MEMÓRIAS

39 CAPÍTULO 38- A secretária



Helen Moore tinha sessenta e oito anos.

Sarah soube apenas isso.

E, por enquanto, era tudo o que queria saber.

Não pediu fotografia.

Não quis saber onde morava.

Não perguntou se ainda mantinha contato com Irina ou Aro.

Não tentou descobrir se continuara trabalhando no escritório depois do acidente.

Na manhã marcada para o depoimento, Sarah estava em seu próprio escritório, com o notebook aberto diante de si e uma cláusula contratual que já havia lido quatro vezes sem absorver uma palavra.

Na quinta tentativa, fechou o documento.

— Ridículo.

— Concordo.

Sarah levantou os olhos.

Jacob estava parado na porta.

— Há quanto tempo está aí?

— Tempo suficiente para ver você ler o mesmo parágrafo quatro vezes.

— Você anda muito observador.

— Namoro com uma mulher que tenta investigar homicídio enquanto revisa contrato de aquisição. Preciso acompanhar.

Sarah apoiou-se na cadeira.

— Eu não estou investigando.

Jacob olhou para o quadro atrás dela.

Sarah acompanhou.

Ainda estavam lá:

MEMÓRIA.

FATO DOCUMENTADO.

RELATO DE TERCEIROS.

HIPÓTESE.

Mais abaixo:

CULPA NÃO É PROVA.

E agora:

HELEN MOORE.

Sarah suspirou.

— Tecnicamente, estou aguardando os resultados de uma investigação.

— Muito diferente.

— Juridicamente, bastante.

Jacob entrou.

Colocou café diante dela.

Sarah olhou para a xícara.

Depois para ele.

— Está tentando me distrair?

— Sim.

— Agradeço a honestidade.

Jacob sentou na borda da mesa.

Sarah tomou um gole.

— Que horas começou?

— Nove.

Ela olhou para o relógio.

Nove e quarenta e sete.

— Quarenta e sete minutos.

— Sarah.

— Só constatei.

— Não liga.

— Não vou ligar.

— Não manda mensagem.

— Não vou mandar.

— Não tenta descobrir onde ela está.

Sarah estreitou os olhos.

— Você está gostando demais disso.

— Muito.

Ela apoiou a xícara.

— Eu poderia demitir você.

Jacob ergueu uma sobrancelha.

— Eu sou o presidente.

— Detalhes administrativos.

Ele riu.

Sarah olhou novamente para o relógio.

— Cinquenta minutos.

Jacob levantou.

Deu a volta na mesa.

Sarah imediatamente olhou para as mãos dele.

Ele percebeu.

— Ainda?

— Sempre.

Jacob colocou as mãos sobre os ombros dela.

Sarah fechou os olhos.

O corpo reagiu imediatamente.

Primeiro aquele arrepio conhecido.

Depois calor.

E, em seguida, relaxamento.

A associação da manhã anterior ainda estava presente.

Sarah soltou o ar.

— Isso é golpe baixo.

— Está funcionando?

— Infelizmente.

Ele pressionou os ombros.

— Trabalha.

— Não consigo.

— Então finge.

Sarah abriu os olhos.

— Você é um péssimo chefe.

Jacob inclinou-se e beijou sua testa.

— Mas excelente namorado.

— Convencido.

— Você confirmou.

Ele saiu.

Sarah sorriu.

Depois olhou para o relógio.

— Cinquenta e dois minutos.

Da porta:

— Eu ouvi!

Ela começou a rir.


Helen Moore falou durante três horas e dezessete minutos.

Sem Sarah.

Sem Jacob.

Sem Billy.

Sem Edward.

Sem Emmett.

Sem ninguém que pudesse fornecer involuntariamente as respostas que os investigadores queriam saber se ela possuía.

A entrevista começou com perguntas abertas.

Nome.

Profissão.

Período em que trabalhara no escritório.

Funções.

Estrutura administrativa.

Só depois vieram os nomes.

Volturi & Associados.

Aro Volturi.

Irina Volturi.

Robert Hale.

T-6.

E, quando a síntese chegou à família naquela tarde, Sarah fez todos sentarem.

— Regra antes de começar.

Emmett levantou a mão.

— Posso ir ao banheiro?

Sarah olhou.

— Você tem vinte e cinco anos.

— Então posso.

— Vai.

— Obrigado.

Ele levantou.

Edward fechou os olhos.

