MEMÓRIAS
37 CAPÍTULO 36- O portão aberto
Às nove e vinte e três da manhã seguinte, Sarah já tinha olhado para o telefone seis vezes.
Na sétima, Edward perdeu a paciência.
— Isso não vai fazer ele tocar mais rápido.
Sarah levantou os olhos do notebook.
— Não sei do que está falando.
Edward apontou para o celular.
— Você está olhando para ele a cada quatro minutos.
— Não estou.
— Está.
— Cronometrou?
— Depois da terceira vez.
Sarah estreitou os olhos.
— Você tem trabalho demais para ficar monitorando meus movimentos.
— Você também.
Ela voltou ao documento.
Trinta segundos depois, olhou para o telefone.
Edward não disse nada.
O sorriso foi suficiente.
— Cala a boca.
— Não falei nada.
— Seu rosto falou.
— Conviver com Jacob está fazendo mal a você.
Sarah parou.
— Por quê?
— Agora você acusa rostos de falar.
Ela tentou não rir.
Falhou.
A porta abriu.
Emmett entrou carregando duas xícaras.
— Bom dia, crianças traumatizadas.
Edward fechou os olhos.
— Por que você fala assim?
— Porque “bom dia, família” ficou sem graça depois da décima tragédia.
Ele colocou uma xícara diante de Sarah.
Ela olhou desconfiada.
— O que é isso?
— Café.
— Você trouxe café para mim?
— Sim.
— O que você quer?
Emmett colocou a mão no peito.
— Eu posso simplesmente amar minha irmã.
Sarah pegou a xícara.
Cheirou.
— Você quer alguma coisa.
— Talvez.
— O quê?
— Rosalie está preocupada.
O humor desapareceu.
Sarah pousou a xícara.
— Com o avô?
Emmett assentiu.
— Ela sabe racionalmente que o caderno pode ajudar. Mas emocionalmente...
Sarah entendeu.
Robert Hale tinha deixado de ser apenas um nome num arquivo.
Era o avô de Rosalie.
Um homem de quem ela tinha lembranças.
— Ela acha que podem suspeitar dele?
— Um pouco.
Sarah respirou.
— Até agora, o caderno aponta quase para o contrário.
Emmett sentou.
— Como assim?
— Se a anotação for autêntica e estiver sendo interpretada corretamente, Robert registrou expressamente “T-6. Não instalar. Aguardar instruções”. Depois registrou que a peça foi retirada.
Edward ergueu os olhos.
— Ou seja, não há nada que indique que ele tenha colocado a peça no carro.
— Exatamente.
Sarah continuou:
— Na verdade, manter um registro da entrada e da saída pode ser uma das coisas que vai permitir reconstruir o caminho da peça.
Emmett ficou quieto.
— Posso falar isso para ela?
— Pode dizer que, até aqui, não existe elemento que permita concluir que Robert participou de sabotagem. Só não transforme isso em absolvição definitiva porque ainda não sabemos tudo.
— Você consegue confortar alguém de um jeito muito jurídico.
— Sou encantadora.
Edward murmurou:
— Extremamente.
Sarah mostrou o dedo do meio.
Emmett sorriu.
— Essa é minha irmã.
O telefone tocou.
Os três ficaram imóveis.
Sarah olhou para a tela.
O criminalista.
O sorriso desapareceu.
Ela atendeu.
— Bom dia.
— Podemos conversar?
— Sim.
— Sozinha?
Sarah olhou para os irmãos.
Emmett imediatamente levantou.
Edward também.
Nenhum deles perguntou.
Quando a porta fechou, Sarah respirou.
— Pode falar.
— O antigo caseiro foi ouvido.
Sarah apertou a caneta.
— Certo.
— Antes de qualquer coisa: ele tem setenta e quatro anos. Estamos falando de uma noite de dezenove anos atrás.
— Memória tardia. Precisa de corroboração.
— Exatamente.
Sarah pegou o caderno.
Na primeira linha escreveu:
RELATO DE TERCEIRO — NÃO CONFIRMADO.
— O nome dele é Antônio Bellini. Trabalhou para Billy por quase doze anos.
