MEMÓRIAS

44 CAPÍTULO 44 - A ligação das 22h13



Depois de semanas perseguindo peças, agendas, fotografias, contas de restaurante, fitas, ferramentas e memórias de pessoas que já tinham envelhecido quase duas décadas desde o acidente, Sarah descobriu que uma das pistas mais importantes estava no quadro havia muito tempo.

22h13 — RESIDÊNCIA VOLTURI → RESIDÊNCIA BLACK.

Ela ficou olhando para a linha por quase um minuto.

Jacob entrou com dois cafés.

— Essa cara nunca significa coisa boa.

Sarah estendeu a mão sem olhar.

— Café.

Ele entregou.

Ela bebeu.

— Eu amo você.

Jacob parou.

— Isso está ficando ofensivo.

Sarah finalmente olhou.

— O quê?

— A primeira vez que você disse que me amava foi por causa de café.

Ela começou a rir.

— Não foi por causa do café.

— Foi imediatamente depois.

— Correlação não implica causalidade.

— Você acabou de transformar uma declaração de amor em argumento estatístico.

Sarah aproximou-se e beijou-o.

— Melhor?

— Um pouco.

Ela voltou para o quadro.

Jacob acompanhou.

— 22h13.

— Sim.

— Já tínhamos isso.

— Tínhamos. E fizemos uma coisa perigosa.

— Qual?

Sarah circulou a chamada.

— Tratamos a lembrança de Billy de que Irina ligou como se identificasse a pessoa que fez a chamada.

Jacob franziu a testa.

— Mas agora sabemos que ela provavelmente não estava na casa Volturi.

— Exatamente.

Sarah começou a escrever.

21h31 — veículo de Irina deixa restaurante.

21h51 — cartão de Irina usado no posto.

21h56 — telefone público do posto → serviço Black.

21h58 — Antônio registra “Sra. V.”

22h13 — residência Volturi → residência Black.

22h18 — portão/luz.

22h27 — residência Black → Volturi & Associados: “Sra. Black pede que Dra. Irina não volte.”

Sarah recuou.

— Existem duas pessoas Volturi importantes nessa história.

Jacob entendeu.

— Aro.

— Sim.


A pergunta foi encaminhada formalmente.

Onde Aro estava às 22h13?

Dessa vez, ele não tentou responder imediatamente.

Pediu para consultar o próprio depoimento anterior.

Depois documentos.

Então disse:

— Em casa.

Sarah recebeu a informação naquela tarde.

Edward estava com ela.

— Isso não ajuda muito.

— Ajuda se conseguirmos corroborar.

— Ele já mentiu sobre aquela noite.

— Justamente.

A antiga versão de Aro dizia que Irina estivera com ele em casa das 21h às 23h30.

Essa versão já ruíra.

Agora Aro precisava separar a própria localização da falsa localização atribuída à esposa.

Encontraram registros do sistema de segurança da residência Volturi.

Não eletrônicos completos.

Mas uma folha de controle do funcionário responsável pelo portão.

21h44 — Dr. A.V. entrada.

Sarah ficou imóvel.

— Ele chegou em casa às 21h44.

— Parece.

— Sozinho?

— O funcionário não registrou passageiro.

— Isso não prova que estivesse sozinho.

— Não.

Sarah assentiu.

— Mais?

23h02 — Dra. I.V. entrada.

Silêncio.

Edward aproximou-se.

— Então Irina só voltou às onze e dois.

— Segundo esse registro.

— E Aro estava em casa quando a ligação das 22h13 foi feita.

Sarah respirou.

— Sim.

A antiga mentira ficava ainda mais clara.

Aro não apenas soubera depois que o álibi era falso.

Ele estivera em casa sem Irina durante praticamente toda a janela que afirmara ter passado com ela.


Chamado novamente, Aro não negou.

— Eu estava em casa.

— Fez a ligação das 22h13?

Silêncio.

— Doutor Volturi?

Ele fechou os olhos.

— Fiz.

Quando Sarah recebeu a transcrição, não sentiu surpresa.

Sentiu confirmação.

Jacob leu por cima do ombro.

— Por quê?

A resposta estava na página seguinte.

Aro afirmava que procurava Irina.

Ela deveria ter voltado.

Não voltara.

Ele tentou o celular dela.

Sem resposta.

Então ligou para a residência Black.

— Quem atendeu?

Aro demorou.

— Sarah.

Billy levantou a cabeça.

Jacob ficou imóvel.

Sarah sentiu um arrepio.

Sarah Black.

Viva.

