MEMÓRIAS

40 CAPÍTULO 40 - O negativo



Sarah descobriu que odiava esperar.

Não aquela impaciência comum que fazia alguém olhar o relógio duas vezes em cinco minutos.

Era um ódio físico.

Quase ofensivo.

A caixa de Robert Hale fora recolhida às doze e quarenta e três.

Às treze e quinze, Sarah tentou trabalhar.

Às treze e vinte e dois, desistiu.

Às treze e trinta, abriu um contrato.

Às treze e trinta e sete, percebeu que havia lido a mesma cláusula seis vezes.

Às treze e quarenta, Jacob entrou em seu escritório.

Não falou.

Tirou o contrato da mão dela.

Sarah olhou.

— Eu estava lendo.

— Não estava.

— Estava sim.

— Qual é o objeto?

Ela abriu a boca.

Fechou.

Jacob ergueu uma sobrancelha.

— Odeio você.

— Não odeia.

— Neste momento, um pouco.

Ele fechou a pasta.

— Almoçou?

— Não.

— Sarah.

— Não estou com fome.

— Ótimo.

— Como “ótimo”?

— Você não precisa estar com fome para comer.

— Essa frase é ilógica.

— Levanta.

Sarah cruzou os braços.

— Você está mandando em mim?

— Sim.

— Corajoso.

— Tenho vinte e cinco anos, um metro e...

Sarah levantou.

— Se terminar essa frase usando seu tamanho como argumento, vou processar você.

Jacob sorriu.

— Funcionou.

— O quê?

— Você levantou.

Sarah percebeu.

— Manipulador.

— Namorado.

— Não são categorias excludentes.

Ele pegou a bolsa dela.

Sarah tentou tirar.

Jacob levantou acima da cabeça.

Ela encarou.

— Isso é infantil.

— Você tem razão.

Ele baixou.

Sarah pegou.

— Obrigada.

— Vamos comer.

Ela deu dois passos.

Parou.

— E se ligarem?

— Seu telefone funciona no restaurante.

— E se...

Jacob segurou seu rosto.

— Sarah.

Ela calou.

— Quando tiver alguma coisa confirmada, vão ligar.

— Eu sei.

— Então vem.

Sarah respirou.

— Tá.

Jacob beijou sua testa.

— Boa garota.

Ela congelou.

Ele percebeu imediatamente.

— Não.

Sarah estreitou os olhos.

— Corre.

Jacob saiu primeiro.

Sarah foi atrás.

— JACOB BLACK!

A risada dele ecoou pelo corredor.

Emmett colocou a cabeça para fora do próprio escritório.

— O que ele fez?

— Quer morrer.

— Ah. Rotina.

Sarah passou.

Emmett viu Jacob entrando no elevador.

— Se precisar esconder o corpo, eu tenho contatos.

Edward surgiu atrás dele.

— Você não tem contatos.

— Posso conseguir.

Sarah entrou no elevador.

Por alguns minutos, conseguiu não pensar na fotografia.

Só por alguns.


A ligação veio às dezesseis e cinquenta e oito.

Sarah estava de volta à empresa.

Dessa vez, não atendeu no primeiro toque.

Olhou para Jacob.

Depois para Edward.

Emmett estava de pé.

Billy sentara.

Rosalie permanecia ao lado de Emmett.

A caixa pertencera ao avô dela.

A descoberta era dela também.

Sarah atendeu.

— Sim.

Ouviu.

— Entendi.

Pausa.

— A imagem foi autenticada?

Mais alguns segundos.

— E a data?

Silêncio.

— Certo.

Sarah fechou os olhos.

Jacob se aproximou.

— Não. Não envie para os familiares ainda. Primeiro quero o relatório técnico.

Outra pausa.

— Sim.

— Obrigada.

Desligou.

Ninguém perguntou imediatamente.

Sarah agradeceu mentalmente por isso.

Colocou o telefone sobre a mesa.

— Conseguiram recuperar quatro imagens daquela tarde e início da noite.

Rosalie apertou a mão de Emmett.

