MEMÓRIAS
33 CAPÍTULO - 32 Entre a peça e o carro
Às oito e dezessete da manhã, Emmett percebeu.
Sarah ainda não havia tirado o casaco.
Jacob ainda segurava o café.
Edward estava diante da máquina, esperando que ela produzisse alguma coisa remotamente parecida com café.
E Emmett simplesmente olhou para os dois.
Primeiro para Jacob.
Depois para Sarah.
Depois novamente para Jacob.
Estreitou os olhos.
— Não.
Sarah parou.
— O quê?
Emmett apontou para ela.
— Você.
Depois para Jacob.
— Você.
Jacob franziu a testa.
— O que tem?
— Alguma coisa aconteceu.
Sarah tirou o casaco.
— Muitas coisas acontecem diariamente, Emmett.
— Não tenta me distrair com inteligência.
Edward pegou a xícara.
— Essa frase explica muito sobre você.
— Cala a boca.
Emmett aproximou-se.
— Vocês estão diferentes.
Sarah olhou para Jacob.
Jacob olhou para Sarah.
Erro.
Emmett abriu a boca.
— MEU DEUS.
— Fala baixo — Edward reclamou.
— Eles falaram!
Sarah congelou.
Jacob quase engasgou com o café.
Edward virou.
— Falaram o quê?
Emmett colocou as duas mãos no peito.
— Eu não acredito que vocês fizeram isso sem mim.
Sarah fechou os olhos.
— Como exatamente deveríamos fazer isso com você?
— Não sei. Mas eu devia estar informado.
Jacob começou a rir.
Edward continuava olhando de um para outro.
Então compreendeu.
— Ah.
Sarah apontou.
— Não começa com o “ah” de novo.
— Eu só disse “ah”.
— Seu “ah” é irritante.
Emmett estava quase pulando.
— Quem falou primeiro?
— Não é da sua conta.
— Foi Jacob?
Sarah ficou quieta.
Emmett olhou para Jacob.
— Foi Sarah.
Jacob tentou esconder o sorriso.
Falhou.
— FOI SARAH!
— Emmett!
— Eu sabia!
— Como?
— Ele está com a cara de homem que ganhou na loteria.
Jacob tomou café.
— Estou tentando não participar.
— Tarde demais. Conta.
Sarah cruzou os braços.
— Não.
Emmett virou para Jacob.
— Conta.
— Não.
— Edward.
— Por que eu saberia?
— Você é gêmeo dela.
Edward olhou para Sarah.
— Você disse primeiro?
Sarah ficou vermelha.
Edward sorriu.
Aquilo era raro.
E, por algum motivo, pior.
— Você também está insuportável — Sarah reclamou.
Edward bebeu o café.
— Não falei nada.
Emmett colocou as mãos na cintura.
— Quero saber como aconteceu.
Jacob respondeu:
— Café.
Silêncio.
Sarah virou lentamente.
— Jacob Black.
Emmett arregalou os olhos.
— Café?
Jacob já estava rindo.
— Ele trouxe café — Sarah explicou rapidamente.
— E ela disse “eu te amo”.
Emmett ficou absolutamente imóvel.
Então começou a rir tão alto que precisou apoiar a mão na parede.
Sarah apontou para Jacob.
— Nosso relacionamento acabou.
— Durou pouco — Edward comentou.
— Eu não acredito! — Emmett mal conseguia falar. — A primeira declaração de amor de Sarah foi para um café!
— Não foi para o café!
— Foi um pouco — Jacob disse.
Sarah olhou para ele.
— Quer morrer?
— Mas depois ela repetiu.
O riso de Emmett cessou.
Sarah ficou quieta.
Jacob também.
Edward olhou para os dois.
Dessa vez, o sorriso dele foi diferente.
Mais suave.
Emmett respirou.
— E você?
Jacob olhou para Sarah.
— Eu também.
Emmett abriu os braços.
— Agora eu preciso abraçar alguém.
— Não — disseram os três.
Ele abraçou todos mesmo assim.
A felicidade durou exatamente vinte e três minutos.
Depois o telefone de Sarah tocou.
O criminalista.
O ambiente mudou instantaneamente.
Ela atendeu.
