MEMÓRIAS

46 CAPÍTULO 46 - Quem restaria



O pedido de cópia do testamento de Carlisle permaneceu no quadro durante toda a manhã.

TRÊS DIAS ANTES DA EMBOSCADA — VOLTURI & ASSOCIADOS SOLICITA CÓPIA DO TESTAMENTO DE CARLISLE.

Abaixo:

SOLICITAÇÃO: I.V.

Sarah estava diante dele quando Jacob entrou.

Dessa vez, não trouxe café.

Ela olhou para as mãos vazias.

— Onde está?

— O quê?

— Meu café.

— Você acabou de olhar para mim como se eu tivesse esquecido uma criança no supermercado.

— Jacob.

Ele colocou uma mão no peito.

— Então era o café.

— Você criou um padrão de conduta e agora precisa respeitá-lo.

— Estou sendo juridicamente obrigado a fornecer cafeína?

— Contrato tácito.

— Nunca assinei.

— Execução continuada.

Jacob começou a rir.

Então tirou o copo que escondia atrás das costas.

Sarah estreitou os olhos.

— Infantil.

— Funcionou.

Ela pegou.

— Eu amo você.

Jacob apontou imediatamente.

— Prova número quarenta e sete de que é por causa do café.

Sarah beijou-o.

— Isso também é por causa do café?

— Espero que não.

Ela voltou ao quadro.

O sorriso desapareceu.

— Quero saber por que Irina pediu o testamento.

— Eu também.

— E quero saber exatamente o que ela recebeu.


A resposta veio do escritório que, dezenove anos antes, cuidava de parte do planejamento sucessório de Carlisle.

O testamento não fora alterado na semana da morte.

Essa foi a primeira informação importante.

A segunda era que Irina não recebera o original.

Recebera uma certidão resumida das disposições patrimoniais relevantes, mediante justificativa de análise societária.

Sarah leu.

— Então ela sabia.

Edward aproximou-se.

— O quê?

— A estrutura.

Billy fechou os olhos.

Carlisle possuía cinquenta por cento da Cullen & Black.

O restante pertencia a Billy.

As disposições sucessórias protegiam os filhos de Carlisle.

Irina tinha direito específico a dez por cento do total da empresa, conforme a estrutura testamentária já conhecida.

O restante da participação Cullen seria destinado aos herdeiros.

E havia outra cláusula.

Billy Black seria o responsável indicado por Carlisle para assumir a tutela dos filhos caso necessário, nos limites admitidos juridicamente.

Emmett soltou o ar.

— Ela sabia que matar Carlisle não entregaria a empresa para ela.

Sarah assentiu.

— Sim.

Edward completou:

— Porque Billy continuaria com os cinquenta dele e ainda ficaria responsável por nós.

— Exatamente.

Jacob franziu a testa.

— Então não faz sentido.

Sarah virou.

— Faz se o objetivo não fosse obter tudo imediatamente.

Billy olhou para ela.

— Explique.

— Com Carlisle vivo, Irina tinha pouco espaço. Com Carlisle morto, ela passaria a ter participação direta e poderia tentar aumentar influência sobre os herdeiros, questionar Billy, interferir na administração, provocar disputas de tutela, pressionar decisões societárias...

Edward completou:

— Mas ainda precisaria romper a unidade da família.

Sarah assentiu.

— Sim.

Emmett ficou sério.

— E nunca conseguiu.

Billy olhou para os três Cullen.

Depois para Jacob.

— Porque vocês quatro foram criados juntos.

O silêncio caiu.

Quatro.

Sempre quatro.

Até Sarah desaparecer.


Sarah escreveu:

MORTE DE CARLISLE ≠ CONTROLE AUTOMÁTICO DA EMPRESA.

Abaixo:

MAS ALTERA A ESTRUTURA DE PODER.

Depois:

DESAPARECIMENTO/MORTE PRESUMIDA DE SARAH ALTERA NOVAMENTE ESSA ESTRUTURA.

Jacob ficou imóvel.

— Você acha que ela queria que Sarah morresse naquela noite?

Sarah virou imediatamente.

— Não sabemos.

— Mas ela consultou o testamento.

— Sim.

— Três dias antes.

— Sim.

— E depois Sarah desaparece.

— Isso cria uma pergunta legítima. Não uma resposta.

Jacob assentiu.

Não insistiu.

Sarah percebeu.

Meses antes ele teria feito.

Agora sabia suportar a incerteza.

Ela apertou discretamente sua mão.


A investigação sobre a solicitação do testamento encontrou uma segunda peça.

No mesmo dia em que Irina pediu a certidão, alguém do Volturi & Associados solicitou uma simulação societária.

