MEMÓRIAS
38 CAPÍTULO 37 - Charlie Swan
Charlie Swan demorou onze segundos para responder.
Sarah contou.
Não porque estivesse ansiosa.
Era exatamente porque estava ansiosa.
O telefone estava sobre a mesa, no viva-voz, mas ninguém falava.
Sarah estava sentada entre Edward e Jacob. Emmett permanecia encostado à janela. Billy tinha escolhido a poltrona mais distante e mantinha as mãos unidas diante do corpo.
Dezenove anos.
Era essa a distância entre aquela manhã e o acidente que matara Esme Cullen e Sarah Black.
Na época, Jacob e Emmett tinham cerca de seis anos.
Sarah e Edward, quatro.
Quatro anos depois, quando Jacob e Emmett tinham dez e os gêmeos oito, aconteceria a emboscada que mataria Carlisle e separaria Sarah de todos eles.
Quinze anos haviam se passado desde aquela noite na floresta.
E agora, pela primeira vez, as duas tragédias começavam a parecer partes de uma mesma história.
Não era uma ligação informal.
Não era Sarah ligando para Charlie Swan para perguntar o que ele sabia.
Depois da descoberta do memorando de Robert Hale, a identificação de Charles Swan como antigo investigador ligado à seguradora fora confirmada documentalmente. A partir dali, qualquer contato precisava ser conduzido de maneira apropriada, evitando que a família despejasse sobre ele tudo o que já havia descoberto e contaminasse uma eventual lembrança independente.
Charlie havia concordado em conversar inicialmente com o advogado responsável pela interface da família com a investigação.
Sarah, tecnicamente, nem precisaria estar naquela sala.
Mas Edward pedira.
— Ele é pai da Isabella — dissera.
E isso mudava alguma coisa.
Não juridicamente.
Humanamente.
No décimo segundo segundo, a voz veio.
— Alô?
O advogado se identificou.
Charlie respondeu com educação.
Ouviu durante alguns minutos a explicação formal.
Então ouviu o nome.
Sarah Cullen.
Silêncio.
Sarah sentiu Jacob procurar sua mão sob a mesa.
Encontrou.
Os dedos se entrelaçaram.
Charlie finalmente falou:
— Ela está aí?
Sarah olhou para o advogado.
Ele assentiu.
— Estou, senhor Swan.
Outro silêncio.
— Sarah?
A voz tinha mudado.
Não muito.
Mas o suficiente.
Sarah sentiu alguma coisa apertar no peito.
— Sim.
— Você está bem?
A pergunta a surpreendeu.
Não “é verdade?”.
Não “como aconteceu?”.
Não “você se lembra?”.
Você está bem?
Sarah respirou.
— Estou.
Charlie soltou o ar do outro lado.
— Graças a Deus.
Edward baixou os olhos.
Sarah percebeu.
Charlie continuou:
— Isabella me contou que alguma coisa estava acontecendo. Não contou detalhes. Disse que não podia. Só disse que Edward estava passando por uma situação familiar complicada.
Emmett murmurou:
— “Complicada” é uma palavra.
Edward deu uma cotovelada nele.
Charlie ouviu.
— Emmett?
Emmett arregalou os olhos.
— Como sabe?
Pela primeira vez houve uma risada do outro lado.
— Porque você continua não sabendo falar baixo.
Emmett abriu a boca.
Edward sorriu.
Billy fechou os olhos por um instante.
Charlie os conhecera pessoalmente naquela noite de quinze anos atrás.
Não no primeiro acidente.
Quando Esme e Sarah Black morreram, as crianças eram pequenas demais e Charlie atuara na investigação do sinistro, longe da intimidade da família.
Foi quatro anos depois, na floresta, que os rostos infantis ganharam nomes para ele de uma maneira que nunca esqueceria.
Jacob e Emmett, dez.
Edward e Sarah, oito.
O advogado retomou o controle da conversa.
— Senhor Swan, precisamos conversar primeiro sobre sua atuação profissional dezenove anos atrás.
O humor desapareceu.
— Eu imaginei.
— Por quê?
— Porque vocês disseram Robert Hale.