— Bom dia.
Silêncio do outro lado.
Sarah franziu a testa.
— Viu? Estou melhorando.
— Estou impressionado.
— Não se acostume.
Jacob já observava.
— Alguma novidade?
— Sobre a T-6.
Sarah sentou.
— Pode falar.
— A análise documental preliminar confirmou a correspondência entre a marcação interna registrada na Cullen & Black e a marca visível nas fotografias periciais do componente retirado do veículo.
Sarah ficou séria.
— Então podemos parar de dizer apenas “mesmo lote”.
— Podemos dizer que os elementos disponíveis apontam para a mesma unidade identificada como T-6, sem prejuízo da formalização pericial dessa conclusão.
— Certo.
Emmett abriu a boca.
Edward fez sinal para que ficasse quieto.
Sarah perguntou:
— E agora?
— Agora começa a parte difícil.
— Saber como saiu do escritório e foi parar no carro.
— Exatamente.
— Thomas?
— Ainda não acrescentou nada que resolva isso.
— A garagem?
— Está sendo apurada.
Sarah olhou para Jacob.
— E Irina?
— Ainda não foi chamada especificamente para responder sobre a T-6.
Sarah ficou surpresa.
— Por quê?
— Porque antes querem fechar a cronologia documental possível.
Ela imediatamente concordou.
— Melhor.
Jacob aproximou-se.
Sarah perguntou:
— O que falta?
— Entre outras coisas, descobrir se existiu alguma movimentação da T-6 depois da retirada feita por Thomas.
— O escritório guardava protocolo interno?
— É o que estão verificando.
Sarah sentiu a primeira pontada de expectativa.
— O Volturi & Associados ainda existe.
— Existe.
— Então os arquivos...
— Sarah.
Ela parou.
— Certo.
— Não ligue.
— Não ia ligar.
Edward soltou uma pequena tosse.
Sarah olhou para ele.
— Ninguém perguntou sua opinião.
O advogado continuou:
— Foi feita solicitação formal de preservação e apresentação dos registros pertinentes que ainda existam.
Sarah ficou imóvel.
— Aro já sabe?
— Presumivelmente o escritório sabe que documentos foram requisitados. Não sabemos o que Aro pessoalmente sabe.
— Certo.
— E, Sarah...
— Eu sei. Não confrontar ninguém.
— Estou começando a gostar de você.
— Não exagera.
Desligou.
Jacob olhou.
— Então Aro sabe que estão olhando o escritório.
— O escritório sabe.
— Mesma coisa.
— Não necessariamente.
Ele respirou.
— Você nunca deixa uma frase sobreviver.
— É um dom.
No Volturi & Associados, Aro fechou a porta da própria sala.
Irina estava diante dele.
O documento sobre a mesa não precisava de explicação.
Ela já o tinha lido.
Solicitação formal de preservação e apresentação de registros históricos específicos.
Datas.
Protocolos.
Movimentação de materiais.
Thomas Reed.
Irina ficou pálida.
— Encontraram Thomas.
Aro levantou os olhos.
— Parece que sim.
— Ele falou?
— Não sei.
— Aro...
— Eu disse que não sei.
Ela começou a andar.
— Isso não deveria existir.
Aro ficou imóvel.
— O quê?
Irina parou.
Um segundo.
Pequeno demais.
Mas ele viu.
— Os registros — ela respondeu.
— Registros de dezenove anos atrás existem o tempo todo.
— Eu quis dizer...
— Eu sei o que você quis dizer.
Irina apertou os braços contra o corpo.
Aro a observou.
— O que aconteceu com aquela peça?
— Eu já disse.
— Não.
Ele levantou.
— Você nunca me disse.
Irina desviou os olhos.
— Era uma disputa com fornecedor.
— Não estou perguntando por que você requisitou.
Ele se aproximou.
— Estou perguntando o que aconteceu depois.
— Foi devolvida.
— Não existe registro de devolução.
— Então perderam o registro.
Aro ficou em silêncio.
— Você tem certeza?
Irina levantou os olhos.
— Claro.
— Interessante.
— O quê?
— Porque você respondeu rápido demais.
Ela ficou rígida.
— Está me interrogando?
