MALANDRA

16 Capítulo 16 - Um bom coração afinal...


Na segunda feira, Marta estava de volta, e eu queria contar as boas novas para ela. Ignorei o café da manhã na sala de jantar e corri logo para a cozinha. Coloquei a caixa sobre o balcão bem ao lado dela.

— Surpresa! — exclamei toda feliz.

— Menina, um dia você vai me matar! — ela disse toda ofegante com a mão direita no peito se recuperando do susto.

— Vamos, abre! — apressei a mulher. Eu tinha poucos minutos até a van chegar e queria ver a reação dela.

— Mas por quê? — ela perguntou erguendo a sobrancelhas meio desconfiada enquanto começava desfazer o nós.

— Ai, Marta, você não sabe mesmo a graça de receber presentes, né!? Só abre, mulher! — insisti apressando ainda mais ela batendo palmas.

— O que é tudo isso? Eu não estou entendendo nada — ela perguntou tirando a mochila de dentro da caixa, e depois os cadernos, o estojo, e todo material escolar que comprei.

— São para sua filha, sabe!? Para ela começar na nova escola com tudo! — contei a novidade bem animada. Aff, eu deveria ter feito algo mais dramático, com fogos de artifício, pelo menos um efeito no celular, mas acabei me deixando levar pela empolgação.

— Nova escola? Acho que a senhorita se enganou! Minha filha não vai mudar de escola — ela falou olhando para tudo meio perdida. Marta não estava entendendo nada, e nem tinha como, era tudo surpresa. Uma boa surpresa eu espero. Não era boas com esse lance de fazer algo legal por alguém. Geralmente, eu sou só um monstro.

— Sim, senhora! Depois das férias, ela começa as aulas na mesma escola que eu estudo… Isso se você quiser, claro! E também tem uma coisinha, conversei com meu pai, e todos os custos com escola, curso, faculdade, mestrado, PhD, o que ela quiser estudar na vida dela… você não precisa mais se preocupar! A gente vai dar um jeitinho, presente nosso para vocês! Não sei como isso vai funcionar, mas meu pai tá vendo isso! — Lágrimas começaram escorrer dos olhos da mulher, e eu fiquei travada sem reação. Ela começava chorar mais e mais. Colocou as mãos nos olhos e começou soluçar.

— Você está bem? — perguntei meio analitica. Chorar? Não estava entendendo nada. E então ela me deu um abraço bem forte.

— Eu não sei o que dizer! Obrigada, obrigada, obrigada! — ela falou toda feliz. Pude relaxar e retribuir o seu abraço. — Você não sabe como é importante… ninguém na minha família teve essas oportunidades antes! — ela completou depois me soltando. Respirou fundo e começou secar as lágrimas do seu rosto. Bem melhor, agora ela estava com um sorrisão estampado.

— Já era hora de isso mudar! Mas você sabe que só fiz tudo isso porque adoro uma formatura! Então, já sabe, nada de esquecer o meu convite! Consigo imaginar todos meus vestidos

— Você não fez só pelos vestidos... — ela me contrariou, e eu não soube o que responder. Como sempre, o jeito era fugir.

— Agora deixa eu correr que tenho exatos dois minutos para roubar mil coisas da mesa de café da manhã para não morrer de fome na escola — sai correndo e deixei Marta para trás. Peguei vários pãezinhos na mesa. Coisa que geralmente não fazem parte do meu café da manhã e corri novamente. Meu coração estava batendo forte. Cheguei no lado de fora ainda meio desorientada. Mel estava esperando a van como todos os dias.

— Bom dia! — ela me disse com um sorriso.

— Bom dia! — respondi com a boca cheia e um sorriso falso forçado cheio de pão.

— Você tá bem, Clara? — indagou Cléo me analisando.

— Atrasada! — respondi já engolindo.

— Ata, você nunca sai antes da van buzinar! — ela falou apontando para frente como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, e eu tinha que sair dessa situação. Afinal, não era boa em falar de sentimentos.

— Por isso mesmo, buzinou há 84 anos, ou não, sei lá... Mas eu ouvi uma buzina! Um grande sinal de que eu preciso de férias! R O L A, férias! Não aguento mais acordar cedo! — menti logo em seguida. Era hora de esquecer e superar toda aquela cena melodramática de antes. Não foi nada. Já estava tudo resolvido... Só mais um dia como outro qualquer.

— Relaxa, última semana! Você aguenta, é durona! — ela tentou ser otimista como só Mel é. Eu durona, será!? Será mesmo!? A van chegou, mas tudo que eu queria era não ter que ir para escola. Só isso. Era pedir demais? Faltar um pouco.

— O que acha de a gente ir almoçar mais que juntas depois da aula? —

— Como um encontro? — ela jogou verde com um sorriso safado. Essa menina é UM PERIGO. Não desiste nunca... um saco!

— Como duas pessoas com fome! — respondi contendo um sorriso e sentando no meu lugar, afinal o motorista estava prestes a comer o meu cu... mas regras de segurança as vezes existem para serem quebradas.

— Não custava tentar… — ouvi ela dizer baixinho e balancei a cabeça negativamente.