MEMÓRIAS
47 CAPÍTULO 47 - Por que Sarah?
Sarah não apagou a pergunta.
Durante dois dias, ela permaneceu no centro do quadro.
POR QUE SARAH?
Não havia seta.
Não havia resposta provisória.
Não havia sequer uma hipótese escrita embaixo.
Jacob percebeu antes de todos.
— Você não colocou nada.
Sarah continuou olhando para o quadro.
— Porque todas as respostas que pensei até agora são perigosas.
— Perigosas como?
Ela virou.
— Porque fazem sentido demais.
Jacob entendeu.
— E você não confia em coisas que fazem sentido demais.
— Principalmente quando dizem respeito a mim.
Edward entrou no escritório exatamente a tempo de ouvir.
— Finalmente uma frase sensata.
Sarah olhou.
— Bom dia para você também.
Emmett apareceu atrás dele com dois cafés.
Jacob estreitou os olhos.
— Esse é meu trabalho.
— Concorrência.
Emmett entregou um para Sarah.
Ela pegou.
Jacob ficou ofendido.
— Você aceitou.
— Cafeína não admite exclusividade.
— Nosso relacionamento acabou.
Sarah tomou um gole.
— Você continua pagando o jantar.
Emmett sorriu.
— Vocês são um casal muito saudável.
Edward passou pelos três.
— Podemos investigar uma tentativa de homicídio antes que eu me arrependa de ter vindo?
O humor desapareceu devagar.
Sarah voltou ao quadro.
— Podemos.
E apontou para a pergunta.
— Precisamos descobrir por que Carlisle escreveu isso.
O documento encontrado por Charlie foi submetido à análise.
Papel compatível com a época.
Fax recebido no equipamento usado por Charlie.
Tinta e escrita compatíveis com outros documentos de Carlisle.
Nada indicava inserção posterior.
A anotação era dele.
“Por que Sarah?”
Abaixo:
“Perguntar a Aro por que Irina queria saber especificamente o que aconteceria se Sarah desaparecesse.”
E por fim:
“Se alguma coisa acontecer comigo, proteger as crianças. Principalmente Sarah.”
Sarah leu novamente.
Não precisava.
Já sabia de cor.
Mas agora não estava lendo como filha.
Tentava ler como advogada.
— Temos três informações diferentes — disse.
Edward assentiu.
Sarah apontou.
— Primeira: Carlisle sabia que Irina fizera perguntas sucessórias relacionadas ao meu desaparecimento.
Outra linha.
— Segunda: pretendia confrontar Aro.
Terceira.
— E passou a considerar que eu poderia estar sob risco específico.
Jacob franziu a testa.
— Por quê?
— Essa é a pergunta.
Emmett olhou para o documento.
— Talvez Carlisle soubesse que Irina odiava você.
Sarah virou.
— Ela odiava uma criança de oito anos?
Billy, que acabara de entrar, parou.
Ninguém respondeu.
Sarah percebeu.
— Billy.
Ele suspirou.
— Não sei se odiava.
— Mas?
Billy aproximou-se.
— Irina tinha uma relação estranha com você.
Jacob ficou atento.
— Estranha como?
Billy pensou antes de responder.
— Não era carinho.
— Isso eu imaginei — Emmett murmurou.
Sarah lançou um olhar.
Ele ficou quieto.
Billy continuou:
— Era atenção.
— Explique.
— Quando você era pequena, Irina observava você.
Sarah sentiu um desconforto.
— Por quê?
— Nunca soube.
— Perguntou?
— Algumas vezes.
— E ela?
— Dizia que você parecia demais com Esme.
Silêncio.
Sarah levou inconscientemente a mão ao peito.
Ao pingente escondido.
Jacob viu.
Não comentou.
Billy viu também.
E desviou os olhos.
Respeitou a regra.
Ainda não contaria o que sabia sobre aquele colar.
— Mais alguma coisa? — Sarah perguntou.
Billy hesitou.