— Estou tentando descobrir o que minha própria esposa fez usando o meu escritório.
— Nosso escritório.
— Meu nome estava na porta.
— E eu trabalhava lá.
— Exatamente.
Silêncio.
Aro aproximou-se da mesa.
— Se existe alguma coisa que eu ainda não sei, este é o momento.
Irina riu sem humor.
— Depois de dezenove anos?
— Principalmente depois de dezenove anos.
Ela pegou a bolsa.
— Não tenho nada para contar.
Aro segurou seu braço.
Não com violência.
Mas impediu que saísse.
— Irina.
Ela olhou para a mão.
Aro soltou.
— Encontraram Sarah Cullen.
Irina ficou imóvel.
— Encontraram o laudo.
Silêncio.
— Encontraram Thomas.
Mais silêncio.
— Agora estão procurando uma peça que passou pelo nosso escritório.
Aro abaixou a voz.
— Se você está escondendo alguma coisa de mim, não é mais Sarah que precisa me preocupar.
Irina engoliu.
— É você.
Ela saiu sem responder.
Aro permaneceu olhando para a porta fechada.
E pela primeira vez considerou seriamente uma possibilidade que não gostava.
Talvez tivesse passado dezenove anos protegendo uma mulher sem conhecer toda a história que estava protegendo.
A resposta sobre os arquivos do escritório veio quatro dias depois.
Sarah estava almoçando com Rosalie.
Pela primeira vez em semanas, tinha aceitado sair do prédio.
Rosalie colocou o garfo no prato.
— Você está diferente.
Sarah fechou os olhos.
— Não começa.
— O quê?
— Todo mundo está dizendo isso.
Rosalie sorriu.
— Então todo mundo percebeu.
— Percebeu o quê?
— Jacob.
Sarah bebeu água.
— Não sei do que está falando.
— Você está dormindo com ele.
Sarah engasgou.
Rosalie continuou tranquilamente:
— E apaixonada.
— Rosalie!
— O restaurante inteiro não precisa saber.
— Você acabou de...
O telefone tocou.
Sarah olhou.
Criminalista.
Rosalie apontou.
— Salva pelo trabalho.
Sarah atendeu.
— Oi.
— Pode falar?
Sarah olhou ao redor.
— Um minuto.
Levantou e foi para uma área mais reservada.
— Agora.
— O escritório respondeu.
Sarah encostou-se à parede.
— E?
— Informou que parte dos arquivos físicos daquele período foi destruída conforme política regular de retenção documental anos atrás.
Sarah sentiu a frustração.
— Conveniente.
— Não.
Ela parou.
— Não?
— Não comece.
Sarah fechou os olhos.
— Certo. Destruição regular não significa destruição criminosa.
— Exatamente.
— Existe comprovação da política?
— Existe. E aparentemente era aplicada de forma geral.
— Então perdemos.
— Não necessariamente.
O tom dele mudou.
Sarah percebeu.
— O que sobreviveu?
— Um sistema contábil antigo.
Ela franziu a testa.
— Contabilidade?
— Reembolsos de despesas.
Sarah ficou imóvel.
— Thomas.
— Exatamente.
— Quilometragem?
— Entre outras coisas.
Sarah sentiu o coração acelerar.
— Encontraram a entrega?
— Encontraram um lançamento três dias antes do acidente.
— O mesmo dia da retirada?
— Sim.
— Destino?
Pausa.
— Não há endereço.
Sarah soltou o ar.
— Então...
— Tem um código de cliente interno.
Ela parou.
— Qual?
— RB-47.
Sarah não respirou.
Robert.
Black.
Quarenta e sete.
— Isso é interpretação.
— Por enquanto.
Sarah fechou os olhos.
— Mais alguma coisa?
— Há horário.
— Que horas?
— Retirada na Cullen & Black registrada às 14h12.
— E o reembolso?
— Saída do escritório às 15h03. Retorno às 17h41.
Sarah começou a fazer a conta mentalmente.
— Tempo suficiente para chegar à propriedade de Robert?
— Sim.
— Confirmaram?
— O trajeto é compatível.
— Mas não prova destino.
— Ainda não.
Sarah respirou.
— Thomas viu isso?
— Ainda não.
— Melhor.
