MEMÓRIAS
32 CAPÍTULO 31- O homem que levou a peça
No fim do capítulo anterior, Sarah tinha um nome.
Irina Volturi.
Não como autora de um crime.
Não como pessoa que tocara nos freios.
Não como responsável pela morte de duas mulheres.
Mas como a única profissional do Volturi & Associados cujas iniciais correspondiam à anotação encontrada no protocolo de retirada de um componente do mesmo lote daquele que, dezenove anos antes, fora identificado no veículo depois do acidente.
Era pouco para uma acusação.
Era muito para uma investigação.
E Sarah sabia exatamente qual era a diferença.
Na manhã seguinte, às oito e vinte e sete, o criminalista ligou.
— Tenho uma atualização.
Sarah imediatamente fechou o contrato que estava lendo.
— Sobre o mensageiro?
— Sim.
Jacob, sentado no sofá de seu escritório com um relatório financeiro, levantou os olhos.
Sarah colocou o telefone no viva-voz.
— Encontraram?
— Identificaram primeiro. Thomas Reed. Na época era auxiliar administrativo do Volturi & Associados. Fazia serviços externos, retirada de documentos, protocolos, entrega de materiais.
— Idade atual?
— Sessenta e dois.
— Vivo?
— Sim.
Sarah respirou.
— Já falaram com ele?
— Ainda não.
Ela gostou da resposta.
— Por quê?
— Porque antes estão terminando de levantar os registros disponíveis sobre a função dele e as retiradas daquele período. Se ele for ouvido, é melhor saber antes o que pode ser confrontado objetivamente depois da narrativa espontânea.
Sarah assentiu.
— Certo.
Jacob franziu a testa.
— Por que não mostrar logo a assinatura?
Sarah respondeu antes do advogado:
— Porque se você mostra primeiro, corre o risco de ensinar a testemunha a própria lembrança.
Jacob compreendeu.
— Certo.
O criminalista continuou:
— E mais uma coisa: não procurem Thomas.
— Não vamos.
Jacob levantou uma sobrancelha para Sarah.
Ela olhou de volta.
— Nós não vamos.
— Ótimo.
A ligação terminou.
Sarah pegou a caneta.
No quadro branco, acrescentou:
THOMAS REED — IDENTIFICADO. AINDA NÃO OUVIDO.
Jacob observou.
— Você vai registrar cada passo?
— Sim.
— Por quê?
Sarah tampou a caneta.
— Porque daqui a uma semana vamos ter cinquenta informações diferentes e alguém vai lembrar uma delas na ordem errada.
Jacob ficou quieto.
Ela apontou para o quadro.
— Cronologia não é detalhe numa investigação. Às vezes é a investigação.
Thomas só foi formalmente procurado dois dias depois.
Sarah soube porque recebeu uma mensagem curta:
Contato realizado. Concordou em prestar esclarecimentos voluntariamente. Oitiva amanhã.
Nada mais.
Ela não perguntou horário.
Na verdade, perguntou.
Não recebeu resposta.
— Ele está fazendo isso de propósito — reclamou.
Edward, sentado diante dela, respondeu:
— Fazendo o quê?
— Não me dizendo o horário.
— Provavelmente porque você ficaria olhando para o relógio.
Sarah ficou em silêncio.
Edward sorriu.
— Eu gosto dele.
— Saia.
Naquela noite, Jacob tentou distraí-la.
Jantar.
Filme.
Vinho.
Beijos.
Os beijos foram os mais eficientes.
Durante algum tempo.
Sarah estava deitada contra ele no sofá quando afastou a boca.
Jacob permaneceu com os olhos fechados.
— Não.
Ela franziu a testa.
— Não o quê?
— Você vai perguntar alguma coisa sobre Thomas.
Sarah ficou ofendida.
— Talvez eu quisesse apenas respirar.
Jacob abriu um olho.
— Mentira.
Ela apoiou o queixo no peito dele.
— E se ele não lembrar?
— Pode não lembrar.
— Dezenove anos.
— Eu sei.
— Pode ter feito centenas de retiradas.
— Provavelmente fez.
— Pode nem ter visto Irina.