Não de morte.

De sucessão.

O documento dizia:

“Hipótese: falecimento do acionista C.C. com herdeiros menores.”

Sarah sentiu o estômago apertar.

Edward leu.

— Isso é normal?

— Em planejamento societário, pode ser.

— Três dias antes de ele morrer?

— O contexto torna extremamente relevante.

Emmett apontou.

— Quem pediu?

Sarah continuou lendo.

I.V.

Silêncio.

— E o que ela queria saber? — Billy perguntou.

Sarah passou à página seguinte.

Governança.

Representação dos herdeiros.

Direitos de voto.

Possibilidade de administração provisória.

Participação da irmã do falecido.

E uma pergunta específica:

“Ausência de um dos herdeiros altera exercício de direitos até declaração judicial?”

Sarah parou.

Jacob também.

Edward ficou branco.

Emmett levantou.

— Sarah.

Ela não respondeu imediatamente.

Leu outra vez.

Ausência de um dos herdeiros.

Três dias antes da emboscada.

Antes de Sarah Cullen desaparecer.


— Não — Sarah disse.

Emmett olhou.

— Não o quê?

— Não vamos concluir que ela planejava meu desaparecimento a partir dessa frase.

— Sarah...

— Pode significar ausência civil. Herdeiro no exterior. Incapacidade de localização. Qualquer hipótese jurídica.

Edward aproximou-se.

— Mas por que essa pergunta especificamente?

— É exatamente o que precisamos descobrir.

Jacob estava muito quieto.

Sarah olhou para ele.

— Fala.

— Não quero contaminar.

Ela quase sorriu.

— Está aprendendo mesmo.

— Estou tentando.

— Qual é a pergunta?

— Se Irina perguntou sobre um herdeiro ausente três dias antes e você foi a única herdeira que desapareceu...

Ele parou.

— Quero saber se seu nome estava naquela simulação.

Sarah respirou.

— Boa pergunta.


Não estava.

Pelo menos não diretamente.

Os filhos eram designados apenas:

H1.

H2.

H3.

Três herdeiros.

Emmett.

Edward.

Sarah.

Sem correspondência nominal.

Mas uma tabela simulava cenários.

Todos presentes.

Um ausente.

Um falecido.

Dois incapazes.

Representação por tutor.

Sarah leu tudo.

Era um estudo jurídico.

Frio.

Abstrato.

Mas produzido três dias antes de Carlisle morrer.

Solicitado por Irina.

— Quem fez? — Edward perguntou.

— Advogado associado do Volturi.

— Vivo?

— Sim.


O nome era Frederick Mason.

Setenta e dois anos.

Aposentado.

A abordagem foi formal.

Sem revelar primeiro o que a família suspeitava.

Frederick lembrava de Carlisle.

Lembrava de Billy.

Lembrava de Irina.

E lembrava da simulação.

Não porque tivesse imaginado que seria importante.

Mas porque achara o pedido estranho.

— Por quê?

— Porque não havia operação sucessória em andamento.

— O que Irina disse?

Frederick pensou.

— Que Carlisle estava revisando o testamento.

Não havia evidência de que estivesse.

— Ela perguntou sobre algum filho específico?

— Não no início.

Sarah ficou imóvel ao ler.

No início.

— E depois?

Frederick respirou.

— Perguntou sobre a menina.

Silêncio.

Jacob apertou a mão de Sarah.

— Qual menina?

— A filha.

— Sarah Cullen?

— Sim.


Sarah largou a transcrição.

Ninguém falou.

Ela levantou.

Foi até a janela.

Jacob não a seguiu imediatamente.

Sabia.

Esperou.

Sarah respirou.

— Continua.

Edward leu.

Frederick dizia que Irina fizera perguntas sobre a posição sucessória de Sarah.

Não sobre Emmett.

Não sobre Edward.

Especificamente Sarah.

— Por quê?

Frederick respondeu que Irina mencionara uma possível alteração testamentária relacionada à filha.

Ele não viu documento.

Apenas recebeu a pergunta.

— Qual alteração?

— Se Carlisle deixasse participação maior para Sarah no futuro.

Sarah virou.

Billy franziu a testa.

— Carlisle nunca falou disso comigo.

Emmett também negou.

Edward não sabia.

Sarah perguntou:

— Existe qualquer documento de alteração?

Não.

Nenhum.

Era possível que Irina estivesse especulando.

Ou que soubesse de algo que não chegara a ser formalizado.


Frederick lembrava de outra pergunta.

— Se uma criança desaparecesse e não fosse encontrada, quanto tempo levaria para os direitos dela deixarem de ser exercidos?

Silêncio.

