MEMÓRIAS
42 CAPÍTULO 42 - Quem sabia como fazer
A pergunta permaneceu no quadro durante toda a noite.
QUEM ENSINOU IRINA A SABOTAR O SISTEMA?
Na manhã seguinte, Sarah entrou no escritório, parou diante dela e fez uma careta.
Jacob, atrás, quase esbarrou.
— O que foi?
Sarah pegou o apagador.
— Está errada.
Apagou.
Jacob franziu a testa.
— Ontem você achava que estava certa.
— Ontem eu estava cansada.
No lugar, escreveu:
QUEM POSSUÍA CONHECIMENTO TÉCNICO SUFICIENTE PARA PRODUZIR A FALHA?
Jacob leu.
— Melhor.
— Muito.
— Porque a primeira já pressupunha que Irina não sabia.
Sarah apontou para ele.
— Exatamente.
— E que alguém ensinou.
— Exatamente.
— E ainda não sabemos nenhuma das duas coisas.
Sarah sorriu.
— Estou criando um monstro.
Jacob aproximou-se.
— Um monstro bonito?
— Não estraga.
Ele beijou sua testa.
— Bom dia.
— Bom dia.
— Dormiu?
— Quatro horas.
— Sarah.
— Cinco.
— Mentira.
— Quatro e meia.
Jacob fechou os olhos.
— Hoje vamos para Harry e Sue.
— Vamos.
— E você não vai levar pasta.
Sarah ficou ofendida.
— Isso é autoritarismo.
— Nem notebook.
— Jacob.
— Nem quadro branco portátil.
Ela ficou imóvel.
— Eu não tenho um quadro branco portátil.
Jacob olhou.
Sarah desviou os olhos.
— Você comprou um?
— Talvez.
Ele começou a rir.
— Eu amo você.
— Não parece.
— Muito.
A análise técnica da sabotagem foi retomada por especialistas.
Dessa vez, Sarah recusou-se a participar de qualquer formulação inicial.
Queria a resposta sem contaminação pela hipótese familiar.
O material histórico disponível era limitado: fotografias, laudos, registros de manutenção, documentação da T-6 e descrição das peças recuperadas.
Mesmo assim, a conclusão preliminar foi relevante.
A falha não parecia improvisada.
A pessoa responsável precisava entender o funcionamento do conjunto e saber que determinada intervenção poderia permitir funcionamento inicial antes de perda progressiva da capacidade de frenagem.
Não era impossível para alguém com experiência prática.
Mas também não era algo que uma pessoa completamente leiga provavelmente faria por acaso.
Sarah leu a conclusão duas vezes.
Emmett apareceu atrás.
— Então Irina teve ajuda.
Sarah virou.
— Não foi isso que o laudo disse.
— Sarah.
— O laudo disse que a intervenção exigia conhecimento técnico.
— Irina era advogada.
— E advogados podem aprender mecânica.
Emmett olhou.
— Você sabe?
— Não.
— Consertaria um freio?
— Não.
— Sabotaria?
Sarah cruzou os braços.
— Essa conversa está ficando preocupante.
Edward entrou.
— Qual é a conclusão?
Sarah entregou.
Ele leu.
— Conhecimento técnico.
— Sim.
— Quem tinha?
Sarah virou para o quadro.
— Essa é a próxima pergunta.
A lista inicial era grande.
Engenheiros da Cullen & Black.
Mecânicos.
Equipe de testes.
Robert.
Funcionários da garagem.
Fornecedores.
Pessoas que haviam participado do desenvolvimento da T-6.
A própria peça experimental tornava tudo mais específico.
Sarah perguntou:
— Quantas pessoas sabiam exatamente como ela funcionava?
A resposta demorou dois dias.
Dezenove anos antes, o projeto T-6 tinha uma equipe de onze pessoas.
Três haviam morrido.
Oito estavam vivos.
Todos seriam localizados.
Mas um nome chamou atenção imediatamente.
Não porque fosse desconhecido.
Porque já aparecera antes.
Salvatore Ricci.
Consultor técnico externo.
Contratado ocasionalmente pela Cullen & Black.
E, paralelamente, prestara serviços para clientes do Volturi & Associados.