— Concordo.
— Vão confrontar?
— Primeiro querem saber se RB-47 aparece em outros registros.
Sarah sorriu de leve.
— Você está me treinando.
— Está funcionando.
— Pouco.
— Muito.
A ligação terminou.
Sarah voltou à mesa.
Rosalie olhou para seu rosto.
— Ruim?
Sarah sentou.
— Importante.
Rosalie não perguntou.
Sarah percebeu.
— Obrigada.
— Pelo quê?
— Por não perguntar.
Rosalie deu de ombros.
— Quando puder contar, conta.
Sarah olhou para a amiga.
E então lembrou.
Hale.
Robert Hale.
— Rosalie.
— Hum?
Sarah hesitou.
Não queria contaminar.
Mas aquilo podia ser resolvido de forma simples.
— Seu sobrenome.
Rosalie ergueu uma sobrancelha.
— Continua Hale desde que nasci.
Sarah quase sorriu.
— Sua família é daqui?
— Em parte.
— Seu avô se chamava Robert?
Rosalie parou com o garfo no ar.
Sarah imediatamente percebeu.
— Sim.
Silêncio.
Rosalie colocou o garfo no prato.
— Por quê?
Sarah não respondeu de imediato.
— Qual era o nome completo dele?
— Robert William Hale.
Sarah sentiu um arrepio.
— Ele trabalhava com automobilismo?
Rosalie ficou completamente imóvel.
— Sarah.
— Preciso saber.
— Meu avô patrocinava corridas.
Silêncio.
Sarah sentiu o coração acelerar.
Rosalie franziu a testa.
— Por que você está perguntando sobre meu avô?
Sarah respirou.
Agora não havia mais como simplesmente desviar.
— Porque o nome dele apareceu na investigação sobre a morte de Esme e Sarah Black.
Rosalie perdeu a cor.
— O quê?
— Isso não significa que ele tenha feito nada.
— Sarah...
— Rosalie, escuta.
Ela segurou a mão da amiga.
— Existe uma propriedade que pertenceu a ele. Uma garagem.
Rosalie olhou fixamente.
— A casa da estrada velha?
Sarah sentiu o corpo inteiro ficar atento.
— Você conhece?
— Claro.
— Ainda pertence à sua família?
— Não. Meu pai vendeu depois que meu avô morreu.
Sarah respirou.
— Você esteve lá quando criança?
— Muitas vezes.
Pausa.
— Sarah, o que está acontecendo?
Sarah escolheu cada palavra.
— Uma testemunha lembra de ter feito uma entrega naquela garagem pouco antes do acidente.
Rosalie ficou pálida.
— Para meu avô?
— Não sabemos.
— O que entregou?
— Também não sabemos com segurança.
Sarah não contaria mais.
Não sem necessidade.
Rosalie puxou a mão devagar.
Pensou.
— Espera.
Sarah percebeu.
— O quê?
— Meu avô guardava coisas.
— Que coisas?
— Tudo.
Rosalie quase sorriu.
— Ele era incapaz de jogar papel fora. Minha mãe enlouquecia.
Sarah ficou imóvel.
— Documentos?
— Caixas. Fotografias. Cadernos. Troféus. Peças de carro. Notas fiscais.
O coração de Sarah acelerou.
— Onde?
— Depois que ele morreu, meu pai esvaziou a propriedade.
— E jogou fora?
Rosalie pensou.
— Não tudo.
— Onde está?
— Num depósito.
Sarah quase se levantou.
Parou.
Respirou.
Método.
— Não mexe.
Rosalie franziu a testa.
— O quê?
— Não vá lá.
— Sarah...
— Por favor. Se existe possibilidade de haver material relacionado ao caso, não quero que a gente abra caixas sem registrar nada.
Rosalie ficou alguns segundos em silêncio.
Depois assentiu.
— Certo.
Sarah imediatamente ligou para o criminalista.
— Você vai me odiar.
— O que você fez?
— Nada.
— Essa resposta me preocupa.
— Estou almoçando com Rosalie Hale.
Silêncio.
— Hale.
— Sim.
— Não.
— Sim.
— Parente?
— Neta de Robert.
Silêncio.
— E você perguntou.