— Depois da morte das mães, piorou.
Sarah franziu a testa.
— Eu tinha quatro anos.
— Sim.
— Irina ficou mais próxima?
— Tentou.
— De mim?
— Principalmente de você.
Edward pareceu surpreso.
— Eu não lembro disso.
— Porque eu não permiti muito.
Billy sentou.
— Carlisle também não.
Sarah ficou imóvel.
— Meu pai não queria Irina perto de mim?
— Não sozinha.
Jacob olhou para o pai.
— Por quê?
— Ele nunca me deu uma resposta completa.
— E você aceitou?
Billy sorriu sem humor.
— Carlisle era meu melhor amigo. Se ele dizia que não queria Irina sozinha com Sarah, eu não precisava de uma tese.
Sarah pegou a caneta.
APÓS PRIMEIRO ACIDENTE: CARLISLE EVITA QUE IRINA FIQUE SOZINHA COM SARAH.
Em seguida escreveu:
RELATO DE BILLY — MOTIVO DESCONHECIDO.
— Precisamos corroborar.
Billy assentiu.
A corroboração veio de um lugar inesperado.
Sue.
Não porque conhecesse os Cullen naquela época.
Não conhecia.
Mas porque Sarah decidiu finalmente buscar a documentação completa de sua chegada à família Clearwater.
Não para descobrir quem era.
Isso já sabia.
Queria saber o que chegou com ela.
Harry colocou a caixa sobre a mesa da cozinha.
— Eu devia ter entregado isso antes?
Sarah balançou a cabeça.
— Não.
— Tem certeza?
— Pai, eu nem sabia que precisava.
Harry respirou.
— Certo.
Jacob estava sentado ao lado dela.
Sue do outro lado.
Sarah abriu a pasta.
Hospital.
Polícia.
Serviço social.
Adoção.
Buscas por familiares.
Tudo preservado.
Harry tinha guardado cada papel.
Sarah olhou para ele.
— Você guardou até recibo de estacionamento.
— Custou caro.
Sue bateu no braço dele.
— Harry.
— O quê? É documento.
Sarah começou a rir.
— Eu puxei isso de você.
Harry ficou imediatamente satisfeito.
— Finalmente alguém reconhece.
Jacob murmurou:
— Isso explica muita coisa.
Sarah chutou a perna dele debaixo da mesa.
Então chegou à ficha de pertences.
O humor desapareceu.
Paciente feminina não identificada.
Idade estimada: oito anos.
Sarah respirou.
Jacob colocou a mão aberta sobre a mesa.
Não sobre a dela.
Disponível.
Sarah continuou.
Vestuário.
Calçados.
Corrente metálica com pingente em formato de lua.
Ela parou.
A mão foi automaticamente ao peito.
Sue ficou quieta.
Harry também.
Sarah leu a linha seguinte.
Inscrição pequena no verso: S.B.
Billy ainda não lhe contara formalmente a história do pingente.
E Sarah não pediu.
Ainda não.
Continuou.
Pulseira infantil de tecido, danificada.
Objeto metálico pequeno, retangular, sem identificação aparente.
Sarah congelou.
Jacob percebeu.
— O quê?
Ela releu.
Objeto metálico pequeno, retangular, sem identificação aparente.
Seu coração acelerou.
Não por lembrança.
Pela investigação.
— Onde está isso?
Harry franziu a testa.
— Não sei.
— Os objetos foram devolvidos?
— Tudo que estava na ficha deveria ter sido.
Sue levantou.
— A caixa.
— Qual caixa? — Sarah perguntou.
Sue olhou para Harry.
— A das coisas do hospital.
Harry já estava levantando.
— Está no armário do quarto de hóspedes.
A caixa chegou dez minutos depois.
Sarah não permitiu que ninguém começasse a procurar aleatoriamente.
Fotografou.
Registrou.
Separou os envelopes.
Jacob observou.
— Você transforma até caixa de infância em cadeia de custódia.