Dessa vez Sarah não conseguiu relativizar imediatamente.

Porque era específica demais.

— Documento? — perguntou.

Havia.

Frederick fizera uma nota manuscrita durante a reunião:

“I.V. pergunta ausência de herdeiro menor / desaparecimento / representação patrimonial.”

Data:

três dias antes da emboscada.

Jacob fechou os olhos.

Emmett disse:

— Agora pode?

Sarah ficou olhando para a nota.

— Agora podemos afirmar que Irina perguntou especificamente sobre as consequências patrimoniais do desaparecimento de um herdeiro menor três dias antes de eu desaparecer.

— Você.

— O documento não diz meu nome nessa linha.

Edward respondeu:

— Mas Frederick diz que a conversa era sobre você.

— Sim.

— Então...

Sarah respirou.

— Isso é extremamente grave.

Foi o máximo que conseguiu dizer.


Irina foi confrontada.

Seu advogado pediu acesso integral ao documento.

Depois recomendou silêncio.

Irina ignorou.

— Eu estava fazendo meu trabalho.

— Qual trabalho?

— Planejamento societário.

— Carlisle solicitou?

— Não.

— Billy?

— Não.

— Conselho?

— Não.

— Então quem solicitou?

Irina ficou quieta.

— A senhora.

Silêncio.

— Por que perguntou sobre Sarah Cullen?

Irina fechou os olhos.

— Porque Carlisle a tratava diferente.

Sarah ficou imóvel quando recebeu.

— Diferente como?

Irina respondeu:

— Era a única filha.

Emmett fez uma careta.

— E daí?

Edward estava sério.

Irina continuara.

Carlisle era extremamente protetor com Sarah.

Falara algumas vezes, informalmente, que queria garantir que ela tivesse independência patrimonial quando adulta.

Nada disso equivalia a mudança de testamento.

Mas Irina temera que Carlisle alterasse a estrutura.

— Então investigou o que aconteceria se Sarah desaparecesse?

Silêncio.

— Dra. Volturi?

Irina não respondeu.


A pergunta seguinte foi direta:

— A senhora sabia que as crianças estariam com Carlisle no dia da emboscada?

— Não.

— Quando descobriu?

Irina ficou em silêncio.

— Antes ou depois da interceptação começar?

O advogado interveio.

Irina não respondeu.

Essa pergunta passou a ser central.

Porque o plano original, segundo os documentos, era simples:

Billy ficaria com as crianças.

Carlisle iria sozinho encontrar Charlie.

Alguém alterou o cenário ao convocar Billy.

Mas isso não significava automaticamente que quem convocou Billy pretendesse que Carlisle levasse as crianças.

Talvez esperassem que ele cancelasse.

Talvez houvesse outra pessoa para ficar com elas.

Talvez o plano tenha mudado.

Sarah escreveu:

QUANDO IRINA SOUBE QUE AS QUATRO CRIANÇAS ESTAVAM COM CARLISLE?


A resposta veio de um registro telefônico.

Às 16h32, quinze minutos depois da entrada de Billy na empresa, houve uma ligação da residência Cullen para o Volturi & Associados.

Duração:

2 minutos e 08 segundos.

A linha da residência Cullen.

Sarah ficou imóvel.

— Quem ligou?

Não havia identificação automática.

Precisavam saber quem estava na casa.

Carlisle.

As quatro crianças.

Possivelmente funcionário doméstico.

A ligação poderia ter sido de qualquer adulto presente.

Ou até uma criança, embora menos provável.

Billy tentou lembrar.

— Carlisle me ligou naquele fim de tarde.

Sarah virou.

— Tem certeza?

— Lembro de ele estar irritado porque eu tinha sido chamado de última hora.

— Para onde ligou?

— Não sei se para meu escritório ou para o Volturi.

Sarah não usou a lembrança como resposta.

Continuaram.

Nos registros internos do Volturi havia uma anotação:

16h34 — C.C. procura B.B. / informado em reunião.

Sarah fechou os olhos.

— Carlisle.

Edward assentiu.

Carlisle ligara para o escritório procurando Billy.

Isso colocava o Volturi & Associados em posição de saber que Carlisle estava com um problema de logística.

Mas não necessariamente que as crianças estavam com ele.

Então apareceu uma segunda anotação.

“C.C. diz que está com os quatro.”

Silêncio.

Jacob levantou.

— Eles sabiam.

Sarah leu novamente.

— O escritório sabia às 16h34 que Carlisle estava com as quatro crianças.

— Quem recebeu?

— Recepção.

— Quem teve acesso?

— Precisamos descobrir.


A antiga recepcionista ainda estava viva.

Margaret Ellis, 67 anos.