— Perguntei apenas parentesco e se conhecia a propriedade.
— Sarah.
— Eu parei.
— Depois de quê?
— Depois que ela mencionou espontaneamente que o avô guardava arquivos e que parte foi levada para um depósito quando ele morreu.
Do outro lado, silêncio.
— Não toquem em nada.
— Eu já disse isso.
— Onde fica?
Sarah olhou para Rosalie.
— Precisamos descobrir formalmente.
Rosalie respondeu:
— Eu sei onde fica.
Sarah fechou os olhos.
— Claro que sabe.
O depósito foi preservado.
Rosalie autorizou o acesso ao que ainda pertencia à família Hale, com acompanhamento adequado.
Sarah não participou da primeira inspeção.
Emmett ficou ofendido em solidariedade à namorada.
— É a família dela.
— Exatamente.
— Eu devia estar com ela.
Sarah respondeu:
— Como namorado, sim. Como investigador improvisado, não.
— Você usa “namorado” de maneira muito diferente dependendo da conveniência.
Jacob, ao lado, sorriu.
— Ela faz isso.
Sarah olhou para ele.
— Você quer começar?
— Jamais.
Edward balançou a cabeça.
— Vocês ficaram piores depois do “eu te amo”.
Emmett congelou.
Virou para Sarah.
— Você contou para ele?
— Não.
Edward apontou para Jacob.
— Ele entrou na reunião hoje sorrindo para uma parede.
Sarah começou a rir.
Jacob ficou ofendido.
— Eu não estava sorrindo para uma parede.
— Estava.
— Eu estava pensando.
Emmett colocou a mão no coração.
— No amor.
— Meu Deus — Sarah murmurou.
A inspeção do depósito levou dois dias.
No terceiro, o criminalista pediu que Sarah fosse até o escritório.
Jacob a acompanhou, mas esperou do lado de fora da sala.
Sarah entrou.
Sobre a mesa havia uma caixa transparente de preservação.
Dentro, um caderno antigo.
Não o do perito.
Outro.
— De Robert? — perguntou.
— Sim.
— Confirmado?
— O material estava identificado no arquivo familiar e Rosalie reconheceu a letra do avô apenas como informação inicial. A autenticidade ainda será analisada no que for necessário.
Sarah assentiu.
— O que tem?
O advogado abriu uma reprodução digital.
Registros de oficina.
Datas.
Peças.
Carros.
Testes.
Sarah percorreu.
Até chegar à semana do acidente.
Três dias antes.
Uma anotação.
15h48 — entrega V.
Sarah sentiu frio.
— V.
— Sim.
Abaixo:
T-6. Não instalar. Aguardar instruções.
Sarah parou.
Leu novamente.
— “Não instalar.”
— Sim.
— Então a peça chegou à garagem.
— Ao menos o caderno registra que a T-6 estava ali.
Sarah respirou.
— E Robert sabia.
— Parece que sim.
Ela continuou lendo.
Dia seguinte.
Nenhuma menção.
Depois.
Véspera do acidente.
Uma linha.
Sarah aproximou a tela.
T-6 retirada — 18h20.
Só isso.
Nenhum nome.
Nenhuma assinatura.
Nenhum destino.
Sarah sentiu o estômago apertar.
— Quem retirou?
— Não sabemos.
— Robert estava lá?
— Ainda não sabemos.
— Thomas?
— A entrega dele teria ocorrido dois dias antes dessa retirada.
Sarah ficou olhando.
Agora existia uma lacuna de pouco mais de vinte e quatro horas.
A peça chegara à garagem.
Ficara ali.
Depois saíra.
E, na manhã seguinte, estava no carro.
— Essa é a ponte — Sarah murmurou.
— É o que precisam reconstruir.
Ela continuou passando as páginas.
Nada.
Até uma folha solta digitalizada junto ao caderno.
Sarah parou.
— O que é isso?
— Foi encontrada entre as páginas daquela semana.
Era uma nota curta.
Sem assinatura.
Robert,
não mexa na peça. Ela será buscada amanhã.
Sarah sentiu um arrepio.
Abaixo, apenas uma inicial.
I.
Sarah fechou os olhos.
— Não.
O advogado observou.