Quatorze minutos antes da chamada que mandaria Irina não voltar à propriedade.

— O que ela disse? — perguntaram a Aro.

Ele respirou.

— “Sua esposa está aqui.”

Silêncio.


Sarah levantou da cadeira.

— Então Irina estava na propriedade às 22h13.

Edward leu novamente.

— Segundo Aro.

— Sim.

— Precisamos de corroboração.

— Sim.

Jacob estava pálido.

— Minha mãe falou com ele.

Sarah segurou sua mão.

— Segundo o depoimento dele.

— O que mais?

Ela continuou.

Aro perguntou se podia falar com Irina.

Sarah Black respondeu:

— “Não.”

Aro perguntou se havia acontecido alguma coisa.

E Sarah teria dito:

— “Pergunte a ela o que fez no meu carro.”

Ninguém falou.

Billy sentou.

Emmett perdeu completamente o humor.

Sarah sentiu o coração acelerar, mas obrigou-se a continuar.

— Isso é relato de Aro, dezenove anos depois.

Jacob fechou os olhos.

— Mas explica a ligação das 22h27.

— Explica.

— E o bilhete da minha mãe.

— Sim.

— “Irina sabe?”

Sarah assentiu.

A frase agora adquiria outro sentido.

Talvez Sarah Black não estivesse perguntando se Irina sabia de um defeito.

Talvez tivesse começado a suspeitar que Irina era a razão dele existir.


Aro continuou.

Depois da frase sobre o carro, ouviu vozes ao fundo.

Irina e Sarah discutiam.

Ele não conseguia entender tudo.

Esme também estava presente.

— O senhor ouviu Esme?

— Sim.

— O que ela disse?

Aro fechou os olhos.

— “Jacob está dormindo.”

Sarah parou de ler.

Jacob ficou completamente imóvel.

A frase era simples.

Mas colocou uma criança de seis anos dentro daquela noite de uma maneira dolorosamente concreta.

Esme estava preocupada com o barulho.

Com a discussão.

Com Jacob dormindo no andar de cima.

Sarah apertou a mão dele.

Jacob respirou.

— Eu estava dormindo.

— Segundo esse relato, sim.

Ele fechou os olhos.

— Minha mãe discutia com Irina embaixo e eu estava dormindo.

Sarah aproximou-se.

— Você tinha seis anos.

Ele assentiu.

Dessa vez não precisou que ela repetisse.

— Eu tinha seis anos.


Aro disse ter ouvido Sarah Black falar:

— “Você entrou na minha garagem.”

Depois Irina:

— “Eu estava tentando consertar.”

Silêncio.

Sarah voltou uma página.

Leu novamente.

Eu estava tentando consertar.

Edward foi o primeiro a entender.

— A hipótese da reversão.

Sarah assentiu lentamente.

— Talvez.

Aro afirmou que perguntou:

— “Consertar o quê?”

Ninguém respondeu diretamente.

Sarah Black teria dito:

— “Aro, venha buscar sua mulher.”

A ligação terminou pouco depois.

Duração histórica compatível com uma conversa curta.

Aro não foi.

Essa foi a parte que fez Billy levantar.

— Ele não foi?

Sarah olhou.

— Não.

— Sabia que Irina estava lá. Sabia da T-6. Sabia que tinha explicado a falha para ela. Ouviu Sarah dizer que Irina mexeu no carro.

— Sim.

Billy ficou vermelho.

— E não foi?

Sarah não tentou acalmá-lo com cautela jurídica.

Aro respondera à mesma pergunta.

Por que não foi?

A resposta:

— Porque Irina disse que estava tentando consertar.

O investigador corrigiu:

— Quem disse isso foi sua esposa, ao fundo, durante uma discussão.

Aro abaixou a cabeça.

— Eu sei.

— E o senhor acreditou?

Longo silêncio.

— Eu escolhi acreditar.


A frase atravessou Sarah.

Eu escolhi acreditar.

Era, talvez, a definição de Aro naquela história.

Não ignorância.

Escolha.

Sempre havia uma explicação confortável disponível.

Irina estava apenas com ciúme.

Irina só queria assustar Sarah.

A consulta técnica era profissional.

A T-6 era uma questão de responsabilidade empresarial.

A caixa voltaria.

A ferramenta fora emprestada.

A intervenção seria desfeita.

Irina estava tentando consertar.

Aro sempre encontrava a versão em que não precisava agir.

Até duas mulheres morrerem.

E mesmo depois.


A pergunta seguinte foi inevitável.

— O senhor ligou novamente?

Aro respondeu:

— Não.