Ela lembrava pouco da ligação.

Mas reconheceu a própria letra na anotação.

Disse que Carlisle estava irritado.

Perguntou por Billy.

Ela informou que Billy estava em reunião.

Carlisle respondeu algo como:

— “Ele devia estar aqui. Estou com os quatro.”

Margaret anotou.

Depois transferiu informação.

— Para quem?

Ela pensou.

— Dra. Irina.

Sarah perguntou:

— Isso é lembrança específica ou rotina?

Margaret parou.

— Boa pergunta.

Pensou.

— A transferência é rotina. Não consigo afirmar que lembro de fazer naquele dia.

Sarah assentiu.

ROTINA ≠ MEMÓRIA DO DIA.

Mas havia outro documento.

Às 16h38, quatro minutos depois da anotação:

ramal recepção → ramal I.V.

Duração:

46 segundos.

Agora havia corroboração.

Não do conteúdo.

Mas da comunicação.

Irina poderia ter sabido às 16h38 que Carlisle estava com os quatro.


Jacob ficou diante do quadro.

— E mesmo assim a emboscada aconteceu.

Sarah assentiu.

— Sim.

— Então quando os veículos foram contratados?

Boa pergunta.

A ordem de serviço havia sido aberta no dia anterior.

Mas o horário final fora confirmado às 17h02 no próprio dia.

Depois de Irina poder saber que Carlisle estava com as crianças.

Silêncio.

Emmett ficou pálido.

— Ela poderia ter cancelado.

Sarah respirou.

— Se foi ela quem confirmou e se sabia exatamente quem estava no carro, sim. Precisamos estabelecer os dois pontos.

A ordem de serviço final continha apenas:

“Cliente confirma execução.”

Código do cliente:

V&A-17.

Nenhum nome.

Mas havia registro telefônico.

Às 16h58, ramal de Irina para a empresa de segurança.

4 minutos e 21 segundos.

A ordem é confirmada às 17h02.

Ninguém falou.

Sarah sentou.

— Agora temos uma sequência.

Escreveu:

16h17 — BILLY CHEGA À REUNIÃO.

16h32 — RESIDÊNCIA CULLEN → V&A.

16h34 — “C.C. DIZ QUE ESTÁ COM OS QUATRO.”

16h38 — RECEPÇÃO → RAMAL IRINA.

16h58 — RAMAL IRINA → EMPRESA CONTRATADA.

17h02 — SERVIÇO CONFIRMADO.

Sarah largou a caneta.

— Isso é muito diferente.

Edward assentiu.

— Porque ela teve oportunidade de cancelar.

— Sim.

Jacob olhou.

— E confirmou.

— O registro mostra ligação do ramal dela imediatamente antes da confirmação. Precisamos de mais para atribuir o conteúdo, mas a convergência é forte.


Irina foi confrontada novamente.

Dessa vez, não respondeu.

Nem uma palavra.

Seu advogado assumiu.

Sarah não esperava outra coisa.

Mas Aro falou.

Quando viu a sequência, pediu para complementar o depoimento.

— Irina sabia das crianças.

Silêncio.

— Como o senhor sabe?

Aro fechou os olhos.

— Ela me disse.

— Quando?

— Antes de sair.

— O que disse?

Aro respirou.

— “Carlisle está com os quatro.”

— E o senhor respondeu?

— Que então ela precisava cancelar.

Sarah ficou imóvel.

— Ela cancelou?

— Disse que sim.

— O senhor verificou?

— Não.

A mesma história.

Sempre.

Aro perguntava o mínimo.

Aceitava a resposta conveniente.

E não verificava.

— O senhor sabia que o serviço continuou?

— Só depois.

— Quanto depois?

Aro fechou os olhos.

— Quando Carlisle já estava morto.


Sarah fechou a pasta.

— Então Irina sabia que nós estávamos com ele.

Jacob assentiu.

— Antes.

— Há forte evidência disso.

— E deixou acontecer.

Sarah olhou para ele.

— Sim.

Dessa vez não havia necessidade de suavizar o essencial.


Mas ainda não significava que as crianças fossem alvo.

A ordem de serviço recuperada dizia:

“Interromper veículo. Recuperar pasta. Evitar exposição. Sem contato com terceiros.”

Nada sobre crianças.

Nada sobre sequestrar.

Nada sobre matar.

Sarah sublinhou.

— Isso importa.

Emmett estava indignado.

— Importa que mandaram parar um carro com quatro crianças!

— Muito. Mas precisamos separar objetivo documentado de consequência previsível.

Edward olhou para ela.

— Irina sabia que estávamos lá e não cancelou.

— Sim.