— Também.
Sarah soltou o ar.
— Você é péssimo em tranquilizar.
— Você quer mentira ou companhia?
A pergunta a silenciou.
Jacob passou os dedos pelos cabelos dela.
— Porque mentira eu não vou te dar.
Sarah sorriu devagar.
— Companhia serve.
— Ótimo.
Ele a puxou de volta.
Sarah beijou-o novamente.
Dessa vez sem perguntas.
A oitiva de Thomas aconteceu no dia seguinte.
Sarah não participou.
Jacob não participou.
Billy não participou.
Nenhum Cullen participou.
Quando o criminalista telefonou, já era quase quatro da tarde.
Sarah estava sozinha no escritório.
— Terminou?
— Terminou.
— E?
— Antes de mostrar qualquer documento, perguntaram sobre o trabalho dele no Volturi & Associados.
Sarah pegou a caneta.
— Lembrou?
— Bastante da rotina geral. Pouco de operações específicas.
— Esperado.
— Disse que fazia retiradas para vários advogados e que raramente sabia detalhes jurídicos do que transportava.
— A peça?
— Não mencionou espontaneamente.
Sarah sentiu uma pequena decepção.
— Certo.
— Depois perguntaram se lembrava de transportar materiais que não fossem documentos.
Ela esperou.
— Disse que sim. Caixas, amostras, peças pequenas relacionadas a processos e disputas comerciais.
— Ainda genérico.
— Sim.
— Depois mostraram o registro?
— Só depois.
Sarah apertou a caneta.
— Reconheceu a assinatura?
— Reconheceu.
— Confirmou que é dele?
— Confirmou.
— Lembrou da retirada?
— Não com segurança.
Sarah fechou os olhos.
Era exatamente o tipo de resposta que não ajudava uma história.
E ajudava muito uma investigação séria.
— Então temos o documento contemporâneo e a confirmação da assinatura, mas não uma memória independente da retirada.
— Exatamente.
Sarah escreveu.
THOMAS: ASSINATURA RECONHECIDA. SEM MEMÓRIA SEGURA DA RETIRADA ESPECÍFICA.
— Acabou?
Pausa.
Sarah parou de escrever.
— Não.
— O que houve?
— Quando viu a data, ele disse que aquela semana parecia familiar.
— “Parecia” não é muito.
— Eu sei.
— O que associou?
— Disse que lembrava de uma entrega fora da rotina.
Sarah ficou imóvel.
— Na mesma semana?
— Segundo ele, provavelmente. Mas foi muito cuidadoso com a incerteza temporal.
— Ótimo.
— Sarah.
— É ótimo. Prefiro uma testemunha dizendo “não tenho certeza” do que alguém preenchendo buraco de dezenove anos.
— Foi exatamente isso.
— Para onde era a entrega?
— Ele não soube dar endereço.
— Conteúdo?
— Não lembra.
— Destinatário?
— Não soube identificar pelo nome.
Sarah soltou o ar.
— Então o que ele lembra?
— Uma garagem.
Ela parou.
— Garagem?
— Uma propriedade grande. Ele acha que deixou uma caixa numa garagem separada da residência principal.
— Com quem?
— Uma mulher.
Sarah não falou.
— Não conclua.
— Não concluí.
— Sua respiração concluiu.
— Continue.
— Ele não deu nome. Também não foi exibida fotografia de ninguém.
Sarah aprovou.
— Descrição?
— Genérica demais para ter valor identificador por enquanto.
— Então não quero saber.
Pausa.
— Isso foi surpreendentemente sensato.
— Eu sempre sou sensata.
— Claro.
— Alguma característica objetiva do lugar?
— Duas.
Sarah se endireitou.
— Quais?
— Ele lembra de uma placa antiga ligada a automobilismo.
Sarah franziu a testa.
— Isso descreve metade das pessoas relacionadas à Cullen & Black.
— Também pensamos nisso.
— E a segunda?
— Um número fixado numa porta lateral.
— Qual?
— Quarenta e sete.
Sarah ficou quieta.
— Isso significa alguma coisa?
— Para mim, não.
— Não pergunte à família ainda.
— Concordo.