Sarah continuou:

— O sistema de Robert fazia registros automáticos em intervalos quando o sensor externo era acionado.

Edward perguntou:

— Temos horário?

— O relógio interno da câmera estava sete minutos atrasado.

— Como sabem?

— Comparação com registros de Robert e um recibo fotografado em outra sequência. O relatório explica.

Sarah respirou.

— O horário corrigido da sequência relevante é aproximadamente 18h19 a 18h23.

Billy ficou imóvel.

18h20.

A anotação:

T-6 retirada — 18h20.

Jacob perguntou:

— Tem carro?

— Tem.

— Dá para identificar?

Sarah olhou para ele.

— Sim.

Silêncio.

Emmett apertou a mão de Rosalie.

— Qual?

Sarah respondeu:

— O veículo registrado em nome de Irina Volturi.

Ninguém falou.

Dessa vez nem Sarah correu para colocar uma ressalva.

Porque a ressalva viria.

Mas primeiro precisava permitir que o fato existisse.

Edward falou devagar:

— O mesmo veículo do restaurante?

— Mesmo modelo, mesma placa.

Jacob fechou os olhos.

Billy sentou mais fundo na cadeira.

Rosalie levou a mão à boca.

Emmett olhou para Sarah.

— Então foi ela.

Sarah respirou.

— O carro dela esteve na garagem de Robert no horário em que Robert registrou a retirada da T-6.

Emmett assentiu.

Entendeu a diferença.

— Certo.

Jacob perguntou:

— Ela aparece?

Sarah hesitou.

— Na última imagem.

O ambiente mudou.

— Dá para reconhecer? — Billy perguntou.

— O laudo ainda trata a identificação facial com cautela porque é negativo antigo, iluminação lateral e resolução limitada.

— Sarah.

Ela olhou para Jacob.

— É uma mulher.

Silêncio.

— Características físicas compatíveis com Irina naquela época.

Billy fechou os olhos.

Sarah continuou:

— Roupa também pode ser comparada a outras imagens do mesmo dia, se existirem. Mas eu não vou dizer que uma fotografia ruim de dezenove anos atrás, sozinha, identifica alguém de forma absoluta.

Edward perguntou:

— E Thomas?

— Não aparece.

— Robert?

— Em duas imagens.

Rosalie respirou fundo.

— Meu avô estava lá?

Sarah olhou para ela.

— Sim.

— Fazendo o quê?

— Na primeira, perto da entrada. Na segunda, ao lado do veículo.

Rosalie ficou tensa.

— E a caixa?

Sarah respirou.

— Aparece.

Todos ficaram imóveis.

— Robert está segurando uma caixa.

Jacob se aproximou da mesa.

— A mesma?

— Não dá para afirmar que o conteúdo é a T-6 pela imagem.

Sarah apontou para a cronologia.

— Mas temos o horário, o registro dele dizendo “T-6 retirada — 18h20”, o veículo de Irina e uma caixa sendo entregue.

Edward soltou o ar.

— Isso é bem diferente de memória.

Sarah assentiu.

— Muito.

Foi até o quadro.

Escreveu:

18h20 — IMAGEM: VEÍCULO DE IRINA NA GARAGEM DE ROBERT.

ROBERT ENTREGA CAIXA A MULHER FISICAMENTE COMPATÍVEL COM IRINA.

Depois:

REGISTRO CONTEMPORÂNEO DE ROBERT: “T-6 RETIRADA — 18h20.”

E abaixo:

CONJUNTO PROBATÓRIO FORTALECE FORTEMENTE A HIPÓTESE DE QUE IRINA RETIROU A T-6.

Emmett olhou.

— Você escreveu “fortemente” duas vezes.

Sarah virou.

— Porque agora posso.

Ele sorriu.

— Estou orgulhoso.

Edward respondeu:

— Ela vai apagar se você continuar.

Emmett ficou quieto.


A segunda descoberta estava na fotografia seguinte.

E era mais estranha.

O carro de Irina já estava saindo.