— Isso já diz bastante.

— Diz.


Então Charlie trouxe uma lembrança.

Não sobre a emboscada.

Sobre Carlisle.

— Ele estava com medo por Sarah.

Todos olharam.

— Quando?

— Na última ligação.

Sarah ficou imóvel.

— Por quê?

Charlie pensou.

— Ele disse que tinha encontrado uma coisa sobre o testamento.

— A simulação?

— Talvez. Não sei.

— O que exatamente disse?

Charlie fechou os olhos.

— “Se ela chegou a perguntar sobre Sarah, isso não é mais só sobre mim.”

Sarah sentiu um arrepio.

— Ele disse meu nome?

— Disse.

— O que você respondeu?

— Que ele devia ir à polícia imediatamente.

— E ele?

— Disse que primeiro precisava me entregar as cópias porque não confiava que os documentos sobreviveriam.

Silêncio.

Carlisle já desconfiava que a filha pudesse estar no centro de alguma coisa.

Talvez por isso, ao perceber a emboscada, sua primeira ordem tivesse sido simples.

Corram.


Sarah não voltou imediatamente ao quadro.

Essa foi a primeira coisa que Jacob percebeu.

Normalmente, depois de uma informação importante, ela escrevia.

Classificava.

Separava.

Criava uma linha entre o que sabia e o que ainda não podia saber.

Dessa vez, ficou sentada.

As mãos imóveis sobre a mesa.

Edward fechou a pasta.

Emmett percebeu também.

Billy foi o primeiro a levantar.

— Por hoje chega.

Sarah ergueu os olhos.

— Ainda precisamos—

— Não.

Ela quase respondeu.

Billy apontou para ela.

— Isso não é o presidente da empresa falando com a advogada.

Olhou para Jacob.

Depois para Edward e Emmett.

— É o homem que criou vocês dizendo que chega.

Sarah ficou quieta.

Billy aproximou-se e beijou sua testa.

— Você acabou de descobrir que seu pai estava com medo por você horas antes de morrer.

A garganta dela apertou.

— Eu estou bem.

Emmett soltou:

— Frase número um de pessoas que claramente não estão bem.

Edward levantou.

— Concordo com Emmett.

Emmett ficou ofendido.

— Você fala como se isso fosse um evento histórico.

— É.

Sarah quase sorriu.

Billy apertou seu ombro.

— Amanhã o documento ainda vai existir.

E saiu.

Edward acompanhou.

Emmett ficou alguns segundos.

— Quer que eu fique?

Sarah balançou a cabeça.

Ele olhou para Jacob.

Não disse nada.

Não precisava.

Depois saiu.


A sala ficou silenciosa.

Sarah continuou sentada.

Jacob não perguntou se ela estava bem.

Não disse que precisava descansar.

Não tentou abraçá-la.

Foi até o quadro.

Pegou o apagador.

Sarah levantou os olhos.

— O que você está fazendo?

— Nada ainda.

— Jacob.

— Posso apagar?

Ela olhou para as frases.

HERDEIRO AUSENTE.

DESAPARECIMENTO.

IRINA SABIA DOS QUATRO.

CARLISLE ESTAVA COM MEDO POR SARAH.

Sarah respirou.

— Não.

Jacob colocou o apagador de volta.

— Certo.

Sentou na cadeira ao lado.

Esperou.

Sarah olhou para ele.

— Você não vai dizer nada?

— Posso.

— Então diga.

— Não sei o que você precisa ouvir.

Aquilo quase a desarmou mais do que qualquer frase bonita.

— Eu também não.

— Então podemos não saber juntos.

Sarah fechou os olhos.

Ficaram assim.

Um minuto.

Talvez cinco.

Ela não contou.

Até dizer:

— Eu não lembro dele direito.

Jacob não perguntou quem.

— Eu sei.

— Isso está me deixando com raiva.

— De quem?

— De mim.

Jacob virou o corpo para ela.

— Por quê?

Sarah levantou.

Começou a andar.

— Porque eu leio que meu pai estava tentando me proteger. Leio que ele estava preocupado comigo. Leio que horas antes de morrer escreveu meu nome. E eu...

Parou.

— Eu não consigo lembrar do rosto dele sem pensar nas fotografias.

Jacob permaneceu sentado.

— Eu não sei se a voz que apareceu na minha cabeça dizendo “corre” é dele ou se meu cérebro só decidiu que deve ser.

A voz dela falhou.

— Eu não lembro como era abraçar meu pai.

Jacob levantou.

Mas ainda não tocou.

Sarah percebeu.

E foi ela quem deu o passo.

Encostou a testa no peito dele.

Só então os braços de Jacob a envolveram.