Sarah escreveu:
MEMÓRIA TARDIA DE THOMAS — LOCAL NÃO IDENTIFICADO / GARAGEM / AUTOMOBILISMO / Nº 47. DATA INCERTA.
E sublinhou:
NÃO VINCULAR A IRINA SEM CORROBORAÇÃO.
Naturalmente, Jacob percebeu em menos de cinco minutos.
— O que é quarenta e sete?
Sarah ergueu lentamente os olhos.
— Como...
Ele apontou para o bloco.
Sarah havia escrito o número três vezes.
— Nada confirmado.
— Isso significa que é alguma coisa.
— Thomas lembrou de uma entrega fora da rotina, possivelmente naquela semana.
Jacob ficou sério.
— Onde?
— Não sabe.
— Para quem?
— Não identificou.
— Então o quarenta e sete?
— Número numa porta de garagem.
Jacob franziu a testa.
Sarah percebeu imediatamente.
— Não tenta lembrar.
— Eu não estou tentando.
— Está fazendo a cara.
— Que cara?
— A cara de quem está tentando arrancar uma lembrança da própria cabeça.
Jacob cruzou os braços.
— Você me conhece há pouco tempo demais para saber que cara eu faço.
Sarah sorriu.
— Essa foi boa.
— Obrigado.
— Continua não tentando.
Ele assentiu.
Depois:
— Minha mãe corria.
Sarah ficou quieta.
— Memória sua?
— Não. Meu pai contou.
Sarah relaxou.
— Certo.
— Automobilismo amador. Antes de eu nascer.
Sarah olhou para o número.
— Sabe qual era o número dela?
— Não.
Os dois ficaram em silêncio.
Jacob olhou para o telefone de Sarah.
Ela também.
— Não — disse.
— Eu não falei nada.
— Você pensou em ligar para Billy.
— Você também.
— Exatamente. E não vamos.
Jacob sorriu.
— Estamos ficando bons nisso.
— Assustadoramente.
As autoridades não perguntaram a Billy.
Primeiro tentaram identificar o lugar sem recorrer à memória familiar.
Sarah soube apenas dois dias depois.
O criminalista pediu que ela comparecesse ao escritório.
Quando chegou, havia fotografias sobre a mesa.
Uma propriedade antiga.
Um portão de pedra.
Uma garagem separada da casa principal.
E, numa porta lateral, um pequeno número metálico.
47.
Sarah ficou imóvel.
— Confirmaram que é o lugar?
— Não ainda.
— Então?
— É um local compatível com os elementos objetivos da descrição. O trajeto também seria plausível para um mensageiro saindo do escritório naquele período.
— Thomas viu?
— Ainda não.
Sarah assentiu.
Boa sequência.
Primeiro localizar.
Depois verificar.
— Proprietário na época?
O advogado entregou uma certidão histórica.
Sarah leu.
Robert Hale.
— Hale.
O nome imediatamente trouxe Rosalie à cabeça.
Sarah não verbalizou a associação.
— Relação com os Cullen ou Black?
— Empresário. Teve envolvimento com automobilismo e relações comerciais indiretas com pessoas do grupo.
— Vivo?
— Morreu há onze anos.
Sarah olhou novamente para a fotografia.
Na parede interna da garagem havia uma placa antiga.
A imagem ampliada permitia ler:
BLACK MOTORSPORT — 47.
Sarah sentiu um arrepio.
— Agora podemos perguntar a Billy.
— Agora faz sentido.
Billy chegou naquela tarde.
Jacob veio com ele.
Edward e Emmett apareceram cinco minutos depois.
Sarah pensou em expulsá-los.
Não expulsou.
Colocou a fotografia sobre a mesa.
Billy viu.
E parou.
Sarah percebeu antes dos outros.
— Conhece?
Billy sentou lentamente.
— Onde vocês acharam isso?
— Conhece, Billy?
Ele continuou olhando.
— Conheço.
Jacob aproximou-se.
— Pai?
Billy tocou a fotografia.
— A garagem do Robert.
Sarah sentou diante dele.
— Robert Hale?
— Sim.
— Quem era?
Billy respirou.
