MEMÓRIAS

50 CAPÍTULO 50 - A primeira mentira



O QUE IRINA ACREDITAVA QUE SARAH CULLEN TINHA AOS QUATRO ANOS?

Sarah ficou olhando para ela durante tanto tempo que Emmett perdeu a paciência.

— Posso fazer uma sugestão?

— Pode.

— Pergunta para Irina.

Sarah virou lentamente.

— Extraordinário.

— Obrigado.

— Dezenove anos de investigação resolvidos.

— Às vezes vocês complicam.

Edward fechou os olhos.

— Ele não está completamente errado.

Emmett apontou.

— Obrigado.

— Eu disse “completamente”.

Sarah quase sorriu.

Jacob estava ao lado do quadro.

— Irina não vai responder.

— Talvez não — Sarah disse. — Mas agora sabemos exatamente o que perguntar.

Billy franziu a testa.

— E se a resposta não tiver nada a ver com o pingente?

Sarah olhou para ele.

— Acho que não tem.

Jacob percebeu.

— Você já tem uma hipótese.

— Tenho.

— Vai falar?

Sarah respirou.

— Sarah Black desconfiou de Irina antes do acidente. Robert tinha documentos. Esme sabia pelo menos parte da história. Irina mandou observar a casa. Um homem perguntou qual criança era Sarah.

Apontou para a fotografia.

— Mas isso aconteceu antes de o bilhete ser colocado no pingente.

Depois para o dispositivo de Carlisle.

— E quatro anos antes de Carlisle colocar qualquer prova comigo.

Voltou à pergunta.

— Então Irina não procurava uma prova que eu carregava.

Edward entendeu.

— Procurava uma prova que acreditava que você pudesse conhecer.

Sarah assentiu.

— Ou ter visto.

Billy ficou imóvel.

— Aos quatro anos?

— Crianças veem coisas.

Silêncio.

— E adultos frequentemente cometem o erro de achar que elas não entendem.


A resposta estava no envelope azul.

Só não haviam percebido.

Uma anotação de Robert, três semanas antes do primeiro acidente:

“S.B. diz que pequena S. entrou no escritório quando I. estava lá.”

Sarah sentiu o coração acelerar.

Abaixo:

“I. ficou nervosa. Perguntou depois o que menina falou.”

Jacob aproximou-se.

— Que escritório?

Billy respondeu antes que Sarah perguntasse.

— Meu escritório em casa.

Todos olharam.

— Irina esteve lá?

Billy fechou os olhos.

— Algumas vezes. Questões da empresa.

Sarah escreveu:

SARAH, 4 ANOS, ENTRA NO ESCRITÓRIO ENQUANTO IRINA ESTÁ PRESENTE.

— O que eu vi?

Billy balançou a cabeça.

— Não sei.

— Quem pode saber?

Ele pensou.

— Sua mãe.

Sarah sentiu a palavra.

Não Esme.

Não Sarah Black.

Sua mãe.

Billy falava de Esme.

E estava certo.

— Esme viu?

— Não sei. Mas Sarah Black pode ter contado.

Rosalie imediatamente voltou aos documentos de Robert.

Encontraram outra anotação.

“S.B.: menina disse ‘tia estava guardando papéis do papai’.”

Silêncio.

Edward ficou imóvel.

Sarah sentiu um arrepio.

— Eu falei isso?

— Segundo Robert, Sarah Black disse que você falou.

— Terceiro grau de relato.

— Sim.

— Não é memória minha.

— Não.

Mas havia mais.

“I. perguntou se criança sabe ler.”

Emmett soltou:

— Meu Deus.

Sarah continuou.

“S.B. respondeu: não importa, ela sabe contar.”

Jacob ficou imóvel.

— Sua mãe percebeu.

Billy fechou os olhos.

— Sarah percebeu que Irina estava com medo de uma criança.


Os documentos financeiros encontrados no envelope azul finalmente ganharam contexto.

Irina e Aro não estavam apenas estudando a empresa.

Havia pagamentos não autorizados.

Consultorias fictícias.

Serviços superfaturados.

Valores que saíam de estruturas ligadas à Cullen & Black por intermédio do Volturi & Associados.

