MEMÓRIAS

5 CAPÍTULO 4 - Quinze anos depois



Quinze anos depois

Jacob Black ainda sonhava com a queda.

Algumas coisas mudavam com o tempo.

A voz de uma pessoa podia desaparecer da memória. O cheiro de uma casa podia deixar de existir. Rostos que antes pareciam impossíveis de esquecer começavam a perder contornos, misturando-se às fotografias até que já não se soubesse exatamente o que era lembrança e o que havia sido reconstruído pela repetição de uma imagem.

Mas os olhos de Sarah não mudavam.

Nunca.

No sonho, ela tinha oito anos.

Sempre oito.

Os cabelos escuros estavam desarrumados, havia lágrimas em seu rosto e sua mão pequena permanecia presa à dele sobre o precipício.

— Jacob...

Ele tentava puxá-la.

Nunca conseguia.

— Segura!

— Estou tentando!

A mão escorregava.

Jacob sentia os dedos dela escapando dos seus e sabia exatamente o que aconteceria.

Ainda assim, todas as noites em que o sonho voltava, uma parte dele acreditava que daquela vez conseguiria mudar o final.

— Me dá a outra mão!

Sarah tentava.

— Não consigo!

— Consegue!

Os dedos escorregavam.

— Jacob...

— Não!

— Você prometeu.

E então ela caía.

— SARAH!

Jacob acordou sentado na cama.

O quarto estava escuro.

Seu peito subia e descia rapidamente.

Olhou para as próprias mãos.

Vinte e cinco anos.

Mãos de homem.

Fortes.

Grandes.

Muito diferentes das mãos de uma criança de dez anos.

Mesmo assim, durante alguns segundos, conseguiu sentir os dedos dela escapando.

Jacob fechou os olhos.

— Desculpa.

Passou as mãos pelo rosto.

O relógio marcava 4h17.

Não voltaria a dormir.

Nunca voltava.


Às sete da manhã, Jacob já estava na Cullen & Black.

O edifício que abrigava a sede administrativa da empresa ocupava vários andares de uma torre de vidro e aço e carregava, em letras discretas na fachada, dois sobrenomes que haviam sobrevivido a praticamente tudo.

CULLEN & BLACK

Quando Carlisle e Billy fundaram a empresa, nenhum dos dois imaginara as proporções que ela alcançaria.

Muito menos que apenas um deles viveria para vê-la.

Jacob entrou na sala de reuniões.

— Bom dia.

Seis executivos imediatamente diminuíram o volume das conversas.

— Bom dia, senhor Black.

Jacob colocou a pasta sobre a mesa.

— Podemos começar?

Aos vinte e cinco anos, Jacob Black era jovem demais para ocupar a presidência de um grupo daquele tamanho.

Pelo menos era o que diziam antes de trabalhar com ele.

Depois paravam de dizer.

Jacob aprendera cedo demais a assumir responsabilidades que não deveriam ter pertencido a uma criança. Aos dezoito anos já acompanhava Billy em praticamente todas as decisões importantes. Aos vinte e dois assumira funções executivas. Aos vinte e cinco, com o pai progressivamente afastado da administração cotidiana, tornara-se presidente do grupo.

Era exigente.

Metódico.

Controlado.

E quase impossível de intimidar.

O menino que ria enquanto corria pelo jardim ainda existia em algum lugar.

Mas poucas pessoas tinham acesso a ele.

Talvez apenas duas.

— Você sabe que pessoas normais dizem bom dia antes de começar a aterrorizar funcionários?

Jacob nem precisou olhar para a porta.

— Você está atrasado.

— Sete minutos.

Emmett Cullen entrou segurando um café.

Aos vinte e cinco anos, continuava possuindo exatamente a mesma capacidade de transformar qualquer ambiente sério em alguma coisa menos séria.

Alto, expansivo e sorridente, atravessou a sala.

— Sete minutos não constituem atraso. Constituem margem de tolerância.

Jacob olhou para o relógio.

— A reunião começou às sete.

— Exatamente. E agora são sete e sete.

— Isso é a definição de atraso.

Emmett sentou-se.

— Discordamos juridicamente.

— Não existe divergência jurídica sobre relógio.

— Então vou consultar um advogado.

Jacob abriu a apresentação.

