MEMÓRIAS

43 CAPÍTULO 43 - A última noite de Sarah Black



A confissão de Aro não encerrou a investigação.

Fez o contrário.

Abriu outra.

Sarah chegou à empresa antes das oito e encontrou Edward parado diante do quadro.

A pergunta do dia anterior ainda estava lá:

QUEM POSSUÍA CONHECIMENTO TÉCNICO SUFICIENTE PARA PRODUZIR A FALHA?

Abaixo, Sarah havia escrito:

SALVATORE → CONHECIMENTO TÉCNICO.

ARO → BUSCOU COMPREENDER / FEZ ANOTAÇÕES.

ARO → ADMITE TER EXPLICADO O MECANISMO A IRINA.

Edward olhou para a irmã.

— Isso é participação?

Sarah colocou a bolsa sobre a mesa.

— É uma pergunta jurídica ou emocional?

— As duas.

— Emocionalmente?

Ela olhou para o quadro.

— Ele viu sinais suficientes para agir e escolheu acreditar que conseguiria controlar Irina.

— Juridicamente?

— Depende do que ele sabia, do que pretendia, do que fez antes e depois e do que for possível provar. Não vou transformar um capítulo da nossa vida numa sentença improvisada.

Edward assentiu.

— Mas ele deu a informação.

— Segundo ele próprio, sim.

— E sabia que ela estava pensando em mexer no carro.

— Suspeitava.

Edward soltou o ar.

— Você consegue encontrar uma palavra mais cautelosa para tudo.

Sarah olhou para ele.

— Passei quinze anos sem saber quem eu era. Agora que estamos descobrindo, não quero substituir uma história incompleta por outra.

Edward ficou quieto.

Depois sorriu.

— Isso foi muito bom.

— Eu sei.

— Convencida.

— Gêmeos.

Ele sorriu mais.

Era uma palavra que ainda fazia alguma coisa dentro dos dois.

Gêmeos.

Não como memória.

Como reconhecimento.

Sarah aproximou-se.

— Está bem?

Edward demorou.

— Minha mãe morreu quando eu tinha quatro anos.

Sarah assentiu.

— A nossa mãe.

Ele olhou.

Sarah corrigiu com delicadeza:

— Esme.

Edward entendeu.

Ela não estava rejeitando.

Estava protegendo as duas verdades.

Esme era mãe biológica.

Sue era mãe.

As duas cabiam.

— Eu não lembro direito dela — Edward confessou.

Sarah ficou surpresa.

— Não?

— Pedaços.

Sentou.

— Perfume. Voz. Uma música. Ela me carregando uma vez quando ralei o joelho. Algumas coisas podem ser lembranças verdadeiras. Outras podem vir de fotografias e histórias.

Sarah sorriu.

— Você está usando meu método.

— Infelizmente.

Ela sentou ao lado.

— Eu tenho menos.

— Você tinha quatro também.

— Eu sei.

Edward pegou a mão dela.

— Talvez não precisemos lembrar tudo para ter amado alguém.

Sarah sentiu os olhos encherem.

— Desde quando você ficou sábio?

— Desde que Emmett ficou com toda a idiotice disponível da família.

Da porta:

— Eu ouvi!

Sarah começou a rir.

Emmett entrou.

— E quero registrar formalmente uma reclamação por discriminação intelectual.

— Indeferida — Sarah respondeu.

— Ditadura.

— Bom dia, Emmett.

Ele beijou a cabeça dela.

— Bom dia, irmã perdida que voltou para me oprimir.

Edward apontou.

— Você percebe que está provando meu argumento?

— Não me interessa.

E por alguns minutos, novamente, eram apenas irmãos.


A investigação precisava reconstruir uma coisa que até então recebera menos atenção do que a T-6.

A própria noite de Sarah Black.

Não apenas quem entrou na propriedade.

Mas o que ela fez.