Robert permanecia na entrada.

Sozinho.

O braço levantado.

Como se tivesse acabado de entregar alguma coisa.

Mas havia uma segunda pessoa.

Ao fundo.

Quase escondida.

Sarah recebeu a informação apenas depois de o laboratório concluir que não se tratava de sombra ou sobreposição do negativo.

— Homem ou mulher? — Jacob perguntou.

— Provavelmente homem.

— Robert?

— Robert está em primeiro plano.

— Dá para reconhecer?

— Não.

— Roupa?

— Escura.

Emmett soltou o ar.

— Claro. Porque aparentemente todo mundo em investigação de dezenove anos atrás usava roupa escura e ficava de costas.

Sarah quase riu.

— Ele está parcialmente atrás da porta interna.

Edward perguntou:

— Poderia ser funcionário de Robert?

— Sim.

— Aro?

— Também poderia ser, fisicamente. Assim como milhares de homens.

Emmett apontou.

— Obrigado por matar o suspense.

— Disponha.

Rosalie franziu a testa.

— Meu avô tinha funcionário naquele horário?

Sarah olhou.

— Isso está sendo verificado.

Rosalie pensou.

— Ele normalmente fechava sozinho.

Emmett virou.

— Você lembra?

— Não. Meu pai contava.

Sarah levantou a mão.

— Então relato de terceiro.

Rosalie assentiu.

— Certo.

Sarah sorriu.

— Vocês estão ficando ótimos nisso.


A fotografia não foi mostrada a Thomas Reed imediatamente.

Primeiro, os investigadores pediram que ele descrevesse novamente a entrega que fizera no dia anterior.

Thomas manteve o relato.

Garagem.

Número 47.

Mulher.

Caixa.

Robert.

Depois perguntaram se voltara no dia seguinte.

Não.

Se sabia quem buscaria a peça.

Não.

Se ouvira algum nome.

Ele pensou.

E disse algo novo.

— Doutor.

Sarah ficou imóvel quando recebeu o resumo.

— “Doutor” quem?

Thomas não sabia.

Segundo ele, no primeiro dia, quando entregou a caixa, Robert perguntou:

— “O doutor também vem amanhã?”

Thomas respondera que não sabia.

Ele nunca registrara isso antes.

Na primeira entrevista não lembrara.

A lembrança surgiu quando lhe perguntaram especificamente se Robert esperava outra pessoa.

Sarah escreveu:

MEMÓRIA TARDIA — BAIXA CONFIABILIDADE SEM CORROBORAÇÃO.

Jacob observou.

— “Doutor” pode ser Aro.

— Pode.

— Robert conhecia Aro?

— Provavelmente.

— Mas também pode ser qualquer advogado, médico...

— Exatamente.

Emmett resmungou:

— Às vezes eu odeio o método científico.

Sarah respondeu:

— Você nem sabe o que é método científico.

— Por isso mesmo.


A resposta sobre a segunda figura veio de Robert.

Não dele.

De seu caderno.

Uma página anterior às anotações que já tinham encontrado.

O texto era banal:

18h — A.V.? confirmar com I.

Sarah ficou olhando.

Aro Volturi.

Talvez.

Mas o ponto de interrogação importava.

— Isso foi escrito quando? — Edward perguntou.

— No mesmo dia da retirada.

— Antes?

— A posição na página sugere antes, mas não há horário.

Sarah escreveu:

“18h — A.V.? confirmar com I.”

Emmett apontou.

— Então Robert esperava Aro.

— Talvez.

— Sarah.

— O ponto de interrogação foi escrito pelo próprio Robert.

Edward concordou:

— Pode significar que ele não sabia se Aro iria.

Jacob ficou sério.

— E a figura na fotografia pode ser Aro.

— Pode.

— Mas não sabemos.

— Exatamente.

Ele respirou.

— Estou começando a falar igual a você.

Sarah sorriu.

— Eu amo você ainda mais.

Emmett fez uma careta.

— Por favor.

Sarah virou.

— Sua namorada está literalmente do seu lado.