— Agora ela pode conter material relevante para uma investigação criminal.
Harry apontou.
— Eu sempre disse para sua mãe não jogar nada fora.
Sue fechou os olhos.
— Você guarda manual de micro-ondas quebrado.
— E hoje quem é o herói?
Sarah riu.
— Ele tem um ponto.
— Não incentive.
O colar não estava na caixa.
Sarah o usava.
A pulseira estava.
Pequena.
Desbotada.
Sem informação aparente.
E então Harry encontrou um envelope do hospital.
Dentro havia um pequeno objeto.
Retangular.
Escuro.
Do tamanho aproximado de uma moeda grande.
Sarah não tocou.
Jacob se aproximou.
— Você reconhece?
Ela olhou.
Nada.
Nenhuma memória.
— Não.
Harry ficou pálido.
— Isso estava com você.
— Segundo a ficha, sim.
— Quando eu te encontrei?
— Provavelmente.
Sarah fotografou o envelope.
Havia uma anotação de enfermagem:
“Item encontrado preso no forro interno do bolso do casaco.”
Jacob levantou os olhos.
— Preso?
— Parece.
— Como se tivesse sido colocado para não cair?
Sarah respirou.
— Talvez. Não sabemos.
O objeto foi encaminhado adequadamente para análise.
Sarah não tentou abri-lo.
Não tentou limpá-lo.
Não tentou descobrir sozinha.
Esperou.
A resposta veio no dia seguinte.
Não era uma joia.
Não era chave.
Era um antigo dispositivo de armazenamento de dados, protegido por revestimento metálico.
Danificado pela água.
Tecnologia antiga.
Mas potencialmente recuperável.
Edward ficou olhando para o relatório.
— Um dispositivo de memória.
Emmett piscou.
— Sarah caiu num rio com um arquivo digital no bolso?
— Ainda não sabemos o que existe dentro.
Jacob estava completamente imóvel.
— Carlisle.
Sarah olhou.
— Talvez.
— Sua memória.
Ela franziu a testa.
Jacob apontou para o relatório.
— Ele colocou uma memória no seu bolso.
O silêncio durou dois segundos.
Então Emmett começou a rir.
Sarah olhou para ele.
— O que foi?
— Nada.
— Emmett.
— É só... você perdeu a memória carregando uma memória.
Edward fechou os olhos.
Jacob tentou não rir.
Sarah encarou os três.
— Eu odeio esta família.
Emmett já estava quase chorando.
— Desculpa.
— Não está.
— Não.
Até Sarah riu.
E talvez precisassem disso.
Porque, quando o riso terminou, o objeto continuava sobre a mesa.
Esperando.
A recuperação levou tempo.
Não tudo pôde ser salvo.
Parte dos dados estava corrompida.
Mas havia arquivos.
Documentos digitalizados.
Fotografias.
Planilhas.
Correspondências.
Sarah não recebeu o conteúdo bruto imediatamente.
Primeiro foi preservado.
Copiado.
Hash registrado.
Trabalhado sobre cópia forense.
Então veio a lista.
O primeiro arquivo:
T6_MOVIMENTAÇÃO.
O segundo:
VOLTURI_AUTORIZAÇÃO.
O terceiro:
ROBERT_NOTAS.
Sarah sentiu o ar faltar.
— Carlisle.
Edward fechou os olhos.
— Era a pasta.
— Parte dela.
Jacob olhou.
— Ele colocou em você.
Sarah não respondeu.
Ainda não havia prova direta de quem colocara o dispositivo em seu casaco.
Mas os arquivos correspondiam justamente aos documentos que Carlisle pretendia entregar a Charlie.
Emmett percebeu.
— Então a pasta podia ser distração.
Sarah olhou.
— Ou o dispositivo era cópia de segurança.
— E ele sabia que estavam atrás dos papéis.
— Sim.
Edward completou:
— Então guardou uma cópia com uma criança.
Sarah respirou.
— Talvez.