— Patrocinava a Sarah.
Jacob ficou imóvel.
— Minha mãe?
Billy assentiu.
— Ela corria com o número quarenta e sete?
Um sorriso triste apareceu.
— Corria.
Jacob olhou para a fotografia.
— Você nunca me disse o número.
— Nunca perguntou.
Sarah observou aquilo.
Uma informação obtida sem contaminação prévia da testemunha.
Agora corroborada por Billy.
— A placa era dela?
— Era da equipe.
— Por que estava na propriedade de Robert?
— Ele guardava equipamento, ferramentas, algumas peças. Às vezes os carros ficavam lá.
Sarah apontou para a fotografia.
— A propriedade ainda era usada na época do acidente?
Billy pensou.
— Muito pouco.
— Quanto é “muito pouco”?
— Sarah já tinha parado de correr fazia anos. Depois que Jacob nasceu, praticamente acabou. Robert continuou amigo nosso, mas aquela garagem deixou de ser ponto de encontro.
Sarah anotou.
— Quem conhecia o lugar?
Billy respondeu sem hesitar:
— Muita gente.
Sarah ergueu os olhos.
— Preciso de nomes.
— Eu. Sarah. Carlisle. Esme.
Pausa.
— Irina.
Jacob endureceu.
Billy continuou:
— Aro também esteve lá.
Sarah escreveu todos.
— Então a garagem não identifica a mulher que recebeu a entrega.
— Não.
— Irina tinha acesso?
Billy pensou.
— Conhecia o lugar. Não sei se tinha chave.
— Aro?
— Mesma resposta.
Sarah assentiu.
— Robert tinha funcionários?
— Sim.
— Mulheres?
— Provavelmente.
— Família?
— Tinha.
Emmett finalmente falou:
— Robert Hale tem alguma coisa a ver com Rosalie?
Sarah olhou imediatamente para ele.
Billy franziu a testa.
— Rosalie Hale?
— Minha namorada.
— Não sei.
Sarah interveio:
— Não vamos perguntar a Rosalie ainda.
Emmett assentiu.
— Certo.
Ela percebeu que ele não gostou.
Mas aceitou.
— Primeiro verificamos genealogia e vínculo por fonte documental. Se houver relação, aí conversamos com ela sem criar susto desnecessário.
— Certo — Emmett repetiu.
Sarah voltou para Billy.
— Irina gostava desse lugar?
A pergunta saiu quase casual.
A reação não foi.
Billy ficou quieto.
— Não.
Sarah pousou a caneta.
— Por quê?
Billy olhou para a placa.
— Porque aquele lugar era muito da Sarah.
— Sua esposa.
— Sim.
Jacob permaneceu imóvel.
Billy continuou:
— Foi onde começamos.
Sarah percebeu.
— Você e Sarah Black.
Billy sorriu de leve.
— Ela tinha graxa no rosto e estava gritando com Robert porque ele queria mudar alguma coisa no carro sem avisar.
Jacob soltou uma risada baixa, involuntária.
Billy olhou para o filho.
— Ela era impossível.
— Estou começando a achar que tenho um tipo — Jacob murmurou.
Sarah virou lentamente.
Emmett começou a rir.
Edward fechou os olhos.
Billy, apesar de tudo, sorriu.
— Definitivamente tem.
Sarah apontou a caneta para Jacob.
— Concentre-se.
— Sim, doutora.
Billy continuou:
— Irina sabia que eu passava muito tempo lá.
Sarah voltou ao assunto.
— E sabia que você e Sarah se aproximaram ali.
— Sabia.
— Isso basta para explicar por que não gostava do lugar?
— Para Irina, talvez.
Sarah anotou.
Mas imediatamente acrescentou:
CONTEXTO EMOCIONAL. NÃO PROVA DE PRESENÇA.
Jacob leu.
Não comentou.
A etapa seguinte demorou.
E Sarah preferiu assim.
Thomas não recebeu uma fotografia de Irina colocada diante dele com a pergunta “foi ela?”.
Primeiro, as autoridades verificaram a propriedade.
Depois, confirmaram documentalmente que Robert Hale era dono no período.