— Por que ele é assim?

Billy respondeu:

— Sempre foi.

Emmett abriu a porta.

— Ouvi isso.

Sarah esperou ele sair.

Jacob estava rindo.

— Eu odeio vocês.

— Mentira — Edward disse.

— Um pouco.

Emmett voltou menos de dois minutos depois.

— Pronto.

Sarah respirou.

— Agora posso estabelecer a regra?

— Claro.

Ela apontou para o quadro.

— Helen tem sessenta e oito anos. Estamos falando de fatos de dezenove anos atrás. O que ela lembra não vira automaticamente verdade porque combina com o que já encontramos.

Emmett assentiu.

— Corroboração.

Sarah apontou.

— Exatamente.

— Estou ficando bom.

— Assustadoramente.

Sarah abriu a pasta.

— Helen trabalhou no Volturi & Associados durante vinte e seis anos. Era secretária executiva e depois coordenadora administrativa.

Edward perguntou:

— De Irina?

— Do escritório. Mas atendia principalmente Irina e Aro.

Sarah continuou:

— Ela reconheceu o nome T-6.

Jacob se inclinou.

— Espontaneamente?

— A pergunta foi sobre procedimentos incomuns envolvendo bens que não fossem documentos. Ela mencionou uma peça automotiva antes de receber o código.

Silêncio.

— Depois perguntaram se lembrava alguma identificação.

Sarah olhou para todos.

— Ela disse: “T alguma coisa. Acho que seis.”

Emmett soltou o ar.

— Então ela realmente lembra.

— Provavelmente lembra de alguma coisa relacionada à identificação. Não sabemos ainda quanto foi reforçado por acontecimentos posteriores.

— Certo.

Sarah prosseguiu:

— Segundo Helen, Irina pediu que uma retirada fosse providenciada na Cullen & Black.

Billy ficou imóvel.

— Diretamente?

— Helen diz que recebeu a ordem diretamente de Irina.

— O que Irina disse?

Sarah leu.

— Que era uma peça necessária para análise técnica ligada a uma disputa comercial.

Edward falou:

— A mesma justificativa documental.

— Sim.

Sarah escreveu:

RELATO DE HELEN ↔ DOCUMENTO DE RETIRADA.

— Isso é corroborado.

— Parcialmente — Sarah corrigiu. — O documento confirma que houve retirada ligada ao escritório e solicitação da Dra. I.V. Não confirma a conversa exata que Helen lembra.

Edward assentiu.

Sarah continuou:

— Helen preparou parte da documentação administrativa.

— E Thomas?

— Foi chamado para fazer a retirada.

Jacob se levantou.

— Ela lembra de mandar Thomas para Robert?

Sarah olhou.

— Lembra.

Silêncio.

— E isso é importante porque Thomas não tinha segurança sobre quem havia determinado o destino. Helen diz que recebeu de Irina uma orientação verbal para que a caixa fosse entregue num endereço associado a Robert Hale.

Emmett perguntou:

— Black Motorsport?

— Ela lembra de “garagem do Robert”.

Sarah apontou para outra folha.

— Mas temos o registro de quilometragem com código RB-47 e o caderno de Robert registrando a chegada às 15h48.

Edward concluiu:

— Então essa parte tem apoio independente.

— Sim.

Sarah escreveu:

C&B → THOMAS → GARAGEM ROBERT = FORTE CORROBORAÇÃO DOCUMENTAL.

Jacob olhou para ela.

— E Irina?

Sarah respirou.

— A ordem atribuída a Irina está apoiada pela anotação contemporânea “Entrega autorizada conforme solicitação da Dra. I.V.”, além do relato de Helen.

Billy fechou os olhos.

Sarah acrescentou imediatamente:

— Isso prova envolvimento na retirada administrativa. Ainda não prova sabotagem.

— Eu sei — Billy disse.

Mas sua voz estava diferente.


Helen não sabia o que havia dentro da caixa.

Isso, para Sarah, tornou o depoimento mais confiável.

Ela não tentou preencher.

Não disse que vira uma peça de freio.

Não afirmou que sabia que alguém pretendia mexer num carro.

Segundo ela, Thomas voltara ao escritório naquele fim de tarde e deixara o comprovante interno.

Nada parecia especialmente importante.

Até o dia seguinte.

Sarah parou.

— Aqui começa uma parte delicada.

Jacob percebeu.

— O quê?

— Helen lembra que Irina perguntou se a entrega havia sido feita.

