MEMÓRIAS
52 CAPÍTULO 52- Não solte minha mão
Um ano depois.
Sarah estava atrasada para o próprio casamento.
Não muito.
Dezessete minutos.
Segundo ela.
Vinte e nove, segundo Edward.
Quarenta, segundo Emmett.
— Eu tenho registro de horário — Edward avisou.
Sarah olhou para ele pelo espelho.
— Você quer entrar nessa igreja?
— Quero.
— Então são dezessete minutos.
Emmett estava sentado numa poltrona.
— Tecnicamente começou a contar quando—
Sarah apontou.
— Fora.
— Sou seu irmão.
— Fora.
— Mais velho.
— Fora.
— Muito amado.
Sarah tentou não rir.
— Emmett.
Ele levantou.
— Estou indo.
Chegou à porta.
Voltou.
Abraçou-a.
Forte.
Sarah parou.
— Ei.
Emmett fechou os olhos.
— Eu esperei quinze anos por isso.
Ela sentiu lágrimas.
— Pelo meu casamento?
— Por você voltar.
Sarah abraçou o irmão.
— Eu voltei.
— Eu sei.
Ele beijou sua testa.
— E agora aquele idiota vai achar que ganhou.
— Ele ganhou.
Emmett afastou-se horrorizado.
— Nunca diga isso perto dele.
Sarah riu.
Edward estava chorando.
Ela olhou.
— Você também?
— Não.
— Edward.
— Alergia.
— Dentro de uma sala fechada?
— Muito pó.
Sarah abriu os braços.
Edward veio.
O abraço dele foi diferente.
Quieto.
Como ele.
— Minha irmã — murmurou.
Sarah fechou os olhos.
Dessa vez a palavra não doeu.
— Meu irmão.
Harry esperava do lado de fora.
Billy também.
Sarah parou ao vê-los.
Dois homens.
Dois pais.
Um que a criara.
Outro que a amara antes que ela pudesse lembrar e depois ajudara a reconstruir o lugar que sempre tivera naquela família.
Harry olhou para Billy.
— Eu disse que ia entrar sozinho com ela.
Billy levantou as mãos.
— Não estou disputando.
Sarah colocou as mãos na cintura.
— Vocês começaram sem mim?
Harry respondeu:
— Ele está invadindo minha função.
Billy reclamou:
— Carlisle me mataria de novo se eu deixasse você entrar sozinha.
Harry ficou sério.
— Ele não está aqui.
Billy baixou os olhos.
Sarah percebeu.
Pegou a mão de Harry.
Depois a de Billy.
— Então vocês dois vão.
Os dois olharam.
— Sarah...
— Não estou perguntando.
Harry sorriu.
— Essa é minha filha.
Billy respondeu:
— Também é um pouco nossa.
Harry olhou para ele.
Depois sorriu.
— É.
Sue estava na primeira fila.
Ao lado de uma cadeira vazia.
Sobre ela, duas fotografias.
Esme Cullen.
Sarah Black.
Não havia tristeza mórbida.
Havia presença simbólica.
Carlisle também estava ali, numa pequena fotografia ao lado de Charlie.
Não como fantasmas.
Como pessoas que tinham existido.
Amado.
Errado.
Rido.
Criado filhos.
E deixado marcas.
Rosalie chorava antes mesmo da entrada.
Isabella tentava fazer Edward parar de olhar o relógio.
Emmett reclamava que ninguém respeitava o celebrante original da família.
— Eu realizei o primeiro casamento deles!
Edward respondeu:
— Você tinha seis anos e o livro estava de cabeça para baixo.
— Detalhes.
— Eu era testemunha.
— Você tinha quatro.
— Ainda era mais competente.
Rosalie olhou para os dois.
— Vocês conseguem não transformar o casamento dela numa competição infantil?
Os dois responderam juntos:
— Não.
Jacob estava no altar.
Vinte e seis anos.
Terno escuro.
As mãos inquietas.