Sarah ficou olhando.
— Conflito?
Edward perguntou.
— Na época talvez não. Dependia do objeto das consultorias.
— Conhecia Irina?
— Documentalmente, sim. Participou de duas reuniões em que ela estava presente.
Jacob entrou.
— Conhecia Aro?
— Também.
— Robert?
Sarah consultou.
— Sim.
Emmett abriu os braços.
— Excelente. Conhecia todo mundo.
— Isso não é prova de nada.
— Eu sei.
Sarah olhou para ele.
— Você está aprendendo.
— Infelizmente.
Salvatore estava vivo.
Sessenta e nove anos.
Aposentado.
E, ao ser contatado, a primeira coisa que perguntou foi:
— Isso é por causa do T-6?
Sarah sentiu o estômago apertar quando recebeu a informação.
Ele lembrava.
Não perfeitamente.
Mas lembrava.
O T-6 fora um projeto problemático.
Não porque fosse defeituoso.
Porque tinha características que exigiam cuidado na instalação e ajuste.
— Ele sabia da retirada da unidade?
— Sim.
— Como?
— Foi consultado.
Sarah ficou imóvel.
— Por quem?
— Irina Volturi.
Silêncio.
Jacob levantou os olhos.
Emmett parou de mexer no telefone.
Edward aproximou-se.
— Antes do acidente?
Sarah leu.
— Sim.
— Quando?
— Dois dias antes.
Sarah fechou os olhos.
Dois dias.
— Existe documento?
— Existe uma ligação registrada entre Volturi & Associados e o telefone profissional de Salvatore.
Duração:
11 minutos e 42 segundos.
— Conteúdo?
— Depende da memória dele.
Sarah assentiu.
— O que ele diz?
A resposta veio devagar.
Irina teria perguntado sobre responsabilidade de fabricante caso uma peça experimental apresentasse falha.
Uma pergunta juridicamente plausível.
Ela era advogada.
O escritório lidava com responsabilidade empresarial.
Até aí, nada extraordinário.
Então Irina perguntou algo mais específico:
— “Uma instalação errada pode funcionar primeiro e falhar depois?”
Ninguém falou.
Sarah escreveu a frase.
Depois:
RELATO DE 19 ANOS — CORROBORAR.
Jacob olhou.
— Isso é exatamente o que aconteceu.
— É compatível com o que aconteceu.
— Sarah.
— Eu sei.
Ela respirou.
— Mas precisamos saber se Salvatore está lembrando da pergunta real ou reconstruindo com o que soube depois.
Edward assentiu.
— Ele sabia que as mulheres morreram por falha de freio.
— Exatamente.
Salvatore guardava agendas.
Sarah quase começou a acreditar que todos naquela geração tinham uma compulsão por guardar papel.
Emmett disse exatamente isso.
— Graças a Deus ninguém conhecia destruidora de documentos.
Edward respondeu:
— Existiam.
— Então graças a Deus eram acumuladores.
Na agenda de Salvatore havia uma anotação.
Data: dois dias antes do acidente.
I.V. — consulta T6 / instalação inversa / perda progressiva?
A sala inteira silenciou.
Sarah leu outra vez.
Não era memória.
Era contemporâneo.
— “Instalação inversa” — Jacob disse.
— Sim.
— “Perda progressiva.”
— Sim.
Sarah sentou.
Pela primeira vez, não precisou escrever uma ressalva imediatamente.
Ela já estava no próprio documento.
Um ponto de interrogação.
Salvatore havia registrado a pergunta.
Irina perguntara sobre a T-6.
Sobre instalação.
Sobre perda progressiva.
Dois dias antes do acidente.
Emmett falou baixo:
— Agora você pode dizer?
Sarah olhou para ele.
— Posso dizer que existe prova documental contemporânea de que Irina buscou informação técnica específica sobre uma forma de instalação da T-6 que poderia gerar perda progressiva de função.
Emmett ficou pensando.
— Aceito.
Mas Salvatore trouxe um problema.
Ele negou ter ensinado como fazer.
Segundo ele, respondeu genericamente que instalação inadequada poderia produzir comportamento imprevisível e que ninguém deveria manipular uma unidade experimental fora de ambiente técnico.
