MEMÓRIAS
6 CAPÍTULO 5 - Aqueles olhos
Sarah Clearwater chegou à sede da Cullen & Black às nove e quarenta e dois da manhã.
Dezoito minutos antes do horário combinado.
Rosalie teria considerado aquilo uma doença.
Sarah chamava de educação.
Parou alguns segundos diante do edifício e ergueu os olhos para as letras metálicas instaladas sobre a entrada.
CULLEN & BLACK
Sentiu alguma coisa estranha.
Não reconhecimento.
Não exatamente.
Era apenas uma sensação rápida de desconforto, tão pequena que poderia ser atribuída à ansiedade de conhecer uma empresa onde talvez viesse a trabalhar.
Sarah respirou fundo.
— É só uma empresa.
Entrou.
O saguão era enorme, moderno, cheio de vidro e linhas discretas. Um automóvel conceito ocupava o centro do espaço, cercado por uma plataforma baixa.
Sarah diminuiu o passo.
— Bonito.
— Você entende de carros?
Ela se virou.
Emmett caminhava em sua direção.
— Absolutamente nada.
— Excelente começo.
Sarah sorriu.
— Eu disse isso ontem.
— E eu continuo considerando uma qualidade.
Emmett beijou seu rosto de maneira espontânea.
Sarah não estranhou.
O que era estranho.
Tinham se conhecido no dia anterior.
Mesmo assim, conversar com ele parecia fácil demais.
— Chegou cedo — ele comentou.
— Cheguei no horário.
Emmett olhou para o relógio.
— Faltam dezessete minutos.
— Exatamente.
— Isso não é chegar no horário.
— Para pessoas responsáveis, é.
— Você vai se dar muito bem com Jacob.
Sarah arqueou uma sobrancelha.
— Isso foi uma ameaça?
— Talvez.
Ela riu.
— Onde está Rosalie?
— Trabalhando, uma atividade que ela garante exercer regularmente.
— Ela não vem?
— Não.
Sarah parou.
— Então ela me jogou aqui sozinha.
— Você está comigo.
— Isso não melhorou sua situação.
Emmett colocou a mão no peito.
— Você me machuca.
Sarah começou a caminhar ao lado dele.
— Vai sobreviver.
— Essa falta de sensibilidade é ótima para advogada.
— Obrigada.
— Não foi elogio.
— Aceitei como um.
Emmett olhou para ela.
Novamente aquela sensação.
Era fácil demais.
Natural demais.
Como se tivessem passado anos provocando um ao outro e apenas retomado uma dinâmica interrompida.
— O que foi? — Sarah perguntou.
— Nada.
— Você fez aquela cara de novo.
— Que cara?
— A de quem está tentando lembrar alguma coisa.
Emmett desviou os olhos.
— Você implica demais.
— Nos conhecemos ontem e você já descobriu.
— Foi rápido.
Entraram no elevador.
Sarah levou a mão ao peito quase distraidamente.
O pingente estava ali.
Escondido sob a camisa de seda.
Emmett viu o gesto.
De novo.
Uma pequena impressão atravessou sua mente.
Não uma lembrança.
Apenas a sensação de que já vira aquilo.
— Você faz muito isso.
Sarah olhou para ele.
— O quê?
Emmett imitou o gesto.
— Coloca a mão aqui.
Sarah baixou os olhos para os próprios dedos.
— Faço?
— Faz.
— Nunca percebi.
— Está nervosa.
Ela retirou a mão.
— Não estou nervosa.
— Claro.
— Não estou.
— Então está com problemas cardíacos.
Sarah deu um tapa em seu braço.
— Idiota.
Emmett riu.
As portas do elevador se abriram.
— Bem-vinda à família.
Sarah parou.
Emmett também.
A frase havia saído naturalmente.
Natural demais.
— Empresa — ele corrigiu rapidamente. — Bem-vinda à empresa.
Sarah sorriu.
— Por um segundo achei que o processo seletivo incluía adoção.
— Dependendo do salário, pode incluir.
Eles continuaram andando.
Nenhum dos dois percebeu o peso daquela brincadeira.
Edward Cullen estava saindo de uma sala quando viu Emmett no corredor.
— Você finalmente chegou.
— Estou aqui desde cedo.
— São dez horas.
— Exatamente. Cedo.
Edward ia responder quando percebeu a mulher ao lado dele.
Parou.
Sarah também.
Por um segundo longo demais, nenhum dos dois falou.
Edward sentiu uma sensação estranha no estômago.
Não atração.
Não interesse.
Era outra coisa.
Uma familiaridade desconfortável.
Como se estivesse diante de alguém que deveria conhecer.
Sarah franziu levemente a testa.
Edward sentiu o coração acelerar.
Aquele gesto.
Por quê?
— Edward? — Emmett chamou.