— O quê?
— Não me diga que isso é Irina.
— Eu não ia dizer.
Sarah abriu os olhos.
— Ótimo.
— Porque não sabemos.
Ela respirou.
— Letra?
— Está sendo comparada com documentos contemporâneos disponíveis por via adequada.
— Pode ser Robert anotando uma mensagem telefônica.
— Pode.
— Pode ser bilhete entregue por outra pessoa.
— Pode.
— Pode ser alguém com qualquer nome começando com I.
— Exatamente.
Sarah assentiu.
— Então ainda não temos Irina retirando a peça.
— Não.
— Temos a T-6 chegando à garagem e depois sendo retirada na véspera do acidente.
— Sim.
Sarah ficou olhando para as datas.
Algo incomodava.
— Espera.
— O quê?
— Se a peça saiu às 18h20 na véspera...
Ela olhou para o advogado.
— O carro estava onde?
Silêncio.
Ele sorriu de leve.
— Essa é a pergunta certa.
Billy soube responder.
Naquela noite, Sarah reuniu apenas Billy e Jacob.
Sem contar sobre a inicial.
Sem contar quem poderia ter deixado o bilhete.
Somente a pergunta necessária.
— Onde estava o carro na noite anterior ao acidente?
Billy pensou.
— Em casa.
— Tem certeza?
— Sarah e Esme sairiam cedo no dia seguinte. Esme dormiu lá.
Jacob ficou imóvel.
Sarah perguntou:
— O carro ficava numa garagem fechada?
— Sim.
— Quem tinha acesso?
Billy franziu a testa.
— Eu e Sarah.
— Funcionários?
— O caseiro tinha chave externa. O motorista também.
— Carlisle?
— Tinha acesso à casa, mas não sei se tinha chave da garagem.
— Esme?
— Sarah teria aberto para ela.
Sarah anotou.
— Irina?
Billy olhou para ela.
— Não.
— Nunca teve chave?
— Não que eu saiba.
— Aro?
— Não.
Jacob respirou.
— Então alguém teria que entrar.
Sarah ergueu os olhos.
— Ou alguém com acesso instalou.
— Funcionário.
— Talvez.
— Ou meu pai.
Billy virou.
— Jacob.
— Estou falando de acesso, não culpa.
Sarah quase sorriu.
Ele estava aprendendo.
— Exatamente.
Ela voltou para Billy.
— Houve alguma movimentação naquela noite? Entrega? Visita?
Billy fechou os olhos.
Pensou.
— Eu saí.
Sarah parou.
— Que horas?
— Não lembro.
— Para onde?
— Jantar com Carlisle.
Jacob olhou para o pai.
— As duas ficaram sozinhas?
— Sarah e Esme estavam em casa. Havia funcionários.
Sarah sentiu a investigação se reorganizar.
— Quanto tempo ficou fora?
— Algumas horas.
— Quando voltou?
— Sarah já estava dormindo.
— Viu o carro?
— Não.
Silêncio.
Sarah anotou.
Billy percebeu.
— Você acha que mexeram enquanto eu estava fora.
— Eu acho que precisamos verificar quem teve oportunidade.
— E Sarah?
— Sua esposa podia ter visto alguma coisa.
Billy fechou os olhos.
— Ela morreu antes de poder contar.
A frase pesou.
Sarah ficou quieta.
Jacob segurou o ombro do pai.
Então Billy abriu os olhos.
— Espera.
Sarah levantou a cabeça.
— O quê?
— Naquela noite...
Ele parou.
— Não sei se é importante.
— Não decide isso. Só conta o que lembra.
Billy pensou.
— Quando voltei, o portão lateral estava aberto.
Sarah ficou imóvel.
— Isso era incomum?
— Muito.
— O caseiro?
— Reclamei com ele na manhã seguinte.
— E o que ele disse?
Billy franziu a testa.
— Que não tinha deixado aberto.
Silêncio.
Jacob ficou rígido.
— Pai...
Billy olhou para ele.
— Eu achei que alguém tivesse esquecido.
Sarah perguntou:
— O caseiro está vivo?
Billy demorou.
— Acho que sim.
Sarah fechou o caderno.
— Então não vamos ligar para ele.