Sarah sentiu Jacob apertar sua mão.
O advogado não reagiu.
— O senhor conheceu Robert?
— Sim.
— Em que circunstâncias?
Charlie ficou alguns segundos em silêncio.
— Eu trabalhava com investigação de sinistros.
— Para a seguradora responsável pelo veículo de William Black?
— Não diretamente. Eu estava numa empresa terceirizada que fazia análise de fraude e reconstrução documental para seguradoras.
Sarah anotou mentalmente.
Isso correspondia ao que já tinham encontrado.
— O senhor participou da análise do acidente que matou Sarah Black e Esme Cullen?
— Participei.
Billy abaixou a cabeça.
Charlie continuou:
— Por pouco tempo.
— Por quê?
Pausa.
— Porque comecei a fazer perguntas que ninguém queria responder.
Sarah ficou imóvel.
O advogado falou:
— Que perguntas?
— Sobre os freios.
Ninguém na sala se moveu.
— O que especificamente?
— O laudo preliminar não parecia compatível com falha espontânea.
Charlie respirou.
— Havia uma peça que chamou atenção.
— Qual?
— Eu não lembrava do código até recentemente.
Sarah ergueu os olhos.
O advogado perguntou:
— Como recuperou a informação?
— Quando vocês mencionaram Robert Hale, fui procurar minhas anotações antigas.
Sarah imediatamente olhou para o advogado.
Ele também percebeu a distinção.
— Então precisamos registrar claramente que o código foi recuperado pela consulta às suas próprias anotações, não por lembrança espontânea.
— Correto.
— Qual era?
— T-6.
Billy soltou o ar.
Sarah sentiu um frio percorrer os braços.
— O senhor ainda possui documentos relacionados ao caso?
— Alguns.
— Por favor, não mexa mais neles.
Charlie ficou em silêncio.
— Entendi.
— Não organize, não separe, não acrescente observações e não envie fotografias informalmente para ninguém.
— Certo.
— Onde estão?
— Uma caixa no meu sótão.
Edward virou para Sarah.
Ela ergueu a mão.
Nem uma palavra.
— Vamos providenciar a preservação adequada.
— Façam isso.
A entrevista formal aconteceu dois dias depois.
Sarah não participou.
Jacob não participou.
Billy não participou.
Nenhum dos Cullen ou Black participou.
Charlie prestou depoimento sem a presença deles, justamente para que suas lembranças não fossem moldadas pelas conclusões da família.
Quando terminou, o que podia ser compartilhado chegou pelos canais apropriados.
Sarah estava diante do quadro quando começou a organizar as informações.
No alto escreveu:
CHARLES SWAN — RELATO FORMAL + DOCUMENTOS CONTEMPORÂNEOS.
Abaixo:
ACIDENTE DE ESME/SARAH BLACK — 19 ANOS ATRÁS.
E, abaixo dessa linha:
EMBOSCADA DE CARLISLE/CRIANÇAS — 15 ANOS ATRÁS.
Edward estava ao lado dela.
Emmett no sofá.
Jacob permanecia perto da janela.
Billy não sentara.
Sarah começou:
— Charlie foi designado para verificar inconsistências entre o laudo mecânico preliminar e a documentação de manutenção depois do acidente de dezenove anos atrás.
— Certo — Edward disse.
— Naquele momento, Jacob e Emmett tinham aproximadamente seis anos. Nós dois tínhamos quatro.
Edward assentiu.
Era importante dizer.
Importante separar.
O primeiro crime pertencera ao mundo dos adultos.
As crianças haviam sofrido suas consequências.
O segundo, quatro anos depois, as colocaria diretamente no centro da violência.
Sarah continuou:
— Charlie encontrou referência a um componente experimental.
Jacob olhou para o quadro.
— T-6.
— Sim.
Sarah escreveu.
— Tentou localizar a origem da peça. Chegou à Cullen & Black.
Emmett franziu a testa.
— Como?
— Número de lote e marcação industrial.
Sarah continuou:
— Descobriu que havia registro de retirada.
Billy fechou os olhos.
— Volturi.
Sarah olhou para ele.
— Ele chegou primeiro ao escritório, não diretamente a Irina.
