MALANDRA

14 Capítulo 14


Era sexta feira, e eu estava confinada ao tédio. Sabe aqueles dias que você não tem pique para nada e só quer ficar largada no sofá de pijama? Era essa a minha vontade... Meus pais haviam saído, então Marta era a minha única companhia.

— MAAAAAAAAAARTA!!!!!!! MAAAAAAAAAARTA!!!!!! — comecei gritar da cozinha a acionando todos os ramais. Um dia eu iria deixar a mulher louca. Ela apareceu bufando no cômodo. Colocou a mão no peito e ficou assim por um instante se recuperando.

— Tá com fome? — perguntei colocando um prato para mim e um para ela em cima do balcão.

— Um pouco, mas tenho que terminar as coisas — respondeu ela, e eu fiz um bicão.

— Poxa, fiz pra gente, come comigo, por favorzinho! — insisti fazendo drama. Eu não era a melhor cozinheira do mundo. Na verdade, eu não sabia cozinhar quase nada, só umas receitas fitness que aprendi para me virar de vez em quando.

— Tá bom... — ela cedeu puxando uma cadeira e se sentando. Peguei talheres e copos para nós e me sentei toda feliz. Tinha feito um crepe com uma saladinha, parecia estar bom. — Andei encontrando várias coisas pela casa que parecem não ser suas, Clara, coloquei tudo numa caixa e deixei no seu quarto... Acho que sua amiga que andou esquecendo. Aquela menina tem a cabeça nas nuvens! — comentou ela plantando uma sementinha na minha cabeça.

Assim que terminamos de comer, peguei meu computador, fui pra sala e mergulhei em um mundo de pesquisas. Com o fone e a minha concentração, entrei em transe. Foi quando um vento próximo ao meu rosto me assustou. Pude sentir a presença de um ser. Tirei meu fone e me virei lentamente. Era Ariel. Dei um pulo jogando meu notebook longe e corri para o outro lado da sala cobrindo meu rosto e ficando de costa para eles.

— Ariel! — repreendi de costas.

— Que foi isso? — perguntou ele entre risadas se aproximando de mim. Corri na direção oposta dele. Não queria que ele me visse assim de pijama, sem maquiagem, de óculos e com cabelo preso em um coque desajeitado.

— Não olha pra mim! Eu to horrível! — repreendi tentando fugir dele e sair da sala.

— Se você parar de fugir de mim, eu te ajudo com o que você estava procurando! — ele me chantageou, e eu cedi. Virei-me bem devagarzinho.

— Se você se assustar não diz que eu não tentei te proteger — alertei já de frente para ele.

— Na verdade, eu nunca te vi tão linda! — ele elogiou já de frente para mim. Envolveu seus braços em volta da minha cintura, e eu revirei os olhos incrédulos.

— É verdade! Você está sempre com uma armadura. Essa Clara é puramente você, e eu gostei disso! — ele pareceu muito sincero. Seu sorriso era tão encantador. Dei um selinho rápido nele... e ele ficou mais feliz ainda com isso.

— Agora me conta tudo! — fugi dele recuperando meu computador e sentando no sofá.

— Olha, eu não sou nenhum médico, não tem como eu dizer com toda certeza o que é, mas pelo que você tá pesquisando e o que eu sei parece ser DDA — explicou ele.

— Hummmmm... e como você sabe? — indaguei curiosa, queria mais explicações.

— Porque eu cresci com um serzinho assim, então eu sei como é. O Noah tem DDA. E se você quiser, pode conversar com ele, ele fala sobre isso numa boa. Na verdade, ele fala sobre tudo numa boa. Vai ser melhor do que eu falando — ele me contou numa boa. Percebi que ele não estava querendo fugir do assunto, e sim que ele realmente não sabia muito.

— Tem certeza? — eu quis confirmar.

— Sim, sim! Mas, aqui, me diz uma coisa... Natasha Bedingfield? — ele perguntou em tom de zoação lembrado a música que eu estava ouvindo quando ele chegou.

— Não conta pra ninguém! — repreendi ele jogando uma almofada no garoto. Ele tirou os sapatos e então subiu no sofá. Encarou-me um tanto misterioso, e eu fiquei esperando a bomba.

— I got a pocket, got a pocketful of sunshine. I got a love, and I know that it's all mine, oh — ele começou cantar pulando e dançando. Eu tive que rir muito. Também subi no sofá.

— Do what you want, but you're never gonna break me. Sticks and stones are never gonna shake me, no — cantamos juntos um tanto desafinados, então caímos na risada. Abracei ele bem forte. Ariel era o tipo de pessoa que fazia você fazer se sentir bem em qualquer situação. Era o dom dele. Acho que você fizer a merda mais colossal do mundo e se arrepender profundamente, ele consegue fazer você se sentir melhor com seu erro.