Jacob quase sorriu.
— Eu sabia.
— A informação vai para quem está conduzindo as diligências.
Billy assentiu.
Sarah pegou o telefone.
Mas antes de ligar, Billy falou:
— Sarah.
Ela olhou.
— Tem outra coisa.
— O quê?
— Eu não estava com Carlisle naquela noite inteira.
Sarah parou.
— Explique.
Billy respirou.
— Carlisle foi embora antes de mim.
— Que horas?
— Não lembro.
— E você ficou onde?
— No restaurante.
— Sozinho?
Billy ficou quieto.
Jacob percebeu.
— Pai?
Billy passou a mão pelo rosto.
— Irina apareceu.
O silêncio foi absoluto.
Sarah não se moveu.
— No restaurante?
— Sim.
— Por acaso?
Billy riu sem humor.
— Foi o que ela disse.
Sarah sentiu o coração acelerar.
— Quanto tempo ficou?
— Talvez quarenta minutos.
— Aro estava com ela?
— Não.
— Ela sabia que Sarah Black estava em casa?
Billy levantou os olhos.
— Sabia.
Sarah sentiu frio.
— Como?
— Porque perguntou.
Jacob ficou imóvel.
— Perguntou o quê?
Billy respondeu:
— Se Sarah não tinha ido comigo.
Sarah pousou lentamente a caneta.
— E você disse?
— Que ela estava em casa com Esme.
Ninguém falou.
Billy empalideceu.
Como se somente naquele instante, dezenove anos depois, tivesse compreendido o peso daquela conversa.
— Meu Deus.
Jacob segurou o braço dele.
— Pai.
— Eu disse onde ela estava.
— Você não fez nada.
— Eu disse...
Sarah interrompeu imediatamente.
— Billy.
Ele olhou.
— Não começa.
A voz dela era firme.
— Não faça com essa noite o que Jacob fez com o penhasco.
Billy ficou imóvel.
— Se Irina fez alguma coisa depois de ouvir você, a decisão foi dela.
Silêncio.
— Informação não é culpa.
Billy respirou com dificuldade.
Sarah continuou:
— E ainda não sabemos se ela fez.
Ele assentiu lentamente.
Jacob olhou para Sarah.
Ela percebeu.
O mesmo padrão.
Culpa.
De pai para filho.
Talvez a família Black tivesse carregado culpa demais por coisas feitas por outras pessoas.
Sarah pegou o telefone.
— Agora isso precisa ser formalizado.
Mais tarde, Jacob levou Sarah para casa.
Ela estava exausta.
No elevador, apoiou a cabeça no ombro dele.
— Dia ruim.
— Muito.
— Seu pai vai ficar bem?
— Vai.
Pausa.
— Eventualmente.
Sarah segurou sua mão.
Quando chegaram ao apartamento, Jacob abriu a porta.
Sarah entrou.
Largou a bolsa.
Virou.
Ele ainda estava na entrada.
— Você vai embora?
Jacob ergueu uma sobrancelha.
— Quer que eu fique?
Sarah olhou.
— Quero.
Ele entrou.
Fechou a porta.
Sarah se aproximou.
— E antes que meu telefone toque...
Jacob sorriu.
— Sim?
Ela passou os braços pelo pescoço dele.
— Eu amo você.
O sorriso desapareceu.
Não por tristeza.
Por emoção.
Jacob tocou o rosto dela.
— Repete.
Sarah riu.
— Não abusa.
— Uma vez.
— Jacob.
— Por favor.
Ela ficou na ponta dos pés.
Encostou os lábios nos dele.
— Eu amo você.
Ele fechou os olhos.
— Melhor que café?
Sarah começou a rir.
— Não estraga.
— Pergunta legítima.
— Muito melhor.
— Ótimo.
Ele a beijou.
Sarah ainda sorria contra sua boca.
Quando se afastaram, Jacob encostou a testa na dela.
— Eu amo você.
Dessa vez não havia telefone.
Nenhum laudo.
Nenhuma investigação.
Nenhuma interrupção.
Sarah fechou os olhos.
Guardou.
Desde o começo.
Como havia prometido naquela primeira noite.
Do outro lado da cidade, Irina entrou no escritório de Aro depois das dez.