Jacob olhou para ela.
— Com você.
— Talvez.
Mas então veio o quarto arquivo.
E Sarah ficou imóvel.
Nome:
SARAH.
Ninguém abriu imediatamente.
Sarah levantou da cadeira.
Jacob percebeu.
— Quer parar?
Ela balançou a cabeça.
— Não sei.
Edward aproximou-se.
— Você não precisa ver hoje.
Emmett assentiu.
Sarah olhou para os irmãos.
Depois para Billy.
— Vocês sabiam disso?
Todos negaram.
Jacob perguntou:
— Quer saber primeiro o tipo do arquivo?
Sarah respirou.
— Sim.
Era um documento de texto.
Criado dois dias antes da emboscada.
Última modificação:
no dia da emboscada, às 15h42.
Autor registrado:
C. Cullen.
Carlisle.
Sarah fechou os olhos.
— Leia.
Edward perguntou:
— Tem certeza?
Ela abriu.
— Leia.
O texto começava:
“Se você está lendo isto, alguma coisa deu errado.”
Sarah sentou.
Jacob colocou a mão sobre a mesa.
Dessa vez ela segurou imediatamente.
Edward continuou:
“Não sei quanto Irina sabe que eu descobri. Também não sei quanto Aro contou a ela.”
Billy fechou os olhos.
“Se eu estiver errado, destruirei isto e agradecerei por ter desconfiado demais.”
“Se estiver certo, preciso deixar registrado o que sei.”
Sarah respirou.
Carlisle descrevia a T-6.
Robert.
Charlie.
As dúvidas sobre o primeiro acidente.
A centralização de documentos.
A participação de Aro.
E a suspeita sobre Irina.
Nada além do que a investigação já reconstruíra.
Até chegar à simulação sucessória.
Edward parou.
— Continua.
Ele leu:
“Hoje confirmei que Irina perguntou especificamente sobre as consequências patrimoniais do desaparecimento de Sarah.”
Sarah apertou a mão de Jacob.
“Não encontro justificativa profissional legítima para que minha irmã faça essa pergunta sem meu conhecimento.”
“Sarah não sabe de nada disso. Nenhuma das crianças sabe.”
Depois:
“Billy também não sabe. Ainda.”
Billy baixou a cabeça.
Carlisle pretendia contar.
Só não tivera tempo.
Edward continuou.
“Há algo que Irina parece acreditar sobre Sarah que eu ainda não compreendo.”
Sarah franziu a testa.
— O quê?
A próxima linha:
“Não é apenas a herança.”
Silêncio.
Jacob ficou atento.
“Perguntei a Aro. Ele negou saber. Não acreditei.”
“Irina perguntou duas vezes, nos últimos meses, se Sarah possuía algum documento ou objeto deixado por Esme.”
Sarah levou imediatamente a mão ao pingente.
Billy levantou os olhos.
Ninguém falou.
Edward continuou:
“Perguntou especificamente se Esme havia deixado algo para Sarah antes de morrer.”
Sarah olhou para Billy.
Ele estava chorando.
— Billy.
Ele balançou a cabeça.
— Continua primeiro.
Carlisle escrevera:
“Ela também perguntou sobre Sarah Black.”
Jacob ficou imóvel.
“Não sobre o acidente. Sobre algo que Sarah Black teria dado à minha filha.”
Sarah segurou o pingente por cima da roupa.
Seu coração disparou.
Edward parou de ler.
— Sarah?
Ela fechou os olhos.
Calor.
Cozinha.
Café.
Perfume floral.
Duas mulheres.
Mãos em seu cabelo.
Metal frio tocando a pele.
Uma voz feminina.
Agora você tem uma lua.
Sarah abriu os olhos.
— Eu já lembro disso.
Jacob assentiu.
— Espontaneamente. Duas vezes.
— Antes de saber qualquer coisa sobre esse documento.
Edward entendeu.
— Então agora podemos corroborar.
Sarah respirou.