— Normal — Edward disse.

— Poderia ser.

Sarah continuou:

— Mas depois perguntou especificamente se Robert havia aberto a caixa.

Silêncio.

Emmett franziu a testa.

— Como Helen saberia?

— Não sabia.

— O que respondeu?

— Que Thomas só havia feito a entrega.

Jacob olhou para Sarah.

— E?

— Segundo Helen, Irina disse: “Ótimo. Ele não precisa mexer nisso.”

Ninguém falou.

Sarah apontou para o quadro.

— Antes que alguém conclua qualquer coisa...

Emmett levantou as duas mãos.

— Relato de dezenove anos.

— Exatamente.

Edward apontou para a anotação de Robert.

— Mas existe “T-6. Não instalar. Aguardar instruções”.

Sarah assentiu.

— E o bilhete: “Robert, não mexa na peça. Ela será buscada amanhã. I.”

Jacob ficou sério.

— Três elementos.

— Sim.

Sarah escreveu:

HELEN: “ELE NÃO PRECISA MEXER NISSO.”

ROBERT: “NÃO INSTALAR. AGUARDAR INSTRUÇÕES.”

BILHETE: “NÃO MEXA NA PEÇA. ELA SERÁ BUSCADA AMANHÃ. I.”

Ficaram olhando.

A convergência era difícil de ignorar.

Ainda assim, Sarah escreveu abaixo:

CONVERGÊNCIA ≠ AUTORIA DO BILHETE ≠ AUTORIA DA SABOTAGEM.

Emmett suspirou.

— Você realmente não deixa a gente ter cinco minutos de satisfação.

— Justiça não existe para satisfazer.

Edward sorriu.

— Essa foi boa.

— Obrigada.

— Arrogante.

— Também.


Então veio a parte que mudou o ambiente.

Helen havia sido perguntada sobre o dia seguinte.

O dia em que, segundo o caderno de Robert, a T-6 foi retirada da garagem às 18h20.

Ela demorou para responder.

Disse que não lembrava de ter organizado uma segunda coleta.

Sarah parou.

Jacob franziu a testa.

— Não foi pelo escritório?

— Ela não sabe.

— Thomas?

— Negou ter feito.

Edward se inclinou.

— Documentação?

— Nenhuma ordem de serviço.

— Quilometragem?

— Nenhuma saída registrada compatível.

Sarah olhou para o quadro.

Ali estava o buraco.

Às 15h48 de um dia, Thomas entregara a T-6 na garagem.

Robert registrara que não deveria instalar.

No dia seguinte, às 18h20:

T-6 retirada.

Mas não havia Thomas.

Não havia registro de veículo do escritório.

Não havia ordem administrativa.

Alguém buscara a peça.

— Robert escreveu quem retirou? — Billy perguntou.

— Não.

— Por quê?

— Não sabemos.

Sarah ficou olhando para a anotação.

Jacob perguntou:

— E Helen?

Sarah virou outra página.

— Ela lembra de Irina sair mais cedo naquele dia.

O silêncio foi imediato.

— Horário? — Edward perguntou.

— Não lembra.

Sarah ergueu o dedo.

— E isso não basta.

Jacob assentiu.

— Existe registro?

— Estão procurando.

— Então, por enquanto...

Sarah escreveu:

RELATO NÃO CORROBORADO: IRINA TERIA SAÍDO MAIS CEDO.

— Exatamente.


Mas Helen lembrava de outra coisa.

Não daquele dia.

Do dia do acidente.

Sarah sentiu a boca ficar seca antes mesmo de ler.

— Helen chegou cedo ao escritório.

— Horário? — Edward perguntou.

— Aproximadamente oito. Há registros de acesso sendo procurados, se sobreviveram.

— E Irina?

— Já estava lá.

Billy ficou imóvel.

Sarah continuou:

— Helen diz que Irina parecia não ter dormido.

Jacob apertou a mandíbula.

— Isso não prova nada.

Sarah olhou para ele.

— Exatamente.

Ele respirou.

Sarah continuou:

— Pouco depois, chegou a notícia do acidente.

Pausa.

— Segundo Helen, a reação de Irina foi estranha.

Emmett perguntou:

— Estranha como?

— Essa é uma avaliação subjetiva de Helen.

Sarah leu cuidadosamente.

— Ela disse que todos ficaram chocados. Irina também pareceu chocada. Mas a primeira pergunta dela não teria sido sobre Sarah Black ou Esme.