— Ele lembra do portão?
— Lembra da discussão na manhã seguinte.
Sarah parou.
— Com Billy?
— Sim.
— Espontaneamente?
— A entrevista começou aberta. Pediram que descrevesse o que recordava da casa, da rotina e daquele período. Ele mencionou o acidente, depois disse que na manhã seguinte Billy tinha reclamado porque o portão lateral ficara aberto durante a noite.
Sarah sentiu um arrepio.
— Então isso não foi apresentado a ele antes.
— Não.
Ela escreveu.
— O que ele respondeu na época?
— Que não tinha deixado aberto.
— Ele mantém isso?
— Sim.
— Com que grau de certeza?
— Alto quanto à discussão. Mais baixo quanto a detalhes daquela noite.
Sarah assentiu.
— Mais alguma coisa?
Pausa.
— Sim.
Ela parou de escrever.
— Fala.
— Antônio disse que costumava fazer uma ronda antes de se recolher. Portões, garagem externa, luzes de serviço.
— Horário?
— Aproximadamente dez da noite. Mas isso era rotina geral, não lembrança precisa daquela data.
— Certo.
— Ele não consegue afirmar que verificou pessoalmente o portão naquela noite específica.
Sarah escreveu em letras grandes:
ROTINA ≠ LEMBRANÇA DO DIA.
— Ótimo.
— Porém, ele lembrou de uma coisa diferente.
Sarah esperou.
— Um veículo.
A caneta parou.
— Que veículo?
— Ele não sabe.
— Cor?
— Não sabe com segurança.
— Modelo?
— Não.
— Placa?
— Não.
Sarah respirou.
— Então o que ele lembra?
— De ter visto luzes perto da entrada lateral quando saiu da casa de serviço naquela noite.
— Que horas?
— Ele acha que depois das nove.
Sarah imediatamente respondeu:
— “Acha” não serve para cronologia.
— Eu sabia que diria isso.
— Existe alguma coisa que fixe horário?
— Talvez.
Sarah ficou imóvel.
— Talvez?
— Antônio tinha um hábito peculiar.
— Qual?
— Anotava horas extras e serviços fora da rotina numa agenda pessoal porque dizia que Billy esquecia de pagar adicionais.
Sarah quase sorriu.
— Gosto dele.
— Imaginei.
— A agenda existe?
— Algumas.
O coração dela acelerou.
— Algumas?
— A filha dele guardou caixas com documentos pessoais depois que a esposa morreu. Há agendas antigas.
— A daquele ano?
— Encontraram.
Sarah levantou-se.
— Meu Deus.
— Calma.
Ela parou.
— Desculpa.
— Ainda não sabemos se tem alguma coisa relevante.
— Certo.
— A agenda será recolhida com autorização e documentada adequadamente.
— Não quero fotografia informal por mensagem.
— Estou quase orgulhoso.
Sarah sentou novamente.
— Ele falou mais sobre o veículo?
— Apenas que não entrou pela entrada principal.
— Lateral?
— Ele não viu entrar.
Sarah franziu a testa.
— Então como sabe?
— Não sabe. Viu luzes próximas à lateral. Isso é tudo.
Sarah anotou.
— Perfeito.
— “Perfeito”?
— Ele não completou o que não lembra.
— Exatamente.
— E o portão?
— Na manhã seguinte estava encostado, mas sem o travamento habitual.
Sarah sentiu frio.
— Sinal de arrombamento?
— Antônio disse que não se lembra de dano.
— Isso precisa ser confrontado com eventual fotografia ou relatório da época.
— Já estão procurando.
Sarah respirou.
— Billy precisa prestar complemento formal.
— Vai.
— E o motorista?
— Localizado.
— Vivo?
— Sim.
— Não me diga mais.
Silêncio.
— Sarah Clearwater recusando informação.
— Cullen Clearwater.
— Desculpe.
Sarah sorriu.
— Ainda estou me acostumando também.
Desligou.
Ficou olhando para as anotações.
Portão lateral.
Luzes.
Depois das nove.
Irina no restaurante.
A antiga declaração de Irina.