Às 18h04, Daniel deixara a casa.

Sarah Black estava na garagem procurando ferramentas.

Às 18h20, Irina retirava a T-6 da garagem de Robert.

Às 18h31, uma ligação do Volturi & Associados chegava à residência Black.

Mais tarde, Billy sairia.

Carlisle também estava fora até retornar para os três filhos na residência Cullen.

Na casa Black permaneceriam Sarah Black, Esme e Jacob, então com seis anos, além dos funcionários conforme a escala.

Mas havia horas vazias.

Sarah escreveu:

O QUE SARAH BLACK FEZ ENTRE 18h31 E 21h56?

Jacob entrou exatamente nesse momento.

Leu.

Ficou parado.

— Minha mãe.

— Sim.

— Você quer reconstruir a última noite dela.

Sarah virou.

— Só documentalmente.

— Eu sei.

Ele aproximou-se.

— Faz.

Sarah observou o rosto dele.

— Tem certeza?

— Se ela percebeu alguma coisa naquela noite, talvez tenha deixado alguma coisa.

Sarah assentiu.

— É o que estou pensando.

Jacob respirou.

— Só...

— O quê?

— Não transforma ela apenas em vítima.

Sarah ficou imóvel.

Ele olhou para o quadro.

— Minha mãe era mais do que a mulher que morreu naquele carro.

Sarah pegou a mão dele.

— Prometo.


O primeiro documento veio da cozinha.

E, pela primeira vez em muitos dias, não era sinistro.

Uma lista de compras.

Escrita por Sarah Black.

Billy reconheceu a letra, mas a grafia foi comparada independentemente.

Café.

Frutas.

Pão.

Chocolate para Jacob — esconder.

Jacob começou a rir.

— Ela escondia chocolate de mim?

Billy sorriu.

— Porque você comia tudo.

Emmett apontou.

— Genético.

Jacob olhou.

— Você é pior.

Sarah continuou lendo.

Levar jaqueta da Esme.

Ligar Robert cedo.

Acordar Jacob só se não voltarmos até 8h30.

O sorriso de Jacob desapareceu.

Sarah também parou.

Billy fechou os olhos.

— Ela planejava voltar.

Jacob olhou para a frase.

Acordar Jacob só se não voltarmos até 8h30.

Sarah segurou sua mão.

— Ela planejava estar em casa antes de você acordar.

Jacob respirou.

— Eu sei.

Dessa vez não havia culpa.

Só tristeza.

Talvez isso fosse progresso.


Outra anotação estava no verso.

Pedal baixo?

Barulho depois da garagem.

Sarah ficou imóvel.

— Depois da garagem.

Edward se aproximou.

— Qual garagem?

— Não sabemos.

Jacob falou:

— A de casa.

Sarah olhou.

— Provavelmente, pelo contexto. Mas registramos como provável.

Emmett suspirou.

— Claro.

Sarah escreveu:

CONTEMPORÂNEO — SARAH BLACK REGISTRA “PEDAL BAIXO?” + “BARULHO DEPOIS DA GARAGEM”.

Billy olhou.

— Então ela percebeu naquela noite.

Sarah respirou.

— Percebeu alguma alteração.

— Antes de sair pela manhã.

— Sim.

— E mesmo assim entrou no carro.

Jacob olhou para o pai.

— Porque ia até Robert.

Billy assentiu.

Aquela parte começava a fazer sentido.

Não completamente.

Mas o suficiente.

Sarah Black não ignorara um perigo que sabia mortal.

Percebera um comportamento estranho.

Marcara uma inspeção com o homem em quem confiava.

E acreditara que conseguiria dirigir até ele.


A segunda descoberta veio de Sue.

Não porque ela tivesse qualquer relação com o acidente.

Mas porque Sarah, depois do almoço na casa Clearwater, pedira cópias dos primeiros registros hospitalares de sua infância.

Queria separar memória de informação adquirida.