— Foi até a residência?

— Não.

— Chamou Billy?

— Não.

— Carlisle?

— Não.

— Robert?

— Não.

— Polícia?

— Não.

— Então o que fez?

Aro ficou em silêncio.

— Esperei Irina voltar.

Ela voltou às 23h02.

Aro perguntou o que acontecera.

Irina respondeu:

— “Nada que importe.”

Ele perguntou sobre o carro.

Ela teria dito:

— “Sarah não vai usar amanhã.”

Silêncio.

Sarah sentiu o estômago apertar.

Porque Sarah Black usou.


Agora havia uma contradição fundamental.

Irina tinha deixado uma mensagem às 18h31:

não use o carro amanhã cedo antes de falar comigo.

Às 22h13, segundo Aro, ela dizia estar tentando “consertar”.

Às 23h02, teria dito:

Sarah não vai usar amanhã.

Mas Sarah Black usou.

Por quê?

Sarah voltou para as anotações.

A resposta estava quase diante deles.

7h15 — S.B. carro — ver ruído/pedal.

Sarah Black não pretendia usar o veículo normalmente.

Pretendia levá-lo a Robert.

Talvez Irina tivesse acreditado que o aviso bastaria para impedir qualquer uso.

Talvez não soubesse que Sarah Black escolheria justamente dirigir o carro para descobrir o que havia sido feito.

Edward falou:

— Irina achou que ela não entraria no carro.

Sarah respirou.

— É possível.

Jacob estava olhando para a parede.

— E minha mãe achou que conseguiria chegar até Robert.

— Sim.

— As duas estavam erradas.

Sarah não respondeu.


A declaração de Aro precisava de corroboração.

E uma parte dela tinha.

Esme dizer:

“Jacob está dormindo.”

Não havia gravação.

Mas havia um pequeno detalhe.

Antônio tinha anotado, na mesma noite, em outra página da agenda:

22h16 — vozes casa / verificar se menino acordou.

Sarah ficou olhando para a anotação.

Não provava conteúdo.

Mas corroborava que havia discussão ou vozes suficientemente altas para preocupar o caseiro com Jacob.

Outro elemento.

Às 22h21, o telefone interno da residência Black registrou uma chamada curta da cozinha para a casa de serviço.

Antônio não lembrava o conteúdo.

Mas a sequência era compatível:

21h58 — abertura.

22h13 — Aro liga.

22h16 — Antônio registra vozes.

22h18 — portão/luz.

22h21 — casa principal chama casa de serviço.

22h27 — residência Black liga para escritório Volturi e manda Irina não voltar.

Sarah escreveu tudo.

— Temos uma janela.

Edward aproximou-se.

— Vinte e nove minutos.

— Aproximadamente.

— Irina entra.

— Provavelmente.

— Vai à garagem.

— Fortemente provável.

— Sarah Black percebe.

— Sim.

— Confronta Irina.

— O conjunto aponta fortemente para isso.

— Irina diz que tentou consertar.

Sarah respirou.

— Segundo Aro.


Então Antônio lembrou de uma coisa.

Não um rosto.

Não uma placa.

Uma mulher saindo.

Sarah quase rejeitou antes de ouvir.

Mas a lembrança vinha acompanhada de uma razão concreta.

— Ela estava chorando.

— Quem?

Antônio não sabia.

Na entrevista complementar, explicou que, depois das vozes, viu uma mulher atravessar rapidamente a área lateral em direção ao veículo.

Não conseguia afirmar que fosse Irina.

Escuro.

Distância.

Dezenove anos.

Mas lembrava de uma frase dita por Sarah Black pouco depois.

— Qual?

Antônio demorou.

— “Se ela voltar, não abre.”

Sarah fechou os olhos.

A chamada das 22h27 dizia:

Dra. Irina não volte à propriedade.

Duas fontes.

Uma anotação contemporânea.

Uma memória antiga.

Convergência.

Ainda não uma gravação.

Mas convergência.


Irina foi confrontada com o depoimento de Aro.

Dessa vez, ficou furiosa.

— Ele está tentando se salvar.

— A senhora esteve na residência Black naquela noite?

Silêncio.

— Seu marido diz que falou com Sarah enquanto a senhora estava lá.

— Meu marido mentiu durante dezenove anos.

— Assim como a senhora?

O advogado interveio.

Irina respirou.

— Sim.

— Sim o quê?

— Eu fui até lá.

Finalmente.

— Por quê?

Irina fechou os olhos.

— Para desfazer.

Sarah ficou imóvel quando recebeu a informação.

— Desfazer o quê?

