MEMÓRIAS

41 CAPÍTULO 41 - Ela percebeu



Sarah não dormiu.

Tentou.

Deitou novamente.

Fechou os olhos.

Jacob colocou o braço ao redor dela.

Por aproximadamente três minutos, funcionou.

Então:

— “Ela percebeu” o quê?

Jacob abriu os olhos.

— Sarah.

— É uma pergunta legítima.

— É meia-noite.

— Meia-noite e sete.

— Isso melhora muito.

Ela virou de lado.

— E “por isso tiveram que sair cedo” não faz sentido.

— Amanhã.

— Se Sarah Black percebeu que alguma coisa estava errada com o carro, por que entrou nele?

Jacob fechou os olhos.

— Amanhã.

— E quem tirou a fotografia?

— Sarah.

— Robert?

— Você acabou de dizer que ele não estava lá.

— Eu sei. Estou pensando.

Jacob abriu os olhos.

— Esse é exatamente o problema.

Ela encarou.

— Você não pode proibir meu cérebro de funcionar.

— Posso tentar cansar ele.

Sarah ergueu uma sobrancelha.

Jacob percebeu imediatamente a interpretação.

— Dormindo.

— Covarde.

— Você tem reunião às oito.

— Isso nunca impediu você antes.

Ele começou a rir.

Sarah sorriu por dois segundos.

Depois ficou séria outra vez.

— Jacob.

— Hum?

— E se ela soubesse?

O sorriso dele desapareceu.

Sarah se apoiou no cotovelo.

— Sua mãe sabia mexer em carros. Robert ensinou. Daniel a viu na garagem às 18h04 procurando ferramentas. Depois alguém entra na propriedade. Na manhã seguinte ela sai cedo com Esme. Agora aparece uma fotografia com “Ela percebeu”.

Jacob permaneceu quieto.

— Talvez ela tenha notado alguma coisa.

— Talvez.

— Mas se percebeu que o carro estava adulterado...

— Não sabemos que percebeu isso.

Sarah assentiu.

— Exatamente. Pode ter percebido qualquer coisa.

Jacob tocou o rosto dela.

— Então amanhã você descobre.

— Nós descobrimos.

— Não.

Sarah franziu a testa.

— Não?

— As autoridades descobrem. Você fica aqui enlouquecendo e reorganizando quadros.

Ela estreitou os olhos.

— Eu odeio quando você usa meus próprios argumentos.

— Aprendi com a melhor.

— Puxa-saco.

— Funciona?

Sarah beijou-o.

— Um pouco.

Deitou novamente.

Jacob puxou-a para perto.

— Dorme.

— Vou tentar.

— Ótimo.

Silêncio.

Trinta segundos.

— Jacob?

Ele soltou um suspiro dramático.

— O quê?

— Sua mãe costumava dirigir quando desconfiava de problema mecânico?

Jacob virou o rosto para o travesseiro.

— Eu tinha seis anos!

Sarah ficou imóvel.

Então começou a rir.

Jacob também.

— Finalmente uma resposta perfeita — ela disse.

— Posso colocar no seu quadro?

— Amanhã.

E, pela primeira vez naquela noite, Sarah conseguiu fechar os olhos sem fazer outra pergunta.


Às oito e vinte da manhã, a fotografia estava sob análise formal.

Sarah não a recebeu imediatamente.

O envelope fora encontrado entre negativos e documentos de Robert, mas aquilo não significava que Robert tivesse escrito a frase.

Primeiro vinha a proveniência.

Tipo de papel.

Processo de revelação.

Idade aproximada.

Tinta.

Grafia.

Impressões, se ainda fossem recuperáveis.

Só depois conteúdo.

Sarah repetiu isso três vezes para Emmett.

— Então você está dizendo que não podemos simplesmente olhar a letra e dizer “é de fulano”?

— Exatamente.

— Eu poderia.

Edward respondeu:

— Você também acha que consegue reconhecer pessoas pela nuca.

— Algumas nucas são muito características.

Sarah ignorou.

Rosalie estava sentada ao lado de Emmett.

Mais quieta.

Sarah percebeu.

— Você está bem?

Rosalie assentiu.

Depois negou.

— Não sei.

Sarah sentou diante dela.

— É seu avô.

— É.