Sue enviou.

Sarah abriu.

Jacob estava ao lado.

Oito anos.

Menina não identificada.

Resgatada do rio.

Trauma.

Hipotermia.

Coma.

Pertences pessoais.

Roupas.

Pequenos objetos.

E:

corrente metálica com pingente em formato de lua.

Sarah tocou o próprio peito.

Jacob percebeu.

— Está bem?

— Estou.

Ela continuou.

Havia uma observação de enfermagem feita dias depois.

Paciente inconsciente apresenta resposta motora aumentada ao manuseio do colar. Mantê-lo junto aos pertences pessoais.

Sarah ficou imóvel.

— Antes de acordar.

Jacob leu.

— Você reagia ao colar antes de acordar.

— Sim.

Ela sentiu os olhos encherem.

Não era memória.

Mas era algo quase tão íntimo.

Aquele objeto importava para a menina de oito anos antes que alguém lhe contasse qualquer história.

Jacob não tocou no colar.

Esperou.

Sarah pegou sua mão e colocou sobre ele.

— Agora pode.

Jacob sorriu.

— Lua.

Sarah fechou os olhos.

E veio.

Rápido.

Quente.

Uma cozinha.

Riso.

Uma mulher atrás dela.

Outra à frente.

Dedos pequenos tocando o pingente.

E uma voz:

— Agora você tem uma lua.

Sarah respirou fundo.

Não perseguiu.

Então outra frase.

Nova.

Muito fraca.

— Igual à minha.

Sarah abriu os olhos.

— Espera.

Jacob retirou a mão imediatamente.

Sarah pegou o telefone.

Anotou.

MEMÓRIA ESPONTÂNEA.

“Agora você tem uma lua.” — repetida / alta confiança.

NOVA: “Igual à minha.” — baixa/média confiança.

Possível referência a outro objeto/símbolo. NÃO IDENTIFICAR PESSOA.

Jacob permaneceu em silêncio.

Sarah terminou.

— Pronto.

— Posso falar?

— Pode.

— Você está chorando.

Ela tocou o rosto.

— Ah.

Jacob sorriu.

— Advogada brilhante.

— Cala a boca.

Ele a abraçou.


A confirmação sobre a lua não veio naquele dia.

E Sarah preferiu assim.

A investigação principal avançou por outro caminho.

A ligação das 18h31.

Até então sabiam que partira do Volturi & Associados e estava atribuída internamente a I.V.

Mas não sabiam quem atendera.

Antônio não lembrava.

Billy poderia ainda estar em casa.

Sarah Black estava.

Esme estava.

Uma antiga extensão telefônica da residência possuía sistema de mensagens em fita para chamadas não atendidas.

Apareceu um registro de manutenção do equipamento.

E, no arquivo particular de Billy, uma caixa com fitas antigas.

A maioria não tinha relação com nada.

Sarah recusou-se a ouvir antes de serem catalogadas.

A fita correspondente à semana do acidente estava lá.

Emmett olhou para a caixa como se fosse uma bomba.

— Isso ainda funciona?

— Não vamos colocar num aparelho qualquer.

— Eu sei.

— Digitalização especializada.

— Eu sei.

Sarah olhou.

— Você está estranhamente obediente.

— Estou com medo de você.

— Excelente.


A fita foi recuperada.

A chamada das 18h31 não fora atendida.

Havia uma mensagem.

Sarah não ouviu primeiro.

Recebeu transcrição técnica.

“Sarah, é Irina. Preciso falar com Billy. Diga a ele que vou encontrá-lo mais tarde. E... não use o carro amanhã cedo antes de falar comigo. É importante.”

Silêncio.

Sarah leu novamente.

Jacob ficou branco.

Billy levantou.

— Ela avisou.

Edward franziu a testa.

— Por quê?

Sarah permaneceu imóvel.

— Isso muda muita coisa.

