MEMÓRIAS

51 CAPÍTULO 51 -O nome que ficou



As consequências não vieram rapidamente.

Sarah sabia que não viriam.

A vida real não encerrava dezenove anos de crimes numa tarde com algemas, sentença e música dramática.

Vieram depoimentos.

Perícias complementares.

Auditorias.

Medidas judiciais.

Discussões sobre prescrição de determinados delitos patrimoniais e sobre os efeitos dos crimes mais graves.

Vieram advogados.

Vieram contestações.

Vieram versões.

Irina tentou reduzir intenção.

Aro tentou separar conhecimento de participação.

Cada um respondeu dentro do que as provas permitiam imputar.

Sarah não conduziu acusação.

Não pediu para conduzir.

Entregou o que tinha.

Preservou o que precisava.

Prestou depoimento quando chamada.

E saiu.

Essa talvez tenha sido a parte mais difícil.


— Eu não sei ficar fora — confessou a Jacob.

Eles caminhavam pelo parque.

— Percebi.

— Eu quero saber o que estão fazendo.

— Natural.

— Quero corrigir perguntas.

— Muito natural para você.

— Quero entrar naquela sala e dizer que estão ignorando três documentos.

Jacob sorriu.

— Sarah.

— Eu sei.

— Não parece.

Ela parou.

— Eu passei meses reconstruindo isso.

— E fez o que precisava.

— Agora tenho que confiar.

— Sim.

Sarah fez uma careta.

— Odeio.

Jacob riu.

— Eu sei.

Ela voltou a andar.

— Você está gostando muito.

— Um pouco.

Sarah segurou sua mão.

— Insuportável.

— Namorado.

Ela olhou.

— Ainda.

— Ótimo.


O processo de Sarah foi diferente.

Não jurídico.

Identidade.

Ela precisava decidir como viver depois de descobrir que nascera Cullen.

Durante algum tempo, todo formulário parecia uma provocação.

Nome.

Sarah Clearwater.

Sarah Cullen.

Quem era?

Harry percebeu antes de ela falar.

— Você está com medo de mudar o nome.

Sarah olhou para ele.

Estavam na varanda da casa Clearwater.

Sue dentro.

Jacob havia ficado em Nova York de propósito.

Sarah precisava daquele fim de semana só com os pais.

— Estou.

Harry assentiu.

— Então não muda.

Ela ficou surpresa.

— Pai...

— Você é Clearwater.

— Mas também sou Cullen.

— Então seja.

Sarah sentiu os olhos encherem.

— Não é tão simples.

— Por que não?

— Porque parece que qualquer escolha machuca alguém.

Harry inclinou a cabeça.

— Você acha que eu encontrei uma menina no rio para passar quinze anos ensinando ela a ser inteligente e depois exigir que escolha qual pai ama mais?

Sarah riu chorando.

— Quando você fala assim...

— Fica ridículo?

— Muito.

Harry abriu os braços.

— Vem aqui.

Ela foi.

Aos vinte e três anos.

Advogada.

Independente.

Teimosa.

E ainda cabia no abraço do pai.

— Carlisle é seu pai — Harry disse. — Eu também.

Sarah chorou.

— Eu sei.

— Esme é sua mãe.

Sue apareceu à porta.

— E eu também.

Sarah estendeu a mão.

Sue veio.

Os três ficaram abraçados.

— Vocês são irritantemente maduros — Sarah murmurou.

Harry respondeu:

— Espera sua mãe descobrir que você não comeu a fruta que ela mandou.

Sue se afastou.

— Você não comeu?

Sarah olhou para Harry.

— Traidor.


Ela decidiu manter Clearwater.

Não porque recusasse Cullen.

Mas porque aquele nome carregava a vida que realmente vivera.

Legalmente, resolveu o necessário para que sua filiação biológica fosse reconhecida sem apagar sua história adotiva.

Na empresa, porém, fez questão de outra coisa.