— E cada vez que encontramos alguma coisa parece que ele sabia mais.

— É isso.

Rosalie apertou as mãos.

— Eu fico pensando se ele poderia ter impedido.

Sarah ficou em silêncio por um instante.

Então apontou para o quadro.

Rosalie acompanhou.

CULPA NÃO É PROVA.

— Isso vale para mortos também.

Rosalie respirou.

— E se ele soubesse?

— Então descobriremos o que sabia, quando soube e o que fez.

— E se ele tiver ajudado?

Emmett olhou para ela.

Sarah respondeu sem hesitar:

— Então vamos descobrir isso também.

Rosalie assentiu.

Era a resposta que precisava.

Não uma promessa de inocência.

Uma promessa de verdade.

Emmett segurou a mão dela.

— Seu avô guardou tudo isso.

Rosalie olhou para ele.

— Talvez porque quisesse que alguém encontrasse.

Sarah interveio:

— Ou porque simplesmente guardava documentos.

Emmett suspirou.

— Cinco segundos de poesia.

— Desculpa.

— Não está.

— Não mesmo.

Rosalie riu.

E a tensão diminuiu um pouco.


O primeiro resultado chegou perto do meio-dia.

A fotografia realmente era antiga.

O papel correspondia ao período.

A imagem não mostrava o acidente.

Mostrava o carro ainda na residência Black.

Na manhã do acidente.

O veículo estava parado do lado de fora da garagem.

Sarah Black aparecia ao lado do capô.

Esme estava alguns passos atrás.

As duas vivas.

Jacob não quis ver de imediato.

Billy também não.

Sarah não pediu.

Edward observou a cópia durante alguns segundos.

Emmett ficou atrás dele.

Sarah, antes de olhar, fez uma pergunta:

— Há risco de contaminar minhas memórias?

O profissional responsável respondeu:

— Sim. É uma imagem da sua mãe biológica, Esme, e de Sarah Black, duas pessoas relacionadas às suas memórias fragmentadas.

Sarah fechou a pasta.

— Então eu não vejo.

Jacob olhou para ela.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Edward imediatamente virou a imagem para baixo.

Sarah sentiu uma gratidão silenciosa.

Era difícil.

Muito.

Mas precisava proteger o pouco que começava a lembrar espontaneamente.

— Descrevam apenas o que for necessário para a investigação.

O resumo foi objetivo.

Sarah Black estava agachada junto à parte dianteira do veículo.

Esme observava.

O capô estava aberto.

Uma pequena caixa de ferramentas aparecia no chão.

Azul.

Sarah sentiu o peito apertar.

— Para.

Todos ficaram imóveis.

Ela fechou os olhos.

Azul.

A mesma sensação do capítulo anterior.

Uma mão.

Uma voz.

Não pega essa, pequena. Essa é pesada.

Sarah respirou.

— Não me digam mais sobre a caixa.

Edward assentiu.

Ela pegou o caderno.

CORROBORAÇÃO EXTERNA POSTERIOR: fotografia contém caixa de ferramentas azul.

MEMÓRIA ESPONTÂNEA ANTERIOR: azul + frase sobre ferramenta pesada.

Depois sublinhou:

MEMÓRIA OCORREU ANTES DE VER/CONHECER FOTOGRAFIA.

Jacob observou.

— Isso é importante.

— Muito.

Mas Sarah fechou o caderno.

— Depois.

A investigação primeiro.


A fotografia tinha horário aproximado.

6h42.

Billy ficou branco quando soube.

— Elas saíram pouco depois.

— Quanto?

— Não sei exatamente. Sete, talvez.

Sarah perguntou:

— Existe registro?

— Estamos procurando.

O acidente fora comunicado às 7h38.

O local ficava a uma distância compatível com uma saída pouco antes das sete.

Edward olhou para a descrição.

— Então Sarah Black estava examinando o carro antes de sair.

— Sim.

— Isso muda a hipótese.

Sarah assentiu.

— Mas não sabemos o que ela percebeu.

Jacob perguntou:

— O capô aberto ajuda?

Sarah pensou.

— A intervenção identificada posteriormente estava relacionada ao sistema de freios. Abrir o capô não significa necessariamente que ela estava verificando isso.

Billy falou:

— Ela podia ter ouvido alguma coisa.

Sarah olhou.

— Antes de dirigir?