Emmett olhou.

— Ela tentou impedir?

— Talvez.

Jacob virou para Sarah.

— Depois de buscar a T-6?

— A mensagem é onze minutos depois do horário registrado da retirada.

— Então ela já tinha a peça.

— Sim.

Billy estava confuso.

— Por que avisaria Sarah para não usar o carro?

Sarah pegou a caneta.

Escreveu:

18h20 — IRINA RETIRA T-6.

18h31 — MENSAGEM: “NÃO USE O CARRO AMANHÃ CEDO ANTES DE FALAR COMIGO.”

Depois ficou olhando.

Aquilo não inocentava Irina.

Pelo contrário.

Mostrava conhecimento antecipado de que havia razão para Sarah Black não usar o veículo.

Mas introduzia outra pergunta.

Se Irina pretendia matar Sarah, por que deixaria uma mensagem avisando que não usasse o carro?

Edward foi o primeiro.

— Talvez o plano inicial não fosse matar.

Sarah olhou.

— Talvez.

Emmett ficou sério.

— Aro disse que achava que ela queria assustar Sarah.

— Sim.

Jacob balançou a cabeça.

— Mas Salvatore avisou sobre risco de acidente.

— Sim.

— Ela sabia que podia matar.

— Há forte evidência de que foi alertada.

— Então por que liga?

Sarah respirou.

— Porque saber que algo pode matar e desejar que mate são questões diferentes.

Jacob ficou em silêncio.

Billy falou:

— Talvez ela tenha se arrependido.

Sarah olhou.

— Talvez.

— Ou queria controlar quando Sarah usaria o carro — Edward disse.

Sarah virou.

Essa hipótese era pior.

— Explica.

— “Não use antes de falar comigo.”

Ele apontou para a frase.

— Não é “não use o carro”. É “não use amanhã cedo antes de falar comigo”.

Sarah sentiu um arrepio.

— Condicional.

— Sim.

Emmett completou:

— Talvez Irina quisesse que ela usasse depois.

Silêncio.

Sarah escreveu:

HIPÓTESES:

1. ALERTA / ARREPENDIMENTO.

2. CONTROLE DO MOMENTO DE USO.

3. OUTRO MOTIVO AINDA DESCONHECIDO.

Nada além.


Sarah Black ouviu a mensagem?

Essa passou a ser a pergunta.

O equipamento registrava reprodução manual.

E havia uma marca temporal.

19h03 — mensagem reproduzida.

Alguém na residência ouvira.

Quem?

Não sabiam.

Mas Billy ainda podia estar em casa naquele horário.

Sarah Black também.

Esme também.

Jacob tinha seis anos.

Funcionários circulavam.

Billy tentou lembrar.

— Eu não lembro.

Sarah assentiu.

— Então não força.

— Mas se eu ouvi...

— Não sabemos.

— Se Sarah ouviu...

— Também não sabemos.

Jacob olhou para o quadro.

— Mas alguém ouviu.

— Sim.

E não apagou.

A mensagem permaneceu na fita.


Então encontraram outra coisa na lista de Sarah Black.

Abaixo de “pedal baixo?” havia uma frase quase riscada:

Irina sabe?

Jacob ficou imóvel.

— Minha mãe suspeitou dela.

Sarah olhou.

— Perguntou se Irina sabia de alguma coisa.

— Depois da mensagem.

— Provavelmente.

Billy passou a mão pelo rosto.

— Ela deve ter ouvido.

Sarah levantou a mão.

— É uma inferência forte, mas ainda inferência.

— Sarah.

— Eu sei.

A sequência era poderosa.

Irina retira a T-6.

Deixa mensagem dizendo para Sarah não usar o carro.

A mensagem é reproduzida.

Sarah Black escreve:

Pedal baixo?

Barulho depois da garagem.

Irina sabe?

E marca Robert para 7h15.

Agora era possível imaginar a lógica de Sarah Black.