Irina não respondeu imediatamente.

— A intervenção no carro?

— Sim.

A palavra caiu pesada.

— A senhora havia realizado a intervenção inicial?

O advogado recomendou silêncio.

Irina olhou para ele.

Depois para o investigador.

— Sim.


Jacob não reagiu quando Sarah leu.

Ficou parado.

Imóvel.

Ela terminou.

— Irina admitiu que realizou a intervenção inicial.

Silêncio.

— Sozinha?

— Disse que sim.

— Usando o que Aro explicou?

— Sim.

— T-6?

— Sim.

— Ferramentas dele?

— Sim.

Sarah aproximou-se.

— Jacob.

Ele olhou.

— Ela mexeu no carro da minha mãe.

— Sim.

— Sabendo que podia causar acidente.

Sarah demorou.

— Sabendo que havia risco.

— E mesmo assim fez.

— Sim.

Ele fechou os olhos.

— Por quê?

A resposta de Irina era terrível justamente porque era pequena.

— Eu queria que o carro apresentasse problema.

— Para quê?

Irina respondeu:

— Para que Billy perdesse a confiança nela.

Silêncio.

— A senhora colocou duas mulheres em risco para prejudicar o relacionamento de Billy e Sarah?

Irina começou a chorar.

— Não era para elas morrerem.

— Mas o senhor Ricci alertou sobre acidente.

— Eu achei que Aro estava exagerando.

— Aro?

— Ele me explicou.

— E a senhora realizou mesmo assim.

— Sim.


Mas alguma coisa acontecera depois.

Irina afirmava ter entrado na garagem Black naquela noite para desfazer a intervenção.

— Por quê?

— Porque fiquei com medo.

— Depois de quê?

— Depois de falar com Billy.

Sarah franziu a testa quando leu.

Irina disse que, no restaurante, Billy falara de Sarah Black com carinho.

Contara que ela e Esme sairiam cedo.

Que Sarah pretendia testar o carro.

Irina percebeu que Esme também estaria no veículo.

— Isso a preocupou?

— Sim.

— Sarah Black não?

Silêncio.

Irina chorou.

— Eu estava com raiva dela.

— E de Esme não?

— Não.

— Então decidiu reverter?

— Sim.

— Conseguiu?

Irina fechou os olhos.

— Achei que sim.


Essa era a peça que faltava.

A intervenção final talvez não tivesse sido simplesmente a sabotagem inicial.

Irina alegava:

fez uma manipulação para provocar uma falha;depois se arrependeu parcialmente;entrou na propriedade para desfazer;acreditou ter corrigido;Sarah Black percebeu que ela mexera no carro;houve confronto;Irina foi expulsa;Irina acreditou que Sarah não usaria o veículo;na manhã seguinte Sarah tentou levá-lo a Robert;a falha ocorreu.

Sarah ficou diante do quadro.

— Precisamos saber se a tentativa de reversão piorou o sistema.

Jacob olhou.

— Isso importa?

Sarah virou.

— Para entender o que aconteceu, sim.

— Para minha mãe, não.

A voz dele não estava agressiva.

Só cansada.

Sarah aproximou-se.

— Não.

Ele respirou.

— Ela fez.

— Sim.

— Finalmente posso dizer?

Sarah olhou nos olhos dele.

— Irina admitiu que interferiu no carro.

— Então ela causou a morte da minha mãe?

Sarah hesitou apenas o necessário.

— A relação causal técnica e jurídica ainda será formalmente estabelecida, mas a própria Irina agora admite a conduta que está no centro da falha investigada.

Jacob soltou uma risada quebrada.

— Até quando você confirma, confirma como advogada.

Sarah tocou seu rosto.

— Porque quero que ninguém consiga tirar essa verdade de você depois.

Ele fechou os olhos.

Encostou a testa na dela.

— Eu amo você.

— Eu amo você.


A perícia histórica foi revisitada à luz da confissão.

A conclusão foi cautelosa.

A descrição da manipulação original feita por Irina era tecnicamente compatível com a falha.

A descrição da tentativa posterior de reversão também poderia explicar determinados sinais de ajuste irregular encontrados após o acidente.

Não era possível afirmar se a reversão:

falhou;piorou o sistema;apenas não restaurou segurança;ou deixou uma condição instável que evoluiu durante o trajeto.

Mas uma conclusão era possível:

o sistema não foi devolvido a uma condição segura.

Irina acreditara — ou dizia ter acreditado — que tinha corrigido.

Não tinha.


Aro recebeu a confissão da esposa por intermédio dos advogados.