Ele piscou.
— O quê?
Emmett olhou de Edward para Sarah.
— Essa é Sarah Clearwater.
Edward continuou olhando.
Sarah estendeu a mão.
— Prazer.
Edward demorou um segundo para reagir.
Apertou-a.
— Edward Cullen.
— O irmão sério.
Emmett abriu a boca.
Edward olhou para ele.
— O que você contou?
— Apenas fatos.
Sarah sorriu.
— Ele disse que você trabalha.
— Diferente dele.
— Ei!
Sarah riu.
Edward ficou imóvel.
Aquela risada provocou alguma coisa.
Uma imagem passou por sua mente.
Uma mesa.
Uma menina.
Não conseguiu segurá-la.
— Está tudo bem? — Sarah perguntou.
— Sim.
Mas não estava.
Edward soltou a mão dela.
— Nós já nos encontramos?
Sarah começou a rir novamente.
— Seu irmão fez exatamente a mesma pergunta ontem.
Emmett apontou.
— Eu disse!
Edward ignorou.
— E?
— Não que eu saiba.
— Você cresceu onde?
A pergunta saiu antes que pudesse pensar.
Sarah estranhou.
— Aqui.
— Nesta cidade?
— Em parte.
Emmett observava o irmão.
Edward nunca fazia perguntas pessoais para desconhecidos.
— Por quê? — Sarah perguntou.
— Nada.
Ela inclinou a cabeça.
— Vocês dois são estranhos.
— Eu sou simpático — Emmett respondeu.
— Você é estranho e simpático.
— Aceito.
Edward ainda a observava.
Sarah tinha alguma coisa.
Não sabia o quê.
Mas seu corpo reagia antes que sua mente pudesse explicar.
— Vai conhecer o jurídico? — perguntou.
— Esse é o plano.
— Eu vou com vocês.
Emmett arregalou os olhos.
— Vai?
— Algum problema?
— Você tinha uma reunião.
— Foi adiada.
— Por quem?
Edward olhou para ele.
— Por mim.
Emmett sorriu.
— Claro.
Sarah começou a caminhar.
Edward acompanhou.
Sem perceber, posicionou-se do lado externo do corredor quando um funcionário passou empurrando um carrinho de equipamentos.
Colocou a mão discretamente nas costas de Sarah para afastá-la.
Ela olhou para ele.
Edward imediatamente retirou a mão.
— Desculpa.
— Tudo bem.
Emmett viu.
E achou estranho.
Muito estranho.
Sarah gostou do departamento jurídico.
Gostou mais do que pretendia.
As questões eram complexas.
Contratos internacionais.
Disputas societárias.
Propriedade intelectual.
Negociações com fornecedores.
Arbitragem.
Era exatamente o tipo de trabalho que a desafiava.
Depois de quase uma hora, já havia esquecido que estava ali apenas para conhecer.
— Isso aqui está errado.
O diretor jurídico olhou para ela.
— O quê?
Sarah apontou para uma cláusula de um contrato que ele havia mostrado como exemplo.
— Essa limitação.
O homem aproximou-se.
— Por quê?
— Porque entra em conflito com a cláusula de responsabilidade da página anterior.
Edward olhou para o documento.
— Onde?
Sarah mostrou.
— Aqui.
Emmett se inclinou.
— Eu não entendo nada.
— Ninguém esperava que entendesse — Edward respondeu.
— Obrigado.
Sarah ignorou os dois.
— Se houver litígio, essa redação permite duas interpretações diferentes.
O diretor releu.
Ficou em silêncio.
— Ela tem razão.
Emmett abriu um sorriso enorme.
— Contratada.
Sarah virou-se.
— Eu ainda não aceitei.
— Detalhes.
Edward olhava para ela.
Não apenas pela inteligência.
Era o jeito.
A segurança.
A maneira de franzir a testa quando se concentrava.
Alguma coisa continuava incomodando.
Não de forma ruim.
Era como tentar lembrar uma palavra que estava na ponta da língua.
— Emmett.
A voz feminina interrompeu a conversa.
Emmett fechou os olhos por um segundo.
Edward endureceu.
Sarah percebeu.
Virou-se.
Uma mulher elegante aproximava-se acompanhada por dois executivos.
Irina Volturi.
Sarah reconheceu imediatamente.
O sobrenome Cullen e o rosto apareciam frequentemente em matérias empresariais.
— Tia Irina — Emmett cumprimentou.
Irina olhou primeiro para ele.
Depois para Edward.
Então viu Sarah.
E parou.
Foi uma reação mínima.
Mas Sarah percebeu.
Os olhos de Irina percorreram seu rosto.
Por algum motivo, seu sorriso desapareceu.
— Quem é?
Não perguntou quem é ela.
A pergunta saiu seca.
Emmett aproximou-se.