Billy empalideceu.

— Qual foi?

Sarah olhou para ele.

— “O carro ficou onde?”

Silêncio.

Billy sentou.

Jacob aproximou-se do pai.

Sarah imediatamente fechou a pasta.

— Billy.

Ele levantou uma mão.

— Continua.

— Não preciso.

— Continua.

Sarah hesitou.

— Helen diz que não entendeu a pergunta. Depois Irina perguntou se o veículo já havia sido recolhido.

Billy fechou os olhos.

Emmett não fez nenhuma piada.

Edward permaneceu imóvel.

Sarah falou:

— Isso é uma lembrança de Helen. Ainda precisa ser corroborada.

Billy abriu os olhos.

— Eu sei.

Mas havia dor ali.

Dezenove anos depois, uma pergunta podia ferir como se tivesse sido feita naquela manhã.


Helen também lembrava de Charlie.

Não do rosto inicialmente.

Do nome.

Swan.

Um homem insistente.

Perguntava demais sobre a peça.

Sobre a garagem.

Sobre a retirada.

Helen confirmara que Charlie procurara o escritório.

E então contou algo que não constava das anotações dele.

— Depois que Charlie começou a fazer perguntas — Sarah explicou —, Helen diz que recebeu uma orientação.

— De quem? — Jacob perguntou.

Sarah olhou para a folha.

— Aro.

O ambiente mudou.

Até então, Aro pairava ao redor do primeiro acidente.

Presente.

Marido de Irina.

Sócio do escritório.

Homem que dera o álibi.

Possível participante de uma contenção posterior.

Mas o grau de conhecimento permanecia obscuro.

Sarah continuou:

— Segundo Helen, Aro orientou que nenhuma informação sobre clientes, retiradas ou movimentações internas fosse fornecida a investigadores sem autorização formal.

Edward franziu a testa.

— Isso pode ser procedimento normal de escritório.

Sarah apontou para ele.

— Exatamente.

Emmett bufou.

— Vocês dois são insuportáveis.

Sarah continuou:

— Mas Helen diz que, depois, Aro perguntou especificamente quais informações ela já havia dado a Charlie.

Jacob olhou para ela.

— Isso muda.

— Muda um pouco.

— E o que ela respondeu?

— Que mencionara a peça, a retirada e a autorização por I.V.

Billy perguntou:

— Aro reagiu?

Sarah leu.

— Segundo ela, ficou irritado.

— Com ela?

— Sim.

— Disse por quê?

— Confidencialidade.

Edward perguntou:

— Plausível.

— Sim.

Sarah virou a página.

— Depois disso, Helen recebeu ordem para reunir toda documentação ligada àquela retirada e encaminhar para o arquivo interno do sócio responsável.

Jacob ficou imóvel.

— Aro?

— Sim.

Silêncio.

— Então ele teve acesso à documentação da T-6 dezenove anos atrás — Edward disse.

Sarah assentiu.

— Segundo Helen e se a documentação administrativa confirmar o encaminhamento.

— E quatro anos depois ele deu álibi para Irina — Emmett completou.

Sarah escreveu as duas linhas.

19 ANOS ATRÁS: ARO TERIA RECEBIDO DOCUMENTAÇÃO T-6 APÓS PERGUNTAS DE CHARLIE.

15 ANOS? NÃO. ÁLIBI DE IRINA REFERE-SE À NOITE ANTERIOR AO PRIMEIRO ACIDENTE, PORTANTO TAMBÉM 19 ANOS ATRÁS.

Ela parou.

Riscou imediatamente uma seta que Emmett quase desenhara ligando ao segundo crime.

— Não misturem cronologias.

Edward assentiu.

Sarah reforçou:

— O álibi que Aro forneceu para Irina pertence ao primeiro acidente, dezenove anos atrás. A ligação de Carlisle para Charlie e a emboscada são quatro anos depois, há quinze anos.

Emmett apontou.

— Eu ia falar isso.

— Mentiroso.

— Não pode provar.

Sarah sorriu.

Mas a distinção importava.

Muito.


Helen achou que a entrevista terminaria ali.

Não terminou.

Perguntaram se possuía documentos.

Ela disse não.

Perguntaram novamente de forma diferente.

Documentos não.

Cópias?

Helen ficou em silêncio.

Então perguntou:

— Isso pode me causar problema?