— Ele explicou procedimento?
— Diz que não.
— Tem certeza?
— Não.
Boa resposta.
Sarah apreciou.
Salvatore admitiu que dezenove anos depois não podia reconstruir onze minutos de conversa.
Poderia ter usado termos técnicos.
Poderia ter explicado princípios.
Não lembrava.
Mas afirmou uma coisa:
Irina parecia interessada demais.
— Isso é interpretação subjetiva.
— Sim.
— Mais alguma coisa?
Sim.
No dia seguinte, Salvatore recebeu outra ligação.
Não de Irina.
De Aro.
Sarah ficou imóvel.
— Registro?
— Sim.
Aro Volturi → Salvatore Ricci.
7min03s.
— O que Aro perguntou?
Salvatore demorou durante o depoimento.
Depois respondeu:
— Se uma consulta técnica poderia ser rastreada.
Silêncio.
Jacob soltou um palavrão baixo.
Sarah não o repreendeu.
— Existe anotação?
Existe.
Na agenda:
A.V. — confidencialidade consulta / parecer não emitido.
Sarah escreveu no quadro.
Duas ligações.
Primeiro Irina:
T-6 / instalação inversa / perda progressiva?
Depois Aro:
confidencialidade consulta / parecer não emitido.
Emmett olhou.
— Ele sabia.
Sarah respirou.
— Sabia que Irina fizera uma consulta.
— Sobre a T-6.
— Sim.
— Antes do acidente.
— Sim.
— E perguntou se ficava registrado.
Sarah olhou para ele.
— Sim.
Dessa vez não havia como suavizar.
Aro sabia da consulta técnica antes do acidente.
O que ainda não sabiam era por quê.
Aro foi ouvido novamente.
Seu advogado parecia exausto.
Aro também.
A pergunta foi direta:
— O senhor falou com Salvatore Ricci antes do acidente?
Aro fechou os olhos.
— Sim.
— Por quê?
— Irina me contou que tinha feito uma consulta.
— Sobre a T-6?
— Sim.
— Então o senhor sabia da T-6 antes do acidente.
Silêncio.
Aro respirou.
— Sabia que ela estava perguntando sobre a peça.
— O senhor anteriormente afirmou ter descoberto a identificação da peça apenas depois do acidente.
Aro baixou a cabeça.
— Eu menti.
Nenhum rodeio.
— Por quê?
— Porque cada verdade me aproximava de uma coisa que eu passei dezenove anos tentando não admitir.
— O quê?
Aro ficou muito tempo quieto.
— Que eu vi sinais antes.
Silêncio.
— Sinais de quê?
— Eu não sabia.
— Isso não responde.
Aro levantou os olhos.
— De que Irina estava fazendo alguma coisa contra Sarah.
Billy recebeu essa frase horas depois.
E saiu da sala.
Sarah não o impediu.
Jacob foi atrás.
Encontrou o pai na varanda.
Billy estava apoiado no corrimão.
— Pai.
— Ele sabia.
Jacob ficou ao lado.
— Sabia alguma coisa.
— Sabia o suficiente para desconfiar.
Jacob não respondeu.
Billy olhou para ele.
— Sua mãe morreu porque um monte de gente viu pedaços e ninguém juntou.
— Pai...
— Eu não vi nada.
— Você estava vivendo.
— Eu devia ter visto Irina.
Jacob respirou.
— Eu conheço essa frase.
Billy olhou.
— Qual?
— “Eu devia.”
Silêncio.
Jacob continuou:
— Sarah passa metade do dia tirando isso da minha cabeça.
Billy quase sorriu.
— Então aprendeu alguma coisa.
— Estou tentando.
Jacob olhou para o pai.
— Você não matou minha mãe.
Billy fechou os olhos.
— Não.
— Você não colocou aquela peça no carro.
— Não.
— Não abriu o portão.
— Não.
— Não sabia.
Billy respirou.
— Não.
Jacob tocou o ombro dele.
— Então para de tentar roubar a culpa de quem fez.
Billy olhou para o filho.
E sorriu entre lágrimas.
— Isso foi muito Sarah.
