Ele não se aproximou.
— Oi.
Ela olhou novamente para Sue.
O médico entrou.
Vieram perguntas simples.
Sabia onde estava?
Não.
Sabia o que havia acontecido?
Não.
Sabia onde morava?
Não.
Nome dos pais?
Silêncio.
Sue sentiu o coração apertar.
— Você sabe seu nome? — o médico perguntou.
A menina franziu a testa.
Por alguns segundos, pareceu lutar contra uma porta fechada dentro da própria mente.
Então seus lábios se moveram.
— Sarah.
Sue ficou imóvel.
— Sarah? — o médico repetiu.
A menina assentiu fracamente.
— Sarah.
— E seu sobrenome?
Ela tentou.
Nada.
— Não sei.
— Nome da sua mãe?
Nada.
— Do seu pai?
Os olhos se encheram de lágrimas.
— Não sei.
— Tem irmãos?
Sarah começou a respirar mais rápido.
— Não sei.
Sue imediatamente percebeu.
— Chega.
O médico assentiu.
— Está tudo bem, Sarah. Não precisa tentar agora.
Mas a menina chorava.
— Eu não lembro.
Sue se aproximou.
— Está tudo bem.
— Eu não lembro de nada.
— Não precisa lembrar agora.
Sarah olhou para ela.
— Quem é você?
A pergunta doeu.
Mesmo assim, Sue sorriu.
— Meu nome é Sue.
Sarah olhou para Harry.
— E ele?
— Harry.
— Vocês são...
Sue prendeu a respiração.
Harry também.
— Nós somos as pessoas que estão aqui com você — Sue respondeu cuidadosamente.
Sarah ficou olhando para ela.
Então seus olhos começaram a fechar.
Antes de dormir novamente, apertou a mão de Sue.
A recuperação foi lenta.
Sarah precisou reaprender algumas coisas.
O corpo lembrava mais do que a mente.
Sabia ler.
Sabia escrever.
Sabia números.
Sabia palavras.
Sabia seu primeiro nome.
Mas sua história havia desaparecido.
Não lembrava de Carlisle.
Não lembrava de Esme.
Não lembrava de Emmett.
Não lembrava de Edward.
Não lembrava de Billy.
E não lembrava de Jacob.
As autoridades continuaram procurando.
Sem sucesso.
Sem sobrenome, sem endereço, sem qualquer informação confiável sobre sua origem e sem correspondência que levasse até os Cullen, Sarah permaneceu um mistério.
E os Clearwater permaneceram ao lado dela.
Alguns dias depois, Sue mostrou-lhe a corrente.
— Isso estava com você.
Sarah pegou o pingente.
A lua repousou na palma de sua mão.
Ela ficou olhando.
— Eu conheço.
Sue se inclinou.
— Lembrou?
Sarah apertou os olhos.
Nada.
— Não.
A decepção apareceu.
— Mas parece...
— O quê?
Sarah não sabia explicar.
— Meu.
Sue sorriu.
— Era seu quando Harry encontrou você.
Sarah olhou para Harry.
— Você me encontrou?
Ele assentiu.
— No rio.
Ela não lembrava.
Nenhuma imagem.
Apenas um frio repentino percorreu seu corpo.
Sarah voltou a olhar para a lua.
— Posso ficar?
— Claro — Sue respondeu.
Harry colocou a corrente em seu pescoço.
Sarah segurou o pingente.
Depois o escondeu por baixo da roupa.
Sue sorriu.
— Por que escondeu?
Sarah deu de ombros.
— Não sei.
Talvez porque fosse precioso.
Talvez porque alguma parte dela, enterrada além da memória, ainda soubesse que aquele objeto pertencia a uma história que não deveria perder.
A partir daquele dia, Sarah nunca mais tirou a corrente.
Meses depois, depois de buscas, avaliações, procedimentos e autorizações, Harry e Sue receberam a notícia que já esperavam e temiam ao mesmo tempo.
Nenhuma família havia sido localizada.
E existia a possibilidade real de adoção.
Sue chorou.
Harry também.
Sarah ainda era pequena.
Ainda se recuperava.
Ainda tinha lacunas enormes.
E os adultos ao redor dela tomaram a decisão de construir segurança onde antes existira apenas vazio.
Sarah passou a usar o sobrenome Clearwater.
Com o tempo, as lembranças do hospital tornaram-se nebulosas.
Harry tornou-se simplesmente seu pai.
Sue, sua mãe.
A casa dos Clearwater tornou-se a casa onde sempre se lembrava de ter vivido.
Sua infância anterior transformou-se em um espaço inacessível da mente que, com os anos, ela deixou de tentar alcançar.
Sarah cresceu acreditando ser Sarah Clearwater, filha de Harry e Sue Clearwater.
Nunca lhe disseram o contrário.
E ela nunca teve motivos para perguntar.
Mas algumas coisas não desapareceram.
A corrente permaneceu.
Sempre escondida por baixo das roupas.
E os sonhos começaram.
No primeiro, Sarah tinha aproximadamente nove anos.
Acordou chorando.
Sue entrou no quarto.
— Filha?
Sarah sentou-se.
— Mãe...
Sue abraçou-a.
— Foi um pesadelo?
Sarah assentiu.
— O que aconteceu?
Ela tentou explicar.
— Tinha um menino.
— Que menino?
— Não sei.
— Você viu o rosto?
Sarah balançou a cabeça.
— Não consigo ver.
— O que ele fazia?
Sarah apertou o pingente de lua por baixo do pijama.
— Chorava.
— Ele falou alguma coisa?
— Falou.
— O quê?
Sarah olhou para a mãe.
— Pediu desculpa.
Sue acariciou seus cabelos.
— Pelo quê?
Sarah não sabia.
Nunca saberia.
Porque, a quilômetros dali, Jacob Black acordava do próprio pesadelo.
Só que Jacob via tudo.
O penhasco.
O rio.
A mão.
E os olhos.
Sempre os olhos.
— Desculpa, Sarah.
Billy apareceu na porta.
Jacob tinha dez anos, mas parecia ter envelhecido muito mais do que algumas semanas.
— Filho...
— Eu soltei ela.
— Você tentou salvar Sarah.
Jacob olhou para as próprias mãos.
— Não consegui.
Billy sentou-se ao lado dele.
Jacob fechou os olhos.
E viu novamente os olhos verdes da menina.
Enquanto isso, em outra casa, Sarah Clearwater adormecia nos braços de Sue sem saber que o garoto que aparecia em seus sonhos existia.
Sem saber que ele ainda chorava por ela.
Sem saber que possuía dois irmãos.
Sem saber que seu verdadeiro sobrenome estava escrito em uma das maiores empresas automobilísticas do país.
E sem saber que, quinze anos depois, entraria naquela empresa como uma desconhecida.
Usando outro sobrenome.
Carregando uma lua escondida junto ao coração.
E levando nos olhos a única lembrança que Jacob Black jamais conseguira esquecer.
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