— Faça isso.

— Aliás, Rosalie quer indicar uma.

Jacob levantou os olhos.

— Para quê?

— Departamento jurídico.

— Não estamos contratando.

— Estamos sim.

— Desde quando?

— Desde que o jurídico corporativo perdeu duas pessoas no último mês.

Jacob olhou para um dos diretores.

O homem pigarreou.

— Tecnicamente, senhor Black...

Emmett abriu os braços.

— Viu?

Jacob fechou os olhos por um segundo.

— Depois conversamos.

— Excelente.

— Isso não significa sim.

— Para mim significa.

— Emmett.

— Jacob.

Um dos executivos disfarçou uma risada.

Jacob lançou um olhar.

A risada desapareceu.

Emmett bebeu o café.

— Você está cada dia mais simpático.

— Podemos trabalhar?

— É para isso que me pagam.

Jacob olhou para ele.

— Infelizmente.

Emmett sorriu.

Algumas coisas, afinal, sobreviviam às tragédias.


Edward Cullen chegou pouco depois das nove.

Entrou na sala de Jacob sem bater.

— Precisamos conversar.

Jacob continuou assinando um documento.

— Bom dia para você também.

Edward sentou-se.

Aos vinte e três anos, havia se tornado exatamente o tipo de homem que sua infância já anunciava.

Reservado.

Observador.

Brilhante.

E extremamente econômico com demonstrações emocionais.

— Irina pediu outra reunião do conselho.

Jacob parou de escrever.

— Sobre?

— Quer discutir a expansão da unidade europeia.

— Não.

Edward levantou uma sobrancelha.

— Essa foi rápida.

— Porque sei o que ela quer.

— Aumentar influência sobre as decisões internacionais.

— Exatamente.

Edward colocou alguns documentos sobre a mesa.

— Aro está pressionando dois conselheiros.

Jacob abriu a pasta.

— Como sabe?

— Porque diferente de Emmett, eu trabalho.

A porta abriu.

— Eu ouvi isso!

Emmett entrou.

Edward nem se virou.

— Era para ouvir.

— Eu trabalho muito.

— Você passou quarenta minutos ontem escolhendo uma foto para mandar para Rosalie.

— Relacionamentos exigem dedicação.

Jacob voltou aos documentos.

— Vocês podem fazer isso fora da minha sala?

Emmett sentou-se.

— Não.

Edward apontou para ele.

— Ele veio porque quer contratar a amiga da Rosalie.

Jacob levantou os olhos.

— Ainda nisso?

— Você nem viu o currículo.

— Manda para Recursos Humanos.

— Já mandei.

— Então por que estamos conversando?

Emmett sorriu.

— Porque ela é muito boa.

— Todo mundo que Rosalie conhece é “muito bom”.

— Essa é realmente muito boa.

Edward pegou o currículo que Emmett carregava.

— Sarah Clearwater.

Jacob continuou lendo os documentos.

O nome passou por ele sem produzir qualquer reação.

Emmett assentiu.

— Vinte e três anos.

Edward começou a ler.

— Direito empresarial. Contratos. Arbitragem...

Virou a página.

— Isso aqui está certo?

— O quê?

— Ela terminou a graduação antes da idade normal.

— Eu disse que ela era boa.

— Especialização, cursos internacionais...

Edward continuou.

— Ela tem vinte e três anos?

— Tem.

Jacob estendeu a mão.

— Me dá.

Edward entregou.

Jacob passou os olhos pelo currículo.

Impressionante.

Muito.

— Por que quer trabalhar aqui?

Emmett deu de ombros.

— Pergunta para ela.

— Você não perguntou?

— Ainda nem conheço pessoalmente.

Jacob devolveu o currículo.

— Então como sabe que é ótima?

— Rosalie fala dela o tempo inteiro.

Edward olhou para o irmão.

— Isso não é exatamente um critério de contratação.

— Eu sei.

Emmett pegou o documento.

— Por isso vou conhecer Sarah hoje.

Jacob voltou ao trabalho.

— Ótimo.

— E se gostar dela, vou chamar para uma entrevista.

— Recursos Humanos chama.

— Você realmente precisa trabalhar sua flexibilidade.

— E você precisa aprender hierarquia.

Emmett levantou-se.

— Sou acionista.