— Ou na noite anterior.

Jacob virou para o pai.

— Ela falou alguma coisa?

Billy fechou os olhos.

— Não lembro.

Sarah aproximou-se.

— Não força.

— Eu queria lembrar.

— Eu sei.

— Ela ligou para mim naquela manhã.

A sala parou.

Sarah ficou imóvel.

— Tem certeza?

Billy abriu os olhos.

— Sim.

— Memória ou documento?

— Memória.

— O que ela disse?

Billy apertou os olhos.

— Que estava saindo.

— Só isso?

— Não.

Silêncio.

— Billy, não procura a frase.

— Eu lembro de uma palavra.

Sarah esperou.

— Robert.

Rosalie levantou a cabeça.

— Meu avô?

Billy assentiu lentamente.

— Acho que ela disse que ia passar no Robert.

Sarah ficou imóvel.

Edward aproximou-se do quadro.

— Então talvez o destino delas fosse a garagem.

— Talvez — Sarah respondeu.

Rosalie parecia surpresa.

— Mas o acidente aconteceu antes de chegarem lá?

Billy pensou.

— Dependendo da estrada escolhida, sim.

Sarah escreveu:

RELATO DE BILLY: ligação matinal; Sarah Black teria mencionado “Robert”.

CONFIANÇA: PARCIAL. CORROBORAR.

Jacob olhou para ela.

— Se elas estavam indo até Robert...

Sarah terminou:

— Talvez Sarah Black quisesse que ele examinasse alguma coisa.

— No carro.

— Possivelmente.

O silêncio tornou-se pesado.

Porque aquela hipótese explicava algo que, na noite anterior, parecera absurdo.

Por que uma mulher que desconfiava do carro entraria nele?

Porque talvez não soubesse que os freios haviam sido preparados para falhar.

Talvez tivesse percebido apenas uma irregularidade menor.

O suficiente para querer mostrar a Robert.

Não o suficiente para acreditar que o carro poderia matá-la.


A ligação existia.

O registro telefônico da residência Black mostrava uma chamada às 6h51.

Destino:

um telefone ligado a Billy.

Duração:

quarenta e nove segundos.

Billy fechou os olhos.

Sarah permaneceu quieta.

— Então ela ligou.

— Sim.

— O conteúdo continua dependendo da sua memória.

— Eu sei.

— E “Robert” ainda precisa de confirmação independente.

— Eu sei.

Mas Billy estava chorando.

Sarah aproximou-se.

— O que foi?

— Quarenta e nove segundos.

Ela não entendeu.

— Foi a última vez que ouvi a voz dela.

Sarah sentiu o peito apertar.

Billy olhou para Jacob.

— Você estava dormindo quando ela saiu.

Jacob ficou imóvel.

— Tem certeza?

— Dessa vez, sim.

— Como?

Billy respirou.

— Ela disse.

Silêncio.

— “Não acordei Jacob.”

Jacob fechou os olhos.

Sarah imediatamente segurou sua mão.

Billy continuou:

— Ela disse que voltaria antes do café.

A voz dele quebrou.

— Ela ia voltar antes de você acordar.

Jacob baixou a cabeça.

Sarah o abraçou.

Nenhum quadro.

Nenhuma ressalva.

Não naquele segundo.

Apenas um filho de vinte e cinco anos ouvindo que, aos seis, dormia enquanto a mãe saía acreditando que voltaria antes de ele abrir os olhos.

Jacob apertou Sarah.

— Eu não lembro de me despedir.

— Porque talvez você não tenha se despedido.

— Eu devia...

Sarah afastou-se o suficiente para olhar para ele.

— Não.

Jacob fechou a boca.

— Nem termina.

Uma lágrima escorreu.

— Eu tinha seis anos.

Sarah assentiu.

— Tinha.

Dessa vez ele próprio repetiu:

— Eu tinha seis anos.

— Isso.

Billy aproximou-se.

Jacob olhou para o pai.

Billy abriu os braços.

O filho foi.

Sarah virou o rosto.

Deixou os dois.

Emmett estava chorando silenciosamente.

Edward também.

Sarah pegou a mão de cada um.

Emmett murmurou:

— Nós tínhamos seis e quatro.

Sarah assentiu.

— Éramos crianças.

Edward apertou sua mão.