— Eu tenho vinte e três anos — ela murmurou. — E acabei de descobrir que estou com saudade de uma pessoa da qual quase não lembro.

Jacob acariciou suas costas.

— Você pode sentir falta dele mesmo assim.

— Parece injusto.

— É.

Sarah fechou os olhos.

Nenhuma correção.

Nenhuma tentativa de transformar aquilo em algo bonito.

Apenas:

É.

Ela apertou a camisa dele.

— Eu queria uma lembrança idiota.

— Como?

— Qualquer coisa.

A voz saiu abafada.

— Ele reclamando porque eu derramei suco. Me mandando escovar os dentes. Brigando comigo porque não queria dormir. Alguma coisa que não envolvesse morte, documento ou gente tentando nos matar.

Jacob beijou seus cabelos.

— Talvez venha.

— E se não vier?

Ele demorou.

— Então você vai ter o que conseguir reconstruir.

Sarah levantou o rosto.

Jacob continuou:

— E vai ter Emmett. Edward. Billy. Charlie. Pessoas que lembram dele.

Ela fez uma careta.

— Isso viola meu protocolo de contaminação.

Jacob sorriu de leve.

— Eu ia chegar nessa parte.

Sarah quase riu.

— Idiota.

— Quando você decidir que está pronta. Não antes.

Ela o observou.

— Você realmente aprendeu.

— Namoro uma advogada assustadora.

— Namorada.

— Minha namorada assustadora.

— Melhor.


Jacob pegou a bolsa dela.

Sarah franziu a testa.

— O que está fazendo?

— Indo embora.

— Eu ainda tenho—

Ele levantou uma sobrancelha.

Sarah parou.

— Você vai tentar mandar em mim?

— Não.

— Ótimo.

— Vou embora e espero que minha namorada, por livre e espontânea vontade, perceba que está exausta e venha comigo.

Ele começou a andar.

Sarah ficou olhando.

— Manipulador.

— Não ouvi.

— Jacob.

Ele continuou.

Sarah pegou o casaco.

— Eu odeio você.

Ele abriu a porta.

— Estatisticamente falso.

Ela começou a rir.

E foi atrás.


No carro, Sarah não falou sobre o caso.

Jacob também não.

Ele colocou música baixa.

Dirigiu.

Em determinado momento, a mão dele ficou aberta sobre o console.

Não procurando a dela.

Apenas ali.

Sarah olhou.

Depois colocou a própria mão por cima.

Jacob entrelaçou os dedos.

Nada mais.

E talvez justamente por isso Sarah sentiu o corpo começar a relaxar.

Não porque a investigação tivesse desaparecido.

Ela continuava inteira dentro dela.

Carlisle.

Irina.

A pergunta sobre seu desaparecimento.

A estrada.

Mas, pela primeira vez naquele dia, Sarah não precisava fazer nada com aquilo.


Quando chegaram, ela tirou os sapatos na entrada.

Jacob colocou sua bolsa longe da mesa.

Sarah viu.

— Isso foi proposital.

— Muito.

— Tem documentos aí.

— Eu sei.

— Importantes.

— Continuarão importantes amanhã.

Sarah ficou parada.

Jacob foi para a cozinha.

— Quer comer?

— Não.

— Resposta errada.

— Não estou com fome.

— Isso não significa que não precise comer.

Sarah cruzou os braços.

— Você está muito confortável nessa relação.

— Finalmente.

Ele preparou alguma coisa simples.

Sarah sentou no balcão e observou.

Em algum momento, percebeu que estava fazendo exatamente o que dissera querer minutos antes.

Nada extraordinário.

Nada ligado à investigação.

Um homem que amava cortando pão.

Uma panela.

O barulho de talheres.

Uma discussão ridícula sobre a quantidade de queijo.

Vida comum.

Ela sentiu os olhos arderem.

Jacob virou.

— O quê?

Sarah balançou a cabeça.

— Nada.

— Você está chorando olhando para um sanduíche.

— Não estou chorando.

— Sarah.

Ela limpou o rosto.

— É culpa do queijo.

— Claro.

— Muito emocional.

Jacob sorriu.

Sarah olhou para ele.

— Era isso.

— O quê?

— O que eu queria lembrar do meu pai.

Jacob ficou quieto.

— Coisas assim.

Ela apontou para a cozinha.

— Nada importante.

— Isso parece importante.

Sarah respirou.

— É.


Depois de comer, ela foi tomar banho.

Quando saiu, encontrou Jacob sentado na cama lendo.

Não relatório.

Livro.

Sarah parou na porta.

— Quem é você?

Ele levantou os olhos.

— Um homem alfabetizado.