— E Robert?
— Charlie encontrou indicação de que a peça passara pela garagem de Robert Hale.
Jacob se aproximou.
— Então o memorando...
— É contemporâneo à investigação.
Sarah apontou para a reprodução:
“C. Swan voltou a ligar. Perguntou pela peça e pela retirada.”
— Robert respondeu?
— Charlie relata que Robert parecia desconfortável.
Emmett imediatamente perguntou:
— Documento ou lembrança?
Sarah olhou para ele.
Surpresa.
Emmett abriu os braços.
— Eu também aprendo.
Ela sorriu.
— Lembrança de Charlie.
No quadro:
RELATO: Robert parecia desconfortável/assustado. NÃO DOCUMENTADO COMO FATO.
— Melhor? — Sarah perguntou.
— Muito.
Edward riu.
Sarah continuou:
— Charlie também tentou obter informações no escritório Volturi.
— Com quem? — Jacob perguntou.
— Não conseguiu falar diretamente com Irina.
— Aro?
— Também não.
— Então quem?
Sarah leu o nome.
— Helen Moore.
Jacob franziu a testa.
— Quem?
— Secretária administrativa do escritório naquela época.
Sarah escreveu o nome.
— Charlie perguntou por que um escritório de advocacia havia retirado um componente automotivo experimental.
Edward cruzou os braços.
— Pergunta razoável.
— A resposta oficial foi que se tratava de análise para possível litígio envolvendo fornecedor.
— A mesma justificativa do registro.
— Sim.
Sarah virou a página.
— Só que Charlie percebeu uma inconsistência temporal. A retirada da peça era anterior ao litígio que supostamente justificaria a análise.
Edward ficou imóvel.
— Então a justificativa pode ter sido construída depois.
Sarah ergueu a mão.
— Pode.
Pegou a caneta.
HIPÓTESE.
— Não sabemos ainda.
Emmett suspirou.
— Você estraga todas as frases dramáticas.
— É meu trabalho.
Sarah continuou:
— Charlie pediu documentação complementar e, pouco depois, foi retirado do caso.
Billy levantou os olhos.
— Por quem?
— Superior dele.
— Motivo?
— Extrapolação do escopo contratado.
Jacob perguntou:
— Isso poderia ser legítimo?
Sarah assentiu.
— Sim. Ele fazia análise securitária. Se começou a investigar uma possível conduta criminosa, pode realmente ter ultrapassado o contrato.
Ela escreveu:
AFASTAMENTO = DOCUMENTADO.
MOTIVO OCULTO PARA AFASTAMENTO = NÃO PROVADO.
Billy olhou para o quadro.
— Você realmente precisa escrever tudo?
— Preciso.
— Por quê?
Sarah pensou.
— Porque quanto mais eu quero que uma coisa seja verdade, mais preciso lembrar do que ainda não sei.
Billy ficou olhando para ela.
Então assentiu.
— Seu pai fazia isso.
Sarah congelou.
Billy percebeu imediatamente.
— Desculpa.
— Não.
Ela respirou.
— Tudo bem.
— Carlisle?
— Sim.
Billy sorriu.
— Quando queria muito fechar um negócio, escrevia numa folha todos os motivos para não fechar.
Sarah olhou para o quadro.
Uma sensação estranha passou pelo peito.
Não uma memória.
Apenas alguma coisa boa.
— Inteligente.
— Muito.
Emmett resmungou:
— Então claramente não herdei essa parte.
O ambiente relaxou.
Por alguns segundos.
Até Sarah virar a página.
— Mesmo depois de retirado formalmente da análise do acidente, Charlie manteve algumas anotações próprias.
Jacob ergueu os olhos.
— Por quê?
Sarah leu.
— Porque acreditava que havia elementos suficientes para considerar que Esme e Sarah Black talvez não tivessem morrido por uma falha mecânica acidental.
O silêncio voltou.
Charlie guardara pouca coisa.
Mas o pouco que guardara era extraordinariamente útil.
Não porque solucionasse o caso.
Porque mostrava o que ele investigara dezenove anos atrás, quando Jacob e Emmett ainda eram meninos de seis anos e Sarah e Edward tinham apenas quatro.
