MEMÓRIAS

35 CAPÍTULO 34- Isso não é uma massagem



Jacob tinha um plano.

Um plano simples.

Inocente.

Quase terapêutico.

Sarah precisava relaxar.

Era só isso.

Depois de semanas de investigação, documentos, telefonemas, depoimentos, lembranças fragmentadas, reuniões intermináveis e uma quantidade de café que provavelmente violava alguma recomendação médica, ele decidira que a namorada precisava de uma noite em que não tivesse absolutamente nada para resolver.

Nenhum documento.

Nenhuma T-6.

Nenhuma Irina.

Nenhum Aro.

Nenhuma pergunta.

Nenhum telefone.

Somente descanso.

Por isso, quando Sarah chegou ao apartamento dele pouco depois das oito, encontrou as luzes apagadas.

Parou na entrada.

— Jacob?

— Aqui.

A voz veio do corredor.

Sarah fechou a porta.

Havia pequenas velas espalhadas pela sala.

Não muitas.

O suficiente para criar uma iluminação baixa e quente.

Um aroma suave pairava no ambiente.

Lavanda.

Talvez alguma coisa cítrica.

Ela deixou a bolsa sobre o aparador.

— O que você fez?

Jacob apareceu.

Camiseta preta.

Calça de moletom.

Descalço.

Sarah olhou para ele.

Depois para as velas.

Depois novamente para ele.

— Isso é uma intervenção?

— Depende.

— De quê?

— Você trouxe trabalho?

Sarah ficou quieta.

Jacob olhou para a bolsa.

Ela imediatamente colocou-se na frente.

— Não.

— Sarah.

— Tecnicamente...

— Tem trabalho aí.

— Só um documento.

— Quantas páginas?

— Isso é irrelevante.

— Quantas?

Sarah suspirou.

— Cento e vinte e sete.

Jacob estendeu a mão.

— Me dá.

— Não.

— Sarah.

— É confidencial.

— Não quero ler.

— Então por que quer?

— Vou guardar.

— Onde?

— Longe de você.

Ela apertou os olhos.

— Isso pode configurar retenção indevida de documento.

— Processa amanhã.

Sarah tentou manter a expressão séria.

Não conseguiu.

Entregou a bolsa.

Jacob colocou no armário.

Trancou.

Sarah arregalou os olhos.

— Você trancou?

Ele colocou a chave no bolso.

— Sim.

— Isso é cárcere privado documental.

— Senta.

— Autoritário.

— Exausta.

Ela abriu a boca.

Fechou.

— Isso foi baixo.

— Foi preciso.

Sarah finalmente observou melhor a sala.

— Velas?

— Aromáticas.

— Eu percebi.

— Óleo essencial.

Ela virou lentamente.

— Óleo?

Jacob apontou para uma pequena mesa.

Havia frascos, toalhas e um óleo de massagem.

Sarah ergueu uma sobrancelha.

— Jacob Black.

— Sarah Cullen Clearwater.

— O que exatamente você está planejando?

— Uma massagem.

Ela ficou olhando.

— Você.

— Eu.

— Vai fazer uma massagem.

— Em você.

Sarah cruzou os braços.

— Para eu relaxar.

— Essa é a intenção.

Ela soltou uma risada curta.

— Isso não vai funcionar.

— Por quê?

Sarah olhou deliberadamente para as mãos dele.

Depois levantou os olhos.

Jacob compreendeu.

— Ah.

— Exatamente.

Um sorriso começou a aparecer.

— Você ainda está com aquela história?

— Aquela história?

Sarah aproximou-se.

Pegou uma das mãos dele.

— Essas mãos são responsáveis por uma quantidade considerável de perturbação da ordem pública.

— Pública?

— Particular.

— Melhor.

— Não fica convencido.

Jacob entrelaçou os dedos aos dela.

— Hoje elas vão fazer você relaxar.

Sarah aproximou o rosto.

— Duvido.

— Desafio aceito.

— Eu não desafiei.

— Tarde demais.


Dez minutos depois, Sarah descobriu que tinha cometido um erro.

Um erro enorme.

A música estava baixa.

As velas espalhavam uma luz dourada pelo quarto.

O aroma de lavanda tornava o ambiente quase absurdamente tranquilo.

Sarah estava deitada confortavelmente, com uma toalha macia cobrindo-a, enquanto Jacob aquecia um pouco do óleo entre as mãos.

— Está confortável?

— Sim.

— Temperatura?

— Boa.

— Música?

— Boa.

— Aroma?

— Muito bom.

— Então fecha os olhos.

Sarah obedeceu.

Jacob colocou as mãos sobre seus ombros.

E o plano acabou ali.

Não o plano dele.

O dela.

Porque Sarah tinha imaginado que conseguiria receber uma massagem de Jacob Black como uma pessoa adulta, racional e perfeitamente funcional.

Não conseguia.

As mãos dele começaram pelos ombros.

Firmes.

Lentas.

Cuidadosas.

Sarah soltou o ar.

Aquilo realmente estava bom.

Muito bom.

Os dedos dele pressionaram os pontos tensos próximos ao pescoço.