Paul, ao lado, percebeu.
— Nervoso?
— Não.
— Está quase arrancando o próprio dedo.
Jacob soltou as mãos.
Então a música começou.
Ele olhou.
E esqueceu Paul.
Esqueceu convidados.
Esqueceu tudo.
Sarah apareceu.
Vestido simples.
Elegante.
Cabelos soltos.
Olhos brilhando.
No pescoço, a lua.
Jacob sentiu o peito apertar.
Não porque o pingente pertencesse ao passado.
Mas porque Sarah o usava sem carregar mais um segredo.
Harry de um lado.
Billy do outro.
Sarah olhou diretamente para Jacob.
Sorriu.
E caminhou.
Quando chegou, Harry colocou a mão dela sobre a de Jacob.
— Cuida.
Sarah imediatamente:
— Pai.
Harry olhou.
— O quê?
— Eu também cuido dele.
Jacob sorriu.
Harry pensou.
— Justo.
Billy abraçou Sarah.
Depois Jacob.
— Sua mãe estaria insuportável hoje.
Jacob riu chorando.
— Eu sei.
Billy olhou para Sarah.
— As duas.
Ela entendeu.
Esme.
Sarah Black.
— Eu queria que estivessem aqui.
— Estão naquilo que deixaram em vocês.
Sarah beijou seu rosto.
Billy foi sentar.
Os votos foram simples.
Jacob falou primeiro.
— Quando eu tinha dez anos, fiz uma promessa que uma criança não tinha poder para cumprir.
Sarah sentiu os olhos encherem.
— Passei muito tempo achando que aquela promessa tinha definido minha vida.
Ele segurou as mãos dela.
— Não define.
Silêncio.
— Você me ensinou isso.
Sarah sorriu.
— Hoje eu não prometo impedir você de cair.
Algumas lágrimas apareceram entre os convidados.
— Porque a vida não funciona assim.
Ele apertou seus dedos.
— Prometo estar ao seu lado quando eu puder. Pedir ajuda quando não puder. Respeitar a mulher que você é. Não transformar seu passado numa obrigação. Não exigir lembranças que você não tenha.
Sarah chorava.
— Prometo amar Sarah Cullen.
Pausa.
— Sarah Clearwater.
Outra.
— E qualquer nome que você decidir usar quando estiver brava comigo.
Ela riu.
— Prometo café.
— Importante.
— E prometo que minhas mãos...
Sarah começou a rir antes.
Emmett gritou:
— Não!
A igreja inteira riu.
Jacob também.
— ...serão usadas com responsabilidade.
Sarah aproximou-se.
— Mentiroso.
— Estou tentando casar aqui.
— Continua.
Ele respirou.
— Prometo escolher você todos os dias em que você também quiser me escolher.
Sarah apertou sua mão.
— Eu quero.
Então foi a vez dela.
Sarah olhou para Jacob.
Tinha preparado um texto.
Quatro páginas.
Revisado.
Organizado.
Naturalmente.
Mas não pegou.
— Eu escrevi meus votos.
Jacob sorriu.
— Claro que escreveu.
— Com tópicos.
Emmett soltou uma gargalhada.
— Claro!
Sarah continuou:
— Mas não vou usar.
Jacob ficou surpreso.
Ela respirou.
— Quando acordei no hospital aos oito anos, eu sabia meu primeiro nome.
Só isso.
Sue chorou.
Harry segurou sua mão.
— Passei quinze anos sendo Sarah Clearwater. E fui feliz. Tive pais maravilhosos. Uma casa. Uma vida. Uma profissão.
Olhou para Harry e Sue.
— Nada disso foi mentira.
Depois para Emmett e Edward.
— Então descobri que tinha sido outra Sarah antes.
Sua voz tremeu.
— Uma filha. Uma irmã.
Olhou para Billy.
— Uma criança amada por pessoas que eu não conseguia lembrar.
Finalmente, Jacob.
— E encontrei você.