Um caderno.
Algumas cópias.
Três memorandos.
Uma fotografia.
E uma folha dobrada.
Nela:
T-6 → C&B → V&A → R.H. → ?
Sarah ficou olhando.
Cullen & Black.
Volturi & Associados.
Robert Hale.
E um ponto de interrogação.
— Ele chegou até a garagem — Edward murmurou.
— E perdeu o rastro da peça depois.
Sarah virou a folha.
No verso:
Quem retirou da garagem?
Jacob ficou imóvel.
Dezenove anos depois, aquela continuava sendo a pergunta.
Sarah sentiu um arrepio.
Charlie estivera exatamente naquele ponto quase duas décadas antes.
Sem os arquivos digitalizados que tinham agora.
Sem a investigação reaberta.
Sem a vantagem de poder cruzar todos os documentos que sobreviveram.
E ainda assim chegara até Robert.
— Tem mais.
Outra folha foi apresentada.
Sarah leu:
Volturi — secretária diz retirada autorizada por I.V. Confirmar.
Emmett levantou.
— Então ele sabia que era Irina.
— Não.
Sarah falou imediatamente.
— Ele registrou que uma secretária teria dito que a retirada fora autorizada por I.V. A palavra seguinte é literalmente “confirmar”.
Emmett respirou.
— Certo.
Sarah escreveu:
HELEN MOORE — LOCALIZAR / OUVIR SEM CONTAMINAÇÃO.
Mas a descoberta que mudou tudo estava quatro anos adiante no mesmo caderno.
Charlie continuara usando aquelas páginas.
Sarah viu a data.
O sangue pareceu esfriar.
Não era mais o ano em que Esme Cullen e Sarah Black morreram.
Era o ano da morte de Carlisle.
Quatro anos haviam se passado.
Jacob e Emmett já tinham dez.
Edward e Sarah, oito.
A anotação era da semana da emboscada.
C.C. ligou.
Sarah sentiu Edward aproximar-se.
Carlisle Cullen.
Disse que alguém mexeu nos arquivos antigos.
Linha seguinte:
Perguntou se ainda tenho cópia T-6.
Jacob segurou a borda da mesa.
Sarah continuou:
Pediu encontro. Não por telefone.
Depois:
Sexta. Estrada velha.
A emboscada acontecera naquela sexta-feira.
Ninguém falou.
Sarah sentiu o coração bater forte.
A última anotação:
Levar cópias. Não envolver crianças.
Emmett fechou os olhos.
Edward empalideceu.
Billy virou o rosto.
— Meu Deus.
Sarah olhou para a frase.
Não envolver crianças.
Carlisle aparentemente não pretendia que os filhos participassem de nada relacionado à investigação.
Mas naquela sexta-feira as quatro crianças estavam com ele.
Jacob e Emmett, dez anos.
Edward e Sarah, oito.
E foi justamente naquele dia que tudo acabou.
Jacob procurou a mão dela.
Sarah entregou.
— Então Charlie não estava lá por acaso — Emmett disse.
Sarah respirou.
Agora existia um documento contemporâneo.
Mesmo assim:
— Temos evidência de que Charlie e Carlisle haviam combinado um encontro naquela região e naquele dia.
Edward assentiu.
— Não necessariamente no ponto exato da emboscada.
— Isso.
Sarah apontou para ele.
— Mas a hipótese de uma presença puramente casual fica muito mais fraca.
Jacob apertou sua mão.
— E Carlisle sabia da T-6.
— Pelo menos sabia que Charlie ainda tinha cópias relacionadas ao assunto.
Billy parecia devastado.
— Carlisle nunca me contou.
Sarah olhou para ele.
— Talvez não tenha tido tempo.
— Quatro anos, Sarah.
— Quatro anos desde o acidente. Não sabemos quando Carlisle voltou a desconfiar.
Billy ficou quieto.
Sarah continuou:
— A anotação diz que alguém mexeu nos arquivos antigos. Isso pode ter sido o gatilho para ele procurar Charlie novamente.
Billy fechou os olhos.
— Eu deveria ter...
— Não.
