MEMÓRIAS

34 CAPÍTULO 33- As mãos dele



Sarah descobriu que havia uma vantagem considerável em namorar Jacob Black.

As mãos dele.

Definitivamente as mãos dele.

Na verdade, se ela fosse aplicar ao assunto o mesmo rigor jurídico que aplicava aos contratos da Cullen & Black, provavelmente deveria haver alguma regulamentação específica para aquilo.

Talvez uma licença.

Alguma advertência.

No mínimo um termo de responsabilidade.

Porque a forma como as mãos de Jacob passeavam pelo corpo dela deveria ser considerada crime.

E Sarah era completamente incapaz de denunciar.

Pior.

Era cúmplice.

Voluntária.

Reincidente.

E absolutamente sem intenção de se regenerar.

— Você está pensando demais.

A voz dele veio baixa, próxima ao ouvido dela.

Sarah abriu os olhos.

Estavam no apartamento de Jacob.

A ideia inicial fora jantar.

Somente jantar.

Ela chegara pouco depois das oito, ainda com a roupa que usara no escritório, os cabelos presos e uma quantidade obscena de pensamentos sobre peças, registros, Robert Hale, Irina, depoimentos e tudo aquilo que vinha ocupando sua cabeça havia semanas.

Jacob preparara comida.

Sarah tentara falar da investigação.

Ele deixara.

Durante quinze minutos.

Depois perguntara:

— Terminou?

— Não.

— Imaginei.

— Então por que perguntou?

— Porque hoje eu queria minha namorada por algumas horas.

Sarah ficara quieta.

— Sua namorada está investigando a possível morte criminosa da mãe dela e da sua.

— Eu sei.

Ele se aproximara.

— E ela vai continuar investigando amanhã.

— Jacob...

— Hoje ela janta.

Outro passo.

— Bebe vinho.

Mais um.

— Respira.

Ele já estava diante dela.

— E talvez lembre que existe uma vida acontecendo enquanto procura respostas sobre outra.

Sarah levantara os olhos.

— Isso foi surpreendentemente sensato.

— Não se acostume.

Ela sorrira.

E então ele a beijara.

O jantar continuava intocado sobre a mesa.

O vinho também.

Porque o beijo que deveria durar alguns segundos tomara outro rumo.

Sarah não sabia exatamente em que momento as costas encontraram a parede.

Sabia apenas que Jacob estava diante dela e que uma das mãos dele descansava em sua cintura.

A outra subira lentamente pelas costas.

E era exatamente essa mão que estava acabando com qualquer possibilidade de raciocínio.

— Eu não estou pensando — Sarah murmurou.

Jacob afastou a boca apenas o suficiente para olhar para ela.

— Está.

— Como sabe?

— Sua testa faz isso.

Ele tocou com o polegar o espaço entre as sobrancelhas dela.

Sarah imediatamente tentou relaxar.

Jacob sorriu.

— Isso.

— Não sabia que você analisava meu rosto durante...

Ela parou.

— Durante?

Sarah estreitou os olhos.

— Não vou alimentar seu ego.

— Tarde demais.

Ela segurou a camisa dele.

— Você é insuportável.

— E você me ama.

Sarah tentou manter a expressão séria.

Falhou.

— Esse “eu te amo” está deixando você convencido demais.

— Esperei bastante.

— Dois dias.

— Pareceram longos.

Sarah riu.

Jacob aproveitou.

Beijou-a outra vez.

E então ela parou de pensar.

De verdade.

Os lábios dele eram quentes.

Essa era uma das coisas que Sarah mais percebia.

O calor.

Sempre.

A boca de Jacob parecia carregar calor demais, e cada beijo começava lento apenas para terminar roubando dela a capacidade de lembrar por que deveria respirar.

As mãos eram ainda piores.

Ou melhores.

Dependia da perspectiva.

Uma delas deslizou pelas costas dela com uma calma que não combinava em nada com a urgência do beijo.

Sarah sentiu o corpo reagir antes que pudesse pensar.

Aproximou-se mais.

Jacob percebeu.

É claro que percebeu.

Ele parecia perceber tudo.

A respiração dela.

A maneira como os dedos apertavam sua camisa.

O instante exato em que Sarah se inclinava para o toque em vez de apenas recebê-lo.

A mão dele desceu lentamente pela lateral do corpo dela e voltou à cintura.

Sarah afastou a boca.

— Isso deveria ser crime.

Jacob parou.

— O quê?

Ela respirava rápido.

— Suas mãos.

Ele olhou para elas.

Depois para Sarah.

— Minhas mãos.

— Sim.

Um sorriso apareceu.

— Quer explicar juridicamente?

— Não.

— Eu gostaria de ouvir a tese.

Sarah tentou empurrá-lo.

Jacob não saiu.