O investigador explicou que dependeria do que fosse, de como obtivera e de outras circunstâncias, mas que ela deveria dizer a verdade e poderia ser assistida por advogado.

Helen pediu uma pausa.

Ligou para o próprio advogado.

Quando voltou, contou.

Guardara uma coisa.

Uma única coisa.

Por dezenove anos.

Sarah sentiu o coração acelerar quando chegou a essa parte.

— O quê? — Jacob perguntou.

— Uma cópia carbono.

— De quê?

Sarah levantou a folha.

— De uma autorização interna.

Edward se aproximou.

— Para a T-6?

— Não exatamente.

Sarah leu:

Solicitação extraordinária de movimentação de material técnico — sem protocolo externo.

Emmett franziu a testa.

— O que significa?

— Ainda estamos entendendo.

— Quem assinou?

Sarah respirou.

— A cópia tem duas rubricas.

Silêncio.

— Uma é compatível com Irina.

Jacob perguntou:

— E a outra?

Sarah olhou para ele.

— Aro.

Ninguém falou.

Sarah levantou a mão antes que começassem.

— Compatibilidade preliminar. Original ainda precisa ser examinado. Proveniência precisa ser estabelecida. E precisamos entender o que o documento autorizava.

— Por que Helen guardou? — Billy perguntou.

Sarah baixou os olhos para o depoimento.

— Porque a ordem dizia que o material deveria ser movimentado sem registro no protocolo geral.

Edward ficou sério.

— Isso era comum?

— Helen disse que não.

— Por que fez cópia?

Sarah leu a resposta exata registrada na síntese:

— “Porque alguma coisa estava errada e eu não queria que um dia dissessem que tinha sido ideia minha.”

Silêncio.

Sarah sentiu um arrepio.

Helen não guardara uma prova de homicídio.

Guardara proteção para si mesma.

Um gesto banal de autopreservação administrativa que, dezenove anos depois, podia ter se tornado crucial.

— O documento fala em Robert? — Jacob perguntou.

— Não.

— T-6?

— Não.

— Carro?

— Não.

— Então como sabemos que tem relação?

Sarah olhou para ele.

— Ainda não sabemos.

Jacob assentiu.

Era exatamente a resposta que esperava.

Sarah sorriu de leve.

— Está ficando bom.

— Tenho uma professora irritante.


Naquela noite, Sarah cumpriu a promessa.

Parou.

Nenhum documento.

Nenhum quadro.

Nenhuma T-6.

Nenhuma Helen.

Ela e Jacob jantaram no apartamento dele.

Massa.

Vinho.

Música baixa.

Sarah roubou comida do prato dele.

Jacob reclamou.

Ela roubou novamente.

— Você tem o seu.

— O seu parece melhor.

— É exatamente igual.

— Não é.

— Veio da mesma panela.

— O seu foi escolhido por você. Tem outro valor psicológico.

Jacob ficou olhando.

— Você inventa argumento para qualquer coisa.

— Advogada.

— Ladra.

Sarah roubou outra vez.

— Prova.

Ele tentou pegar o garfo.

Sarah afastou.

— Não toca.

— No meu próprio jantar?

— Agora é meu.

Jacob começou a rir.

Sarah percebeu.

Aquele sorriso.

O sorriso que Irina odiava porque lembrava Billy.

Mas Sarah não pensou nela.

Não naquela noite.

Olhou apenas para Jacob.

O homem diante dela.

Não o menino da floresta.

Não o filho de Billy.

Não uma repetição de história nenhuma.

Jacob.

Seu namorado.

O homem que ela amava.

Sarah estendeu o pé por baixo da mesa e tocou a perna dele.

Jacob olhou.

— O quê?

— Nada.

— Você está com aquela cara.

— Que cara?

— A que acusa meu rosto de falar.

Sarah sorriu.

— Talvez eu só esteja olhando para você.

Jacob largou o garfo.

— Perigoso.

— Muito.

Depois do jantar, foram para o sofá.

Sarah deitou com a cabeça no colo dele.

Jacob passou os dedos pelos cabelos dela.

Nenhuma lembrança surgiu.

E Sarah gostou disso.

Nem todo toque precisava abrir uma porta para o passado.

Alguns podiam simplesmente pertencer ao presente.

Ela pegou uma das mãos dele.

Beijou a palma.

Jacob olhou.

— O que foi isso?

— Nada.

— Sarah.

Ela sorriu.