— E eu sou presidente.

— Ditador.

— Atrasado.

— Chato.

— Vai trabalhar, Emmett.

Emmett saiu.

Edward permaneceu.

— Você percebe que ele vai contratar essa mulher, não percebe?

Jacob assinou outro documento.

— Percebo.

— Então por que discute?

— Porque não quero facilitar.

Pela primeira vez, Edward sorriu.


Sarah Clearwater estava atrasada.

E Sarah Clearwater odiava estar atrasada.

— Rosalie, eu vou matar você.

— Você não vai.

Sarah atravessava o saguão de um restaurante enquanto falava ao telefone.

— Estou vinte minutos atrasada.

— Quinze.

— Vinte.

— Você está contando desde que começou a reclamar.

— Você marcou esse almoço no outro lado da cidade.

— Porque a comida é maravilhosa.

— Eu trabalho.

— Eu também.

— Você trabalha com moda. Se chegar atrasada, dizem que é personalidade.

— E você é advogada. Se chegar atrasada, cobra pela hora.

Sarah quase riu.

— Estou entrando.

— Mesa no fundo.

— Se você pediu vinho sem mim...

— Pedi.

— Traidora.

Desligou.

Aos vinte e três anos, Sarah Clearwater tinha poucas certezas absolutas sobre a vida.

Uma delas era que amava os pais.

Outra era que queria construir uma carreira que não dependesse do sobrenome Clearwater.

Ser filha de Harry Clearwater abria portas.

Sarah passara boa parte da juventude tentando provar que conseguia atravessá-las sozinha.

Formara-se cedo.

Estudara mais do que precisava.

Trabalhara mais do que esperavam.

E aprendera a detestar quando alguém descobria quem era seu pai antes de descobrir quem ela era.

Encontrou Rosalie no fundo do restaurante.

— Finalmente!

— Não começa.

Rosalie levantou-se para abraçá-la.

— Você está linda.

— Estou irritada.

— Também fica linda irritada.

Sarah sentou-se.

Então percebeu que havia outra pessoa à mesa.

Um homem alto, largo e sorridente levantou-se.

— Então você é Sarah.

Ela olhou para Rosalie.

— Você armou isso?

Rosalie fez a expressão mais inocente que conseguiu.

— Armei o quê?

Sarah apontou discretamente para o homem.

— Isso.

Ele começou a rir.

— Gostei dela.

Rosalie sorriu.

— Sarah Clearwater, Emmett Cullen.

Sarah congelou por uma fração de segundo.

Não por reconhecer o nome.

Todo mundo conhecia aquele nome.

— Cullen?

Emmett estendeu a mão.

— Infelizmente.

Sarah apertou.

E alguma coisa aconteceu.

Nada extraordinário.

Nenhuma lembrança.

Nenhuma imagem.

Nenhuma revelação.

Apenas uma sensação.

Familiaridade.

Sarah segurou a mão dele por um segundo a mais do que seria normal.

Emmett fez exatamente o mesmo.

Os dois se olharam.

— A gente já se conhece? — Sarah perguntou.

Rosalie olhou de um para o outro.

Emmett franziu a testa.

— Acho que não.

— Tem certeza?

— Eu lembraria.

Sarah soltou a mão.

— Convencido.

— Realista.

Ela sentou-se.

Emmett também.

Mas continuou olhando para ela.

Havia alguma coisa.

Talvez o sorriso.

Talvez a maneira como ela franzia o nariz.

Talvez...

Emmett balançou a cabeça.

Não.

— O que foi? — Sarah perguntou.

— Nada.

— Você está me olhando.

— Estou tentando descobrir de onde conheço você.

Sarah apontou para ele.

— Então também sentiu.

Rosalie abriu um sorriso.

— Interessante.

Os dois olharam para ela.

— Não começa — Emmett avisou.

— Eu não disse nada.

— Sua cara disse.

Sarah pegou a taça de água.

— Talvez tenhamos nos encontrado em algum evento.

— Talvez.

Mas Emmett sabia que não era isso.

Não parecia reconhecer uma pessoa.

Parecia reconhecer uma sensação.

E aquilo era muito mais estranho.


O almoço começou normalmente.

Ou tão normalmente quanto poderia começar um almoço com Emmett Cullen.