Em casa com Aro das 21h às 23h30.
Sarah pegou outra folha.
Escreveu:
HORÁRIO DO RESTAURANTE?
Depois:
NÃO CONCLUIR ANTES DE FIXAR.
Era tentador.
Terrivelmente tentador.
Se Billy estivesse certo, Irina estivera com ele naquela noite.
Se o horário coincidisse com o período em que ela declarara estar em casa com Aro, haveria uma contradição objetiva.
Mas memória de dezenove anos não fixava relógio.
Precisavam de alguma coisa contemporânea.
Recibo.
Reserva.
Comprovante.
Agenda.
Qualquer coisa.
Sarah levantou-se.
Foi até o quadro.
Escreveu:
HIPÓTESE: Irina pode ter usado o encontro com Billy para mantê-lo fora de casa.
Parou.
Depois, embaixo:
SEM PROVA.
Olhou durante alguns segundos.
Então acrescentou:
SE T-6 ENTROU NA RESIDÊNCIA ENQUANTO IRINA ESTAVA COM BILLY → POSSÍVEL TERCEIRO/ACESSO INDIRETO.
A porta abriu.
Jacob entrou.
Leu.
Não falou.
Sarah virou.
— O caseiro foi ouvido.
— E?
— Lembra que seu pai reclamou do portão na manhã seguinte.
Jacob ficou sério.
— Então meu pai não inventou isso depois.
— Temos dois relatos independentes sobre a discussão. Isso fortalece a existência da conversa. Não prova quem abriu o portão.
Jacob assentiu.
Sarah apontou para o quadro.
— Ele também lembra de luzes perto da entrada lateral depois das nove, mas sem horário preciso e sem identificação de veículo.
Jacob leu novamente.
— E Irina estava com meu pai.
— Segundo Billy.
— Sarah...
— Eu sei.
Ele apontou para a frase.
— Você acha que ela foi ao restaurante para manter meu pai longe de casa.
— Acho que é uma hipótese muito interessante.
— Mas?
— Mas se Irina estava fisicamente no restaurante quando alguém entrou na propriedade, então alguém mais participou.
Jacob ficou imóvel.
— Aro?
Sarah balançou a cabeça.
— Não sabemos.
— Ele deu o álibi dela.
— Dezenove anos atrás.
— Disse que ela estava com ele.
— Sim.
Sarah se aproximou.
— Mas antes de decidir que Aro mentiu, precisamos provar que o horário do restaurante contradiz o álibi.
Jacob respirou.
— Você consegue ser irritantemente racional.
— É por isso que você me paga.
— Você é minha namorada.
— Também me paga.
— Péssima construção de frase.
Sarah ficou imóvel.
Jacob percebeu.
— Não.
Ela começou a rir.
— Ficou horrível.
— Eu quis dizer salário.
— Eu sei.
— Não faz essa cara.
— Qual?
— A cara de quem vai contar para Emmett.
Sarah pegou o telefone.
Jacob avançou.
— Sarah.
Ela fugiu rindo.
Por alguns segundos, o portão aberto desapareceu.
E aquilo também era necessário.
A primeira confirmação veio naquela tarde.
Não do caseiro.
Do restaurante.
Ou, mais precisamente, do que sobrara dele.
O estabelecimento original havia fechado doze anos antes, mas a empresa que o administrava fora incorporada por outro grupo.
Arquivos contábeis antigos tinham sido digitalizados por razões fiscais.
O jantar de Billy aparecia.
Não apenas aparecia.
Tinha horário.
Sarah recebeu a informação numa reunião formal com o advogado responsável pela interface da família com a investigação.
Jacob, Billy, Edward e Emmett estavam presentes.
Na tela:
Reserva: William Black / 20h00.
Depois:
Abertura da conta: 20h07.
Primeiro fechamento parcial: 20h46 — C. Cullen.
Carlisle.
Billy fechou os olhos.
— Ele foi embora antes.
Sarah olhou para ele.
— Isso confirma sua lembrança.
O advogado continuou:
— Há uma segunda inclusão de consumo às 20h52.
— Depois que Carlisle saiu — Edward observou.