— Abuso de poder.

— Interessante.

A mão dele deslizou novamente pelas costas dela.

Sarah fechou os olhos.

— Agravante.

Jacob riu contra sua boca.

— Você é uma péssima advogada quando está distraída.

— A culpa é sua.

— Minha defesa será essa.

— Qual?

— Consentimento da vítima.

Sarah abriu os olhos.

— A vítima pretende reincidir.

O sorriso dele desapareceu.

Dessa vez foi Sarah quem o beijou.

Sem brincadeira.

Sem provocação.

Apenas porque queria.

Jacob respondeu imediatamente.

O beijo mudou.

A respiração também.

Sarah sentiu as mãos dele segurarem sua cintura e a aproximarem ainda mais.

O corpo dela respondeu com a mesma urgência.

Era isso que mais a impressionava.

Não apenas o que Jacob fazia.

Mas o que acontecia com ela quando ele fazia.

Como se o corpo reconhecesse antes da razão aquilo que queria.

Um toque nas costas.

Um beijo mais demorado.

Os dedos dele percorrendo lentamente sua cintura.

A boca quente descendo até seu pescoço.

E Sarah queimava.

Literalmente parecia queimar.

— Jacob...

Ele parou imediatamente.

Levantou o rosto.

— Tudo bem?

A pergunta saiu baixa.

Atenta.

Mesmo naquele momento.

Sarah olhou para ele.

Gostava disso também.

Da intensidade que nunca anulava a atenção.

— Tudo.

Ela segurou o rosto dele.

— Não para.

Os olhos dele mudaram.

E Sarah teve apenas tempo de sorrir antes de ser beijada novamente.


Chegar ao quarto foi uma sucessão de decisões ruins para quem pretendia manter alguma dignidade.

Sarah bateu no batente.

Jacob quase tropeçou no tapete.

Ela começou a rir.

Ele também.

— Muito sedutor — ela murmurou.

— Culpa sua.

— Eu estava parada.

— Exatamente o problema.

Sarah riu mais.

Jacob a puxou para perto.

— Vem aqui.

Ela foi.

Sempre ia.

A luz do quarto estava baixa.

Não havia pressa de verdade.

Essa era outra contradição de Jacob.

Tudo nele parecia urgente quando a beijava.

Mas as mãos nunca tinham pressa.

Elas percorriam.

Descobriam.

Voltavam.

Como se Jacob tivesse aprendido o corpo dela e ainda assim quisesse reaprendê-lo todas as vezes.

Sarah fechou os olhos quando sentiu os dedos dele deslizarem lentamente por suas costas.

A respiração mudou.

Jacob percebeu.

— Aqui?

Ela abriu os olhos.

— Não começa.

— O quê?

— Você sabe exatamente.

— Quero confirmar.

Sarah segurou a nuca dele.

— Convencido.

— Advogada.

Ela o beijou.

As mãos dele continuaram.

E Sarah percebeu que talvez fosse justamente isso que a enlouquecesse.

Jacob não tocava nela como se estivesse seguindo um caminho.

Tocava como se prestasse atenção.

Como se cada reação dela fosse uma resposta.

E ele aprendesse.

Quando Sarah prendia a respiração, ele percebia.

Quando o corpo dela se aproximava instintivamente, ele entendia.

Quando os dedos dela apertavam seus ombros, Jacob diminuía o ritmo apenas para prolongar aquilo que sabia estar fazendo com ela.

— Você faz isso de propósito — Sarah murmurou contra a boca dele.

— O quê?

— Devagar.

Jacob sorriu.

— Talvez.

— Crueldade.

— Você reclamou?

Sarah ficou quieta.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— Foi o que pensei.

— Eu posso processar você.

— Você teria que explicar o dano.

Sarah sentiu a mão dele novamente na cintura.

Fechou os olhos.

— Considere esse argumento retirado.

Jacob riu.

A risada desapareceu no beijo seguinte.

E Sarah esqueceu.

A T-6.

A garagem.

O caderno.

Irina.

Aro.

Robert.

A investigação.

Tudo.

Pela primeira vez em dias, não havia uma pergunta esperando por resposta no fundo da cabeça.

Havia somente Jacob.

O calor dele.

Os lábios quentes.

As mãos.

Meu Deus, as mãos.

Sarah sentia o próprio corpo vibrar em resposta a cada aproximação, como se toda a tensão acumulada durante aquelas semanas estivesse encontrando finalmente um lugar para desaparecer.

Ela tocou o rosto dele.

Os ombros.

As costas.

Queria senti-lo também.

Queria provocar nele a mesma perda de controle que ele provocava nela.

E percebeu que conseguia.

Na mudança da respiração.

Na maneira como Jacob fechava os olhos quando ela o tocava.

Na forma como ele dizia seu nome.