Ele chorava.
— No começo, achei que precisava descobrir quem eu tinha sido para entender o que sentia por você.
Sarah sorriu.
— Depois percebi que estava fazendo a pergunta errada.
Apertou suas mãos.
— Eu não amo você porque uma menina de oito anos segurou sua mão num penhasco.
Jacob fechou os olhos.
— Amo porque o homem que você se tornou aprendeu a segurá-la sem me prender.
Silêncio absoluto.
— Você nunca me pediu para ser Sarah Cullen.
Ela respirou.
— Nunca pediu que eu deixasse de ser Sarah Clearwater.
— Nunca.
— Você apenas me deixou ser as duas.
Sarah sorriu entre lágrimas.
— Então eu prometo o mesmo.
Tocou o rosto dele.
— Amar o menino sem responsabilizá-lo pelo que aconteceu.
Depois colocou a mão sobre o peito dele.
— E amar o homem sem obrigá-lo a pagar pelo menino.
Jacob chorou.
Sarah também.
— Eu escolho você, Jacob.
Pausa.
— Não porque lembro.
Sorriu.
— Porque sei.
A cerimônia terminou entre lágrimas, risadas e Emmett insistindo que a primeira tinha sido juridicamente válida.
Na festa, Harry dançou com Sarah.
Depois Billy.
Edward.
Emmett.
Charlie.
Quando finalmente chegou a vez de Jacob, Sarah estava exausta.
— Quero tirar esse sapato.
— Romântico.
— Muito.
Jacob segurou sua cintura.
Ela passou os braços pelo pescoço dele.
— Marido.
Ele sorriu.
— Esposa.
Sarah riu.
— Demorou quinze anos para a brincadeira virar verdade.
— Emmett vai usar isso como argumento.
— Nunca conte.
— Ele estava lá.
— Problema.
Mais tarde, escaparam da festa por alguns minutos.
Foram para o jardim.
Sarah tirou os sapatos.
Jacob carregou.
— Elegante.
— Casei. Não preciso mais impressionar.
— Fraude.
— Prazo para anulação?
— Já passou.
— Faz vinte minutos.
— Exatamente.
Sarah riu.
Caminharam de mãos dadas.
Até chegarem perto de uma pequena ponte sobre o lago.
Sarah parou.
Água.
Durante muito tempo, água corrente provocara uma sensação estranha.
Nem sempre medo.
Mas algo.
O corpo lembrando antes da mente.
Jacob percebeu.
— Quer voltar?
Sarah olhou para a água.
Depois para ele.
— Não.
Subiu na ponte.
Jacob foi junto.
Sarah ficou olhando.
— Sabe o que é estranho?
— Muita coisa na nossa vida.
— Verdade.
Ela sorriu.
— Eu passei tanto tempo querendo lembrar de tudo.
— E agora?
— Não quero mais.
Jacob ficou surpreso.
Sarah explicou:
— Quero lembrar do que vier.
Olhou para a água.
— E viver o que ainda não aconteceu.
Jacob beijou sua testa.
— Parece um bom plano.
— Evidentemente. Foi meu.
— Claro.
Sarah ficou em silêncio.
Então uma imagem veio.
Não violenta.
Não completa.
Quatro crianças correndo por um corredor.
Emmett com um livro de cabeça para baixo.
Edward reclamando.
Jacob criança diante dela.
Sarah pequena segurando flores arrancadas do jardim.
Uma voz.
Emmett:
— Agora vocês estão casados.
Edward:
— Você não pode fazer isso.
Jacob criança:
— Posso sim.
Sarah criança:
— Então eu sou sua esposa?
Jacob:
— É.
Uma gargalhada.
Talvez Sarah Black.
Talvez Esme.
Depois a pequena Sarah estendendo a mão.
— Então não solta.
A lembrança desapareceu.
Sarah ficou imóvel.
Jacob percebeu.
— Veio alguma coisa?
Ela olhou para ele.