— Agora podemos começar.
Olhou para Billy.
— Me conta.
Billy demorou alguns segundos.
Depois sentou diante dela.
— A corrente era da minha Sarah.
Jacob fechou os olhos.
Sarah não falou.
Billy continuou:
— Eu dei para ela quando éramos jovens.
— A corrente.
— Sim.
— E o pingente?
Billy sorriu entre lágrimas.
— Foi ela quem colocou.
Sarah tocou a lua.
— Sarah Black?
— Sim.
— Por quê?
Billy olhou para ela.
— Porque você tinha o nome dela.
A garganta de Sarah apertou.
— Esme colocou meu nome por causa dela.
— Sim.
Billy sorriu.
— Elas eram melhores amigas. Quando você nasceu, Sarah ficou insuportavelmente orgulhosa.
Jacob riu chorando.
— Isso parece minha mãe.
— Muito.
Billy olhou para Sarah.
— Quando você tinha uns quatro anos, pouco antes do acidente, ela decidiu que você precisava ter alguma coisa dela.
Sarah sentiu lágrimas.
— Na cozinha?
Billy ficou imóvel.
— Você lembra da cozinha?
Sarah levantou a mão.
— Só responde.
— Sim.
O ar saiu de seus pulmões.
— Duas mulheres?
Billy começou a chorar.
— Esme e Sarah.
Sarah fechou os olhos.
Finalmente.
Uma lembrança que era dela encontrava confirmação sem ter sido criada pela história de outra pessoa.
— “Agora você tem uma lua.”
Billy levou a mão à boca.
Jacob abaixou a cabeça.
Edward chorava silenciosamente.
Emmett também.
Billy conseguiu responder:
— Era exatamente o que ela dizia.
Sarah chorou.
Não de dor.
Não inteiramente.
Havia felicidade ali.
Pura.
Pequena.
Antiga.
A menina sentada na cozinha não era uma vítima.
Não estava fugindo.
Não estava caindo.
Era apenas amada.
Jacob aproximou-se, mas esperou.
Sarah olhou para ele.
— Vem.
Ele a abraçou.
Sarah riu no meio das lágrimas.
— Eu lembrei certo.
— Lembrou.
— Era real.
— Era.
Ela apertou o pingente.
— Eu tenho uma lembrança delas vivas.
Billy fechou os olhos.
— Tem.
E, naquele momento, a investigação deixou de ser sobre morte.
Por alguns minutos, trouxe alguém de volta.
Não como fantasma.
Não como milagre.
Como memória.
Humana.
Imperfeita.
Mas dela.
Quando todos conseguiram se recompor, Sarah voltou ao documento.
— Ainda falta saber por que Irina queria saber do objeto.
Edward continuou.
Carlisle escrevera:
“Não sei o que ela acredita que Sarah Black entregou à minha filha.”
“A corrente e o pingente não possuem valor patrimonial relevante.”
Sarah olhou para a lua.
— Então não era dinheiro.
— Parece que não — Edward respondeu.
A linha seguinte mudou tudo.
“Robert disse que Sarah Black guardava cópias de algumas anotações dele sobre a empresa e sobre pessoas que frequentavam a oficina.”
Jacob franziu a testa.
— Minha mãe tinha documentos do Robert?
Billy parecia igualmente surpreso.
Edward continuou:
“Não sei se essas cópias existiam, nem se foram entregues a Esme ou a Sarah. Robert não consegue afirmar.”
Sarah respirou.
Então a última frase:
“Irina parece acreditar que minha filha recebeu alguma coisa de Sarah Black antes do acidente.”
Silêncio.
Emmett olhou para o pingente.
— Dentro?
Sarah imediatamente tirou a mão.
— Não vamos abrir nada.
Jacob quase riu.
— Claro que não.
— O pingente já foi examinado superficialmente?
Billy negou.
Sarah olhou para a pequena lua.
Dezenove anos.
Água.
Hospital.
Adoção.