— Sarah Clearwater. Estamos conversando sobre uma posição no jurídico.
Irina continuou olhando.
Sarah estendeu a mão.
— Prazer, senhora Volturi.
Irina olhou para a mão.
Demorou um instante antes de apertá-la.
— Clearwater?
— Sim.
— Harry Clearwater?
— Meu pai.
Irina soltou sua mão.
— Entendo.
Sarah sorriu educadamente.
— Conhece meu pai?
— De nome.
Irina não conseguia parar de olhar.
Havia alguma coisa naquela mulher que a incomodava profundamente.
Os olhos?
Não.
O formato do rosto?
Talvez.
Então Sarah franziu levemente o nariz quando Emmett cochichou alguma coisa.
Irina sentiu o estômago contrair.
Esme.
A lembrança surgiu tão rápida que a irritou.
Esme fazia aquilo.
Aquele mesmo pequeno movimento quando estava contrariada.
Irina imediatamente rejeitou a associação.
— Você é muito jovem.
Sarah percebeu o tom.
— Tenho vinte e três anos.
— Para trabalhar no jurídico de uma empresa deste porte.
Emmett abriu a boca.
Sarah respondeu primeiro.
— Imagino que o currículo seja mais relevante do que a idade.
Edward baixou os olhos para esconder uma reação.
Emmett quase sorriu.
Irina ficou imóvel.
— Confiante.
— Preparada.
Silêncio.
Emmett decidiu interferir.
— Sarah tem uma formação excelente.
— Não perguntei a você.
Sarah olhou para Emmett.
Depois para Irina.
— Posso responder qualquer pergunta que a senhora tenha sobre minha formação.
Irina sustentou seu olhar.
Aquilo piorou a sensação.
Não gostava dela.
Não sabia por quê.
Mas não gostava.
— Não tenho perguntas.
— Ótimo.
Edward olhou rapidamente para Sarah.
Ela não se intimidara nem um pouco.
Irina percebeu.
— Quem autorizou essa contratação?
— Não houve contratação — Emmett respondeu.
— Ainda — Sarah acrescentou.
Emmett quase engasgou para não rir.
Irina lançou-lhe um olhar.
Sarah manteve a expressão educada.
— Com licença.
Irina passou por eles.
Quando desapareceu no corredor, Sarah soltou o ar.
— Ela é sempre assim?
Emmett respondeu:
— Você pegou um dia bom.
Sarah arregalou os olhos.
Edward finalmente sorriu.
Irina entrou em sua sala.
Fechou a porta.
Aro estava sentado no sofá, esperando-a para o almoço.
— Aconteceu alguma coisa?
Irina colocou a bolsa sobre a mesa.
— Não.
— Sua expressão diz outra coisa.
— Emmett quer contratar uma advogada.
— E isso é um problema?
— Não.
Aro esperou.
— Então?
Irina caminhou até a janela.
— Sarah Clearwater.
— Clearwater?
— Filha de Harry.
— Conheço o nome.
— Ela me irritou.
Aro riu.
— Isso reduz muito pouco as possibilidades.
Irina não riu.
— Tem alguma coisa nela.
— Como assim?
— Não sei.
Irina virou-se.
— O jeito.
— Você acabou de conhecê-la.
— Exatamente.
Aro levantou-se.
— Talvez simplesmente não tenha gostado dela.
Irina olhou pela janela.
— Talvez.
Mas continuou pensando naquele pequeno gesto.
O nariz franzido.
A expressão.
Esme.
Irina afastou a lembrança.
Esme estava morta havia muitos anos.
E Sarah Cullen também.
— Ainda quer trabalhar aqui?
Emmett perguntou enquanto caminhavam em direção à presidência.
Sarah olhou para ele.
— Depois da sua tia?
— Principalmente.
— Agora quero só para irritá-la.
Emmett colocou a mão no coração.
— Sabia que éramos almas gêmeas.
— Rosalie vai adorar ouvir isso.
— Retiro imediatamente.
Edward caminhava ao lado deles.
— Você realmente está considerando?
Sarah ficou séria.
— Estou.
— Por quê?
— O trabalho é interessante.
— Só isso?
Ela pensou.
— Não.
Emmett sorriu.
— Gostou de mim.
— Definitivamente não.
— Sabia.
Sarah olhou novamente para o ambiente.
— Não sei explicar.
Edward prestou atenção.
— Explicar o quê?
— Desde que entrei aqui...
Ela hesitou.
— Parece estranho.
Emmett parou de brincar.
— Ruim?
— Não.
Sarah tocou discretamente o peito.
— Familiar.
Os dois irmãos se entreolharam.
Edward sentiu um arrepio.
— Familiar como? — perguntou.
Sarah riu para quebrar a tensão.
— Vocês estão me deixando paranoica.