— Todos nós.


A confirmação de Robert veio uma hora depois.

Não de memória.

Da agenda dele.

Naquela manhã havia uma anotação.

7h15 — S.B. carro.

Abaixo:

ver ruído/pedal.

Sarah sentiu o coração acelerar.

— Pedal.

Jacob olhou.

— Freio?

— Pode ser embreagem. Acelerador. Freio.

— Mas...

— Eu sei.

Sarah escreveu:

SARAH BLACK HAVIA COMBINADO COM ROBERT A VERIFICAÇÃO DO CARRO.

Rosalie aproximou-se.

— Então meu avô sabia que ela iria.

— Sim.

— E ela nunca chegou.

Silêncio.

Sarah respirou.

Agora a fotografia fazia sentido.

Sarah Black havia percebido alguma alteração.

Não necessariamente sabotagem.

Mas algo suficiente para marcar uma verificação com Robert às 7h15.

Saiu de casa com Esme.

Ligou para Billy às 6h51.

O acidente foi comunicado às 7h38.

Ela nunca chegou à garagem.

Jacob falou:

— Ela percebeu.

Sarah olhou para a frase no verso da fotografia.

Ela percebeu.

Sim.

Mas ainda havia outra pergunta.

— Quem escreveu?


A perícia grafotécnica excluiu Robert.

A letra não era dele.

Também não correspondia a Irina.

Nem a Aro.

Sarah recebeu o resultado com surpresa.

— Então quem?

Ainda não sabiam.

Rosalie pediu acesso aos documentos familiares do avô.

Não para mexer.

Para indicar possíveis pessoas que tinham convivido com ele.

Uma lista foi montada.

Funcionários.

Familiares.

Pilotos.

Mecânicos.

Entre eles havia um nome que ainda não aparecera em nenhuma etapa da investigação.

Michael Torres.

Mecânico.

Trabalhara com Robert por quase quinze anos.

Estava vivo.

Setenta e três anos.

Morava a duas horas dali.

Foi localizado.

E, novamente, ninguém da família falou com ele primeiro.


Michael lembrava de Sarah Black.

Isso ficou evidente nos primeiros minutos.

— Ela dirigia melhor do que muito homem que aparecia naquela garagem querendo se achar piloto.

Quando o resumo chegou, Billy sorriu pela primeira vez naquele dia.

— Era ela.

Sarah não pediu mais detalhes pessoais.

O depoimento continuou.

Michael trabalhara na garagem no período.

Na tarde da retirada da T-6, porém, saíra antes das cinco.

Não viu Irina.

Não viu Aro.

Não viu a caixa sair.

Mas Robert ligou para ele naquela noite.

— Horário?

— Michael estima entre sete e oito.

— Registro?

Ainda estavam procurando.

— O que Robert queria?

Sarah leu.

— Perguntou se Michael sabia alguma coisa sobre uma peça experimental da Cullen & Black.

Edward ficou imóvel.

— T-6?

— Michael não lembra do código espontaneamente.

— Então não use.

— Exatamente.

Robert teria dito que recebera uma peça que não deveria ter recebido.

E que ela fora buscada.

Michael perguntou por quem.

Robert não respondeu.

Mas disse:

— “Isso está errado.”

Sarah sentiu um arrepio.

— Relato de dezenove anos.

— Sim.

— Corroboração?

— O telefonema.

Encontraram.

19h14.

Robert Hale para Michael Torres.

Seis minutos e onze segundos.

Não provava o conteúdo.

Mas provava o contato.

Sarah registrou.


Então perguntaram a Michael sobre a manhã seguinte.

Ele lembrava porque Robert chegara cedo.

Muito cedo.

Antes das sete.

— Por quê?

— Esperava Sarah Black.

— Sabia o motivo?

Michael respondeu:

— O carro.

— O que havia com ele?

— Robert disse que Sarah ligara de madrugada.

Sarah franziu a testa.

— De madrugada?

O investigador pediu que Michael esclarecesse.

Ele corrigiu:

— Muito cedo. Antes de eu chegar. Não sei a hora.

Boa correção.

Sarah gostou.

— Robert comentou o que Sarah havia dito?

— Que o pedal estava estranho.

Silêncio.

Jacob olhou para o quadro.

ver ruído/pedal.

Agora havia uma segunda fonte.