Rosalie cruzou os braços.

— E ele é muito menos romântico.

Emmett ficou indignado.

— Eu trouxe café para você ontem.

Rosalie olhou.

— Você tomou metade.

— Controle de qualidade.

Edward começou a rir.

Por alguns segundos, Robert Hale deixou de ser um homem morto que guardara registros de uma peça possivelmente usada num homicídio.

Voltou a ser avô de Rosalie.

A família voltou a respirar.


A cronologia daquela noite agora tinha outra forma.

Sarah refez o quadro.

18h04 — Daniel deixa residência Black. Sarah Black + Esme + Jacob (6) permanecem na propriedade.

18h20 — T-6 registrada como retirada da garagem de Robert.

≈18h20 — veículo de Irina fotografado na garagem. Robert entrega caixa a mulher compatível com Irina. Segunda figura não identificada ao fundo.

18h31 — ligação Volturi & Associados → residência Black.

≈19h56 — Billy chega ao restaurante.

20h07 — conta aberta.

20h46 — Carlisle encerra participação e retorna à residência Cullen, onde estão Emmett (6), Edward (4) e Sarah Cullen (4).

20h48 — veículo de Irina entra no valet.

21h31 — veículo de Irina sai.

21h51 — cartão de Irina usado no posto.

21h56 — telefone público do posto → linha de serviço Black.

21h58 — Antônio registra: “Sra. V. Diz portão lateral com problema. Abrir para assistência. Disse que Sr. Black autorizou.”

22h18 — Antônio registra portão/luz externa.

Sarah ficou olhando.

Jacob estava ao lado.

— Está faltando alguém.

— A figura na garagem?

— Também.

Ele apontou entre 21h58 e 22h18.

— Quem entrou na casa.

Sarah corrigiu:

— Na propriedade.

— Certo.

— Ainda não sabemos se entrou na casa.

— Mas chegou à garagem.

— Essa é uma hipótese forte, não fato.

Jacob assentiu.

— E a ferramenta de Aro apareceu lá na manhã seguinte.

Sarah respirou.

— Sim.

— Então alguém esteve na garagem.

— Provavelmente.

— Sarah.

Ela sorriu.

— Eu sei.

Jacob beijou sua testa.

— Você vai explodir antes de dizer uma frase sem ressalva.

— E você gosta de mim assim.

— Muito.


A perícia voltou à fotografia da ferramenta.

Dessa vez, não apenas à gravação V&A.

Ao formato.

Às dimensões.

Ao modelo.

Aro havia reconhecido o conjunto.

Helen encontrara fotografia dele.

Mas o fabricante também mantinha catálogos antigos.

O estojo promocional fornecido ao escritório continha doze peças.

A fotografia da garagem mostrava uma chave específica.

Uma chave que poderia ser usada no conjunto de fixação relacionado ao sistema de freio.

Não provava que fora usada.

Apenas que era compatível.

Sarah registrou exatamente assim.

Emmett leu.

— Você gosta muito da palavra “compatível”.

— É uma palavra linda.

— Você devia casar com ela.

Jacob respondeu:

— Tarde demais.

Sarah virou lentamente.

Emmett arregalou os olhos.

Edward tossiu para esconder uma risada.

Jacob percebeu o que acabara de dizer.

— Eu quis dizer...

Sarah ergueu uma sobrancelha.

— Tarde demais?

— Porque você já está comigo.

— Sei.

— Sarah.

Ela voltou para o quadro.

— Continue falando.

— Não.

— Covarde.

— Prudente.

Emmett murmurou:

— Primeiro marido na infância, agora isso...

Jacob apontou.

— Nem começa.

Sarah estava sorrindo quando o telefone tocou.

O sorriso desapareceu.


A ligação era sobre o homem da fotografia.

Não haviam identificado o rosto.

Mas identificaram uma coisa.

O relógio.

A ampliação mostrava um relógio grande, metálico, no pulso esquerdo.

Modelo incomum.

E numa fotografia de evento do Volturi & Associados, feita naquele mesmo ano, Aro usava um relógio visualmente compatível.