— Rosalie disse que você é advogada.

— Sou.

— Muito jovem.

Sarah levantou uma sobrancelha.

— Isso foi elogio ou crítica?

Emmett abriu a boca.

Rosalie riu.

— Cuidado.

— Estou percebendo.

Sarah sorriu.

— Tenho vinte e três.

— Edward também.

— Quem?

— Meu irmão.

Alguma coisa no peito de Sarah apertou.

Muito rápido.

Quase imperceptível.

— Você tem um irmão?

— Tenho.

Emmett bebeu água.

— Às vezes dois.

Sarah riu.

— Como assim?

— Jacob não é biologicamente meu irmão, mas tente explicar isso para nossas famílias.

— Jacob Black?

— O próprio.

— Presidente da Cullen & Black.

— Também conhecido como o homem que acredita que sorrir durante o horário comercial prejudica a produtividade.

Rosalie riu.

— Ele não é tão ruim.

— Você não trabalha com ele.

Sarah apoiou o queixo na mão.

— E você trabalha?

— Sou diretor executivo.

Ela olhou para Rosalie.

— Você não disse.

— Se dissesse, você não viria.

— Exatamente.

Emmett estreitou os olhos.

— Por quê?

— Porque isso está começando a parecer uma entrevista de emprego.

Ele sorriu.

— Talvez seja.

Sarah virou-se lentamente para Rosalie.

— Rosalie Hale.

— Eu só fiz uma apresentação.

— Você mandou meu currículo para ele?

— Talvez.

— Rosalie!

Emmett começou a rir.

— Agora entendi por que vocês são amigas.

Sarah apontou para ele.

— Não incentive.

— Tarde demais.

Rosalie cruzou os braços.

— Você vive reclamando que quer sair do escritório onde está.

— Reclamar não significa autorizar você a distribuir meu currículo pela cidade.

— Distribuí para uma empresa.

— Uma empresa automobilística.

— Uma das maiores do país.

Sarah voltou-se para Emmett.

— Eu não sei absolutamente nada sobre carros.

— Ótimo.

Ela piscou.

— Ótimo?

— Precisamos de advogados. Os engenheiros sabem sobre carros.

Sarah pensou.

— Isso foi surpreendentemente sensato.

— Tenho meus momentos.

— Raros — Rosalie acrescentou.

Emmett ignorou.

— Você trabalha com contratos empresariais?

— Entre outras coisas.

— Arbitragem?

— Sim.

— Societário?

— Sim.

— Sucessório empresarial?

Sarah inclinou a cabeça.

— Quando necessário.

Emmett sorriu.

— Quero que converse com nosso jurídico.

— Isso é uma entrevista?

— Não.

— O que é?

— Um convite.

— Para?

— Conhecer a empresa.

Sarah ficou em silêncio.

— Sem compromisso — Emmett continuou. — Você conhece o pessoal, conhece o departamento, vê se interessa. Se não interessar, Rosalie continua sendo a única pessoa nessa mesa obrigada a me suportar.

Sarah olhou para a amiga.

— Você fez isso de propósito.

Rosalie sorriu.

— Fiz.

Sarah suspirou.

— Eu odeio você.

— Também te amo.


Depois do almoço, Rosalie recebeu uma ligação e afastou-se.

Sarah e Emmett ficaram sozinhos.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

Estranhamente, o silêncio não era desconfortável.

— Posso perguntar uma coisa? — Emmett disse.

— Depende.

— De quê?

— Da pergunta.

Ele sorriu.

— Você sempre responde assim?

— Frequentemente.

Emmett ficou mais sério.

— Clearwater.

Sarah assentiu.

— Seu pai é Harry Clearwater?

Ela imediatamente ficou um pouco defensiva.

— É.

Emmett percebeu.

— Não foi julgamento.

— As pessoas mudam quando descobrem.

— Eu sei.

Sarah olhou para ele.

— Sabe?

Emmett deu de ombros.

— Meu sobrenome está na fachada de prédios.

Ela sorriu.

— Justo.

— Então você também é herdeira.

— Sou advogada.

— Uma coisa não impede a outra.

— Para mim impede.

Emmett observou-a.

— Por quê?

Sarah mexeu na taça.

— Porque a Clearwater Alimentos é do meu pai. Eu quero descobrir quem sou fora dela.