— Sim.
Na tela surgiu outra linha.
Taça de vinho branco.
Billy ficou imóvel.
— Irina.
Sarah olhou.
— Por quê?
— Ela pediu vinho branco.
Sarah imediatamente levantou a mão.
— Isso é lembrança. Não identificação documental.
Billy assentiu.
— Certo.
O advogado avançou.
— A conta final foi fechada às 21h37.
Sarah sentiu o corpo ficar tenso.
Jacob também percebeu.
Irina havia declarado, no procedimento antigo, estar em casa com Aro entre 21h e 23h30.
Billy dizia que Irina ficara no restaurante cerca de quarenta minutos.
Se tivesse chegado perto de 20h50...
Sarah falou:
— Ainda falta provar quem consumiu o item acrescentado às 20h52.
— Sim.
Billy passou a mão pelo rosto.
— Era ela.
Sarah olhou para ele.
— Eu acredito que você lembra disso. Mas precisamos separar.
Billy respirou.
— Certo.
Emmett estava estranhamente calado.
Edward perguntou:
— Existe câmera?
O advogado quase sorriu.
— Dezenove anos atrás?
— Tinha que tentar.
— O antigo sistema foi descartado.
Sarah observou a conta.
— Forma de pagamento?
— Billy pagou tudo.
Ela fez uma careta.
— Claro.
Billy ergueu uma sobrancelha.
— Eu era educado.
— Isso atrapalhou a investigação dezenove anos depois.
Jacob quase riu.
Billy olhou para o filho.
— Não começa.
Sarah continuou:
— Funcionários?
— Alguns foram identificados. Um garçom ainda está vivo e será procurado.
— Sem mostrar fotografia primeiro.
— Sarah.
— Certo.
Ela se recostou.
Ainda não era prova.
Mas agora havia uma estrutura temporal.
Carlisle saíra por volta de 20h46.
Novo consumo às 20h52.
Conta encerrada às 21h37.
Irina declarara estar em casa desde 21h.
A janela de contradição começava a existir.
Precisava de uma pessoa dentro dela.
A comparação da escrita chegou no dia seguinte.
Sarah estava com Rosalie quando recebeu a atualização.
Dessa vez, Rosalie não estava ali como amiga curiosa.
Estava porque o documento vinha do arquivo de seu avô e ela tinha sido chamada para esclarecer alguns aspectos de organização do material.
Sarah segurou a mão dela antes da reunião.
— Está bem?
Rosalie respirou.
— Não sei.
— Seu avô registrar uma peça não faz dele responsável pelo que aconteceu depois.
— Eu sei.
— E se surgir alguma coisa ruim...
Rosalie olhou.
Sarah continuou:
— A verdade não muda porque amamos alguém.
Rosalie assentiu lentamente.
— Você está falando de mim ou de você?
Sarah ficou quieta.
— Das duas.
Emmett apareceu atrás delas.
— Das três.
Rosalie virou.
— Três?
— Eu também amo seu avô por tabela.
Ela começou a rir.
— Você nem conheceu ele.
— Detalhes.
Rosalie encostou a cabeça no ombro dele.
Sarah sorriu.
Aquilo bastou.
Dentro da sala, o resultado foi apresentado com cuidado.
A nota encontrada entre as páginas do caderno de Robert:
Robert, não mexa na peça. Ela será buscada amanhã. I.
Fora comparada com amostras contemporâneas atribuídas a Irina em documentos de trabalho, bilhetes administrativos preservados e anotações pessoais cuja proveniência pôde ser estabelecida.
O perito foi direto.
— Existem semelhanças relevantes.
Sarah não se mexeu.
— Quanto relevantes?
— Formação de determinadas letras, inclinação, pressão, especialmente a maneira de iniciar o “R” e fechar o “a”.
— Conclusão?
— Compatibilidade gráfica.
— Identificação?
— Não conclusiva.
Sarah assentiu.
— Por quê?
— Texto curto. Material antigo. Poucos caracteres. E a inicial isolada tem baixo valor identificativo.
Rosalie apertou a mão de Emmett.
Sarah perguntou:
— Então a formulação correta é?