Sarah ouviu tudo.

Depois perguntou:

— Quantas unidades desse modelo foram vendidas?

A resposta destruiu qualquer entusiasmo.

Milhares.

— Então não identifica Aro.

— Não.

— Altura?

Compatível.

— Constituição física?

Compatível.

— Rosto?

Insuficiente.

Sarah assentiu.

— Então temos um homem não identificado com características compatíveis com Aro.

— Correto.

Desligou.

Jacob perguntou:

— Nada?

— Não é nada.

Ela escreveu:

SEGUNDA FIGURA — HOMEM / ALTURA E CONSTITUIÇÃO COMPATÍVEIS COM ARO / RELÓGIO DE MODELO COMPATÍVEL.

Depois:

IDENTIFICAÇÃO INSUFICIENTE.

Edward leu.

— E o caderno diz “A.V.?”.

— Sim.

— Thomas lembra “doutor”.

— Sim.

— Então três elementos apontam na mesma direção.

Sarah assentiu.

— Mas nenhum individualmente identifica.

— Juntos?

Ela olhou para ele.

— Justificam aprofundar.

Edward sorriu.

— Resposta de advogada.

— Sou paga para isso.


Aro recebeu a fotografia.

Dessa vez, demorou mais para responder.

Seu advogado pediu intervalo.

Quando voltaram, perguntaram:

— O senhor esteve na garagem de Robert Hale naquela noite?

— Não lembro.

— O senhor frequentava a garagem?

— Algumas vezes.

— Com Irina?

— Talvez.

— Reconhece o relógio?

Aro olhou.

— Parece com um que eu tinha.

— Reconhece a pessoa?

Silêncio.

— Não.

— Poderia ser o senhor?

Aro fechou os olhos.

— Poderia.

A resposta surpreendeu.

— Então não nega?

— Eu não vou mentir de novo.

Silêncio.

— Não lembro de estar lá.

— Mas admite a possibilidade?

— Admito.

— Se esteve, por quê?

Aro passou a mão pelo rosto.

— Eu não sei.

— T-6?

Ele ficou imóvel.

— Talvez.

— O senhor sabia da peça antes do acidente?

Aro não respondeu.

— Doutor Volturi?

Ele olhou para o próprio advogado.

Depois para o investigador.

— Eu sabia que Irina estava movimentando alguma coisa da Cullen & Black.

Silêncio.

— Sabia que era a T-6?

— Não naquele primeiro momento.

— Quando descobriu?

— Depois.

— Depois do acidente?

— Sim.

— Tem certeza?

Aro demorou.

E essa demora seria registrada.

— Acho que sim.

Não “sim”.

Acho que sim.


Quando Sarah leu, levantou imediatamente.

— Ele mudou.

Jacob franziu a testa.

— O quê?

— Antes ele dizia que descobriu depois do acidente.

— Agora disse “acha”.

— Exatamente.

Edward pegou o documento.

— Pode ser cautela.

— Pode.

— Ou memória ruim.

— Pode.

Emmett apontou.

— Ou mentira.

Sarah olhou.

— Pode.

Emmett levou a mão ao peito.

— Ela disse.

— Não se acostuma.

Billy permanecia quieto.

— Aro sempre soube mais.

Sarah virou.

— Talvez.

— Eu conhecia ele.

— Há dezenove anos.

— Conhecia.

Billy olhou para o quadro.

— Ele não era inocente.

Sarah aproximou-se.

— Inocência moral e responsabilidade criminal são coisas diferentes.

Billy assentiu.

— Eu sei.

— Talvez ele tenha encoberto.

— Sim.

— Talvez tenha participado antes.

— Sim.

— Ainda precisamos separar.

Billy sorriu tristemente.

— Carlisle teria colocado você para comandar tudo isso.

Sarah sentiu aquela pressão familiar no peito.

— Não sei.

— Eu sei.

Ela não discutiu.


A identificação definitiva não veio do relógio.

Veio do carro.