Ficou sozinho durante vários minutos.

Depois pediu para falar.

— Eu sabia que ela podia fazer alguma coisa.

— Sim.

— Expliquei como funcionava.

— Sim.

— Estive na retirada da peça.

— Sim.

— Ouvi Sarah me dizer que Irina tinha mexido no carro.

— Sim.

Aro fechou os olhos.

— E não fiz nada.

Ninguém respondeu.

Não havia pergunta.

Aro começou a chorar.

— Se eu tivesse ido até aquela casa...

Talvez.

Mas a investigação não trabalhava com “se”.

Trabalhava com o que aconteceu.

E o que aconteceu era que Aro escolhera ficar em casa.


Sarah voltou para a residência Clearwater naquela noite.

Não porque tivesse combinado.

Porque precisava.

Sue abriu a porta.

Olhou para o rosto dela.

Não perguntou.

Apenas abriu os braços.

Sarah entrou.

— Mãe.

Sue a abraçou.

Harry apareceu na cozinha.

Jacob veio atrás.

Harry olhou para ele.

— Aconteceu alguma coisa.

Jacob assentiu.

Harry não perguntou qual.

— Tem comida.

Sarah começou a chorar.

Harry ficou confuso.

— O que eu falei?

Sue olhou.

— Nada. Só abraça sua filha.

Harry obedeceu.

Sarah ficou entre os dois.

E chorou.

Não pela investigação.

Não apenas.

Pela mulher que fora sua mãe biológica.

Pela melhor amiga dela.

Por Jacob.

Por Emmett.

Por Edward.

Pela menina de quatro anos que perdera Esme sem sequer conseguir guardar memórias suficientes para compreender o tamanho da perda.

E também pela menina de oito anos que depois perderia todo o resto.

Harry acariciou seus cabelos.

— Você não precisa resolver nada hoje.

Sarah fechou os olhos.

— Eu sei.

— Tem certeza?

Ela riu entre lágrimas.

— Não.

— Então aprende.

Jacob ficou observando.

Sue estendeu uma mão.

— Você também.

Jacob aproximou-se.

Harry resmungou:

— Mas não fica muito confortável.

Jacob sorriu.

— Senhor Clearwater...

— Harry.

— Harry.

— Ainda não gostei.

Sarah começou a rir.

E aquilo salvou a noite.


Mais tarde, Jacob e Sarah ficaram sozinhos na varanda.

Ela encostou a cabeça no ombro dele.

— Acabou?

Jacob perguntou.

Sarah pensou.

— O primeiro acidente?

— Sim.

Ela olhou para o céu.

— Ainda faltam consequências. Responsabilidades. Aro. O que aconteceu com documentos depois. Talvez outras pessoas.

— Mas sabemos quem mexeu no carro.

— Sim.

— Irina.

— Sim.

Jacob fechou os olhos.

Dezenove anos.

— Minha mãe não morreu porque dirigia mal.

— Não.

— Não foi irresponsável.

— Não.

— Ela percebeu alguma coisa e tentou levar o carro para Robert.

— Sim.

— Esme estava com ela.

— Sim.

Jacob respirou.

— E eu tinha seis anos.

Sarah segurou a mão dele.

— Tinha.

Ele apertou os dedos dela.

— E não era minha culpa.

Sarah olhou.

Jacob estava chorando.

Mas sorria.

— Não.

Ela beijou sua mão.

— Nunca foi.

Ficaram em silêncio.

Depois Jacob olhou para ela.

— Então agora?

Sarah sabia.

A resposta estava esperando havia quinze anos.

Carlisle.

Charlie.

A ligação.

Os arquivos antigos.

O encontro na estrada.

A emboscada.

A morte de Carlisle.

Edward e Emmett correndo.

Jacob segurando a mão dela no penhasco.

Sarah caindo no rio.

Ela respirou.

— Agora precisamos descobrir o que Carlisle encontrou quatro anos depois.

Jacob ficou sério.

Sarah apertou a mão dele.

— Porque eu não acho mais que a morte de Carlisle e o nosso ataque começaram naquela estrada.

— Onde começaram?

Sarah pensou em Robert.

Charlie.

T-6.

Aro.

Irina.

Documentos desaparecidos.

Quatro anos de silêncio.

Então respondeu:

— Acho que começaram quando alguém percebeu que Carlisle estava prestes a provar quem matou Esme e Sarah Black.

E, pela primeira vez desde que a investigação começara, o passado deixou de apontar para o acidente.

Passou a apontar diretamente para a noite em que Sarah Cullen desapareceu.