Sarah escreveu:

AGENDA ROBERT + RELATO MICHAEL = CORROBORAÇÃO PARCIAL DE PROBLEMA PERCEBIDO NO PEDAL.

— Então ela percebeu o freio — Jacob disse.

Sarah respirou.

— Ainda não necessariamente. Mas estamos mais perto.

Michael continuou.

Sarah nunca chegou.

Quando souberam do acidente, Robert ficou transtornado.

E disse uma frase que Michael lembrava porque os dois discutiram.

— Qual?

Sarah leu:

— “Eu devia ter contado para ela ontem.”

A sala ficou imóvel.

Rosalie empalideceu.

— Contado o quê?

Michael fizera a mesma pergunta dezenove anos antes.

Robert não respondera.


A fotografia foi então apresentada a Michael.

Não o verso.

Primeiro a imagem.

Ele reconheceu Sarah Black.

Reconheceu Esme.

Reconheceu a residência.

Depois mostraram a escrita.

Michael ficou muito tempo em silêncio.

— É minha.

Sarah levantou os olhos.

Rosalie levou a mão à boca.

A frase:

Ela percebeu.

Por isso tiveram que sair cedo.

Era de Michael Torres.

— Quando escreveu? — perguntaram.

Ele não lembrava.

— Por quê?

Michael ficou emocionado.

— Porque Robert me deu a fotografia.

— Quando?

— Depois do enterro.

— E o que ele disse?

Michael fechou os olhos.

— Que Sarah tinha percebido que alguma coisa estava errada.

— Com o carro?

— Sim.

— Ele sabia o quê?

— Não me contou tudo.

— O senhor perguntou?

— Muitas vezes.

— E?

Michael respirou.

— Robert estava com medo.


Sarah ficou de pé.

— Medo de quem?

O resumo continuava.

Michael também perguntara.

Robert não dera nome.

Mas dissera:

— “Tem gente grande demais nisso.”

Emmett soltou o ar.

— Parece filme.

Sarah virou.

— E é justamente por parecer que precisamos ter cuidado.

— Eu sei.

Michael afirmava que Robert começou a agir diferente depois do acidente.

Guardava papéis.

Fazia cópias.

Anotava horários.

Não confiava em telefone.

Rosalie começou a chorar.

— Então ele estava tentando guardar prova.

Sarah olhou para ela.

— Parece que estava preservando informações. O motivo exato ainda precisamos reconstruir.

Rosalie assentiu.

Emmett abraçou-a.

Sarah continuou lendo.

— Michael perguntou a Robert por que não procurava a polícia.

— E?

— Robert respondeu que já tinha cometido um erro.

Silêncio.

— Qual?

Michael não sabia.

Robert dizia apenas:

— “Eu entreguei a peça para a pessoa errada.”

Jacob ficou imóvel.

— Irina.

Sarah respirou.

— Provavelmente se referia à retirada registrada e fotografada. Mas precisamos manter a formulação correta.

Edward perguntou:

— Robert sabia que ela usaria para sabotagem?

— Não há evidência disso.

Rosalie olhou imediatamente para Sarah.

Ela respondeu:

— Até agora, não.

Rosalie soltou o ar.

Era importante.

O avô dela podia ter entregue a caixa.

Mas seus próprios registros diziam:

Não instalar.

E agora Michael dizia que Robert acreditava ter entregado a peça à pessoa errada.

Talvez Robert tivesse sido usado.


Então veio a frase que alterou novamente a investigação.

Michael contou que, aproximadamente uma semana depois do funeral, Robert lhe entregou um envelope lacrado.

Disse:

— Se acontecer alguma coisa comigo, entrega isso para Billy.

Michael não entregou.

Não porque quisesse esconder.

Porque Robert pediu de volta meses depois.

— Por quê?

Michael não sabia.

— O senhor chegou a ver o conteúdo?

— Não.

— Sabe o que era?

— Não.

— Robert disse alguma coisa?

Michael pensou.

— Uma frase.

Sarah fechou os olhos.

Mais uma frase de dezenove anos.

Mais uma memória.

— Qual?

— “Ainda não consigo provar quem entrou naquela garagem.”

Silêncio.

Jacob olhou para Sarah.

A garagem Black.

Não a de Robert.

Sarah sentiu o coração disparar.