— Você disse — Edward insistiu.
— É só uma sensação.
Emmett olhou para ela.
— Eu senti a mesma coisa ontem.
Sarah sorriu.
— Então somos todos estranhos.
Edward não respondeu.
Pararam diante de uma porta dupla.
Sarah leu a placa.
PRESIDÊNCIA
Olhou para Emmett.
— Por que estamos aqui?
— Última etapa do passeio.
— Você disse que eu ia conhecer o jurídico.
— Conheceu.
— Emmett.
— Cinco minutos.
Sarah cruzou os braços.
— Você está me levando para conhecer Jacob Black?
— Estou.
— O presidente.
— Esse costuma ser o cargo dele.
— Eu não estou vestida para uma entrevista com o presidente.
Emmett olhou para ela dos pés à cabeça.
— Está vestida.
— Não faça isso.
— Isso o quê?
— Olhar.
— Eu estava avaliando profissionalmente.
Edward abriu a porta.
— Entrem antes que eu abandone vocês dois aqui.
Sarah respirou fundo.
Sem perceber, levou a mão ao peito.
A lua estava ali.
Escondida.
Emmett viu.
Sorriu.
— Nervosa.
— Cala a boca.
Jacob estava em pé junto à janela quando ouviu a porta.
— Eu disse cinco minutos, Emmett.
— E eu respeito profundamente limites.
Jacob virou-se.
— Isso seria uma novidade.
Viu Emmett.
Depois Edward.
Então Sarah.
O mundo não parou.
Nenhuma memória explodiu.
Jacob não soube quem ela era.
Não pensou em Sarah Cullen.
Não viu a menina do penhasco diante dele.
Nada disso aconteceu.
Foi mais simples.
E talvez por isso muito pior.
Ele olhou para os olhos dela.
E esqueceu o que ia dizer.
Sarah também ficou imóvel.
Aquele homem.
Havia alguma coisa nele.
Jacob sentiu o peito apertar.
Verde.
Os olhos dela eram verdes.
Mas não era apenas a cor.
Era o modo como olhavam.
A forma.
A intensidade.
Alguma coisa dentro dele reagiu violentamente.
Sarah percebeu a mudança na expressão dele.
— Jacob? — Emmett chamou.
Ele não respondeu.
Os olhos.
Não.
Era impossível.
Jacob respirou fundo.
Sarah franziu a testa.
— Senhor Black?
A voz dela.
Outra coisa.
Não reconhecia a voz adulta.
Mas alguma parte de seu corpo pareceu reconhecê-la antes dele.
Jacob apertou a mão contra a lateral da mesa.
— Nós já nos conhecemos?
Sarah arregalou os olhos.
Emmett começou a rir.
— Não acredito.
Jacob finalmente olhou para ele.
— O quê?
— Eu perguntei isso.
Edward falou:
— Eu também.
Jacob olhou para os dois.
Depois para Sarah.
Ela levantou as mãos.
— Eu gostaria de registrar que aparentemente tenho um rosto muito comum.
— Não tem — Jacob respondeu.
A frase saiu rápido demais.
Silêncio.
Sarah ergueu uma sobrancelha.
Emmett olhou para Edward.
Edward olhou para Emmett.
Jacob percebeu.
— Quero dizer...
Parou.
Não costumava precisar corrigir frases.
— Tenho a impressão de já ter visto você.
Sarah sorriu.
— Seus irmãos disseram a mesma coisa.
— Não somos irmãos — Jacob respondeu automaticamente.
Emmett colocou a mão no peito.
— Isso doeu.
Sarah riu.
Jacob congelou outra vez.
A risada.
Alguma coisa apertou dentro dele.
Não uma lembrança completa.
Um jardim.
Água.
Uma criança correndo.
Desapareceu.
Jacob ficou sério.
— Seu nome?
Emmett franziu a testa.
— Eu falei ontem.
Jacob ignorou.
Sarah estendeu a mão.
— Sarah Clearwater.
Jacob olhou para a mão dela.
Sarah.
O nome atingiu primeiro.
Depois ele voltou aos olhos.
Por um instante, o penhasco surgiu.
Não a mulher.
A menina.
Olhos verdes cheios de lágrimas.
Você prometeu.
Jacob recuou mentalmente.
Não.
Sarah percebeu a hesitação.
— Algum problema?
— Não.
Ele apertou a mão dela.
E então veio uma sensação ainda pior.
Familiaridade.
A mão era diferente.
Adulta.
Mas alguma coisa naquele contato fez seu coração disparar.
Sarah também ficou séria.
O sorriso desapareceu.
Um frio percorreu suas costas.
Uma imagem atravessou sua mente.
Escuridão.
Uma mão.
— Segura!
Sarah puxou a mão abruptamente.
Jacob percebeu.
— O que foi?