Sarah cortou.
Billy abriu os olhos.
— Não vamos fazer isso outra vez.
Silêncio.
— Jacob passou quinze anos se culpando porque, aos dez anos, não conseguiu segurar uma menina de oito pendurada sobre um rio.
Jacob olhou para ela.
Sarah apertou sua mão.
— Você passou dezenove anos se culpando por não perceber uma frase técnica num laudo enquanto estava enterrando a mulher que amava e tentando criar um menino de seis anos.
Billy engoliu.
— E Charlie aparentemente passou quinze anos pensando no que poderia ter feito naquela floresta.
Sarah pegou a caneta.
No quadro escreveu:
CULPA NÃO É PROVA.
Emmett observou.
— Essa fica.
— Essa fica — Sarah concordou.
Isabella descobriu naquela noite.
Não pela investigação.
Pelo pai.
Charlie ligou para a filha.
Sarah não ouviu a conversa.
Edward contou depois.
Isabella chegou ao apartamento dele chorando.
Não porque o pai fosse suspeito.
Porque descobrira que o homem tranquilo que a criara carregava havia quinze anos a lembrança de uma noite na floresta em que encontrara crianças aterrorizadas.
Naquela noite, Jacob e Emmett tinham dez anos.
Edward e Sarah, oito.
Isabella sentou no sofá entre Edward e Sarah.
— Ele nunca contou.
Sarah segurou sua mão.
— Talvez não pudesse.
— Ele disse que achava que tinha falhado.
Sarah fechou os olhos.
Mais culpa.
Sempre culpa.
— Por quê?
Isabella limpou as lágrimas.
— Porque chegou tarde.
Jacob, que estava perto da janela, ficou imóvel.
— Tarde para quê?
Isabella olhou para ele.
— Para impedir.
Sarah sentiu o coração apertar.
— Impedir o quê?
— Ele não explicou por telefone.
Edward falou:
— Vai prestar complemento amanhã.
Sarah assentiu.
Não perguntaria.
Não agora.
Isabella olhou para Sarah.
— Ele perguntou se você o odeia.
Sarah ficou chocada.
— Por quê?
— Não sei.
— Isabella, eu tinha oito anos. Eu nem sabia que ele estava lá.
Parou.
A frase doeu de um jeito inesperado.
Oito anos.
Sarah Cullen tinha oito anos quando desapareceu.
Jacob tinha dez quando tentou segurá-la.
Não eram dois adultos tomando decisões numa situação controlável.
Eram crianças correndo para sobreviver.
Sarah olhou para Jacob.
Havia alguma coisa no rosto dele.
Uma dor antiga.
Mas também compreensão.
Talvez ouvir as idades em voz alta fizesse alguma coisa.
Colocasse a culpa no tamanho correto.
Pequena demais para caber nos ombros de um menino de dez anos.
O depoimento complementar explicou a presença de Charlie na floresta.
Ele tinha ido encontrar Carlisle.
Chegara antes.
Estacionara longe da estrada principal porque Carlisle pedira discrição.
Esperara.
Carlisle não apareceu no horário combinado.
Charlie tentou ligar.
Sem resposta.
Então ouviu motores.
Depois disparos.
Dirigiu na direção do som.
Encontrou o veículo de Carlisle abandonado.
Portas abertas.
Entrou na mata ao ouvir vozes.
Não sabia ainda exatamente o que havia acontecido.
Encontrou Edward e Emmett primeiro.
Um menino de oito anos.
Um de dez.
Assustados.
Ofegantes.
Tentando obedecer à última ordem do pai:
correr.
Charlie os escondeu.
Mandou que não saíssem.
Depois voltou.
Jacob e Sarah haviam seguido por outra direção.
Um menino de dez anos tentando proteger uma menina de oito.
Sarah sentiu os dedos ficarem frios quando leu.
Jacob não precisava do documento.
Ele lembrava.
— Eu disse para ele — murmurou.
Sarah olhou.
— O quê?
Jacob engoliu.
— Que você tinha caído.
Silêncio.
— Quando Charlie me encontrou.
A voz dele estava distante.
— Eu gritava para ele voltar.