Quinze anos no pescoço dela.
— Encaminhamos para exame não destrutivo.
O resultado preliminar veio horas depois.
O pingente era mais espesso do que parecia necessário para uma peça decorativa.
Havia uma junção quase invisível na lateral.
Antiga.
Selada.
Não deveria ser aberta sem procedimento adequado.
Sarah ficou olhando para a fotografia ampliada.
— Então tem alguma coisa dentro.
— Existe uma cavidade — Edward corrigiu.
Ela sorriu.
— Obrigada por usar minhas próprias regras contra mim.
— Aprendi com você.
Jacob apontou.
— Todos estamos aprendendo.
Emmett levantou a mão.
— Eu não.
— Isso é evidente — Edward respondeu.
O exame de imagem mostrou um pequeno conteúdo no interior.
Não eletrônico.
Papel.
Dobrado várias vezes.
Sarah sentiu o coração acelerar.
A abertura foi autorizada com preservação.
O papel tinha sofrido degradação.
Mas parte da escrita sobrevivera.
Não era de Carlisle.
Não era de Esme.
A comparação preliminar indicou outra pessoa.
Sarah Black.
Jacob ficou imóvel.
A mãe dele.
A mulher cujo nome Sarah carregava.
O texto era curto.
Muito curto.
Algumas palavras ilegíveis.
Outras recuperáveis.
“Esme — se acontecer alguma coisa...”
Falha.
“Robert...”
Falha.
“Irina...”
Todos ficaram em silêncio.
E uma última linha:
“Não confio nela perto das crianças.”
Jacob fechou os olhos.
Sarah sentiu um arrepio.
Aquele papel fora escrito antes da morte de Sarah Black.
Antes do primeiro acidente.
Antes de Irina ter provocado a falha do carro.
Sarah Black já desconfiava dela.
E escondera o aviso dentro do pingente que dera à menina que carregava seu nome.
Sarah olhou para Jacob.
Ele estava chorando.
Ela pegou sua mão.
Dessa vez não havia passado e presente separados por uma linha.
Havia duas mães.
Dois filhos.
Uma corrente.
Uma lua.
E uma advertência que atravessara dezenove anos presa ao pescoço de uma menina que ninguém sabia ter sobrevivido.
Sarah apertou a mão dele.
— Sua mãe tentou avisar a minha.
Jacob olhou para ela.
— E colocou o aviso com você.
Sarah tocou a lua.
Então entendeu.
Irina não perguntara sobre Sarah Cullen apenas por causa da herança.
Ela procurava algo.
Algo que acreditava que Sarah Black deixara antes de morrer.
E talvez, durante quatro anos, Irina tivesse olhado para uma criança sem saber que a prova que temia estava pendurada exatamente diante dela.
Sarah virou para o quadro.
A pergunta continuava escrita:
POR QUE SARAH?
Pegou a caneta.
Abaixo, escreveu:
PORQUE IRINA ACREDITAVA QUE SARAH CARREGAVA ALGUMA COISA.
Parou.
Depois acrescentou:
MAS ELA SABIA O QUÊ?
Jacob aproximou-se.
Sarah olhou para o pequeno pingente sobre a mesa de exame.
Dezenove anos antes, Sarah Black escrevera que não confiava em Irina perto das crianças.
Pouco depois, morrera.
Quatro anos mais tarde, Carlisle descobrira que Irina perguntava especificamente sobre o desaparecimento de Sarah.
E, no mesmo dia em que ele morreu, Sarah Cullen desapareceu levando consigo dois objetos que ninguém procuraria no fundo de um rio:
um dispositivo escondido no casaco com as provas de Carlisle...
e uma pequena lua contendo o último aviso de Sarah Black.
Sarah respirou.
Talvez Irina não tivesse planejado que a menina caísse do penhasco.
Mas havia uma possibilidade muito mais perturbadora agora.
Antes da emboscada, ela já tinha motivos para querer encontrar o que Sarah carregava.
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