MALANDRA
13 Capítulo 13
Nós não deixávamos rastro digital de nada, esse era o protocolo, todos os arquivos deveriam ser devidamente apagados e uma única cópia impressa era entregue ao meu pai. Depois disso, ele tratava de esconde-los muito bem, tão bem, que eu e a minha mãe não tinhamos ideia de onde... Se precisássemos do arquivo uma outra vez, tinhamos que pedir para ele. Eu não sei o que me deu, simplesmente não sei, antes de apagar tudo e passar o software que deletava definitivamente os arquivos, eu fiz uma cópia extra e a escondi debaixo da gaveta da minha cômoda. Após ler os papeis eu fiquei ainda mais nervosa, não que eu entendesse muita coisa, mas a empresa do pai de Mel estava falindo.
Meu pai estava para chegar em casa, e eu estava esperando-o na sala. Andando de um lado para o outro feito barata tonta. Quando a porta finalmente se abriu, eu levei um susto com ele.
— Boa noite, querida! — ele me saudou com um beijinho na testa, estava bem animado para um dia de trabalho.
— Pai, a gente precisa conversar! — falei mostrando a pasta na minha mão. Ele concordou com a cabeça e não disse mais nada. Caminhou em direção ao seu escritório e fechou a porta assim que eu entrei. Ele colocou sua maleta sobre a mesa de carvalho e encostou nela me olhando.
— O que você tem para mim? — ele me perguntou um tanto analítico, seu tom de voz era extremamente frio e até um pouco calculista.
— Promete que não vai fazer nada que possa prejudicar eles? — perguntei em resposta trazendo o arquivo para próximo do meu peito em sinal de ameaça que não iria entregar.
— Desde quando você se preocupa com essas coisas, Clara? — indagou ele com um riso. Ele não entendia o que estava acontecendo comigo, e nem mesmo eu entendia. Nunca me importei com essas coisas. Por que estava me importando com Mel? Ela só me tirava do sério...
— Só promete! — cortei meu pai um tanto impaciente revirando os olhos.
— Não vou fazer nada para prejudicar eles... Agora me entrega esse arquivo! — ele respondeu em um tom incisivo e impaciente. Meu pai quase voou em mim para pegar o arquivo, mas eu entreguei antes. — Essa é a minha menina, eficiente, já estava começando a te estranhar
— Eu quase fui pega por causa da sua pressão, você tem que entender que eu tenho meu tempo, cada família é de um jeito... Eu tive que dormir de conchinha com a filha deles ontem e ele quase me flagrou no escritório — contei tudo um tanto nervosa. Eu tinha o meu jeito de agir e no meu tempo, odiava os outros no meu pé e me forçando a fazer o que eu não quero.
— Mas você conseguiu... continua assim que vou precisar de mais informações. Muito bom isso, pode tirar a semana para você! — ele falou após analisar os papeis um por um com certa cautela.
— Isso significa nada de aula? — joguei verde para ver até onde iria esse "tirar a semana para mim".
— Se é o que você quer... — ele concordou guardando os papeis na sua maleta e vindo até mim. Meu pai me deu um beijo na testa e completou: — agora eu vou dar um jeito nisso
— Beleza! — concordei saindo do cômodo em seguida. Eu não queria comer, não queria mais ver ninguém, queria me isolar de tudo. Fui em segredo para a área de lazer e nem acendi as luzes para que ninguém me notasse. Fiquei lá quietinha sentada na beira da piscina com os pés na água. Eu deveria estar passando mal, estava me sentindo estranha. Só conseguia ver meu reflexo borrado na água iluminada. Não tardou para que eu ouvisse o barulho de algo se mexendo na cerca viva. Olhei para trás e vi Mel pulando-a com seu celular na boca com a lanterna acesa.
— Um dia você ainda vai se machucar — falei balançando a cabeça negativamente.
— Que nada, to pegando o jeito! — ela rebateu já na área da minha casa. Ela caminhou até mim usando o seu telefone para guia-la. Ao contrário do que eu esperava, Mel não se sentou ao meu lado. Ela colocou o celular no seu bolso e começou tirar a sua roupa, ficando apenas de lingerie. Então, ela se sentou ao meu lado e entrou na água cautelosamente para não fazer nenhum barulho.
— Vem! — ela me invintou após um mergulho.
— Tá meio frio! — neguei. Na verdade, não estava mais tão frio, já tinha me acostumado com a temperatura da água. Eu só não queria fazer nada mesmo...
— Confia em mim, vem! — ela insistiu. Tirei a minha roupa e deixei do lado da dela, então me juntei a ela. Estava muito gelado SIM! Eu me iludi achando que tinha me acostumado.
— Eu te mato! Tá muito gelada! — xinguei ela jogando um pouco de água no seu rosto.
— Do que você está se escondendo? — ela perguntou após emergir bem na minha frente. Mel estava me encarando com seus olhões. Seu rosto estava bem próximo ao meu, nossas respirações chegavam se mesclar.
— Eu não estou me escondendo — respondi desviando meu olhar do dela.
— Então você está aqui sozinha, quieta e no escuro por nada!? Clara, melhore!
— Sei lá, só to confusa comigo mesma, sabe!? To estranha, deve ser toda essa mudança, não sei mesmo... — respondi sem dar muita importância. Eu estava confusa. Era isso... Toda essa mudança, voltar para o ensino médio mais uma vez, todo esse pesadelo jovem, isso estava me tirando do sério.
— Não que eu tenha muita moral para falar, mas as pessoas mudam e tudo bem em mudar... Estranho é continuar a mesma para sempre. Não se preocupa com isso, uma hora você se encontra, relaxa — ela tentou me tranquilizar passando a mão na minha bochecha e se aproveitou disso para se aproximar sua boca da minha. Antes que pudéssemos dar um selinho que fosse eu me afastei.
— Melhor a gente ir indo! — sugeri e então fui nadando para a borda. Mel e eu não iria acontecer, e eu não daria esperanças para a garota, não para partir seu coração em seguida.
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