Depois, confirmaram a relação dele com a antiga equipe de Sarah Black.
Somente então Thomas foi novamente chamado.
Dessa vez, foram utilizadas fotografias históricas de várias pessoas potencialmente ligadas à propriedade e àquele círculo social.
Sarah não participou.
Não soube antecipadamente quais fotografias foram usadas.
Não soube a ordem.
Não soube sequer se Irina estava entre elas até depois.
O telefonema veio no fim do dia.
— Antes que você pergunte — disse o criminalista — não temos “reconhecimento conclusivo”.
Sarah sentiu uma mistura estranha de alívio e frustração.
— O que temos?
— Thomas identificou a garagem pelas fotografias com segurança considerável.
— Isso é bom.
— É.
— E a mulher?
Pausa.
— Aí é mais delicado.
Sarah sentou.
— Fala.
— Ele indicou uma fotografia.
O coração dela acelerou.
— De quem?
— Irina.
Sarah fechou os olhos.
— Grau de certeza?
— Disse que “acha que era ela”.
Sarah abriu os olhos.
— Só isso?
— Só isso.
Sarah respirou.
— Então não é um reconhecimento seguro.
— Não.
— Dezenove anos, contato breve, pessoa que ele provavelmente já conhecia do escritório...
— Exatamente.
— Pode estar reconhecendo Irina como figura familiar, não necessariamente como a mulher daquela garagem.
— Essa possibilidade existe.
Sarah passou a mão pelo rosto.
— Então usamos como elemento investigativo, não como identificação definitiva.
— Sim.
Ela ficou quieta.
— Tem mais?
— Tem.
Sarah já conhecia aquela frase.
— O quê?
— Thomas lembrou de uma coisa depois de ver a garagem.
— Espontaneamente?
— Depois da imagem do local, sim. Por isso está sendo tratada com cautela.
— O quê?
— Ele acha que a caixa que entregou era pesada demais para documentos.
Sarah franziu a testa.
— Tamanho?
— Não soube precisar.
— Viu o conteúdo?
— Não.
— Então continua sem saber se era a peça.
— Exatamente.
Sarah escreveu:
GARAGEM CORROBORADA.
IRINA INDICADA COM BAIXA/MODERADA CERTEZA — NÃO CONCLUSIVO.
CAIXA POSSIVELMENTE PESADA — CONTEÚDO DESCONHECIDO.
E ficou olhando.
Mais perto.
Sempre mais perto.
Mas ainda não lá.
Naquela noite, Sarah contou a Jacob.
Tudo.
Inclusive as limitações.
Ele ouviu sem interromper.
Quando ela terminou:
— Ele apontou Irina.
— Disse que acha que era ela.
— Certo.
— Não transforma.
— Estou tentando.
Sarah segurou sua mão.
— Eu sei.
Jacob ficou olhando para os dedos.
— Três dias antes da morte da minha mãe, uma peça daquele lote sai da empresa por solicitação associada a Irina.
— Sim.
— Um mensageiro do escritório faz uma entrega fora da rotina numa garagem que Irina conhecia.
— Possivelmente naquela mesma semana.
— E dezenove anos depois ele acha que a mulher era Irina.
— Sim.
Jacob levantou os olhos.
— Você percebe como isso soa?
Sarah respondeu baixo:
— Percebo.
— E ainda assim não basta.
— Ainda não.
Ele soltou o ar.
— O que falta?
Sarah pensou.
— Ligar a peça retirada à peça encontrada no carro.
— Como?
— Registro. Fotografia. Documento. Alguém que tenha visto. Alguma característica individualizadora. Qualquer coisa independente.
— E ligar Irina à manipulação.
— Sim.
Jacob ficou em silêncio.
— E Aro?
Sarah olhou para ele.
— Ainda temos menos contra Aro do que contra ela.
— O escritório era dele.
— Isso não transforma tudo que qualquer funcionário fez em ordem pessoal dele.
— Você realmente não facilita.
— Não quero facilitar.
Ela apertou a mão dele.
— Quero que, se um dia dissermos que alguém matou sua mãe e a minha, não exista um “talvez” escondido debaixo da frase.