— O bilhete é compatível com a escrita atribuída a Irina Volturi nas amostras examinadas, mas não permite atribuição categórica de autoria.
Sarah anotou exatamente.
Nada mais.
Nenhum “Irina escreveu”.
Nenhuma certeza fabricada.
Mas mais uma peça havia se movido.
Naquela noite, Aro recebeu uma intimação para prestar esclarecimentos.
Não como acusado.
Ainda.
O assunto era simples.
A antiga declaração.
O álibi.
Irina estava na sala quando ele leu.
— O que é?
Aro não respondeu.
— Aro.
Ele levantou os olhos.
— Você estava comigo naquela noite?
Irina ficou imóvel.
— Que noite?
— Não faça isso.
Ela apertou a bolsa.
— Há dezenove anos.
— Eu sei quantos anos.
Aro levantou.
— Você declarou que estava comigo entre nove e onze e meia.
— E estava.
— O tempo inteiro?
Silêncio.
Aro percebeu.
— Irina.
— Por que estão perguntando isso agora?
— Eu fiz uma pergunta.
— E eu respondi.
— Não.
Ele se aproximou.
— Você disse que estava comigo. Eu perguntei se estava comigo o tempo inteiro.
Irina olhou para ele.
— Você confirmou meu depoimento.
Aro ficou em silêncio.
A frase não era uma resposta.
E ambos sabiam.
— Por quê? — perguntou.
— Porque era verdade.
— Era?
Irina apertou os lábios.
Aro continuou:
— Eu me lembro de você chegar em casa.
Ela empalideceu.
Muito pouco.
Mas ele viu.
— A que horas? — perguntou ela.
Aro soltou uma risada curta.
— Interessante.
— O quê?
— Você não perguntou se eu me lembrava errado.
Silêncio.
— Perguntou a hora.
Irina desviou.
— Isso é absurdo.
— Eu me lembro de estar trabalhando.
Ele andou até a janela.
— Lembro de você chegar irritada.
Irina ficou imóvel.
— Lembro de perguntar onde tinha estado.
— Você está inventando.
Aro virou.
— Talvez.
Ela o encarou.
— Depois de dezenove anos, memória é uma coisa perigosa.
Aro sorriu sem humor.
— Essa frase parece muito com você.
— Porque é verdade.
— Então vamos falar de documentos.
Irina não respondeu.
— O restaurante em que Billy estava naquela noite tinha registros.
O rosto dela mudou.
Aro viu.
— Você esteve lá?
— Não lembro.
— Agora não lembra.
— Dezenove anos.
— Você lembrava perfeitamente onde estava quando deu o depoimento.
— Porque estava sendo perguntada na época.
— E eu confirmei.
Silêncio.
Aro aproximou-se.
— Por que eu confirmei, Irina?
Ela não respondeu.
Aro continuou:
— Eu sabia que você tinha saído naquela noite?
— Você sabia que eu saía muitas vezes.
— Não foi isso que perguntei.
— Então pergunte para você mesmo.
Aro ficou imóvel.
Ela virou-se para sair.
— Irina.
Parou.
— Se eu menti por você naquela época sem saber o motivo...
Ela virou o rosto.
— Isso ainda foi uma escolha sua.
A frase o atingiu.
Porque era verdade.
Aro ficou em silêncio.
Irina abriu a porta.
— E talvez seja hora de você parar de fingir que foi apenas espectador de tudo.
Saiu.
Aro permaneceu sozinho.
Pela primeira vez, a pergunta deixava de ser apenas o que Irina fizera.
Passava a ser também:
o que ele próprio aceitara não perguntar?
Dois dias depois, a agenda de Antônio Bellini foi documentada.
A anotação era curta.
Quase banal.
22h18 — portão lateral novamente. Luz externa. Verificar manhã.
Sarah leu a reprodução duas vezes.
— “Novamente”?
O criminalista assentiu.
— Foi a mesma pergunta.
— Ele explicou?
— Não com segurança.
— Alguma anotação anterior?
— Estão examinando.
— “Luz externa” pode significar qualquer coisa.
— Sim.