— Eu amo suas mãos.

— Isso eu já sabia.

— Convencido.

— Você fez uma tese inteira sobre elas.

Sarah riu.

Depois ficou séria.

— Mas gosto mais quando elas fazem isso.

— O quê?

Ela colocou a mão dele sobre seus cabelos.

— Nada.

Jacob entendeu.

Continuou o carinho.

Sarah fechou os olhos.

— Eu amo você.

— Eu amo você.

E naquela noite eles não falaram sobre mortos.


Na manhã seguinte, Sarah chegou ao escritório antes de todos.

Encontrou um envelope sobre sua mesa.

Não aberto.

Lacrado.

Entregue pelo advogado responsável pela investigação.

Havia apenas uma anotação externa:

Cópia digitalizada — documento Helen Moore — análise preliminar concluída.

Sarah sentou.

Esperou Jacob.

Esperou Edward.

Esperou Emmett.

Esperou Billy.

Não abriu sozinha.

Quando todos estavam ali, acessaram a cópia autenticada.

A autorização extraordinária tinha dezenove anos.

Dois dias antes do acidente.

Sarah leu lentamente.

Movimentação excepcional de material técnico vinculado a consulta confidencial.

Nada de T-6.

Nada de Robert.

Nada de carro.

Então Edward apontou para o canto inferior.

— Isso.

Um código manuscrito.

Sarah aproximou.

47-T6.

Ninguém respirou.

Robert.

Número 47.

T-6.

Sarah continuou.

Havia outra anotação.

Quase apagada na cópia carbono.

O exame digital conseguira realçar.

Retirada final — acesso particular.

Jacob ficou imóvel.

— “Acesso particular” o quê?

Sarah não respondeu.

Porque havia mais.

Abaixo:

Sem mensageiro.

O coração dela acelerou.

Thomas havia feito a primeira entrega.

Mas não a retirada final.

Sarah olhou para todos.

— Isso é contemporâneo.

Edward assentiu.

Emmett não brincou.

Billy parecia incapaz de desviar os olhos.

E então Sarah viu a última linha.

Escrita à mão.

Curta.

Após 18h. I.V. ciente. A.V. autorizado.

A sala ficou completamente silenciosa.

Irina Volturi.

Aro Volturi.

Sarah ergueu imediatamente a mão.

— Não.

Jacob olhou.

— Sarah...

— Ainda não.

Ela pegou a caneta.

Escreveu no quadro:

I.V. = PROVÁVEL IRINA VOLTURI.

A.V. = PROVÁVEL ARO VOLTURI.

Depois sublinhou:

CONFIRMAR.

Billy fechou os olhos.

Sarah continuou:

— E mesmo que sejam eles, “ciente” e “autorizado” não dizem quem buscou a peça. Não dizem quem levou para a casa. Não dizem quem mexeu no carro.

Edward assentiu.

— Mas mostram que Aro sabia da movimentação.

Sarah olhou novamente para a cópia.

— Se a autenticidade e a interpretação forem confirmadas, mostram que alguém identificado como A.V. autorizou uma movimentação extraordinária relacionada ao código 47-T6.

Jacob completou:

— Sem mensageiro.

— Sim.

Sarah sentiu um arrepio.

A peça saíra da Cullen & Black.

Thomas a levara para Robert.

Robert fora instruído a não instalá-la.

A T-6 fora retirada da garagem às 18h20 na véspera do acidente.

Sem Thomas.

Sem registro normal.

Irina apareceria depois no restaurante onde Billy estava.

Às 22h18, o caseiro faria uma anotação sobre o portão lateral.

Na manhã seguinte, duas mulheres morreriam.

Sarah olhou para a linha do tempo.

Havia um espaço.

Um único espaço cada vez menor.

Entre:

18h20 — T-6 sai da garagem de Robert.

e

22h18 — anotação sobre portão lateral da residência Black.

Sarah escreveu no meio:

QUEM LEVOU A T-6 ATÉ O CARRO?

Ficou olhando.

Era a pergunta que Charlie Swan escrevera dezenove anos antes.

Quem retirou da garagem?

Dezenove anos.

Duas investigações.

A mesma lacuna.

Mas agora havia uma diferença.

Pela primeira vez, a lacuna tinha horário.

Tinha documentos.

Tinha testemunhas.

E tinha dois nomes perigosamente próximos de suas bordas.

Irina Volturi.

E Aro Volturi.