Jacob fechou os olhos.
— Certo.
Sarah encostou a cabeça em seu ombro.
Depois de alguns segundos:
— Você disse “a minha” de novo.
Ela percebeu.
Sorriu.
— Estou me acostumando.
Jacob beijou seus cabelos.
— Gosto.
Dois dias depois, a investigação mudou de novo.
Não por causa de Thomas.
Por causa da seguradora.
Sarah recebeu uma mensagem do criminalista às dez e três.
Localizaram mais fotografias da perícia. Preciso que venha.
Ela foi.
Sozinha.
Quando chegou, havia uma imagem ampliada sobre a mesa.
O componente retirado do veículo.
Sarah sentou.
— O que estou olhando?
O advogado apontou para uma pequena marca na lateral metálica.
Não era número de série.
Era uma marca de tinta.
Quase apagada.
Duas linhas.
Uma letra.
Um número.
Sarah aproximou-se.
— Isso estava nas fotografias originais?
— Sim. A resolução das cópias antigas escondia. A digitalização do negativo preservado revelou melhor.
— O que significa?
— Ainda não sabemos.
Sarah leu.
T-6.
— Código interno?
— É o que estão verificando.
Ela fechou os olhos.
— Cullen & Black?
— Possivelmente.
— Não vou procurar.
O criminalista sorriu.
— Estou orgulhoso.
— Não exagera.
Dessa vez Sarah não foi ao arquivo.
Nem Edward.
Nem Jacob.
As autoridades solicitaram diretamente os registros históricos pertinentes.
Dois dias.
Três.
No quarto, nenhuma ligação.
No quinto, também não.
No sexto, Sarah estava começando a considerar homicídio contra o próprio telefone.
Jacob entrou no escritório.
Colocou café sobre a mesa.
— Não é camomila.
— Eu te amo.
Silêncio.
Sarah congelou.
Jacob congelou.
Os dois olharam um para o outro.
Sarah percebeu o que dissera.
Jacob também.
O coração dela disparou.
— Eu quis dizer...
Ele não se moveu.
— Não.
Sarah parou.
Jacob aproximou-se lentamente.
— Não conserta.
Ela sentiu o rosto esquentar.
— Foi por causa do café.
— Claro.
— Jacob.
Ele estava sorrindo.
Não brincando.
Sorrindo daquele jeito que desmontava alguma coisa dentro dela.
— Você está muito feliz com isso.
— Bastante.
Sarah cobriu o rosto.
— Meu Deus.
Jacob segurou seus pulsos e afastou gentilmente as mãos.
— Olha para mim.
— Não.
— Sarah.
— Isso é humilhante.
— Por quê?
— Porque saiu por causa de cafeína.
— Eu aceito.
Ela finalmente olhou.
Jacob estava perto.
Muito.
— Você não precisa dizer nada.
O sorriso dele diminuiu.
Ficou mais suave.
— Preciso.
Sarah sentiu o coração bater ainda mais rápido.
Mas o telefone tocou.
Os dois ficaram imóveis.
Jacob olhou para o aparelho.
Depois para ela.
— Eu odeio esse homem.
Sarah começou a rir.
— Você nem sabe se é ele.
Olhou.
Era.
Jacob fechou os olhos.
— Claro.
Sarah atendeu ainda rindo.
— Você tem o pior timing do planeta.
Silêncio.
O tom do outro lado apagou imediatamente seu sorriso.
— Sarah, encontraram o significado de T-6.
Ela ficou séria.
Jacob percebeu.
— O que significa?
— Teste seis.
Sarah sentiu um arrepio.
— Explique.
— Componentes experimentais recebiam marcação manual durante ensaios internos. T-6 era a sexta unidade de um lote específico.
Sarah ficou imóvel.
— Individualiza a peça?
— Ao que tudo indica, sim.
Ela segurou a mesa.
— E existe registro da unidade seis?
— Existe.
Jacob aproximou-se.
Sarah mal respirava.
— É a peça retirada pelo Volturi & Associados?
Pausa.
— O registro de saída identifica especificamente a unidade T-6.
O mundo pareceu ficar silencioso.
Sarah fechou os olhos.