— Quem não tem um guilty pleasure desses, não é mesmo!? — disse ele, e eu fiquei babando no garoto. Como alguém pode ser tão fofo? O sorriso dele doce. O tom de voz dele. Esse garoto é todo lindo, todo sensível. Vontade de morder sem fim. — Vem comigo — ele saiu me puxando pela casa correndo até o piano. Abriu o instrumento e se sentou. Eu fiquei só em pé observando a cena.

— O que? Depois desse hino, vai me dizer que seu guilty pleasure é Beethoven? Me poupe, Ariel! — zoei ele enquanto revirava os olhos. Encostei no piano esperando ele se defender.

— Shhhhhh, só escuta! Eu não sou muito um garoto de teclas, mas eu sei tocar umas coisinhas — falou ele todo metido enquanto consertava sua postura assumindo um tom mais elegante. Ele bateu nas teclas de uma forma um tanto aleatória fazendo um barulhão que me assustou. Ele tossiu, então começou a tocar. Não sou nenhuma rainha da música clássica, mas aquela melodia me pareceu familiar. Não era música clássica.

— Now that she's back in the atmosphere with drops of jupiter in her hair. She acts like summer and walks like rain... — ele começou cantar. ERA UMA MÚSICA DO TRAIN! Não sabia se ria com a apresentação dele ou se cantava junto. Ele estava todo caricato cantando. Entrei no ritmo e cantamos a música juntos até o fim. — Viu, eu gosto de clichês dos anos 90 e 2000, fica aí me julgando sem saber. Estou profundamente magoado, acho que mereço um pedido desculpas! — ele fez drama sentando-se de lado no banquinho para ficar de frente para mim.

— Desculpa, Ariel, por não ter duvidado do seu péssimo gostou musical — me desculpei sentando no seu colo. A gente trocou um beijo demorado e extremamente carinho, tão doce.

Ficamos lá embaixo por um tempo, então subimos pro meu quarto. Aproveitamos que meus pais não estavam em casa e não iriam me incomodar para ficarmos juntos, só nós dois. O que não acontecia desde a viagem... Acordei no meio da noite com o vendo gelado. Estava fazendo Ariel de travesseiro. Ele dormia feito um anjinho. Levantei enrolada no lençol, juntei minhas roupas no chão e fui tomar um banho. Sai de lá revigorada e sem sono. Quando fui fechar a janela para voltar a dormi, pude ver Mel no seu quarto mexendo no computador, não sabia ao certo o que ela estava fazendo, mas fiquei observando. Peguei meu celular e mandei uma mensagem:

Não é hora de criança está dormindo?

Ela olhou para o celular e correu para a janela. Me viu e balançou a cabeça negativamente. Pude ver ela digitando, e então meu celular vibrou:

Rá-Rá-Rá... Mt engraçado! Seus pais sabem q vc tá acompanhada?

MEL! VOCÊ... — respondi com os olhos um tanto arregalados.

Rlx, Clara, eu ñ fiquei assistindo o showzinho de vcs

Quer conversar? To sem sono... — mudei de assunto, não queria falar disso, e muito menos falar disso com Mel.

https://www.youtube.com/watch?v=VuNIsY6JdUw
se ñ for pra ser assim eu nem quero — ela me enviou e ergueu a sobrancelha várias vezes com um sorrisinho sem vergonha no rosto como quem teve uma ideia genial. Ao abrir o vídeo, eu cai na gargalhada. Era uma música da Taylor Swift. Então, caí na real e me controlei correndo com medo de acordar o Ariel. Fiz o sinal de espera com a mão e comecei mexer na minha escrivaninha loucamente procurando papel e caneta. Escalei até a janela e sentei nela, assim podia olhar ela melhor. Tive uma ideia mirabolante. Escrevi correndo e mostrei: Prom? Não sabia se ela iria entender, afinal é um costume dos Estados Unidos, mas lá estava eu. Ela pegou o celular e pareceu tirar uma foto, então começou rabiscar e rabiscar uma folha... e então me mostrou um papel com: 'Yes!!!!!!!!!!!!!' escrito.

Agr vai ter que arrumar um baile pra me levar, quero nem saber, tenho provas do pedido — ela mandou a mensagem com a foto junto, e eu fiquei sorrindo feito boba.

Parece que alguém está desesperada pra ter a primeira dança lenta

TO MSM! E AÍ DE VC SE Ñ DANÇAR CMG!

Vou pensar no seu caso, não sou maior fã de dança lenta

TEU CU!

Mel, vou mimi, amanhã a gente se fala — mandei um beijinho de longe e ela retribuiu. Então, voltei para minha toquinha. Deitei na cama com cuidado para não acordar o Ariel, puxei um pedacinho do edredom, e fiquei bem coladinha com ele. Eu era uma otária... Estava dormindo com o garoto mais fofo do mundo e chamando a vizinha para sair. Parabéns, Clara, você esperou 22 anos para desenvolver consciência.