Na primeira reunião do conselho depois da regularização de sua situação societária, Sarah entrou ao lado de Edward e Emmett.

Jacob presidia.

Billy estava presente.

Sarah sentou.

Leu os documentos.

E então olhou para Jacob.

Ele sorriu discretamente.

— Dra. Clearwater?

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Sr. Black.

Emmett cochichou para Edward:

— Eles vão fazer isso para sempre?

Edward respondeu:

— Infelizmente.

Sarah ouviu.

— Eu posso excluir os dois da reunião.

Emmett sorriu.

A família estava de volta à empresa.

Não como Irina temera.

Não como Carlisle planejara.

De uma forma nova.


A participação de Sarah foi regularizada.

Ela não assumiu a empresa.

Não queria.

Continuou advogada.

Mas agora conhecia a origem daquele estranho sentimento que tivera no primeiro dia em que entrara ali.

Não destino.

Não sangue chamando sangue.

Memória ambiental.

Familiaridade.

Cheiros.

Arquitetura.

Vozes.

Talvez pequenas associações infantis sobrevivendo sem contexto.

Humano.

Suficiente.


As memórias não voltaram todas.

Essa foi outra verdade que Sarah precisou aceitar.

Ela lembrava da cozinha.

Da lua.

De algumas risadas.

De uma mão masculina segurando a dela.

De Carlisle dizendo alguma coisa perto da porta.

Não sabia as palavras.

Lembrava de Emmett correndo.

De Edward chorando porque perdera alguma coisa.

De Jacob criança implicando com ela.

E lembrava do penhasco.

Essa era a lembrança mais nítida.

Mas já não era a única.

Isso mudou tudo.


Jacob também mudou.

Os pesadelos diminuíram.

Não desapareceram completamente.

Uma noite, Sarah acordou com ele sentado na cama.

Respiração pesada.

Suor na testa.

Ela não perguntou o que sonhara.

Sabia.

Sentou ao lado.

Jacob olhou para as próprias mãos.

— Eu soltei.

Sarah pegou uma delas.

— Não.

Ele fechou os olhos.

— No sonho eu sempre solto.

— Então acorda.

Jacob olhou.

Sarah colocou a mão dele sobre o próprio rosto.

— Você está aqui.

Depois colocou a mão dele sobre o peito dela.

— Eu estou aqui.

Jacob respirou.

— Eu tinha dez anos.

— Sim.

— Tentei segurar você.

— Sim.

— Não foi minha culpa.

Sarah sorriu.

— Não.

Ele fechou os olhos.

Dessa vez as lágrimas vieram sem desespero.

Só cansaço.

Sarah deitou novamente e abriu os braços.

— Vem.

Jacob deitou.

Ela passou os dedos pelos cabelos dele.

Algum tempo depois, ele dormiu.

Sarah ficou acordada mais alguns minutos.

Pensou no menino de dez anos.

Durante quinze anos, Jacob acreditara que aquela mão definia quem ele era.

A mão que falhara.

Sarah conhecia outras.

As mãos que preparavam café.

Que faziam massagens absurdamente perigosas.

Que seguravam Seth quando pequeno.

Que abraçavam Billy.

Que tocavam Sarah como se ela fosse ao mesmo tempo desejada e preciosa.

As mãos de um homem não eram condenadas para sempre por aquilo que não conseguiram fazer quando pertenciam a um menino.

Ela beijou seus dedos.

E dormiu.


Meses depois, o pingente voltou.

Restaurado.

Preservado.

O bilhete retirado permanecia guardado adequadamente.

A pequena lua agora estava vazia.

Sarah segurou-a.

Jacob estava atrás dela.

— Quer ajuda?

— Quero.

Ela virou de costas.

Levantou os cabelos.

Jacob pegou a corrente.

As mãos dele tocaram sua nuca.

Sarah congelou.

Não de medo.

Uma imagem surgiu.

Pequena.

Quente.

Uma cozinha.

Uma mulher atrás dela.

Dedos na nuca.

— Fica quietinha.