— Não tenho provas.

— Cruel.

Ela deitou.

Jacob fechou o livro.

Sarah virou de lado.

— Não precisa parar.

— Eu sei.

Mas parou.

Ela olhou para ele.

— Vem aqui.

Jacob deitou de frente para ela.

Sarah passou os dedos pelo rosto dele.

Sem pressa.

A linha do maxilar.

A sobrancelha.

A boca.

Jacob permaneceu imóvel.

— O que está fazendo?

— Memorizando.

A expressão dele mudou.

Sarah continuou.

— Não quero que tudo que eu amo vire uma coisa que alguém precise me contar depois.

Jacob segurou sua mão e beijou a palma.

— Ei.

Sarah aproximou-se.

— Eu sei.

Beijou-o.

Primeiro devagar.

Sem urgência.

A boca de Jacob respondeu com a mesma calma.

Sarah sentiu uma das mãos dele pousar em sua cintura.

Quente.

Conhecida.

Presente.

E foi exatamente por isso que aprofundou o beijo.

Não para fugir do passado.

Porque queria sentir o presente.

Jacob percebeu a diferença.

Acariciou suas costas.

Sarah sorriu contra a boca dele.

— Suas mãos.

— O que elas fizeram agora?

— Ainda estou investigando.

— Advogada parcial.

— Muito.

Ele beijou o canto de sua boca.

— Posso?

Sarah sabia exatamente o que ele perguntava.

— Pode.

As mãos dele deslizaram devagar por suas costas, sem pressa, e Sarah fechou os olhos.

O calor veio.

Mas não sozinho.

Veio junto com aquela sensação que aprendera a reconhecer nele.

Segurança.

Desejo sem medo.

Intimidade sem exigência.

Jacob beijou seu pescoço.

Sarah respirou mais fundo.

— Isso é corrupção de testemunha.

Ele riu contra sua pele.

— Você fala demais.

— Você gosta.

— Muito.

Ela segurou o rosto dele e o trouxe de volta.

— Então não reclama.

O beijo seguinte fez os dois esquecerem a conversa por algum tempo.

E Sarah percebeu que não havia contradição nisso.

Podia estar triste pelo pai.

Podia estar furiosa com Irina.

Podia querer justiça.

E ainda podia desejar Jacob.

Podia rir.

Podia sentir prazer.

Podia estar viva.

Uma coisa não traía a outra.


Mais tarde, Sarah estava deitada com a cabeça no peito dele.

A mão de Jacob fazia movimentos lentos em suas costas.

Nada provocador agora.

Apenas carinho.

Ela sorriu.

— Versão legal das mãos.

— Todas são legais.

— Contestável.

— Você continua aqui.

— Falha de julgamento.

Jacob beijou seus cabelos.

Sarah ficou quieta por um tempo.

Então falou:

— Quando você me perguntou outro dia se ainda parecia fazer parte de alguma coisa que eu perdi...

— Lembro.

— Eu respondi que você faz parte do que encontrei.

— Sim.

Sarah levantou um pouco o rosto.

— Acho que não falei tudo.

Jacob esperou.

— Você também faz parte da forma como eu estou conseguindo olhar para o que perdi.

Ele ficou imóvel.

Sarah continuou:

— Não porque você conserta.

— Eu não consigo.

— Eu sei.

Ela tocou seu peito.

— Mas quando descubro alguma coisa horrível, você está aqui depois.

Jacob passou os dedos pelo rosto dela.

— Sempre que você quiser.

Sarah sorriu.

— Cuidado com promessas.

Ele entendeu.

Aquela palavra.

Promessa.

Penhasco.

Mão.

Culpa.

Jacob respirou.

— Então vou dizer diferente.

Sarah esperou.

— Hoje eu estou aqui.

Ela sentiu alguma coisa apertar dentro do peito.

Não dolorosa.

Bonita.

— Hoje basta.

E o beijou.


Na manhã seguinte, Sarah acordou antes dele.

Ficou alguns minutos observando Jacob dormir.

Lembrou do que dissera.

Memorizando.

Sorriu.

A barba começando a aparecer.

O cabelo bagunçado.

A mão sobre o travesseiro.

A expressão absurdamente tranquila de alguém que acordado tinha opiniões demais.

Sarah passou um dedo pela sobrancelha dele.

Jacob abriu um olho.

— Isso é estranho.

— Estou coletando evidência.

— Dormindo?

— Estado vulnerável.

— Quero advogado.

— Eu sou sua advogada.

— Conflito de interesses.

Sarah começou a rir.

Jacob puxou-a pela cintura.

— Bom dia.

— Bom dia.

Beijou-a.

Sarah ficou alguns segundos ali.