Emmett ficou em silêncio.

A frase atingiu algum lugar estranho.

Descobrir quem sou.

— Entendo — respondeu.

Sarah olhou para ele.

— Você nunca quis isso?

Emmett pensou em Carlisle.

Pensou no sobrenome Cullen.

Pensou em tudo o que herdara sem pedir.

— Todos os dias.

Sarah sorriu.

E novamente aquela sensação apareceu.

Emmett conhecia aquele sorriso.

Não sabia de onde.

Não sabia como.

Mas conhecia.

— Você está fazendo de novo.

— O quê?

— Me olhando estranho.

— Desculpa.

Sarah levou a mão ao peito quase sem perceber.

Os dedos encontraram alguma coisa escondida por baixo da blusa.

Emmett acompanhou o gesto.

Por um segundo, alguma memória tentou surgir.

Uma criança.

Um quarto.

Uma risada.

Desapareceu antes que pudesse alcançá-la.

— O que foi? — Sarah perguntou.

Emmett piscou.

— Nada.

— Você ficou branco.

— Exagero.

— Ficou.

— Deve ser fome.

Sarah olhou para os pratos vazios.

— Você acabou de comer.

— Metabolismo rápido.

Ela riu.

E Emmett decidiu naquele momento que queria aquela mulher trabalhando na Cullen & Black.

Não sabia exatamente por quê.

O currículo justificava.

A inteligência justificava.

A experiência justificava.

Mas havia outra coisa.

Uma facilidade.

Como se conversar com Sarah Clearwater fosse continuar uma conversa interrompida há muito tempo.


— Gostei dela.

Rosalie entrou no carro com Emmett.

— Eu sabia.

— Ela é engraçada.

— Muito.

— Inteligente.

— Muito.

— Irritante.

Rosalie olhou para ele.

— Vocês conversaram durante duas horas.

— Exatamente.

— Você também é irritante.

— Talvez por isso tenha funcionado.

Rosalie sorriu.

— Vai contratar?

— Se ela aceitar.

— Jacob vai implicar.

— Jacob implica com oxigênio.

Rosalie riu.

Emmett ligou o carro.

Mas não saiu.

— Rose.

— Hum?

— Você tem certeza de que nunca conheci Sarah antes?

Rosalie franziu a testa.

— Tenho.

— Nem quando éramos crianças?

— Emmett, ela cresceu com os Clearwater.

— Eu sei.

— Por quê?

Ele olhou pelo para-brisa.

— Não sei.

— Ela lembrou alguém?

Emmett demorou.

— Não exatamente.

— Então?

— Parecia...

Procurou a palavra.

— Familiar.

Rosalie tocou seu braço.

— Talvez vocês simplesmente tenham se dado bem.

— Talvez.

Emmett ligou o carro.

— E ela tem alguma coisa quando sorri.

— O quê?

— Não sei.

Rosalie riu.

— Essa explicação foi excelente.

— Obrigado.

Ele saiu com o carro.

Mas a sensação permaneceu.


Naquela noite, Sarah entrou em casa e encontrou Harry na cozinha.

— Oi, pai.

— Oi.

Ele beijou sua testa.

— Como foi o almoço?

— Rosalie armou para mim.

— O que ela fez?

Sarah abriu a geladeira.

— Me apresentou a Emmett Cullen.

Harry olhou para ela.

O nome não lhe provocou reconhecimento algum.

— Cullen da automobilística?

— Esse.

— E?

— Ele quer que eu conheça o departamento jurídico.

Harry sorriu.

— Parece uma ótima oportunidade.

Sarah pegou água.

— Eu sabia que você ia dizer isso.

— Porque é.

— Talvez.

Sue entrou.

— O que é talvez?

— Sarah pode trabalhar na Cullen & Black — Harry contou.

Sue abriu um sorriso.

— Sério?

— Eu disse que posso conhecer.

— E qual é o problema?

Sarah olhou para os dois.

— Vocês deveriam dificultar minhas decisões, não facilitar.

Sue beijou seu rosto.

— Conheça.

— Mãe...

— Só conheça.

Sarah suspirou.

— Está bem.

Harry sorriu.

— Quando?

— Ainda não sei.

Sarah saiu da cozinha.

— Boa noite.