Na última fotografia, o veículo de Irina aparecia saindo da garagem.

A ampliação da janela do passageiro revelou reflexo suficiente para indicar uma segunda pessoa sentada no banco dianteiro.

Um homem.

Ainda sem rosto utilizável.

Mas havia algo no painel.

Um cartão de estacionamento.

Rosalie reconheceu o desenho.

— Isso é do clube.

Sarah virou.

— Que clube?

Billy respondeu antes.

— Riverside.

— Quem frequentava?

— Nós.

— “Nós” quem?

— Eu. Carlisle. Robert.

Pausa.

— Aro.

Sarah sentiu o estômago apertar.

— Irina?

— Como convidada.

O cartão tinha um número parcialmente legível.

A investigação buscou arquivos do clube.

E, por algum milagre burocrático, os livros de associados tinham sido preservados.

O número foi reconstruído.

A-117.

Titular:

Aro Volturi.

Ninguém comemorou.

Sarah ficou olhando para o documento.

O cartão de Aro estava no carro de Irina no momento em que a T-6 saiu da garagem de Robert.

Não provava sozinho que Aro estava dentro.

Mas somava-se ao homem na fotografia.

Ao relógio.

À anotação A.V.?

À lembrança tardia de Thomas sobre “o doutor”.

Sarah escreveu:

FORTE CONJUNTO INDICIÁRIO DE PRESENÇA DE ARO NA GARAGEM ÀS ~18h20.

Jacob ficou ao lado dela.

— Agora?

Sarah respirou.

— Agora a possibilidade de Aro ter estado lá deixou de ser periférica.

— Então ele sabia antes do acidente.

Ela olhou para ele.

— Se confirmarem que era Aro naquela fotografia, ele estava presente na retirada da peça antes do acidente.

— E mentiu.

— Sim.

— Durante dezenove anos.

Sarah não respondeu.

Porque aquilo era verdade.


Naquela noite, Aro ficou sozinho no escritório.

Não havia Irina.

Não havia advogado.

Não havia investigador.

Apenas ele.

Sobre a mesa estava uma cópia da fotografia.

Não deveria estar.

Mas seu advogado recebera acesso aos elementos que o envolviam.

Aro olhava para o homem quase escondido.

Relógio no pulso.

O próprio cartão no carro.

Dezenove anos.

Fechou os olhos.

E dessa vez a memória veio.

Não inteira.

Não limpa.

Robert irritado.

Irina segurando a caixa.

A voz dela:

— Não precisa saber para que serve.

Aro perguntando:

— Então por que estou aqui?

Irina respondendo:

— Porque Robert confia mais em você do que em mim.

Aro abriu os olhos.

Respiração curta.

Lembrou da caixa entrando no porta-malas.

Lembrou de Irina dirigindo.

Lembrou de perguntar:

— Isso vai voltar para a empresa?

E Irina:

— Amanhã.

Aro levantou da cadeira.

Andou até a janela.

Não.

Ele não soubera.

Não naquela hora.

Não soubera que duas mulheres morreriam.

Mas estivera lá.

Ajudara.

E depois mentira.

Primeiro para si.

Depois para todos.

Pegou o telefone.

Ligou para o advogado.

— Quero complementar meu depoimento.

Pausa.

— Amanhã.

Outra pausa.

Aro fechou os olhos.

— Não.

Sua voz saiu baixa.

— Agora.


Sarah estava na casa de Jacob quando o telefone tocou.

Onze e quarenta e três da noite.

Ela estava deitada com a cabeça no peito dele.

Jacob passava distraidamente os dedos pelos cabelos dela.

Sarah viu o nome do advogado na tela.

— Isso nunca é bom.

Jacob parou a mão.

— Atende.

Sarah atendeu.

Ouviu.

Sentou.

Jacob sentou junto.

— Ele fez o quê?

Pausa.

Sarah levantou da cama.

— Espontaneamente?

Mais silêncio.

— Com advogado presente?

Jacob já sabia que era sério.

Sarah caminhou até a janela.

— Certo.