Agora era diferente.
Não apenas mesmo lote.
Não apenas modelo compatível.
A mesma unidade experimental retirada da Cullen & Black três dias antes do acidente correspondia à marca encontrada no componente fotografado no carro destruído.
— Tem certeza?
— A confirmação documental é forte. Ainda haverá análise técnica formal, mas os registros convergem.
Sarah abriu os olhos.
Jacob estava diante dela.
— Sarah?
Ela não respondeu ainda.
Perguntou ao telefone:
— Então a peça que saiu da empresa...
— É compatível individualmente com a peça encontrada no veículo.
— Solicitada...
— Pelo protocolo associado à Dra. I.V.
Sarah sentiu frio.
— E não devolvida.
— Sem registro de devolução.
Ela fechou os olhos.
Quando falou, a voz saiu baixa.
— Agora muda.
— Muda bastante.
A ligação terminou.
Jacob esperou.
Sarah olhou para ele.
— T-6 individualiza o componente.
Ele ficou imóvel.
— E?
Sarah respirou.
— Era a peça retirada.
Jacob não reagiu imediatamente.
Como se precisasse ouvir de novo.
— A peça que Irina pediu?
Sarah escolheu cada palavra.
— A peça cuja retirada foi solicitada em protocolo associado a Irina.
— Sarah.
Os olhos dele já estavam cheios.
Ela não corrigiu de novo.
— Três dias antes do acidente.
— Sim.
— E foi encontrada no carro da minha mãe.
Sarah assentiu.
— Sim.
Jacob fechou os olhos.
Ela segurou sua mão.
Dessa vez, nenhum dos dois falou durante muito tempo.
Porque a investigação acabara de atravessar uma linha.
Ainda não havia autoria da sabotagem.
Ainda não havia prova de quem instalara o componente.
Ainda não havia prova de quem o adulterara.
Mas havia algo que antes não existia.
Um caminho físico.
Documentado.
Da Cullen & Black.
Para o Volturi & Associados.
E depois para o carro em que Sarah Black e Esme Cullen morreram.
Quando Jacob abriu os olhos, a primeira coisa que disse não foi sobre Irina.
— Você ia dizer alguma coisa antes do telefone tocar.
Sarah piscou.
— Jacob.
— Eu lembro.
Ela sentiu o rosto aquecer novamente.
— Não era importante.
— Você disse que me amava.
— Eu disse que amava o café.
— Mentira.
— Tecnicamente...
Jacob puxou-a pela cintura.
— Não usa “tecnicamente” agora.
Sarah tentou sustentar a expressão.
Falhou.
— O momento passou.
— Não passou para mim.
Ela olhou para ele.
E toda a investigação continuava ali.
As mães.
Irina.
A peça.
Dezenove anos.
Mas também havia aquilo.
O presente.
O homem diante dela.
Não o menino do penhasco.
Não o marido de brincadeira de quando tinha quatro anos.
Jacob.
Seu namorado.
A pessoa que ela escolhera sem memória alguma mandando escolher.
Sarah tocou o rosto dele.
— Eu amo você.
Dessa vez não saiu por causa do café.
Não escapou.
Não foi acidente.
Ela escolheu cada palavra.
Jacob fechou os olhos por um segundo.
Quando abriu, estavam molhados.
— Eu amo você também.
Sarah sorriu.
— Há quanto tempo?
Ele riu baixinho.
— Tempo suficiente para quase falar outro dia e ficar covardemente no “admiro”.
Sarah arregalou os olhos.
— Eu sabia.
— Sabia nada.
— Sabia.
— Advogada insuportável.
— Presidente arrogante.
Jacob beijou-a.
Devagar.
Sem urgência.
E Sarah pensou, enquanto os braços dele a envolviam, que era estranho descobrir no mesmo dia duas coisas capazes de mudar sua vida.
Uma pertencia ao passado.
Uma peça marcada T-6 começava finalmente a mostrar como duas mulheres tinham morrido.
A outra pertencia exclusivamente ao presente.
Jacob Black a amava.
E, pela primeira vez em muito tempo, Sarah não precisou investigar absolutamente nada para acreditar.
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