Uma risada.

Outra mulher diante dela.

Esme.

Sarah Black atrás.

Sarah criança reclamando:

— Está gelado!

Sarah Black rindo:

— Lua é gelada mesmo.

A imagem desapareceu.

Sarah ficou imóvel.

Jacob percebeu.

— Sarah?

Ela virou lentamente.

Estava chorando.

— Eu lembrei.

— Do quê?

Sarah riu.

— Ela colocou em mim.

— Minha mãe?

— Sim.

Jacob começou a chorar.

Sarah segurou seu rosto.

— E minha mãe estava na frente.

— Você viu Esme?

— Vi.

— Tem certeza?

Sarah respirou.

A advogada apareceu mesmo naquele momento.

— Confiança média.

Jacob riu chorando.

— Claro.

Sarah riu também.

— Mas é minha.

— É sua.

Ele terminou de prender a corrente.

A lua voltou ao peito dela.

Onde sempre estivera.

Agora sem segredo.

Só memória.


Naquela noite, Jacob levou Sarah para jantar.

Nada sofisticado.

O mesmo restaurante onde haviam começado a perceber que o que existia entre eles já não cabia na infância.

Sarah desconfiou.

— O que você está fazendo?

— Comendo.

— Jacob.

— Sarah.

— Você está estranho.

— Você também.

— Eu sou sempre assim.

— Justo.

Ele parecia nervoso.

Muito.

Sarah estreitou os olhos.

— Você fez alguma coisa?

— Não.

— Vai fazer?

Jacob bebeu água.

Sarah quase levantou.

— Jacob Black.

Ele riu.

— Meu Deus, você é impossível.

— Fala.

Jacob respirou.

— Eu tinha planejado fazer isso de uma maneira bonita.

Sarah ficou imóvel.

— Fazer o quê?

Ele tirou uma pequena caixa do bolso.

Sarah parou de respirar.

— Ah.

— Exatamente.

— Ah.

— Primeira vez que deixo uma advogada sem argumento.

— Cala a boca.

Jacob começou a rir.

Depois ficou sério.

Não se ajoelhou imediatamente.

Segurou a mão dela primeiro.

— Eu passei quinze anos acreditando que a coisa mais importante que fiz com essa mão foi tentar segurar a sua.

Sarah sentiu as lágrimas.

— Jake...

— Hoje eu sei que não.

Ele apertou seus dedos.

— A coisa mais importante é que você escolhe segurá-la agora.

Sarah chorou.

— Não quero casar com a menina que caiu do penhasco.

Ela sorriu entre lágrimas.

— Ainda bem.

— Não quero cumprir uma promessa de criança.

Jacob levantou.

Ajoelhou diante dela.

— Quero fazer uma promessa de homem.

Sarah levou a mão à boca.

— Sarah Clearwater, eu amo a mulher que você é. A advogada impossível. A mulher que discute comigo por café, que transforma sentimentos em categorias de prova, que ama duas famílias inteiras e acha que precisa escolher entre elas.

Ela riu chorando.

— Eu amo você quando lembra.

Ele beijou sua mão.

— E amo você quando não lembra.

Sarah chorou mais.

— Amo tudo o que encontrou.

Ele olhou para ela.

— E tudo o que ainda vai construir.

Abriu a caixa.

— Casa comigo?

Sarah olhou para Jacob.

Para o homem.

Não para o menino.

Não para a promessa.

Não para o penhasco.

Para ele.

— Sim.

Jacob fechou os olhos.

Sarah riu.

— Mas—

Ele abriu.

— Tem “mas”?

— Evidentemente.

— Sarah!

Ela segurou o rosto dele.

— Mas você continua fazendo café.

Jacob começou a rir.

— Aceito os termos.

— Então sim.

Ele colocou o anel.

Sarah puxou-o pela camisa e o beijou.

As pessoas ao redor aplaudiram.

Ela não percebeu.

Jacob também não.

Naquela noite, não havia passado entre eles.

Só futuro.