— Nada.
Ela levou a mão ao peito.
Jacob viu o gesto.
E alguma coisa dentro dele praticamente gritou.
Conhecia aquilo.
Não sabia de onde.
Mas conhecia.
— Você está bem?
A pergunta saiu diferente.
Não como presidente.
Não como alguém conhecendo uma possível funcionária.
Preocupação.
Instintiva.
Sarah assentiu.
— Estou.
Jacob continuou olhando.
Edward percebeu.
Emmett também.
Havia alguma coisa completamente diferente na maneira como Jacob reagia a ela.
Edward sentira proteção.
Emmett sentira familiaridade.
Jacob parecia perturbado.
— Sarah veio conhecer o jurídico — Emmett explicou.
Jacob finalmente desviou os olhos.
— E?
— Gostou.
Sarah respondeu:
— Gostei.
Jacob voltou a olhar para ela.
Erro.
Os olhos novamente.
— Formação em societário e arbitragem.
— Entre outras áreas.
— Vinte e três anos.
Sarah inclinou a cabeça.
— Isso parece estar incomodando muita gente hoje.
Jacob quase sorriu.
— Não me incomoda.
— Ótimo.
— Me surpreende.
— Melhor.
Emmett observava os dois como quem assistia a alguma coisa particularmente interessante.
— Ela encontrou um erro num dos contratos.
Jacob olhou para Sarah.
— Qual?
Ela explicou.
Jacob fez duas perguntas.
Sarah respondeu.
Fez uma terceira.
Ela discordou da premissa.
— Não.
Jacob ergueu uma sobrancelha.
— Não?
— Essa interpretação só funcionaria se ignorássemos a cláusula anterior.
Emmett lentamente abriu um sorriso.
Pouquíssimas pessoas diziam “não” a Jacob Black cinco minutos depois de conhecê-lo.
— Você está dizendo que minha interpretação está errada?
Sarah manteve os olhos nos dele.
— Estou dizendo que juridicamente existe uma interpretação melhor.
Edward virou o rosto para esconder o sorriso.
Jacob ficou olhando para ela.
Então, pela primeira vez naquela manhã, sorriu.
Pouco.
Mas sorriu.
Sarah percebeu.
O sorriso transformou completamente o rosto dele.
E alguma coisa dentro dela reagiu.
Uma sensação quente.
Estranhamente triste.
Como se já tivesse visto aquele sorriso.
— O quê? — Jacob perguntou.
Sarah percebeu que estava olhando.
— Nada.
— Você fez uma cara.
— Que cara?
— Como se estivesse tentando lembrar alguma coisa.
Emmett soltou uma gargalhada.
— Bem-vinda ao clube!
Sarah olhou para ele.
— Não ajuda.
Jacob ficou sério novamente.
— Lembrar do quê?
Ela voltou os olhos para ele.
— Não sei.
Silêncio.
Sarah tentou brincar.
— Talvez vocês realmente tenham rostos comuns.
— Impossível — Emmett respondeu.
Edward revirou os olhos.
Jacob não riu.
Continuava olhando para Sarah.
Havia uma pergunta dentro dele.
Não sabia formular.
Cinco minutos viraram vinte e três.
Quando Sarah finalmente saiu da sala com Emmett e Edward, Jacob permaneceu em pé.
Olhando para a porta fechada.
Tentou voltar aos documentos.
Não conseguiu.
Sentou-se.
Abriu uma pasta.
Leu a mesma frase três vezes.
Fechou.
Aqueles olhos.
Levantou-se.
Foi até a janela.
— Ridículo.
Milhares de pessoas tinham olhos verdes.
Não significava nada.
Sarah Cullen teria vinte e três anos.
O pensamento surgiu sem autorização.
Jacob fechou os olhos.
Não.
Sarah Cullen morreu.
A correnteza.
As buscas.
Quinze anos.
Nenhum sinal.
Nenhum corpo.
Jacob abriu os olhos.
Nenhum corpo.
Sentiu o coração acelerar.
— Para.
Estava fazendo exatamente aquilo que Billy passara anos tentando impedir.
Transformando culpa em esperança impossível.
Sarah Clearwater era filha de Harry Clearwater.
Uma desconhecida.
Uma advogada.
Só isso.
Mas quando fechou os olhos novamente, não viu a mulher que acabara de sair.
Viu uma menina de oito anos.
Não me deixa cair.
Jacob apertou os olhos.
— Desculpa.
No elevador, Sarah estava estranhamente silenciosa.
Emmett percebeu primeiro.
— O que foi?
— Nada.
— Você fala “nada” demais.
— E você pergunta demais.
Edward observava.
— Foi Jacob?
Sarah olhou para ele.
— O quê?
— Você ficou diferente depois que conheceu ele.
— Não fiquei.
Emmett sorriu.