Ele ainda estava lá.
Sozinho.
Ela fechou a porta.
— Precisamos conversar.
Aro levantou os olhos.
— Finalmente.
Irina não sentou.
— Recebi uma ligação hoje.
— De quem?
— Uma pessoa que ainda conhece gente ligada à antiga estrutura da Cullen & Black.
Aro fechou lentamente a pasta diante dele.
— Continue.
— Estão procurando documentos relacionados a Robert Hale.
Aro ficou imóvel.
— Robert morreu há onze anos.
— Eu sei.
— Então o interesse não é nele.
Irina não respondeu.
Aro compreendeu.
— É no que ele deixou.
Ela apertou a bolsa.
— Se Robert guardou aqueles cadernos...
A frase morreu.
Aro não se mexeu.
— Que cadernos?
Irina ergueu os olhos.
Percebeu tarde demais.
— Os registros da garagem.
— Como você sabe que existiam registros na garagem?
— Robert anotava tudo.
— Eu conheci Robert durante anos e não sabia disso.
— Você não passava o tempo que nós passávamos lá.
Aro se levantou.
— “Nós”?
Irina ficou rígida.
— Todos nós.
— Não foi isso que você quis dizer.
— Não começa.
Ela virou.
Aro falou:
— A peça esteve naquela garagem?
Irina parou.
Não se virou.
Aro observou cada músculo de suas costas ficar tenso.
— Eu não disse que encontraram uma garagem — continuou.
Silêncio.
Irina virou lentamente.
— Você falou em Robert Hale. Era óbvio.
— Não.
Aro se aproximou.
— Óbvio seria pensar nos negócios dele. Nos contratos. Nas empresas. Você pensou imediatamente na garagem.
Irina tentou sustentar o olhar.
— Porque era onde ele guardava material técnico.
— E como você sabe qual material estão procurando?
Ela não respondeu.
Aro chegou mais perto.
— Irina, eu estou começando a perceber que, durante dezenove anos, eu soube apenas a parte dessa história que você decidiu me contar.
— Você sabia o suficiente.
Aro ficou imóvel.
A frase escapara.
Irina percebeu.
Tarde demais.
— O suficiente para quê?
— Não distorce minhas palavras.
— Não preciso.
A voz dele ficou baixa.
— Você acabou de me dizer que eu sabia “o suficiente”.
Irina apertou a mandíbula.
— Eu quis dizer sobre as famílias.
— Não.
— Aro...
— Não faça comigo o que você faz com todo mundo.
Silêncio.
— Eu quero saber o que aconteceu com a T-6 depois que saiu do escritório.
Irina empalideceu.
Aro viu.
— Então é esse o código.
Ela fechou os olhos por uma fração de segundo.
Outro erro.
Aro deu um passo para trás.
— Você não sabia que eu conhecia o código.
Irina respirou.
— Trabalhei naquele procedimento.
— Dezenove anos atrás.
— Eu tenho boa memória.
Aro riu sem humor.
— Curioso.
Ela abriu a porta.
— Não tenho nada para dizer.
— Tem.
Irina parou.
Aro continuou:
— Só ainda não decidiu quanto precisa me contar para continuar me usando como escudo.
Ela virou.
A raiva apareceu.
— Eu não preciso de você como escudo.
— Então pare de agir como se precisasse.
Os dois se encararam.
Aro falou mais baixo:
— Se os arquivos de Robert ainda existirem, eles vão encontrar o que ele escreveu.
Irina ficou imóvel.
— E se ele escreveu alguma coisa que você passou dezenove anos tentando esquecer...
Pausa.
— Eu sugiro que você comece a lembrar.
Irina saiu.
Aro permaneceu sozinho.
Não sabia o que Robert havia registrado.
Não sabia se Irina estivera naquela garagem na véspera do acidente.
Não sabia quem levara a T-6 até o carro.
Mas agora sabia uma coisa que o incomodava ainda mais.
Irina não temia apenas o que as autoridades poderiam descobrir.
Ela temia o que Robert Hale poderia ter deixado escrito.
E aquele medo existia antes que Aro sequer soubesse que os cadernos de Robert poderiam ter sobrevivido.
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