— Ele disse “naquela garagem”?

— Sim.

— Poderia estar falando da própria garagem?

Michael ficou em silêncio.

— Pode.

Boa resposta.

Não sabiam.

Ainda.


A investigação voltou aos cadernos de Robert.

Agora procurando referências não à T-6.

Mas à residência Black.

Encontraram três letras numa página posterior ao acidente:

B.G.

Abaixo:

ferramenta.

Depois:

acesso lateral.

E uma pergunta:

quem abriu?

Sarah sentiu o ar desaparecer dos pulmões.

Black Garage.

Talvez.

Ou outra coisa.

Não podiam assumir.

Mas então, em outra folha:

Antônio não viu rosto.

Billy levantou-se.

— Ele falou com Antônio.

Sarah olhou.

— Parece que sim.

— Quando?

A data era quatro dias depois do acidente.

Robert havia procurado o caseiro.

Muito antes de Charlie chegar a certas perguntas.

Robert já investigava a entrada na propriedade.

— Então ele sabia — Jacob disse.

Sarah olhou para ele.

— Sabia que havia uma questão sobre acesso lateral. Não sabemos tudo o que concluiu.

Jacob assentiu.

Mas agora havia uma nova perspectiva.

Robert não apenas guardara documentos sobre a peça.

Tentara descobrir como alguém entrara na garagem Black.


Michael foi perguntado sobre a ferramenta de cabo vermelho.

Dessa vez, a fotografia foi mostrada.

Ele reconheceu o modelo.

— Já vi.

— Onde?

— No carro de Aro.

Silêncio.

— Tem certeza?

— Ele aparecia na garagem às vezes. Gostava de fingir que entendia de mecânica.

Emmett quase riu.

Sarah segurou.

— Isso é memória. Temos a fotografia promocional independente do conjunto.

Edward assentiu.

Michael continuou:

— Robert não gostava daquele kit.

— Por quê?

— Ferramenta ruim.

Rosalie soltou uma risada entre lágrimas.

— Isso parece meu avô.

Michael foi perguntado se Robert comentara a ferramenta depois do acidente.

Sim.

E aí veio algo novo.

— Ele disse que encontrou uma chave do conjunto de Aro na garagem de Billy.

Silêncio absoluto.

— Quando?

— Depois do acidente.

— Como Robert entrou na garagem?

— Billy deixou.

Todos olharam para Billy.

Ele fechou os olhos.

— Eu lembro.

Sarah levantou imediatamente.

— Não fala ainda.

Billy assentiu.

Primeiro o depoimento independente.

Michael disse que Robert examinara a garagem a pedido de Billy porque ambos queriam entender se o carro poderia ter sido mexido antes de Sarah Black sair.

Robert encontrou a ferramenta.

Reconheceu o conjunto.

E ficou assustado.

— Por quê?

Michael respondeu:

— Porque Aro não tinha motivo para estar naquela garagem.


Só então Sarah deixou Billy falar.

— Depois do enterro, pedi para Robert olhar tudo.

— Por quê?

— Porque ele disse que o laudo não fazia sentido.

— Você estava presente?

— Sim.

— Michael?

— Em parte.

— Robert encontrou a ferramenta?

Billy fechou os olhos.

— Sim.

— Você lembra disso independentemente de ter acabado de ouvir?

— Eu lembro da ferramenta vermelha.

Sarah ficou imóvel.

— Por quê?

Billy respirou.

— Porque Sarah odiava vermelho nas ferramentas.

A mesma informação que ele dera antes de Michael ser localizado.

Corroboração anterior.

Sarah escreveu:

BILLY JÁ HAVIA MENCIONADO FERRAMENTA VERMELHA ANTES DO DEPOIMENTO DE MICHAEL.

Aquilo importava.

— Robert reconheceu?

— Reconheceu.

— Disse de quem era?

Billy demorou.

— Disse que tinha visto Aro com um conjunto igual.

— “Igual” ou “era de Aro”?

— Igual.

Sarah assentiu.

Precisão.

— E o que fizeram?

Billy ficou em silêncio.

— Nada.

A palavra doeu.

— Por quê?

— Porque dois dias depois a ferramenta sumiu.

Ninguém respirou.

Sarah olhou.

— Sumiu de onde?