— Ficou.
— Vocês dois são insuportáveis.
— Família — Emmett respondeu.
Sarah riu.
Mas a palavra provocou outra sensação estranha.
Família.
Ela olhou para os dois.
Edward.
Emmett.
Por que estar perto deles parecia tão fácil?
E Jacob...
Jacob era diferente.
Não parecia fácil.
Parecia perigoso.
Não porque tivesse feito alguma coisa.
Mas porque, quando olhara para os olhos dele, alguma coisa dentro dela se movera.
Algo antigo.
Algo que não tinha nome.
Sarah levou a mão ao peito.
Sentiu a lua sob a roupa.
— Está fazendo de novo — Emmett comentou.
Ela retirou a mão.
— Mania.
As portas se abriram.
Sarah saiu.
Emmett esperou até ver Sarah atravessar as portas de vidro do saguão.
Ela ainda se virou uma última vez para acenar.
Ele levantou a mão.
Sarah sorriu.
Então desapareceu do outro lado das portas.
Emmett continuou olhando por alguns segundos.
Edward, ao seu lado, percebeu.
— Você está fazendo aquela cara de novo.
— Que cara?
— A mesma que fez ontem.
Emmett enfiou as mãos nos bolsos.
— Você também fez.
Edward não respondeu.
— Fez sim.
— Vamos subir.
Emmett olhou para ele.
— Para quê?
— Falar com Jacob.
— Sobre a contratação?
Edward apertou o botão do elevador.
— Também.
Emmett sorriu lentamente.
— Ah.
— O quê?
— Você quer falar sobre ela.
— Eu quero entender uma coisa.
— Eu também.
As portas se abriram.
Emmett entrou.
— Isso está ficando interessante.
— Não está.
— Está muito.
Edward entrou atrás dele.
— E, pela primeira vez na vida, tente ficar sério por cinco minutos.
Emmett apertou o botão do andar da presidência.
— Não faço milagres.
Jacob estava diante da janela quando os dois entraram novamente em sua sala.
Não se virou.
— Ela foi embora?
Emmett fechou a porta.
— Foi.
— E?
— E o quê?
Jacob finalmente olhou para ele.
— Vai aceitar?
— A pergunta é se ela vai aceitar a gente.
— Não foi isso que perguntei.
Emmett caminhou até o sofá.
— Da minha parte, está contratada.
Edward permaneceu perto da mesa.
— Concordo.
Jacob olhou para ele.
— Você concorda?
— O currículo é excelente. Ela identificou em poucos minutos um problema que passou pela equipe responsável pelo contrato.
— Então encaminhem a proposta.
Jacob voltou-se para a janela.
Emmett olhou para Edward.
Edward olhou para Emmett.
Nenhum dos dois saiu.
Jacob percebeu.
— Mais alguma coisa?
Emmett sentou-se.
— Tem.
— O quê?
— Sarah.
Os ombros de Jacob ficaram discretamente rígidos.
— Acabamos de falar dela.
— Não profissionalmente.
Jacob virou-se devagar.
— Emmett...
— Você perguntou se já conhecia ela.
Silêncio.
— E daí?
— Eu perguntei a mesma coisa ontem.
Edward completou:
— Eu também.
Jacob olhou para os dois.
— Eu sei.
— Não — Emmett disse. — Acho que você não entendeu.
Levantou-se.
— Eu conheci aquela mulher ontem e minha primeira impressão foi que já a conhecia.
Apontou para Edward.
— Ele viu Sarah hoje e sentiu exatamente a mesma coisa.
Edward corrigiu:
— Não exatamente.
— Quase.
— Quase.
Emmett apontou para Jacob.
— E você fez a mesma pergunta segundos depois de olhar para ela.
Jacob ficou em silêncio.
Emmett cruzou os braços.
— Não acha estranho?
— Coincidência.
— Três vezes?
— Sim.
— Você não acredita nisso.
Jacob pegou uma pasta.
— Tenho trabalho.
Edward não se moveu.
— Jacob.
— O quê?
— Olha para mim.
Jacob soltou a pasta.
— Vocês dois pretendem transformar isso em quê?
Edward demorou alguns segundos.
— Não sei.
E aquilo, vindo de Edward, chamou a atenção de Jacob.
Edward normalmente tinha respostas.
— Mas tem alguma coisa nela — continuou.
Jacob desviou os olhos.
— Isso não significa nada.
Emmett aproximou-se.
— O que você sentiu?
Jacob imediatamente ergueu o olhar.
— Nada.
Emmett soltou uma pequena risada.
— Mentira.
— Cuidado.
— Você ficou uns dez segundos olhando para ela sem falar.
— Não foram dez segundos.
— Foram muitos segundos.
— Emmett.
— Você esqueceu o nome dela.
— Eu não esqueci.