Não era uma fortuna capaz de destruir a empresa.

Mas era suficiente para configurar um esquema que, se descoberto, acabaria com carreiras, contratos e a posição de ambos junto à família.

Sarah olhou para Edward.

— Auditoria independente?

— Confirmou parte relevante.

— Destino final?

— Empresas ligadas a pessoas próximas de Aro e Irina.

— Então agora podemos chamar de desvio?

Edward quase sorriu.

— Agora?

Sarah leu o relatório.

— Agora.

Emmett levantou os braços.

— Finalmente.


Sarah tinha quatro anos quando entrou no escritório de Billy.

Irina estava copiando documentos que não deveria ter.

A menina não compreendeu valores.

Não compreendeu contratos.

Não compreendeu crime.

Mas viu.

E contou.

Tia Irina estava guardando papéis do papai.

Sarah Black ouviu.

Começou a observar.

Encontrou movimentações.

Procurou Robert.

Irina percebeu.

Mandou vigiar a casa para descobrir quanto Sarah Black sabia e se a criança continuava falando.

O interesse em Sarah Cullen não começara com herança.

Nem com o pingente.

Nem com Carlisle.

Começara com uma menina de quatro anos entrando no lugar errado na hora errada.

Sarah ficou diante do quadro.

— Era isso.

Jacob aproximou-se.

— Você viu.

— Sim.

— E esqueceu.

Sarah olhou para ele.

— Antes mesmo da amnésia, provavelmente eu nem entendia.

Edward completou:

— Mas Irina não tinha como saber o quanto você lembraria.

— Exatamente.


Quando Irina foi confrontada com a reconstrução, ficou em silêncio durante quase quarenta minutos.

Depois pediu para falar.

Seu advogado tentou impedir.

Ela insistiu.

A pergunta foi simples:

— Por que a senhora mandou descobrir qual das crianças era Sarah Cullen?

Irina olhou para a mesa.

— Porque ela me viu.

Sarah fechou os olhos ao receber a notícia.

Dezenove anos.

Finalmente.

— Viu o quê?

— Documentos.

— Quais?

— Eu estava copiando contratos.

— Sem autorização?

— Sim.

— Por quê?

Irina respirou.

— Aro e eu estávamos retirando dinheiro.

Não havia mais espaço.

Ela contou.

Não tudo de uma vez.

Não com grande confissão teatral.

Em pedaços.

Feios.

Humanos.

Começara pequeno.

Favores.

Comissões.

Depois empresas intermediárias.

Pagamentos.

Billy e Carlisle confiavam no escritório.

Irina usara essa confiança.

Sarah Cullen entrara no escritório.

Vira papéis sendo colocados numa pasta.

Depois contara a Sarah Black.

Sarah Black começara a investigar.

— Então a senhora mandou vigiá-la?

— Sim.

— Pretendia matá-la naquele momento?

— Não.

— Então por que a vigilância?

— Eu queria saber o que ela sabia.

— E descobriu?

— Que ela tinha documentos.

— Com Robert Hale.

Irina fechou os olhos.

— Sim.


Então veio a T-6.

Irina repetiu o que já admitira.

Queria provocar uma falha.

Assustar Sarah Black.

Criar um problema que pudesse parecer negligência.

Fazer Billy perder confiança na esposa.

Ganhar tempo para recuperar documentos.

E, em alguma parte do pensamento distorcido que cultivara durante anos, ainda acreditava que, se Sarah Black saísse da vida de Billy, poderia finalmente existir espaço para ela.

Não planejou, segundo sua versão, a morte.

Mas conhecia o risco.

Interferiu mesmo assim.

Depois se arrependeu.

Voltou.

Tentou desfazer.

Falhou.

Sarah Black e Esme morreram.

E Irina se calou.


— E quatro anos depois? — veio a pergunta.

Irina chorou.

— Carlisle descobriu.

— Descobriu o quê?

— Quase tudo.

— E Sarah Cullen?

Silêncio.

— Por que a senhora perguntou o que aconteceria se ela desaparecesse?

Irina fechou os olhos.

— Porque Carlisle dizia que ela lembrava coisas.