— Boa noite, filha.

Subiu as escadas.

Entrou no quarto.

Retirou os brincos.

Depois o relógio.

Ao trocar de roupa, a corrente apareceu.

A pequena lua repousou sobre sua pele.

Sarah tocou o pingente.

Nunca o tirava.

Nem para dormir.

Nem para tomar banho.

Nem para eventos.

Quase ninguém o via porque, por algum motivo que jamais soubera explicar, preferia mantê-lo escondido.

Sarah colocou o pijama.

A lua desapareceu novamente sob o tecido.

Deitou.

Fechou os olhos.


O sonho veio naquela noite.

O menino estava ali.

Como sempre.

Sarah nunca conseguia ver completamente seu rosto.

Apenas fragmentos.

Cabelos escuros.

Uma mão.

Olhos que o sonho nunca permitia alcançar.

E uma voz.

— Segura!

Sarah sentia medo.

Muito medo.

— Não consigo!

— Consegue!

Uma mão segurava a sua.

Depois começava a escapar.

Sarah tentava apertar.

— Não me deixa cair!

— Não vou!

Então vinha a sensação.

Queda.

Água.

Frio.

E o grito.

— SARAH!

Ela acordou.

Respirando rapidamente.

Levou a mão ao peito.

Encontrou a lua.

— Desculpa...

Sarah congelou.

A palavra não havia saído de sua boca.

Tinha vindo do sonho.

Da voz dele.

Como acontecia havia anos.

Sarah olhou para o teto.

— Quem é você?

Não havia resposta.


Na manhã seguinte, Emmett entrou na sala de Jacob sem bater.

— Ela aceitou.

Jacob continuou lendo.

— Quem?

— Sarah.

O nome fez Jacob levantar os olhos.

Não sabia por quê.

— Sarah quem?

— Clearwater.

Jacob lembrou do currículo.

— A advogada.

— Exatamente.

— Aceitou o emprego?

— Aceitou conhecer a empresa.

Jacob voltou ao documento.

— Isso não é aceitar.

— É o primeiro passo.

Emmett sentou-se.

— Ela vem amanhã.

— Ótimo.

— Quero que você conheça.

— Por quê?

— Porque você é o presidente.

— Conheço funcionários depois da contratação.

— Você vai conhecer essa antes.

Jacob ergueu os olhos.

— Por quê?

Emmett hesitou.

— Não sei.

— Excelente justificativa.

— Tem alguma coisa nela.

Jacob apoiou a caneta.

— Emmett.

— Não desse jeito.

— Espero que não. Rosalie provavelmente mataria você.

— Eu gostei dela.

— Você gosta de todo mundo.

Emmett ficou sério.

— Não assim.

Jacob percebeu.

— Assim como?

Emmett tentou explicar.

— Parece que eu já conheço Sarah.

Jacob franziu a testa.

— Conhece?

— Não.

— Então não conhece.

— Obrigado, Sherlock.

Jacob voltou ao documento.

— Amanhã tenho reuniões.

— Dez minutos.

— Emmett...

— Cinco.

— Não.

— Três.

Jacob respirou fundo.

— Cinco.

Emmett abriu um sorriso.

— Sabia que você me amava.

— Sai da minha sala.

Emmett levantou-se.

— Amanhã, dez horas.

— Eu disse cinco minutos.

— Cinco minutos às dez.

Saiu.

Jacob balançou a cabeça.

Voltou ao relatório.

Leu duas linhas.

Parou.

Por alguma razão, o nome permanecera em sua cabeça.

Sarah.

Jacob fechou os olhos por um segundo.

Não.

Havia milhares de mulheres com aquele nome.

Milhares.

Pegou a caneta.

Continuou trabalhando.

Mas, do outro lado da cidade, Sarah Clearwater escolhia a roupa que usaria para conhecer a Cullen & Black.

A pequena lua permaneceria escondida.

Emmett não saberia por que gostava tanto dela.

Edward não saberia por que sentiria necessidade de protegê-la.

Irina não saberia por que a odiaria no instante em que a visse.

E Jacob Black não saberia por que, depois de quinze anos tentando esquecer aqueles olhos sem jamais conseguir, bastaria olhar para os olhos de Sarah Clearwater para sentir que o passado acabara de entrar pela porta.