Sarah segurou sua mão.
— Eu dizia que você estava no rio.
A respiração de Jacob mudou.
— Que tinha que descer.
Sarah se aproximou.
— Jacob.
— Eu tinha dez anos.
A frase saiu quase surpresa.
Sarah sentiu o peito quebrar um pouco.
Talvez fosse a primeira vez que ele dizia daquela maneira.
Não:
Eu deixei você cair.
Mas:
Eu tinha dez anos.
Sarah apertou a mão dele.
— Tinha.
Jacob fechou os olhos.
— Eu lembro dele me segurando porque eu queria voltar para o penhasco.
A voz falhou.
— Eu dizia que tinha prometido.
Sarah sentiu lágrimas surgirem.
— E ele dizia que ia procurar você.
— Ele procurou?
A resposta estava nos registros.
Sim.
Charlie procurou.
Por horas.
Outras pessoas foram acionadas.
O rio foi percorrido.
Nenhum corpo.
Nenhuma menina.
Porque a corrente já havia carregado Sarah quilômetros abaixo.
E em outro ponto da região, Harry Clearwater encontraria uma criança ferida presa entre galhos.
Uma menina que entraria em coma.
Uma menina que, ao despertar semanas depois, saberia apenas o próprio primeiro nome.
Sarah.
Enquanto isso, Charlie Swan, Billy Black, Jacob, Edward e Emmett continuariam procurando Sarah Cullen.
As duas histórias passaram a existir paralelamente.
A poucos quilômetros ou a muitos, dependendo dos dias.
Sem nunca se encontrar.
Por quinze anos.
Charlie acreditara que falhara.
Porque não impedira a emboscada.
Porque não salvara Carlisle.
Porque não encontrara Sarah.
E porque quatro anos antes já suspeitara que a morte de Esme e Sarah Black não fora um acidente.
Sarah fechou o documento.
— Quero falar com ele.
O advogado olhou.
— Agora pode ser organizado.
— Não sobre a investigação.
— Sobre o quê?
Sarah olhou para Jacob.
Depois para Edward.
Emmett.
Isabella.
— Sobre quinze anos de culpa que não pertencem a ele.
Charlie estava sentado sozinho quando Sarah entrou.
Foi a primeira vez que ela o viu sabendo exatamente quem ele era naquela história.
Não apenas o pai de Isabella.
Não apenas o investigador do primeiro acidente.
O homem que, quatro anos depois, correra para dentro de uma floresta atrás de quatro crianças.
O homem que procurara por ela no rio.
Charlie levantou.
Ficou imóvel.
Os olhos passaram pelo rosto de Sarah.
Não como Billy, que às vezes encontrava traços de Esme.
Charlie parecia procurar a menina de oito anos que não conseguira encontrar.
— Oi — Sarah disse.
Charlie engoliu.
— Oi.
Silêncio.
— Posso?
Ela apontou para a cadeira.
— Claro.
Sentaram.
Charlie mantinha as mãos juntas.
Sarah observou.
— Isabella disse que você perguntou se eu te odiava.
Ele baixou os olhos.
— Eu cheguei tarde.
— Não.
— Sarah...
— Não.
Charlie levantou os olhos.
Sarah falou com calma.
— Você chegou.
Ele ficou imóvel.
— Edward e Emmett estão vivos porque você chegou.
Charlie respirou fundo.
— Carlisle não.
— Isso não foi você.
— E você...
— Também não.
A voz dele falhou.
— Você tinha oito anos.
Sarah sentiu os olhos arderem.
— Tinha.
— Jacob tinha dez.
— Eu sei.
Charlie respirou.
— Quando encontrei ele, estava machucado, molhado e completamente fora de si. Só repetia que tinha prometido não soltar sua mão.
Sarah fechou os olhos.
Uma lágrima escapou.
Charlie continuou:
— Eu procurei você.
Sarah abriu os olhos.
— Eu sei.
— Procurei até não conseguir mais enxergar direito a água.
Outra lágrima.
— Durante anos pensei que, se tivesse chegado dez minutos antes...
Sarah interrompeu:
— Dez minutos.
Charlie olhou.