Ouviu por mais alguns minutos.

Depois desligou.

Ficou imóvel.

— Sarah?

Ela virou.

— Aro pediu para complementar o depoimento.

Jacob levantou.

— E?

Sarah respirou.

— Admitiu que estava na garagem de Robert.

Silêncio.

— Com Irina?

— Sim.

Jacob fechou os olhos.

Sarah continuou:

— Disse que viu a caixa.

— Sabia que era a T-6?

— Diz que não naquele momento.

— E depois?

Sarah ficou quieta.

— Depois do acidente, descobriu.

Jacob passou a mão pelo rosto.

— E ficou calado.

— Sim.

— O que mais?

Sarah olhou para ele.

— Irina levou a caixa no carro.

— Para onde?

— Aro diz que não sabe.

— Ele não foi com ela?

— Não.

— Como voltou?

— Diz que Robert o levou até o escritório.

Jacob respirou.

— Então Irina saiu sozinha com a T-6.

Sarah assentiu.

— Se o relato dele for verdadeiro.

— E vinte minutos depois o escritório liga para a casa.

Sarah olhou para a cronologia mentalmente.

18h20.

Caixa.

Irina.

18h31.

Ligação.

Depois restaurante.

Posto.

Portão.

Garagem.

Jacob falou:

— Está quase completo.

Sarah balançou a cabeça.

— Não.

— Sarah...

— Ainda falta a parte mais importante.

— Qual?

Ela olhou diretamente para ele.

— Quem mexeu no carro.

Silêncio.

Aro podia colocar a T-6 nas mãos de Irina.

Os documentos podiam colocá-la no restaurante.

O cartão podia colocá-la no posto.

A ligação podia abrir o portão.

A ferramenta podia chegar à garagem.

Mas ainda faltava provar a ação que transformara uma peça em arma.

Sarah voltou para a cama.

Jacob sentou ao lado.

— Amanhã.

— O quê?

— Amanhã você pensa nisso.

Ela olhou.

— Agora você dorme.

— Não vou conseguir.

Jacob abriu os braços.

— Vem.

Sarah hesitou apenas um segundo.

Deitou.

Ele a puxou para perto.

A mão dele deslizou lentamente pelas costas dela.

Sarah soltou o ar.

— Suas mãos continuam sendo um problema.

— Posso parar.

Ela segurou a mão dele.

— Nem pense.

Jacob riu.

Sarah fechou os olhos.

Segurança.

Calor.

Presente.

Sem memória.

Sem mortos.

Só ele.

Por alguns minutos.

Até o telefone vibrar outra vez.

Sarah abriu os olhos.

— Não.

Jacob pegou primeiro.

Olhou a tela.

— É Edward.

Sarah atendeu.

— O que aconteceu?

A voz dele estava diferente.

— Encontraram outra coisa na caixa do Robert.

Sarah sentou novamente.

— O quê?

— Um envelope.

— Com o quê?

Edward respirou.

— Uma fotografia do carro da minha mãe e da Sarah Black.

Sarah ficou imóvel.

— Antes do acidente?

— Sim.

— Quando?

— Na manhã do acidente.

O coração dela acelerou.

— Robert estava lá?

— Não.

— Então quem tirou?

— Não sabemos.

— Edward...

— Sarah, tem alguma coisa escrita atrás.

Ela fechou os olhos.

— O quê?

Edward leu:

— “Ela percebeu.”

Silêncio.

Sarah sentiu o sangue gelar.

— Só isso?

— Não.

A voz de Edward falhou.

— Embaixo está escrito:

“Por isso tiveram que sair cedo.”

Sarah olhou para Jacob.

E, pela primeira vez, surgiu uma possibilidade que nenhum deles havia considerado.

Talvez Sarah Black tivesse percebido que alguma coisa estava errada com o carro.

E talvez o acidente não tivesse acontecido simplesmente porque alguém sabotara os freios.

Talvez as duas mulheres tivessem saído naquela manhã justamente porque estavam tentando descobrir quem havia mexido neles.