Ela sentiu a musculatura ceder um pouco.

— Viu? — Jacob murmurou. — Relaxa.

— Estou relaxada.

— Sua mandíbula está travada.

Sarah soltou.

— Agora não.

Ele riu baixinho.

As mãos deslizaram novamente.

Sarah fechou os olhos com mais força.

O problema não era a massagem.

Era Jacob.

Especificamente, o fato de aquelas serem as mesmas mãos que ela já conhecia muito bem.

O corpo dela também sabia.

E parecia não ter recebido o memorando informando que aquilo tinha finalidade exclusivamente relaxante.

As mãos dele desceram lentamente pelas costas.

Sarah respirou fundo.

— Jacob.

— Hum?

— Isso é parte da massagem?

— Costas?

— A forma.

Ele parou.

— Está ruim?

— Esse é exatamente o problema.

Silêncio.

Sarah ouviu a risada baixa.

— Não ri.

— Estou tentando ajudar.

— Está falhando.

— Você estava tensa.

— Agora estou com outro problema.

Jacob aproximou-se um pouco.

— Qual?

Sarah abriu os olhos e virou o rosto o suficiente para enxergá-lo.

— Você sabe.

O sorriso dele foi criminoso.

— Doutora, preciso de uma descrição mais objetiva.

— Não provoca.

— Estou trabalhando.

— Isso não é trabalho.

— Minhas mãos discordam.

Sarah fechou os olhos novamente.

— Continue antes que eu me arrependa.

— Sim, senhora.

As mãos voltaram.

E Sarah imediatamente se arrependeu de ter mandado continuar.

Ou talvez não.

Definitivamente não.

O óleo aquecido fazia os movimentos deslizar com facilidade.

Jacob trabalhava devagar sobre os músculos das costas, alternando pressão e movimentos mais suaves.

Era uma massagem de verdade.

Esse era o absurdo.

Ele realmente sabia o que estava fazendo.

Mas cada vez que as mãos dele percorriam lentamente suas costas, o corpo de Sarah parecia esquecer completamente o objetivo terapêutico daquela atividade.

O calor começava no ponto em que ele tocava.

E se espalhava.

— Respira — Jacob murmurou.

— Estou respirando.

— Muito rápido.

— Culpa sua.

— Eu estou massageando seus ombros.

— Com essas mãos.

— Continuam sendo apenas mãos.

Sarah abriu os olhos.

— Você sabe que isso é mentira.

Jacob riu.

— Fecha os olhos.

— Não manda em mim.

— Fecha.

Ela fechou.

— Odeio você.

— Mentira.

— Nesse momento, bastante.

— Também mentira.

As mãos desceram novamente.

Sarah prendeu a respiração.

Jacob parou.

— Viu?

— O quê?

— Você fez de novo.

— Fiz o quê?

— Parou de respirar.

Sarah enterrou o rosto na almofada.

— Isso deveria ser considerado crime.

Jacob riu.

— Voltamos ao Código Penal das Minhas Mãos?

— Nunca saímos dele.


Vinte minutos depois, Sarah já tinha certeza.

A massagem era uma armadilha.

— Você planejou isso.

— Planejei fazer uma massagem.

— Mentira.

— Verdade.

— Você acendeu velas.

— Para relaxar.

— Colocou música.

— Para relaxar.

— Óleo.

— Sarah, geralmente massagens têm óleo.

— Não com você.

Jacob parou.

Ela virou um pouco o rosto.

— Por que parou?

— Você está reclamando.

— Não estou reclamando.

— Parece reclamação.

— É uma observação jurídica.

— Então posso continuar?

Sarah ficou quieta.

— Sarah?

— Pode.

Ele sorriu.

— Imaginei.

As mãos voltaram aos ombros.

Dessa vez, porém, alguma coisa começou a mudar.

Talvez fosse o tempo.

Talvez o aroma.

Talvez a música.

Talvez simplesmente o fato de que Jacob não estava tentando levar a provocação adiante.

A intensidade inicial começou a desaparecer.

A respiração dela desacelerou.

Os músculos realmente começaram a ceder.

Aquela tensão permanente entre os ombros foi diminuindo.

Sarah percebeu que havia passado dias inteiros sem notar o quanto estava contraída.

As mãos dele ficaram mais lentas.

Mais leves.

Sarah soltou um suspiro longo.

— Melhor?

Ela demorou para responder.

— Muito.

A voz saiu sonolenta.

Jacob sorriu.

— Finalmente.

— Não comemora.

— Você está quase dormindo.

— Não estou.

— Sarah.

— Estou descansando os olhos.

— Claro.

Ela sorriu contra a almofada.

As mãos dele continuaram.

Agora não incendiavam.

Aqueciam.

Havia diferença.

Uma diferença enorme.

Sarah começou a entender o que Jacob tinha planejado desde o começo.

Ele não queria seduzi-la.

Não naquela noite.

Queria cuidar dela.

E talvez isso fosse ainda mais perigoso.

Porque Sarah sabia lidar com desejo.

Com provocação.

Com beijos.

Com aquelas mãos capazes de fazê-la esquecer o próprio nome.