— Estou contaminado.
— Ainda bem.
Aro continuou falando.
Talvez porque, depois da primeira mentira admitida, as demais tivessem perdido utilidade.
Irina odiava Sarah Black.
Aro sabia.
Sabia também que a obsessão dela por Billy nunca desaparecera completamente.
Mas sempre tratara aquilo como ressentimento.
Ciúme.
Humilhação.
Nunca como risco real.
Quando Irina começou a perguntar sobre responsabilidade automotiva e T-6, Aro perguntou por quê.
Ela disse que era trabalho.
Ele acreditou.
Ou escolheu acreditar.
Depois descobriu que a peça havia sido retirada da Cullen & Black.
Perguntou.
Irina disse que precisava dela para uma consulta.
Aro foi à garagem de Robert porque Irina pediu.
Robert desconfiava dela e queria alguém do escritório presente.
Aro viu a caixa.
Viu Irina levar.
E não perguntou para onde.
— O senhor sabia que Irina tinha perguntado a Salvatore sobre perda progressiva?
Silêncio.
— Sim.
— Antes do acidente?
— Sim.
— E ainda assim acompanhou a retirada?
Aro fechou os olhos.
— Sim.
— Por quê?
A resposta demorou.
— Porque eu achei que ela queria assustar Sarah.
Silêncio absoluto.
Sarah levantou da cadeira quando leu.
— O quê?
Edward pegou o documento.
Aro explicara.
Irina dissera alguma coisa dias antes.
Não um plano.
Não uma confissão.
Uma frase durante uma discussão:
— “Talvez Sarah precise aprender que não controla tudo.”
Aro perguntou o que significava.
Irina respondeu:
— “Nada.”
Mais tarde veio a consulta sobre T-6.
Aro começara a suspeitar que Irina pretendia mexer no carro de Sarah Black.
Não para matá-la.
Segundo ele, imaginou uma pane.
Um susto.
Uma humilhação.
Algo que obrigasse Billy a perceber que Sarah Black era irresponsável.
Sarah ficou gelada.
— E ele não impediu.
Edward continuou lendo.
— Não.
— Foi à garagem.
— Sim.
— Viu a peça sair.
— Sim.
— Sabia da consulta sobre perda progressiva.
— Sim.
Emmett ficou pálido.
— Ele deixou.
Sarah respirou.
— Segundo o próprio depoimento, ele suspeitava de uma interferência no carro e não agiu para impedir.
Jacob entrou com Billy.
Ouviu a última frase.
— Então ele participou.
Sarah olhou.
— A responsabilidade jurídica precisa ser definida pelas autoridades a partir de tudo isso.
Jacob assentiu.
Mas emocionalmente a resposta era mais simples.
Aro vira o perigo.
E escolhera não olhar diretamente para ele.
Havia, porém, outra pergunta.
Se Aro acreditava que Irina queria provocar apenas uma pane, Irina teria entendido a possibilidade de falha fatal?
Salvatore foi questionado novamente.
— A senhora Volturi perguntou sobre risco?
Ele pensou.
— Sim.
— Qual?
— Se poderia causar perda total.
Silêncio.
— O que o senhor respondeu?
— Que dependendo da manipulação, sim.
— Ela perguntou sobre consequências?
— Eu disse que poderia causar acidente.
Sarah sentiu o estômago virar.
— Documento?
A agenda tinha outra abreviação.
Na linha abaixo:
alertar: risco acidente.
Não dizia a quem o alerta fora dado.
Mas Salvatore dizia que fora durante a conversa com Irina.
Sarah escreveu:
IRINA FOI ALERTADA, SEGUNDO SALVATORE, SOBRE RISCO DE ACIDENTE.
AGENDA CONTEMPORÂNEA REGISTRA “ALERTAR: RISCO ACIDENTE”.
Jacob ficou olhando.
— Então ela sabia.
Sarah demorou.
— Há forte evidência de que foi informada do risco.
— E continuou.
— Sim.
— Retirou a peça.
— Sim.
— Foi até Robert.
— Sim.
— Levou a caixa.
— Sim.
— Ligou para a casa.
— A ligação do escritório está atribuída a ela.