— Eu tinha falado ontem.
Jacob fechou a expressão.
— Eu não presto atenção em metade do que você fala.
— Isso é verdade — Edward comentou.
Emmett apontou para ele.
— Não ajuda.
Edward ignorou.
— O que chamou sua atenção nela?
Jacob olhou para o irmão de criação.
Poderia responder qualquer coisa.
A postura.
A segurança.
A inteligência.
Mas sabia a resposta verdadeira.
— Os olhos.
O humor desapareceu do rosto de Emmett.
Edward também ficou sério.
Jacob percebeu.
— O quê?
Edward apoiou as mãos sobre a mesa.
— Nada.
— Edward.
— Eu só...
Ele parou.
— Quando ela olhou para mim, também tive uma sensação estranha.
Jacob franziu a testa.
— Por causa dos olhos?
— Não sei se foram os olhos.
Emmett sentou-se na ponta da mesa.
— Comigo foi quando ela sorriu.
Os três ficaram em silêncio.
Aquilo já não parecia tão engraçado.
Emmett foi o primeiro a continuar:
— Eu fiquei tentando lembrar onde tinha visto aquele sorriso.
Edward assentiu lentamente.
— Ela franze o nariz.
Jacob olhou para ele.
— O quê?
— Quando fica contrariada.
Edward reproduziu o gesto vagamente.
— Quando ela fez isso...
Parou.
— Pareceu familiar.
Emmett apontou.
— Exatamente.
Jacob caminhou até a mesa.
— Vocês provavelmente viram alguma entrevista dela.
— Nunca tinha ouvido falar de Sarah Clearwater antes de Rosalie — Emmett respondeu.
Edward concordou.
— Eu também não.
— Eventos empresariais.
— Ela disse que evita os eventos do pai — Emmett respondeu.
Jacob ficou irritado.
— Então não sei.
— Nós também não — Edward disse.
Silêncio.
Emmett olhou de um para o outro.
— Isso é muito estranho.
Jacob respirou fundo.
— Vocês estão transformando uma impressão em mistério.
— Talvez.
Emmett ficou pensativo.
— Mas eu gostei dela imediatamente.
Edward olhou para o irmão.
— Você gosta de todo mundo imediatamente.
— Não assim.
A frase fez Jacob erguer os olhos.
Emmett percebeu que precisava explicar.
— Não estou falando de atração. Rosalie é a mulher que eu amo. Com Sarah foi...
Procurou a palavra.
— Familiaridade.
Edward abaixou os olhos.
— Comigo também.
Emmett olhou para ele.
— Sério?
Edward assentiu.
— Mas diferente.
— Como?
Edward demorou.
Aquilo era difícil de colocar em palavras sem parecer absurdo.
— Eu senti vontade de proteger ela.
Emmett ficou sério.
Jacob também.
— Proteger de quê? — Jacob perguntou.
— Não sei.
— Ela ficou aqui duas horas.
— Eu sei.
— E aparentemente consegue se defender muito bem sozinha.
Edward quase sorriu.
— Também percebi.
— Então?
Edward passou a mão pelos cabelos.
— Quando aquele funcionário passou com o carrinho no corredor, eu puxei Sarah para o lado.
— Eu vi — Emmett disse.
Edward olhou para ele.
— Eu nem pensei.
Emmett ficou alguns segundos calado.
— Eu também fiz isso ontem.
— Fez o quê?
— Quando atravessamos a rua depois do restaurante. Um carro veio rápido e eu coloquei Sarah atrás de mim.
Edward franziu a testa.
— Você não contou.
— Porque achei normal.
— E agora?
Emmett respirou fundo.
— Agora estou achando menos normal.
Jacob ficou em silêncio.
Porque também tinha sentido.
Não exatamente a mesma coisa.
Com ele havia algo a mais.
Muito mais.
Quando Sarah entrara naquela sala, seu primeiro impulso havia sido olhar.
Quando ela apertara sua mão, alguma coisa dentro dele despertara.
E quando vira aqueles olhos...
Por alguns segundos, tivera vontade de colocá-la atrás de si e protegê-la de uma ameaça que não existia.
Mas não contou.
Porque havia também atração.
Uma atração imediata, inconveniente e inexplicável.
E aquilo definitivamente não era o que Emmett e Edward estavam descrevendo.
— E você? — Edward perguntou.
Jacob levantou os olhos.
— Eu o quê?
— Sentiu vontade de proteger ela?
— Não.
Resposta rápida demais.
Emmett sorriu.
— Sentiu.
— Não senti.
— Você perguntou se ela estava bem porque ela puxou a mão.
— Isso se chama educação.
Emmett começou a rir.
— Jacob Black, símbolo internacional da delicadeza.
— Cala a boca.
Edward continuava sério.
— Tem mais alguma coisa.