— Sarah...

Ela adorava aquilo.

O próprio nome na voz dele.

Sem “Cullen”.

Sem “Clearwater”.

Sem passado.

Sem explicação.

Sarah.

Apenas ela.

— De novo — pediu.

Jacob abriu os olhos.

— O quê?

— Meu nome.

Ele entendeu.

Sempre entendia.

Encostou a testa na dela.

— Sarah.

Ela sorriu.

— Outra vez.

A mão dele subiu por suas costas.

— Sarah.

Ela o beijou.

E dessa vez não havia espaço para palavras.

Somente respiração.

Calor.

Corpos que pareciam conversar de uma maneira que não precisava de explicação.

O mundo diminuiu até caber naquele quarto.

E depois diminuiu outra vez.

Até caber apenas nos dois.


Muito mais tarde, Sarah estava deitada com a cabeça sobre o peito de Jacob.

Uma das mãos dele brincava distraidamente com os cabelos dela.

Sarah observava os dedos.

Jacob percebeu.

— O quê?

Ela pegou a mão dele.

Virou.

Analisou a palma.

Os dedos.

— Estou estudando a arma do crime.

Jacob começou a rir.

— Ainda nisso?

— Evidência material.

Ela entrelaçou os dedos aos dele.

— Perigosíssima.

— Quer que eu mantenha distância?

Sarah imediatamente colocou a mão dele novamente em sua cintura.

— Não exagera.

Jacob riu.

Ela se acomodou.

Silêncio.

Confortável.

A respiração dele desacelerava.

Sarah percebeu uma coisa.

— Eu esqueci.

Jacob olhou para baixo.

— O quê?

— Tudo.

Ele ficou quieto.

— Por quanto tempo?

Sarah pensou.

— Não sei.

— Isso é bom?

Ela levantou o rosto.

— Muito.

Jacob tocou sua bochecha.

Sarah continuou:

— Faz semanas que eu acordo pensando na investigação. Trabalho pensando nela. Como pensando nela. Durmo pensando nela.

— Eu sei.

— Hoje eu esqueci.

Um sorriso pequeno apareceu no rosto dele.

— Fico feliz.

Sarah estreitou os olhos.

— Não fica convencido.

— Impossível.

— Jacob.

— Você acabou de dizer que minhas mãos fizeram uma advogada esquecer uma investigação de homicídio de dezenove anos.

Sarah colocou a mão sobre a boca dele.

— Cala a boca.

Ele beijou sua palma.

Ela retirou imediatamente.

— Isso também deveria ser proibido.

— O quê?

— Isso.

— Beijar sua mão?

— Você sabe o efeito.

Jacob sorriu.

Sarah fechou os olhos.

— Insuportável.

— Você me ama.

Ela abriu um olho.

— Infelizmente.

Jacob virou-se um pouco para ela.

— Infelizmente?

Sarah sorriu.

— Profundamente.

Dessa vez ele não brincou.

O olhar mudou.

A mão que estava na cintura dela subiu até o rosto.

— Eu amo você.

Sarah sentiu aquela frase de maneira diferente naquela noite.

Talvez porque estivesse tranquila.

Talvez porque não houvesse telefone tocando.

Talvez porque, depois de semanas descobrindo verdades que pertenciam a outras pessoas, aquela fosse uma verdade exclusivamente deles.

Ela beijou a palma da mão dele.

— Eu sei.

Jacob ergueu uma sobrancelha.

— Só isso?

Sarah riu.

— Eu amo você também.

— Melhor.

Ela voltou a deitar no peito dele.

Jacob passou os braços ao redor dela.

Alguns minutos depois, Sarah sentiu os dedos dele percorrerem lentamente suas costas outra vez.

Abriu os olhos.

— Jacob.

— Hum?

— Suas mãos estão reincidindo.

— Não tenho antecedentes.

— Agora tem.

A mão continuou.

Sarah fechou os olhos.

— Isso vai constar no processo.

— Qual processo?

Ela virou o rosto e encontrou os lábios dele.

— O que eu nunca vou ajuizar.

Jacob sorriu contra sua boca.

E a beijou novamente.

Dessa vez Sarah nem tentou lembrar de mais nada.

Porque havia noites destinadas a encontrar respostas.

E havia noites em que ela não queria pergunta alguma.

Só queria aquelas mãos.

Aqueles lábios quentes.

O corpo dele junto ao seu.

E aquela sensação maravilhosa de que, quando Jacob a tocava, tudo dentro dela respondia.

Urgente.

Vivo.

Presente.

Como se o corpo inteiro de Sarah finalmente tivesse aprendido aquilo que sua mente ainda estava descobrindo:

ela podia ter um passado cheio de lacunas.

Mas o presente estava inteiro.

E naquela noite ele tinha o nome de Jacob Black.