Não necessariamente que Irina tentara matá-la.

Talvez que Irina soubesse de um problema.

Talvez que estivesse envolvida numa brincadeira cruel.

Talvez que pudesse explicar por que o carro estava estranho.

Sarah Black não ligou de volta.

Ou, pelo menos, não havia registro conhecido de que tivesse ligado.

Preferiu Robert.

Um homem de confiança.

Um mecânico.

Alguém que entenderia.


A ligação do portão às 21h56 tornou-se ainda mais inquietante.

Porque se Irina havia tentado alertar Sarah às 18h31, por que horas depois alguém usando “Sra. V.” obteria acesso à propriedade?

Sarah ficou diante do quadro.

— Alguma coisa mudou.

Jacob aproximou-se.

— Entre 18h31 e 21h56.

— Sim.

— O quê?

Sarah olhou para o restaurante.

— Irina encontrou Billy.

— Perguntou se minha mãe estava em casa.

— Sim.

— Descobriu que estava com Esme.

— Sim.

— Depois saiu.

Sarah respirou.

— Mas isso ainda não explica.

Edward entrou.

— Talvez ela tenha ido recuperar alguma coisa.

Sarah virou.

— A T-6?

— Ou desfazer.

Silêncio.

Emmett apareceu atrás.

— Desfazer a sabotagem?

Sarah ficou imóvel.

A hipótese era inesperada.

Se Irina inicialmente pretendesse provocar uma pane, tivesse sido alertada do risco, depois se arrependesse...

Talvez tivesse entrado na propriedade para remover a intervenção.

Mas então por que o carro falhou?

— Pode ter tentado e piorado — Edward sugeriu.

Sarah imediatamente escreveu:

HIPÓTESE APENAS.

— Precisamos do laudo técnico.


Os especialistas receberam uma nova pergunta sem saber a hipótese emocional por trás dela:

A intervenção observada poderia resultar de tentativa incompleta de reverter uma manipulação anterior?

A resposta veio horas depois.

Possível, mas não determinável.

Sarah quase jogou o relatório pela janela.

Emmett leu.

— Você odeia quando os peritos falam igual a você?

— Profundamente.

Edward riu.

Mas havia um complemento.

Certos sinais descritos no laudo original poderiam ser compatíveis com mais de uma manipulação.

Uma inicial.

Outra posterior.

Não havia como provar com o material existente.

Mas também não era possível excluir.

Sarah ficou olhando.

Talvez alguém tivesse entrado na garagem duas vezes.

Ou uma pessoa tivesse feito duas intervenções.

Ou uma tentativa de correção tivesse deixado o sistema ainda mais perigoso.

22h18 — portão lateral novamente.

A palavra voltou.

Mesmo podendo se referir ao defeito anterior do portão, agora ganhava outra possibilidade contextual.

Sarah recusou-se a escolher.


Aro foi confrontado com a mensagem.

A voz era inequivocamente de Irina.

Ele ouviu.

Ficou pálido.

— Eu nunca soube disso.

— Sua esposa tentou alertar Sarah Black?

— Parece.

— Isso muda sua avaliação?

Aro demorou.

— Não sei.

— Por quê?

— Porque Irina fazia isso.

— Isso o quê?

— Criava o perigo e depois queria ser a pessoa que salvava você dele.

Silêncio.

Sarah sentiu um arrepio quando leu.

Aro continuou:

— Ela precisava controlar os dois lados.

— Está dizendo que sabotaria um carro e depois avisaria a vítima?

— Estou dizendo que ela era capaz de causar um problema para depois aparecer com a solução.

— Por quê?

Aro respirou.

— Para ser necessária.

— A Billy?

Ele fechou os olhos.

— Sempre Billy.


Irina foi chamada.

Dessa vez, a voz dela própria foi reproduzida.

Dezenove anos atrás.

Mais jovem.