Jacob percebeu.
— O quê?
— A idade.
Emmett olhou para ele.
— Vinte e três.
Edward assentiu.
— A mesma idade que Sarah teria.
O nome caiu na sala.
E tudo mudou.
Jacob ficou imóvel.
Emmett perdeu o sorriso.
Ninguém precisou perguntar qual Sarah.
Durante quinze anos, existira apenas uma pessoa que eles jamais chamavam pelo sobrenome quando estavam entre si.
Sarah.
A irmã.
A amiga.
A menina do rio.
Jacob foi o primeiro a reagir.
— Não.
Edward olhou para ele.
— Eu não disse que...
— Não.
A voz de Jacob ficou mais dura.
— Nem começa.
Emmett se levantou.
— Jacob, calma.
— Ela morreu.
Silêncio.
Edward sustentou seu olhar.
— Eu sei.
— Então não façam isso.
— Ninguém está dizendo que Sarah Clearwater é...
Jacob bateu a mão sobre a mesa.
— Então não diga o nome dela!
Emmett ficou sério.
— Ei.
Jacob respirava mais rápido.
Edward percebeu que havia tocado exatamente na ferida que nunca cicatrizara.
— Eu só percebi a coincidência da idade.
— Existem milhões de mulheres com vinte e três anos.
— Eu sei.
— Milhares chamadas Sarah.
— Eu sei.
— Então acabou.
Edward assentiu.
— Está bem.
Mas não estava.
Jacob virou-se para a janela.
Emmett olhou para Edward.
Os dois sabiam que insistir seria pior.
Edward pegou os documentos.
— Vou falar com o jurídico.
Emmett caminhou até a porta.
Parou.
— Jacob.
Ele não se virou.
— O quê?
Emmett hesitou.
— Eu também sei que ela morreu.
Jacob fechou os olhos.
— Então aja como se soubesse.
Emmett abriu a porta.
Edward saiu.
Emmett estava prestes a acompanhá-lo quando Jacob falou:
— Emmett.
Ele se virou.
Jacob continuava de costas.
— Ela tinha olhos verdes?
Emmett entendeu imediatamente de quem ele estava falando.
Não Sarah Clearwater.
Sarah Cullen.
— Tinha.
Jacob fechou os olhos.
— Eu sei.
Emmett ficou esperando.
Jacob não falou mais.
A porta se fechou.
Sozinho, Jacob caminhou até a mesa.
Abriu uma gaveta.
No fundo havia uma fotografia antiga.
Não precisava olhar.
Sabia exatamente qual era.
Mesmo assim, retirou.
Quatro crianças estavam sentadas na grama.
Emmett fazia uma careta.
Edward parecia irritado porque provavelmente queria estar lendo.
Jacob sorria para a câmera.
E Sarah estava grudada ao seu lado.
Oito anos.
Olhos verdes.
Jacob passou o polegar sobre a fotografia.
Depois lembrou dos olhos de Sarah Clearwater.
— Não.
Guardou a foto.
Fechou a gaveta com força.
Sarah Cullen estava morta.
Precisava estar.
Porque acreditar no contrário significaria admitir que, durante quinze anos, ela poderia ter estado em algum lugar.
Sozinha.
Sem eles.
E Jacob não sabia se conseguiria sobreviver à culpa de uma segunda possibilidade.
Naquela noite, o sonho mudou.
Sarah estava no precipício.
Oito anos.
A mão presa à dele.
— Não me deixa cair!
— Não vou!
Os dedos começaram a escapar.
— Sarah!
Ela caiu.
Jacob correu até a borda.
Mas quando olhou para o rio, não viu uma criança.
Viu uma mulher.
Cabelos escuros.
Olhos verdes.
Sarah Clearwater olhava para ele de dentro da água.
Jacob acordou violentamente.
— Sarah!
Sentou-se.
Respirou.
Passou as mãos pelo rosto.
— Droga.
Do outro lado da cidade, Sarah também acordou.
No sonho dela, o menino finalmente chegara mais perto.
Ainda não conseguira ver seu rosto inteiro.
Mas, pela primeira vez, vira os olhos.
Escuros.
Desesperados.
E ouvira claramente sua voz.
— Desculpa.
Sarah levou a mão ao pingente.
O coração batia rápido.
Então percebeu outra coisa.
Uma coisa que nunca acontecera antes.
A voz do menino não parecia mais completamente desconhecida.
Sarah fechou os olhos.
E viu Jacob Black sorrindo para ela naquela manhã.
Abriu-os imediatamente.
— Não.
Era impossível.
Ela conhecera aquele homem naquele dia.
Mas, quando voltou a dormir, a mesma palavra permaneceu entre o passado que Sarah havia esquecido e o passado que Jacob jamais conseguira abandonar.
Desculpa.
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