— Robert tinha colocado num saco.

— Preservação formal?

— Não.

— Onde?

— No escritório da minha casa.

Jacob empalideceu.

— Alguém entrou de novo?

Billy olhou para o filho.

— Não sei.

Sarah sentiu o coração acelerar.

— Quem tinha acesso?

Billy fechou os olhos.

— Muita gente.

Aquilo era um desastre probatório.

Mas uma descoberta narrativa enorme.

A ferramenta que aparecia na fotografia da seguradora fora encontrada.

Separada.

Reconhecida.

E desaparecera.

Só restara a imagem.

Sarah escreveu:

FERRAMENTA ORIGINAL DESAPARECEU APÓS ACIDENTE.

FOTOGRAFIA CONTEMPORÂNEA PRESERVA SUA PRESENÇA NA GARAGEM.

Edward ficou sério.

— Alguém estava limpando.

Sarah olhou.

— Pode ter sido.

— Sarah.

— Eu sei.

Ela respirou.

— Mas agora precisamos descobrir quem sabia que Robert tinha separado a ferramenta.


A resposta veio de Michael.

Robert telefonara para Aro.

Não para acusá-lo.

Para perguntar se havia perdido uma ferramenta.

Sarah sentiu vontade de bater a cabeça na mesa.

— Robert contou a Aro?

— Segundo Michael, sim.

Jacob levantou.

— Então Aro sabia onde estava.

Sarah fechou os olhos.

— Se Michael lembra corretamente.

O registro telefônico confirmou a ligação.

Dia seguinte ao enterro.

Robert Hale → Volturi & Associados.

Duração: quatro minutos.

O conteúdo dependia da memória de Michael.

Mas Aro foi chamado novamente.

E dessa vez não tentou dizer que não lembrava.

— Robert me perguntou sobre a ferramenta.

— O senhor sabia onde ela estava?

Aro fechou os olhos.

— Depois daquela ligação, sim.

— O que fez?

Silêncio.

— Perguntei a Irina.

— O que ela disse?

Aro respirou.

— Que tinha pegado meu estojo emprestado.

— Para quê?

— Disse que teve problema com o carro.

— O senhor acreditou?

— Na época?

Pausa.

— Quis acreditar.

— E depois?

Aro olhou para a mesa.

— Depois a ferramenta desapareceu da casa de Billy.

— O senhor a retirou?

— Não.

— Irina?

— Não sei.

— Perguntou?

— Não.

— Por quê?

Aro fechou os olhos.

— Porque eu já sabia qual seria a resposta.

— Qual?

A voz dele saiu baixa.

— Uma mentira.


Quando Sarah recebeu o resumo, não conseguiu permanecer sentada.

Andou pela sala.

— Ele sabia.

Jacob estava perto da janela.

— Cada vez mais.

— Robert liga. Fala da ferramenta. Aro pergunta a Irina. Ela admite que pegou o conjunto.

— Sim.

— A ferramenta aparece na garagem Black.

— Sim.

— E depois some.

— Sim.

Sarah virou.

— E ele não fala nada.

Jacob não respondeu.

Sarah passou a mão pelos cabelos.

— Aro talvez não tenha planejado o acidente. Talvez não soubesse o que Irina faria com a T-6. Mas depois...

— Depois ele escolheu.

Sarah assentiu.

— Depois ele escolheu.


A investigação ainda precisava responder à pergunta principal.

Quem tocara no carro?

Mas agora havia uma sequência muito mais estreita:

Irina retirara a T-6.

Irina tivera acesso ao conjunto de ferramentas de Aro.

Uma ferramenta daquele conjunto aparecera na garagem Black.

Uma chamada atribuída a “Sra. V.” abrira o portão lateral.

Sarah Black percebera problema no pedal na manhã seguinte.

Robert esperava examinar o carro.

O carro nunca chegou.

Sarah ficou olhando para o quadro.

Emmett aproximou-se.

— Você pode dizer agora?

Ela sabia o que ele queria.

— Não.

Ele suspirou.

— Mas?

Sarah olhou para a linha.

— Mas agora existe uma hipótese de autoria material muito mais consistente e sustentada por elementos independentes.

Emmett sorriu.

— Vou aceitar.


No fim daquela tarde, Sarah recebeu outra ligação.

Não da investigação.

De Sue Clearwater.