— Foi ao restaurante tirar meu pai de lá.
Sarah respirou.
— Não sabemos que esse era o objetivo da ida ao restaurante.
Jacob assentiu.
— Certo.
— Depois esteve no posto.
— Sim.
— Alguém se identificou como “Sra. V.” e abriu o portão.
— Sim.
— Uma ferramenta do conjunto ao qual ela tinha acesso apareceu na garagem.
— Sim.
Jacob ficou em silêncio.
Sarah também.
Não precisavam dizer mais.
A investigação começou a procurar a ligação que faltava entre Salvatore e a técnica efetivamente usada.
O laudo antigo descrevia intervenção.
Mas seria possível saber se correspondia à hipótese sobre a qual Irina perguntara?
A resposta demorou.
Quando veio, Sarah leu sozinha primeiro.
Depois chamou todos.
— O padrão descrito no laudo original é tecnicamente compatível com a modalidade de falha sobre a qual Salvatore registrou a consulta.
Billy sentou.
Jacob ficou imóvel.
Edward perguntou:
— Igual?
— Não podemos dizer “igual” porque o material físico não está mais disponível para reexame completo.
— Compatível.
— Sim.
Emmett murmurou:
— Sua palavra favorita.
Sarah nem sorriu.
— A intervenção poderia permitir frenagem aparentemente normal inicialmente e degradação depois de uso.
Jacob fechou os olhos.
— Por isso minha mãe percebeu o pedal.
— Possivelmente.
— Mas conseguiu sair.
— Sim.
— E depois...
Sarah segurou a mão dele.
— Depois falhou.
Silêncio.
O que aconteceu dentro do carro nunca poderia ser reconstruído perfeitamente.
Mas o laudo permitia uma sequência plausível.
Sarah Black liga o veículo.
Sai da propriedade com Esme.
O freio responde.
Talvez diferente.
Talvez mais baixo.
Talvez exigindo pressão incomum.
Ela já havia percebido algo e combinado com Robert uma inspeção às 7h15.
Acreditava que conseguiria chegar.
Durante o trajeto, a resposta piora.
Até a perda crítica.
Sarah sentiu lágrimas surgirem.
Não por uma memória.
Por imaginar.
Esme ao lado.
Sarah Black ao volante.
Duas melhores amigas.
Talvez conversando.
Talvez reclamando do carro.
Sem saber que alguém transformara um defeito aparente numa sentença.
Billy levantou e saiu novamente.
Dessa vez Sarah foi atrás.
Encontrou-o sozinho.
— Billy.
Ele virou.
— Ela sabia que tinha alguma coisa errada e mesmo assim foi.
Sarah aproximou-se.
— Ela não sabia o tamanho do risco.
— Como você sabe?
— Porque marcou com Robert.
Billy ficou quieto.
— Uma pessoa que acredita que o carro vai perder completamente os freios não marca uma inspeção do outro lado da cidade e entra nele tranquilamente.
Ele fechou os olhos.
— Então ela achou que era pequeno.
— Provavelmente.
Billy chorou.
— Ela sempre achava que conseguia resolver tudo.
Sarah sorriu entre lágrimas.
— Isso me soa familiar.
Billy olhou.
Ela percebeu o que dissera.
Por um instante, os dois riram.
— Talvez alguma coisa seja genética — ele falou.
Sarah apontou.
— Não use isso como prova.
Billy riu de verdade.
E Sarah o abraçou.
Naquele fim de semana, ela cumpriu a promessa.
Foi para a casa de Harry e Sue.
Sem notebook.
Jacob fiscalizou.
— Bolsa.
Sarah entregou.
— Telefone.
— Você enlouqueceu.
— Telefone.
— Sou advogada.
— Hoje é filha.
Sarah ficou quieta.
Ele sorriu.
— Vai.
Sue abriu a porta antes de tocarem a campainha.
— Minha menina.
Sarah entrou nos braços dela.
E alguma coisa dentro de si finalmente desacelerou.
— Mãe.
Harry apareceu atrás.
— Cadê o esfomeado?
Jacob levantou a mão.
— Presente.
— Eu escondi a carne.
— Eu encontro.
— Quero ver.