Durante meses teria pegado o telefone.
Registrado.
Classificado.
Confiança média.
Possível contaminação.
Relato prévio.
Dessa vez não.
Era uma lembrança pequena.
Talvez perfeita.
Talvez não.
Não precisava decidir naquela noite.
Sarah sorriu.
— Uma coisa boa.
— Quer contar?
Ela pensou.
— Depois.
Jacob assentiu.
Sem pressionar.
Como sempre.
Voltaram para a festa.
Emmett imediatamente apontou.
— Eles fugiram!
Sarah respondeu:
— Cinco minutos.
— Trinta e dois.
Edward olhou o relógio.
— Nove.
Emmett ficou indignado.
— Traidor.
Rosalie puxou-o.
Paul ria.
Isabella beijou Edward.
Harry discutia com Billy.
Sue tentava organizar todo mundo para uma fotografia.
Charlie segurava duas taças sem saber de quem eram.
Sarah parou.
Olhou.
Sua família.
Não uma.
Duas.
Talvez três, se contasse todos aqueles que tinham entrado pelo caminho.
Jacob estendeu a mão.
— Vem.
Sarah olhou para ela.
Por um segundo, viu outra.
Menor.
Mão de menino.
Terra.
Sangue.
Desespero.
Não me deixa cair.
Depois a imagem desapareceu.
Restou a mão diante dela.
Grande.
Quente.
Do homem que amava.
Sarah colocou a sua sobre ela.
Jacob entrelaçou os dedos.
— Pronta?
Ela sorriu.
— Sempre.
Começaram a andar.
Então Sarah puxou-o de volta.
— Jake?
— Hum?
Ela apertou a mão dele.
E disse, sorrindo:
— Não solte minha mão.
Jacob ficou imóvel.
Por um instante, os olhos se encheram.
Mas dessa vez não havia terror naquela frase.
Não havia penhasco.
Não havia uma criança implorando para ser salva.
Havia uma mulher escolhendo companhia.
Jacob levou a mão dela aos lábios.
— Enquanto você quiser segurá-la.
Sarah sorriu.
— Boa resposta.
— Aprendi com uma advogada assustadora.
— Sua esposa.
— Minha esposa assustadora.
Ela riu.
E caminharam de volta.
Não para recuperar o que tinham perdido.
Não para repetir uma história interrompida.
Mas para continuar uma história que, contra tudo o que tentaram fazer com eles, ainda era deles.
Sarah não precisava lembrar de cada dia da primeira infância para saber que fora amada.
Jacob não precisava carregar para sempre a culpa por uma mão que escorregara quando ele tinha dez anos.
Billy não precisava ter previsto o impossível.
Harry e Sue não precisavam deixar de ser pais para que Carlisle e Esme também fossem.
Emmett e Edward não precisavam recuperar a irmã que perderam exatamente como ela era.
Porque Sarah não era apenas a menina que desaparecera.
Era também a mulher que voltara.
A menina do rio.
A filha dos Clearwater.
A filha dos Cullen.
A irmã.
A advogada.
A esposa.
Sarah.
Simplesmente Sarah.
E, quando a fotografia foi tirada, Jacob estava atrás dela, uma das mãos em sua cintura.
Emmett reclamava que Paul estava cobrindo seu rosto.
Edward mandava todos ficarem quietos.
Rosalie ria.
Isabella tentava organizar os homens.
Billy e Harry discutiam sobre quem deveria ficar mais perto da noiva.
Sue resolveu colocando um de cada lado.
Charlie sorria.
Sarah olhou para todos.
Depois para Jacob.
E, no exato instante em que a câmera registrou aquela família impossível, reconstruída e barulhenta, ela pensou que talvez tivesse passado tempo demais procurando o instante em que sua vida havia se partido.
Porque agora sabia uma coisa muito mais importante.
Sua história não terminara quando ela caiu.
Na verdade, de muitas maneiras, ela ainda estava começando.
FIM
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