— Jacob passou quinze anos achando que, se aos dez anos tivesse conseguido segurar a mão de uma menina de oito por alguns segundos a mais, eu não teria caído.
Charlie ficou imóvel.
— Billy acha que deveria ter entendido um laudo enquanto enterrava a mulher que amava e tentava cuidar do filho de seis anos.
Ela respirou.
— E você acha que dez minutos fariam de você responsável por uma emboscada planejada por outras pessoas.
Charlie baixou os olhos.
Sarah inclinou-se.
— Eu estou cansada de ver pessoas boas carregando a culpa pelas escolhas de quem fez mal.
Silêncio.
Charlie passou a mão pelos olhos.
Sarah continuou:
— Eu não lembro de você naquela noite.
Ele assentiu.
— Tudo bem.
— Talvez eu nunca lembre.
— Tudo bem.
— Mas sei uma coisa.
Charlie levantou os olhos.
— Você tentou me encontrar.
Ele respirou fundo.
— Tentei.
Sarah sorriu entre as lágrimas.
— Então obrigada.
Charlie chorou.
Silenciosamente.
Sarah levantou.
Hesitou.
— Posso te abraçar?
Charlie soltou uma risada quebrada.
— Achei que eu é que devia perguntar isso.
Sarah sorriu.
— Sou advogada. Gosto de controlar o procedimento.
Ele riu.
E Sarah o abraçou.
Não houve memória.
Nenhuma imagem.
Nenhuma voz.
Nenhum flash.
E isso estava perfeitamente bem.
Nem todo abraço precisava recuperar o passado.
Alguns existiam apenas para consertar o presente.
Quando Sarah saiu, Jacob estava esperando no corredor.
Ela caminhou até ele.
Não falou.
Apenas o abraçou.
Jacob a recebeu.
— Tudo bem?
— Sim.
Ela encostou o rosto no peito dele.
Depois de alguns segundos:
— Você tinha dez anos.
Jacob ficou quieto.
Sarah levantou o rosto.
— Quero que você comece a lembrar disso também.
Ele engoliu.
— Estou tentando.
Sarah tocou seu rosto.
— Um menino de dez anos segurou uma menina de oito até não conseguir mais.
Jacob fechou os olhos.
Ela beijou sua bochecha.
— Você não falhou comigo.
A mão dele encontrou a dela.
— Estou tentando acreditar.
— Eu sei.
Sarah sorriu.
— Hoje eu não quero descobrir mais nada.
— Ótimo.
— Quero jantar.
— Ótimo.
— Na sua casa.
— Melhor ainda.
Ela estreitou os olhos.
— E quero massagem.
Jacob ergueu uma sobrancelha.
Sarah apontou imediatamente.
— Massagem de verdade.
— Claro.
— Jacob.
— Eu não falei nada.
— Seu rosto falou.
Ele riu.
Sarah segurou sua mão.
E os dois começaram a andar.
Mas antes de chegarem ao elevador, o telefone do advogado tocou atrás deles.
Sarah parou.
Não queria ouvir.
Realmente não queria.
O homem atendeu.
Poucos segundos depois:
— Sarah.
Ela fechou os olhos.
Jacob apertou sua mão.
Sarah virou.
— O quê?
O advogado estava sério.
— Localizaram Helen Moore.
Sarah ficou imóvel.
A antiga secretária de Irina e Aro.
A mulher que, segundo as anotações de Charlie, havia fornecido informações sobre a retirada da T-6 dezenove anos antes.
— Ela está viva?
— Está.
— Concordou em falar?
O homem hesitou.
— Sim.
Sarah percebeu.
— Mas?
— Quando disseram que o assunto envolvia o antigo acidente de Sarah Black e Esme Cullen, ela fez uma pergunta.
— Qual?
Ele respirou.
— Perguntou se finalmente tinham encontrado a peça.
Sarah sentiu o estômago afundar.
Jacob ficou imóvel ao seu lado.
Sarah demorou alguns segundos para responder.
Porque Helen Moore não perguntara que peça.
Perguntara se finalmente tinham encontrado a peça.
Dezenove anos depois, outra pessoa ainda se lembrava da T-6.
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