Sarah ficou imóvel.

— Que coisas?

— Do escritório.

— Quatro anos depois?

— Às vezes.

Billy levou a mão à boca.

Sarah tinha oito anos.

Talvez alguma memória infantil tivesse sobrevivido.

Talvez dissesse frases soltas.

Talvez Carlisle tivesse começado a ligar pontos.

— A senhora pretendia matar Sarah?

— Não.

— Pretendia fazê-la desaparecer?

— Não.

— Então por que perguntou?

Irina chorou.

— Porque eu queria saber o que aconteceria se tudo desse errado.

Sarah fechou os olhos.

Não era uma resposta bonita.

Era pior.

Irina ensaiava cenários.

Carlisle morto.

Sarah ausente.

Herdeiros menores.

Empresa vulnerável.

Não necessariamente porque tivesse um plano fechado para cada um.

Mas porque já aceitava a possibilidade de que pessoas desaparecessem quando se tornavam obstáculos.


Sobre a emboscada, Irina finalmente admitiu o que ainda negara.

Sabia que Carlisle estava com as crianças antes da confirmação da operação.

Não cancelou.

Queria a pasta.

Queria impedir Carlisle de chegar a Charlie.

Foi à estrada quando recebeu notícia de que a interceptação saíra do controle.

Victor Vale já perseguia o veículo.

Carlisle parou.

Mandou as crianças correrem.

Victor disparou durante a perseguição.

Outro homem foi atrás delas porque vira Carlisle entregar alguma coisa a uma das crianças.

Sarah sentiu o coração parar.

— Qual?

Irina respondeu:

— Eu não sabia.

— Então por que perseguiram Sarah?

— Não perseguiram Sarah especificamente.

Silêncio.

— Um dos homens foi atrás das crianças. Depois elas se separaram.

Aquilo corrigia uma sombra que ameaçara crescer demais.

Sarah não fora escolhida no bosque.

Não houvera ordem para empurrá-la.

Não houvera plano para fazê-la cair no rio.

Ela e Jacob haviam simplesmente fugido.

Dois meninos seguiram por um lado.

Duas crianças por outro.

E o penhasco veio depois.

Terrível.

Mas não planejado.


A perícia histórica, cruzada com o depoimento de Daniel Cross, fechou a última grande lacuna.

Victor Vale efetuara os disparos durante a perseguição.

Um deles atingira Carlisle.

O disparo fatal era compatível com a arma posteriormente apreendida de Victor em outro procedimento anos depois.

Não havia prova de que Irina tivesse atirado.

Não havia prova de que Aro estivesse na estrada.

Mas havia evidência suficiente de que Irina organizara e mantivera a interceptação mesmo sabendo das crianças.

E de que Aro autorizara o pagamento, ajudara a afastar Billy e conhecia o risco de violência.

Sarah leu o relatório.

Depois fechou.

— Acabou?

Edward perguntou.

Ela olhou para ele.

— A investigação da família?

Respirou.

— Sim.

— E a criminal?

— Agora pertence a quem sempre deveria pertencer.

Às autoridades.

Não a ela.


Naquela noite, Sarah pediu uma coisa.

Todos na casa de Billy.

Harry.

Sue.

Charlie.

Isabella.

Rosalie.

Emmett.

Edward.

Jacob.

Billy.

Nenhum quadro.

Nenhum documento.

Nenhuma perícia.

Só jantar.

Harry e Billy discutiram sobre carne.

Sue e Rosalie assumiram a cozinha para impedir um desastre.

Emmett roubou comida antes de servir.

Edward reclamou.

Isabella roubou do prato dele em seguida.

Jacob olhou para Sarah.

Ela estava parada no meio da sala.

— O que foi?

Sarah sorriu.

— Nada.

— Você está chorando.

— Eu sei.

— Quer sair?

Ela balançou a cabeça.

— Não.

Olhou ao redor.

— Quero ficar exatamente aqui.

Jacob segurou sua mão.

Sarah apertou.

E ficou.

Porque, depois de dezenove anos investigando mortos, documentos e silêncios, finalmente havia uma verdade que não precisava de perícia.

A família dela estava viva.

E estava reunida.