Depois respirou.

— Hoje eu volto para a investigação.

— Eu sei.

— Não vai tentar me impedir?

— Não.

— Por quê?

Jacob olhou para ela como se fosse óbvio.

— Porque ontem você precisava parar.

Passou o polegar pelo rosto dela.

— Hoje você quer continuar.

Sarah ficou quieta.

Então sorriu.

— É por isso.

— O quê?

— Que eu amo você.

Jacob ergueu uma sobrancelha.

— Não é o café?

Sarah pegou o travesseiro e bateu nele.


Duas horas depois, Sarah estava novamente diante do quadro.

Mas algo estava diferente.

Não na investigação.

Nela.

Edward chegou primeiro.

— Melhor?

Sarah pensou.

— Sim.

Emmett apareceu atrás.

— Jacob fez o quê?

Edward fechou os olhos.

— Não quero saber.

Sarah olhou mortalmente para Emmett.

— Ele me alimentou e me fez dormir.

Emmett abriu um sorriso enorme.

— Ah, claro. “Dormir.”

— Emmett.

— Estou saindo.

— Ótima escolha.

Billy entrou rindo.

Por alguns segundos, a sala pareceu novamente uma família antes de voltar a ser uma sala de investigação.

Sarah gostou disso.

Precisava disso.

Então olhou para o quadro.

POR QUE SARAH?

A pergunta continuava.

Mas agora ela conseguia encará-la sem sentir que precisava resolver toda a própria vida antes do almoço.

O telefone tocou.

Charlie.

Sarah atendeu.

— Encontramos uma coisa entre as minhas cópias antigas.

Ela imediatamente ficou séria.

— O quê?

— Uma página que Carlisle me mandou por fax no dia anterior à emboscada.

— Sobre a simulação?

— Uma parte dela.

— Qual?

— A página do herdeiro ausente.

Sarah levantou.

Jacob, que acabara de entrar, percebeu a mudança.

— Tem anotação de Carlisle? — ela perguntou.

— Tem.

— O que ele escreveu?

Charlie respirou.

— “Por que Sarah?”

O escritório ficou silencioso.

Sarah olhou para o quadro.

A mesma pergunta.

Escrita por ela.

Escrita por Carlisle quinze anos antes.

— Só isso?

— Não.

Sarah apertou o telefone.

— Continua.

Charlie virou a página.

— Ele escreveu: “Perguntar a Aro por que Irina queria saber especificamente o que aconteceria se Sarah desaparecesse.”

Sarah fechou os olhos.

Carlisle sabia.

Antes da emboscada.

Sabia que Irina perguntara sobre o desaparecimento da filha.

E pretendia confrontar Aro.

Mas Charlie ainda não terminara.

— Tem mais uma frase.

Sarah sentiu Jacob aproximar-se, mas ele não tocou nela.

Esperou.

— Qual?

Charlie leu:

“Se alguma coisa acontecer comigo, proteger as crianças. Principalmente Sarah.”

Sarah não respondeu.

A sala inteira desapareceu por um instante.

Não veio memória.

Nenhuma imagem.

Nenhuma voz.

Só o significado.

Seu pai soubera que havia perigo.

Pensara nos filhos.

Pensara nela.

E, horas depois, quando o perigo realmente chegara, mandara os quatro correrem.

Sarah fechou os olhos.

Uma lágrima caiu.

Dessa vez ela não tentou escondê-la.

Jacob estendeu a mão.

Não a puxou.

Não decidiu por ela.

Apenas ofereceu.

Sarah olhou.

E segurou.

— Manda periciar o documento — disse a Charlie.

Sua voz tremia, mas não quebrou.

— Claro.

Ela desligou.

Ficou alguns segundos olhando para os dedos entrelaçados aos de Jacob.

Na noite anterior, dissera que ele fazia parte da maneira como conseguia olhar para aquilo que perdera.

Agora entendia melhor.

O romance não existia fora daquela história.

Não era intervalo.

Não era distração.

Jacob era o menino que estivera com ela quando tudo desabou.

Mas o homem ao seu lado não estava tentando levá-la de volta para aquela menina.

Estava ajudando Sarah adulta a permanecer inteira enquanto olhava para ela.

Sarah apertou sua mão.

Depois levantou os olhos para o quadro.

POR QUE SARAH?

Carlisle fizera a mesma pergunta.

Agora ela precisava descobrir a resposta.

Não apenas porque era advogada.

Não apenas porque era Sarah Cullen.

Mas porque podia investigar o passado sem abandonar a vida que construía no presente.

E, dessa vez, quando deu o primeiro passo em direção ao quadro, não soltou a mão de Jacob.