Sarah sorriu assim que viu o nome.

E, naquele instante, percebeu quanto tempo fazia que não ouvia a voz da mãe sem que tudo estivesse cercado de DNA, acidentes e mortos.

Atendeu.

— Mãe.

— Finalmente.

Sarah riu.

— Oi para você também.

— Você ainda lembra que tem pais?

A brincadeira acertou alguma coisa sensível.

— Lembro.

Sue percebeu imediatamente.

— Ei. Eu estava brincando.

— Eu sei.

Sarah sentou.

— Só...

Parou.

— Só o quê?

Sarah olhou para todos os nomes no quadro.

Cullen.

Black.

Volturi.

Hale.

Swan.

Depois fechou os olhos.

— Estou com saudade.

A voz de Sue amoleceu.

— Então vem para casa.

Sarah sentiu lágrimas surgirem.

Casa.

Uma palavra simples.

E complicada.

— Posso levar Jacob?

Silêncio.

Então Harry apareceu ao fundo:

— Se ele comer tudo de novo, não!

Sarah começou a rir.

Sue gritou:

— Harry!

— O quê? Da última vez ele comeu metade do assado!

Jacob, do outro lado da sala, ouviu o próprio nome.

— O que eu fiz?

Sarah colocou no viva-voz.

— Meu pai disse que você come demais.

Jacob respondeu:

— Seu pai cozinha bem.

Harry gritou:

— Isso não é defesa!

Sarah ria tanto que precisou limpar as lágrimas.

Por alguns minutos não era Sarah Cullen.

Não era a menina desaparecida.

Não era a irmã recuperada.

Não era uma peça numa investigação de dezenove anos.

Era Sarah Clearwater.

Filha de Harry e Sue.

E isso também era verdade.

Talvez uma das verdades mais importantes.

— Vamos amanhã — ela disse.

Sue respondeu:

— Vou fazer sua sobremesa.

Harry protestou:

— E eu escondo a carne do Jacob.

Jacob gritou:

— Eu ouvi!

Sarah riu novamente.

Quando desligou, percebeu Jacob olhando para ela.

— O quê?

— Você ficou diferente.

— Como?

— Leve.

Sarah sorriu.

— Eles são meus pais.

Jacob se aproximou.

— Eu sei.

Nenhuma hesitação.

Nenhum “também”.

Apenas:

Eu sei.

Sarah beijou-o.


Naquela noite, enquanto todos finalmente começavam a ir embora, Edward ficou diante do quadro.

— Sarah.

Ela olhou.

— Hum?

— Tem uma coisa.

— O quê?

Ele apontou para a cronologia.

— Se nossa mãe e Sarah Black saíram cedo porque perceberam alguma coisa no carro...

Sarah corrigiu:

— Sarah Black percebeu. Não sabemos se Esme sabia exatamente o quê.

— Certo.

Edward continuou:

— E se a sabotagem tinha sido feita durante a noite...

— Sim?

— Por que o carro ainda funcionou por tempo suficiente para elas saírem de casa?

Sarah ficou imóvel.

Jacob parou.

Emmett virou.

Billy empalideceu.

Edward apontou para a anotação técnica antiga.

— O perito disse que os freios foram preparados para falhar.

Sarah sentiu o coração acelerar.

— Não necessariamente para falhar imediatamente.

— Exatamente.

Edward se aproximou.

— Então talvez quem fez aquilo soubesse que o carro chegaria a andar antes da falha.

Jacob olhou para Sarah.

Ela já estava entendendo.

— Isso exigiria conhecimento técnico.

— Ou instrução de alguém que tivesse.

Silêncio.

Irina podia ter entrado na garagem.

Podia ter a peça.

Podia ter a ferramenta.

Mas sabia fazer aquilo?

Sarah pegou a caneta.

Escreveu uma nova pergunta:

QUEM ENSINOU IRINA A SABOTAR O SISTEMA?

Todos ficaram olhando.

A investigação acabara de chegar a uma nova lacuna.

E, pela primeira vez, essa lacuna não apontava apenas para Irina.

Apontava para alguém com conhecimento suficiente para transformar uma peça experimental em uma falha programada.

Talvez Irina tivesse sido a mão.

Mas ainda faltava descobrir quem lhe ensinara exatamente onde tocar.