Sarah começou a rir.
— Vocês dois têm cinco anos?
Sue respondeu:
— Harry tem quatro.
Sarah congelou por uma fração de segundo.
Quatro.
A idade que ela tinha quando Esme morreu.
Sue percebeu a mudança.
— Sarah?
Ela respirou.
— Nada.
Depois sorriu.
— Só pensei em uma coisa.
Sue tocou seu rosto.
— Quer falar?
Sarah olhou para Harry.
Depois para Jacob.
— Depois.
Sue não insistiu.
Era uma das coisas que Sarah mais amava nela.
O almoço foi barulhento.
Harry realmente tentou esconder parte da carne.
Jacob encontrou.
Sue ameaçou expulsar os dois da cozinha.
Sarah roubou batatas do prato de Jacob.
Harry viu.
— Ele come sua comida também?
— Não deixo.
Jacob protestou:
— Ela rouba a minha!
Harry olhou para Sarah.
— Filha inteligente.
— Obrigada, pai.
Jacob apontou.
— Família inteira contra mim.
Sue sorriu.
— Você pode ir embora.
— Depois da sobremesa.
Todos riram.
Sarah olhou em volta.
Aquilo era sua vida.
Não uma vida falsa.
Não uma substituição.
Sua vida.
Harry percebera uma menina ferida no rio.
Sue segurara sua mão no hospital.
Eles ficaram.
Quando ela não lembrava de ninguém, eles se tornaram tudo.
Sarah tocou discretamente o colar.
Sue percebeu.
— Você fazia isso quando era pequena.
Sarah congelou.
— O quê?
— Isso.
Sue tocou o próprio peito.
— Procurava seu colar quando ficava nervosa.
Sarah olhou para Jacob.
Ele não falou.
Sue continuou naturalmente:
— Mesmo antes de falar direito depois do coma. Quando acordava assustada, sua mão ia direto para ele.
Sarah sentiu um arrepio.
— Você nunca me contou isso.
— Nunca achei importante.
Agora era.
Muito.
— Mãe...
— O quê?
— Quero registrar antes de você continuar.
Sue imediatamente entendeu.
— Claro.
Sarah pegou o telefone que Jacob devolveu.
Anotou.
Depois:
— Pronto.
Sue contou apenas o necessário.
Sarah acordava assustada.
Tocava o peito.
Se o colar não estivesse sob os dedos, entrava em pânico.
Por isso Sue pedira que enfermeiros o mantivessem nela sempre que possível.
— Você dizia alguma coisa?
Sue pensou.
— Uma palavra.
Sarah sentiu o coração acelerar.
— Qual?
— Lua.
Silêncio.
Jacob ficou imóvel.
Sarah fechou os olhos.
Agora você tem uma lua.
A frase espontânea.
Duas vezes.
E agora Sue confirmava que, aos oito anos, logo depois do resgate, Sarah já associava o colar à palavra.
Antes de qualquer história Cullen.
Antes de Billy.
Antes de Jacob.
Antes de saber quem fora.
Sarah começou a chorar.
Sue levantou.
— Ei.
Sarah foi para os braços dela.
— É bom.
— Tem certeza?
— Tenho.
Ela chorava e ria.
— É muito bom.
Sue a apertou.
Jacob desviou o olhar, emocionado.
Harry limpou os olhos fingindo procurar alguma coisa na mesa.
— Tem cebola aqui.
Sue olhou.
— Não tem cebola nenhuma.
— Então alguém devia ter colocado.
Sarah riu no ombro da mãe.
Naquela noite, já no quarto de hóspedes, Sarah estava sentada na cama registrando cuidadosamente a informação.
Jacob saiu do banheiro.
— Achei que não tinha notebook.
Ela levantou o telefone.
— Notas.
— Trapaça.
— Evidência.
Ele sentou ao lado.
Sarah terminou.
Depois colocou o aparelho de lado.
— Pronto.
Jacob olhou.
— Como se sente?
Ela pensou.
— Inteira.
— Por causa da lembrança?
Sarah negou.
— Por causa daqui.
Apontou para a casa.