Clara.

“Sarah, é Irina. Preciso falar com Billy. Diga a ele que vou encontrá-lo mais tarde. E... não use o carro amanhã cedo antes de falar comigo. É importante.”

Irina perdeu a cor.

Seu advogado pediu pausa.

Ela recusou.

— Eu lembrava da ligação.

— Por que não mencionou?

— Porque ninguém perguntou.

— A senhora sabia que havia risco no carro?

— Eu sabia que havia uma peça experimental envolvida.

— A senhora retirou a T-6 da garagem de Robert?

Silêncio.

— Seu veículo foi fotografado.

Irina fechou os olhos.

— Sim.

A palavra mudou tudo.

Primeira admissão direta.

— Por quê?

— Eu queria assustar Sarah.

— Como?

Irina não respondeu.

— A senhora pretendia provocar uma falha no veículo?

— Não uma falha total.

— Então pretendia interferir no carro.

O advogado interveio.

Irina permaneceu calada.

— A senhora foi alertada por Salvatore Ricci sobre risco de acidente?

— Aro exagerou.

— Não perguntamos sobre Aro. Perguntamos sobre Salvatore.

Irina respirou.

— Ele disse que havia risco se fosse feito errado.

— E a senhora sabia fazer corretamente?

Silêncio.

— Quem realizou a intervenção?

Irina olhou para o advogado.

Ele recomendou que não respondesse.

E ela não respondeu.


Quando Sarah recebeu a notícia, não comemorou.

Irina admitira retirar a T-6.

Admitira intenção de assustar Sarah Black.

Mas recusara responder quem mexera no carro.

Jacob estava imóvel.

— Ela fez.

Sarah olhou.

— Admitiu uma intenção de interferir e assustar. Ainda não confessou a sabotagem específica que provocou as mortes.

— Mas agora...

— Agora a investigação está muito mais próxima.

Jacob respirou.

— Minha mãe morreu por ciúme.

Sarah segurou sua mão.

— Talvez tenha começado assim.

Ele olhou.

— Começado?

Sarah apontou para a mensagem.

— Alguma coisa mudou naquela noite.

E era isso que ainda faltava descobrir.


A resposta talvez estivesse na segunda chamada.

Porque os investigadores encontraram uma ligação que até então passara despercebida.

22h27.

Depois da anotação de Antônio às 22h18.

Origem:

residência Black.

Destino:

Volturi & Associados.

Duração:

trinta e dois segundos.

Ninguém sabia quem ligara.

Mas o escritório tinha serviço de atendimento noturno.

O registro manuscrito sobreviveu.

Uma frase.

Sarah leu.

E sentiu o corpo gelar.

“Sra. Black pede que Dra. Irina não volte à propriedade.”

Silêncio absoluto.

Jacob ficou branco.

Billy levantou lentamente.

Edward parou de respirar por um segundo.

Emmett não disse nada.

Sarah escreveu no quadro:

22h27 — SARAH BLACK, OU ALGUÉM EM SEU NOME, MANDA IRINA NÃO VOLTAR.

Isso significava que alguma coisa acontecera.

Alguma coisa entre a abertura do portão e 22h27.

Talvez Sarah Black tivesse visto Irina.

Talvez confrontado.

Talvez descoberto o que ela fazia.

Talvez Irina tivesse tentado desfazer.

Talvez não.

Mas agora existia um confronto.

E, pela primeira vez, a última noite de Sarah Black começava a ter voz própria.

Ela não dormira sem perceber.

Não fora uma vítima passiva.

Alguma coisa acontecera naquela garagem.

Sarah Black descobrira.

E mandara Irina embora.

Na manhã seguinte, antes que Jacob, de seis anos, acordasse, ela e Esme entraram no carro para levá-lo até Robert.

Acreditando, provavelmente, que ainda tinham tempo de descobrir exatamente o que Irina havia feito.

Não tinham.