O que ainda estava aprendendo era lidar com alguém percebendo que ela estava cansada antes que ela mesma admitisse.

— Jacob?

— Hum?

— Obrigada.

As mãos pararam por um segundo.

— Pelo quê?

— Isso.

— A massagem criminosa?

Sarah sorriu.

— Também.

Ele continuou.

— Você precisava descansar.

— Eu sei.

— Não, não sabia.

Ela abriu os olhos.

— Convencido.

— Você trouxe cento e vinte e sete páginas para ler depois das oito da noite.

— Cento e vinte e cinco.

— Você disse cento e vinte e sete.

Sarah ficou quieta.

Jacob riu.

— Peguei.

— Não gosto mais de você.

— Ainda me ama?

Ela fechou os olhos.

— Infelizmente.

— Ótimo.


Sarah não percebeu quando a massagem terminou.

Percebeu apenas quando sentiu Jacob puxar cuidadosamente a toalha sobre seus ombros e beijar seus cabelos.

— Acabou?

— Acabou.

Ela abriu os olhos devagar.

— Quanto tempo?

— Quase uma hora.

— Mentira.

— Verdade.

Sarah tentou se levantar.

Jacob colocou a mão em seu ombro.

— Devagar.

— Estou ótima.

Ela sentou.

Ficou alguns segundos parada.

Jacob ergueu uma sobrancelha.

— Muito ótima.

— Cala a boca.

Sarah virou para ele.

Os cabelos estavam completamente desarrumados.

Os olhos pesados.

A expressão relaxada.

Jacob sorriu.

— Funcionou.

Ela apontou para ele.

— Parcialmente.

— Você quase dormiu.

— Depois.

— Depois do quê?

Sarah estreitou os olhos.

— Você sabe.

— Quero ouvir.

Ela aproximou-se.

— Primeiro suas mãos fizeram exatamente o contrário do que você prometeu.

Jacob sorriu.

— Fizeram?

— Eu estava mais inflamada depois de dez minutos do que antes de chegar.

O sorriso dele aumentou.

— Interessante.

— Não fica orgulhoso.

— Impossível.

Sarah segurou a camiseta dele.

— Só depois eu relaxei.

— Então funcionou.

— Seu método é questionável.

— Mas eficiente.

— Extremamente questionável.

— Extremamente eficiente?

Sarah tentou não sorrir.

— Talvez.

Jacob tocou seu rosto.

Dessa vez o toque foi simples.

Carinhoso.

Sarah fechou os olhos e encostou o rosto na palma dele.

A mesma mão.

Era isso que a fascinava.

As mesmas mãos que minutos antes faziam seu corpo inteiro despertar eram capazes, pouco depois, de fazê-la se sentir completamente segura.

Desejada.

Cuidada.

Em paz.

Sarah abriu os olhos.

— Sabe o pior?

— O quê?

— Agora eu entendo por que gosto tanto das suas mãos.

Jacob ergueu uma sobrancelha.

— Finalmente.

— Não é só pelo...

Ela fez um gesto vago.

— Pelo quê?

— Não vou explicar.

— Gostaria muito que explicasse.

Sarah ignorou.

Pegou a mão dele.

— Elas me fazem sentir duas coisas completamente diferentes.

Jacob ficou sério.

— Quais?

Sarah passou o polegar pela palma dele.

— Primeiro, fazem meu corpo esquecer que deveria ter algum autocontrole.

Ele sorriu.

— Gosto dessa parte.

— Eu sei.

Ela entrelaçou os dedos aos dele.

— Depois fazem eu lembrar que posso descansar.

O sorriso desapareceu.

Jacob olhou para as mãos unidas.

Sarah continuou:

— Eu passei muito tempo achando que precisava controlar tudo.

— Você ainda acha.

— Estou melhorando.

— Um pouco.

Ela apertou os dedos dele.

— Com você, às vezes eu consigo parar.

Jacob levantou os olhos.

— Então para.

Sarah sorriu.

— Agora?

— Agora.

Ele a puxou gentilmente.

Sarah deitou contra seu peito.

Jacob cobriu os dois.

Nenhum beijo urgente.

Nenhuma provocação.

Apenas a mão dele fazendo movimentos lentos em seus cabelos.

Sarah soltou o ar.

Fechou os olhos.

— Jacob?

— Hum?

— Acho que vou dormir.

— Finalmente.

— Se contar para Emmett...

— Jamais.

— Se ele descobrir...

— Vou negar.

Sarah sorriu.

Já quase dormindo.

— Eu amo você.

Jacob beijou sua testa.

— Eu amo você também.

Alguns minutos depois, Sarah dormiu.

Profundamente.

Sem sonhar com o penhasco.

Sem ouvir a voz do menino pedindo desculpas.

Sem freios.

Sem Irina.

Sem documentos.

Sem passado.

Apenas com uma das mãos de Jacob descansando sobre a sua.

E talvez aquela fosse a coisa mais extraordinária sobre as mãos dele.

Elas conseguiam incendiá-la.

Mas também eram capazes de fazer algo que Sarah descobria ser muito mais raro.

Fazê-la baixar todas as defesas.

E finalmente descansar.