— Eu posso descobrir que Esme me deu o colar. Posso lembrar de Sarah Black colocando no meu pescoço. Posso descobrir tudo sobre quem eu era.
Olhou para ele.
— E ainda sou filha deles.
Jacob sorriu.
— Nunca houve dúvida.
Sarah tocou seu rosto.
— Eu amo isso em você.
— Só isso?
— Suas mãos também.
Jacob ergueu uma sobrancelha.
— Ah.
Sarah riu.
— Não começa.
— Você começou.
Ele a beijou.
Sem pressa.
Sarah passou os braços pelo pescoço dele.
As mãos de Jacob desceram por suas costas e pararam na cintura.
Ela sorriu contra os lábios dele.
— Criminosas.
— Quer que eu pare?
— Se parar, eu processo.
Jacob riu.
— Direito é muito confuso.
— Nas mãos certas.
— Literalmente?
Sarah puxou-o de volta para o beijo.
— Cala a boca.
E, por algumas horas, o passado ficou do lado de fora.
Na segunda-feira, Salvatore Ricci pediu para complementar o depoimento.
Dissera que, durante o fim de semana, procurara uma pasta antiga.
Encontrara.
Não havia documentos da Cullen & Black.
Mas havia um bloco de rascunhos.
Uma folha continha cálculos.
Não feitos por ele.
Sarah sentiu o estômago apertar.
— De quem?
Salvatore reconhecia a letra.
Aro.
Sarah ficou imóvel.
— O que está calculado?
— Pressão.
— Do sistema?
— Sim.
— Quando?
— Não há data na folha, mas estava junto das anotações da consulta de Irina.
Silêncio.
Emmett falou:
— Então Aro sabia tecnicamente.
Sarah levantou a mão.
— Ainda precisamos analisar.
O exame confirmou que a escrita era altamente compatível com Aro.
Os cálculos tratavam de pressão e tempo estimado de degradação sob determinada configuração.
Sarah sentou.
Aquilo mudava tudo.
Aro não era engenheiro.
Mas fizera contas.
Ou copiara.
Ou tentara entender.
A pergunta agora não era apenas o que ele soubera depois.
Era o que ajudara a calcular antes.
Aro foi chamado novamente.
Diante da folha, ficou branco.
Seu advogado pediu pausa.
Aro recusou.
— Fui eu.
Silêncio.
— Explique.
Ele fechou os olhos.
— Salvatore estava falando. Eu anotei.
— Durante qual conversa?
— Eu estava no escritório dele.
— Quando?
— No dia seguinte à ligação de Irina.
Sarah sentiu o coração parar quando leu depois.
Aro não apenas telefonara.
Tinha ido até Salvatore.
— Irina estava presente?
— Não.
— Por que o senhor foi?
Aro respirou.
— Porque queria saber se ela estava brincando com alguma coisa perigosa.
— E descobriu?
Aro abriu os olhos.
— Sim.
— O senhor contou a ela?
Silêncio.
Aro não respondeu.
— Doutor Volturi, o senhor entregou a Irina informações sobre o funcionamento da falha?
Aro fechou os olhos.
E naquele instante, mesmo antes da resposta, Sarah soube que o centro da investigação acabara de mudar.
Porque Aro começou a chorar.
Não dramaticamente.
Não para convencer.
Apenas baixou a cabeça.
E disse:
— Eu disse a ela para não fazer.
Pausa.
— Mas, para explicar por que não deveria fazer...
A voz falhou.
— Eu expliquei o que aconteceria.
Silêncio.
— Em detalhes?
Aro não levantou a cabeça.
— Sim.
E finalmente a pergunta escrita por Sarah no quadro encontrou uma resposta.
QUEM POSSUÍA CONHECIMENTO TÉCNICO SUFICIENTE PARA PRODUZIR A FALHA?
Salvatore conhecia a técnica.
Aro buscara entendê-la.
E Aro a explicara a Irina.
Talvez acreditando que a faria desistir.
Talvez escolhendo acreditar nisso porque era mais confortável.
Mas, dezenove anos depois, a consequência permanecia a mesma.
Irina não precisara descobrir sozinha como transformar a T-6 em uma falha progressiva.
O próprio marido havia colocado a explicação em suas mãos.
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