— E “portão lateral” não diz que estava aberto.
— Exato.
Sarah sorriu.
— Estou começando a gostar de você.
— Demorou.
Jacob estava ao lado dela.
Leu novamente.
— Mas fixa horário.
Sarah assentiu.
— Fixa que Antônio escreveu alguma coisa sobre o portão às 22h18. Não necessariamente que viu alguém entrando às 22h18.
— Certo.
O criminalista continuou:
— Há mais uma coisa.
Sarah esperou.
— Encontraram um nome em outro conjunto de documentos.
— Onde?
— No arquivo de Robert Hale.
Rosalie.
Sarah imediatamente ficou atenta.
— Que nome?
O homem colocou uma reprodução sobre a mesa.
Era um memorando antigo.
Papel amarelado.
Cabeçalho da garagem.
Uma anotação de Robert.
C. Swan voltou a ligar. Perguntou pela peça e pela retirada. Não fornecer informação sem autorização.
Sarah ficou imóvel.
Jacob franziu a testa.
— Swan?
Sarah sentiu um arrepio completamente diferente.
— Charlie.
O criminalista não confirmou.
— Ainda estamos verificando a identificação.
Sarah olhou para a data.
Três semanas depois da morte de Esme e Sarah Black.
— “Voltou a ligar” — murmurou.
Jacob se aproximou.
— Isso significa que já tinha ligado antes.
— Provavelmente.
Sarah continuou lendo.
Perguntou pela peça e pela retirada.
Seu coração acelerou.
Não era uma lembrança.
Não era testemunho tardio.
Era um registro contemporâneo.
Sarah ergueu os olhos.
— Precisamos descobrir quem era C. Swan naquela época.
— Já estamos fazendo isso.
Ela não perguntou mais.
Dessa vez conseguiu.
Mas, algumas horas depois, veio a resposta.
Charles Swan.
Vinte e tantos anos na época.
Investigador vinculado à área de sinistros e fraudes de uma seguradora que participara da análise paralela do acidente.
Sarah ficou olhando para a informação.
Charlie Swan.
O homem que, quatro anos depois, apareceria no meio de uma emboscada contra Carlisle Cullen e quatro crianças.
O homem que esconderia Edward e Emmett.
O homem que encontraria Jacob depois da queda de Sarah.
O homem cuja presença naquela floresta todos haviam aceitado durante quinze anos como uma coincidência extraordinária.
Sarah levantou-se.
Foi até o quadro.
Escreveu:
CHARLIE SWAN — INVESTIGAÇÃO DO PRIMEIRO ACIDENTE.
Abaixo:
3 semanas depois: perguntava pela peça e pela retirada.
Depois:
4 anos depois: presente na emboscada.
Jacob estava atrás dela.
Nenhum dos dois falou durante alguns segundos.
Sarah finalmente virou.
— Charlie não apareceu na floresta por acaso.
Jacob olhou para o quadro.
— Ainda não sabemos isso.
Sarah parou.
Então sorriu.
— Muito bem.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— O quê?
Sarah pegou a caneta.
Riscou a frase que quase escrevera.
No lugar, colocou:
A PRESENÇA DE CHARLIE NA EMBOSCADA PRECISA SER REEXAMINADA.
Jacob sorriu.
— Melhor?
— Muito.
Ela voltou a olhar para o nome.
Charlie Swan.
Um homem ligado à investigação da morte das duas mulheres.
Um homem fazendo perguntas sobre uma peça.
Um homem que voltara a ligar.
E quatro anos depois, quando alguém tentou matar Carlisle Cullen e seus filhos, Charlie estava perto o suficiente para salvar três crianças.
Sarah sentiu o coração acelerar.
Dessa vez não havia lembrança tentando voltar.
Era outra coisa.
A sensação de que uma história que todos acreditavam começar numa floresta talvez tivesse começado quatro anos antes.
Em uma estrada.
Com duas mulheres.
Um carro.
Uma peça marcada T-6.
E um jovem investigador chamado Charlie Swan que, aparentemente, nunca acreditara inteiramente que aquilo tivesse sido apenas um acidente.
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