MALANDRA
17 Capítulo 17
Notas iniciais
Bom, Mel sentava mais perto da porta da sala, então ela me esperou assim que o sinal tocou.
— Qual os planos para hoje? — ela perguntou animada enquanto a gente caminhava.
— Que tal ir para casa, trocar de roupa, roubar o carro da minha mãe e ir almoçar no Oliver — contei um tanto radical. Uma aventura não cairia nada mal. E nunca passamos um tempo assim juntas, quem sabe Mel me contasse alguma coisa interessante sobre a empresa do pai dela. Mas não era esse assunto que me preocupava, mas sim o outro que estávamos por conversa.
— Nossa, Clara, sério!? Um restaurante com três estrelas Michelin. Só pode tá brincando comigo! — ela falou um tanto incrédula e fiquei meio sem entender. Quem Não gosta de comida boa, gente!? Quem? Estava começando desconfiar que Mel tinha sérios problemas.
— Algum plano melhor? — perguntei em resposta.
— Sim, muito melhor! Vem, vamos deixar nossas mochilas nos armários e aí vamos seguir o meu roteiro! — ela falou puxando minhas mãos pelo corredor. Deixamos as coisas dela primeiro. Ela só tirou algumas coisas da mochila e colocou nos bolsos. Chegando no meu armário, abri minha mochila e peguei minha carreira.
— Me dá isso! — ela pediu estendendo a mão.
— Pra que você quer a minha carteira? — perguntei abraçando ela em sinal de proteção.
— Confia em mim ou não? — ela perguntou em resposta.
— Na verdade, não! Mas toma... — entreguei a carteira para ela. Ela abriu, tirou meu RG, um pouco de dinheiro e dois cartões. Então, jogou minha carteira dentro do armário e bateu a porta. Fechou o cadeado. — Agora coloca isso no bolso e vamos — ela falou entregando minhas coisas.
— Sério!? No Bolso? Bolsas existem para isso, Mel! Para eu não sair perdendo tudo! — falei debochada pegando meus pertences. Doida! Isso é tudo que eu tenho a dizer.
— Ai, Clara, para de frescura! Coloca isso no bolso e vem! — ela falou um tanto sem paciência. Virou as costas e me deixou para trás.
— Estou começando me arrepender — falei baixinho andando logo atrás. Ela parou do outro lado da rua. Atravessei correndo para alcançá-la. — Tá, e agora?
— Isso é um ponto de ônibus! Então, agora a gente espera! — ela disse toda sabe tudo como se eu fosse a pessoa mais ignorante do mundo. Mel encostou no poste bem do seu lado e cruzou os braços.
— Espera, tipo, um ônibus? — fiz a pergunta mais óbvia do mundo.
— É, Clara, um ônibus! Nunca andou de ônibus? — ela respondeu rindo da minha cara.
— Claro que eu já andei de ônibus, Mel! Desses assim não — terminei minha frase bem baixinho, olhando para o chão um tanto envergonhada.
— Como eu imaginei! Viu, isso é uma aventura! Agora vai, estende o braço, corre! Dá sinal pro ônibus que ele tá vindo! — ela me apressou, e eu não entendi muito bem o que era para fazer e travei. — Assim, Clara, assim! — ela falou erguendo o braço em um ângulo de 90º, e eu imitei. Ela podia ter falado que era para fazer igual para chamar um táxi, qualquer coisa, mas gostava de complicar. Ela subiu ás escadas do ônibus. Entregou dinheiro para o cobrador atrás de uma catraca e passou. Fiz o mesmo logo em seguida. Esperei o troco. E me juntei a ela. Claro que Mel tinha pegado o lugar da janela e eu tive que ficar no corredor. A verdade é que ônibus era bem menos sujo do que eu pensava.
— Você pelo menos sabe para onde a gente está indo? — perguntei depois de algum segundos de silêncio.
— Claro que sei! Eu costumava fugir bastante da escola quando era mais nova, então sempre pegava esse ônibus... — ela respondeu confiante. E eu pude relaxar um pouco. Tudo sob controle, Clara... Tudo sob controle. Gostaria de dizer que chacoalhava bastante no fundo do ônibus. Achei um comentário válido.
Nossa viagem demorou uns 15 minutos. Não vou mentir, até que eu estava me divertindo entrando nessa loucura de Mel.
— Aperta o botão laranja! — ela me deu a ordem apontando para o botão e eu fiz o que ela disse. Uma campainha um tanto estridente tocou. — Agora vai para a porta do fundo! — ela sugeriu já de pé. E eu só fui seguindo o tutorial de como pegar um ônibus.
Assim que descemos, eu reconheci o lugar. Estávamos em um dos parques da cidade, mas isso não matava a fome que eu estava sentindo. Fui seguindo ela pelas ruas.
— Tanan! O melhor restaurante de todos os tempos — ela disse com os braços abertos na porta de um estabelecimento que não parecia ser o melhor restaurante de todos os tempos. — Não tem nenhuma estrela Michelin, mas é ótimo — ela completou entrando.
— É, isso eu percebi! — falei incrédula. Preciso dizer que eu nunca havia ido em um lugar como aquele? Estava bem cheio na verdade. Era barulhento. E tinha o cheiro de 50 milhões de comidas diferentes no ar. A tv estava ligada com o volume baixo. As pessoas conversando bem alto.
— Você consegue se servir ou precisa de um tutorial? — ela perguntou enquanto pegava uma bandeja e um prato.
— Ha ha ha! Muito engraçada, Mel! — respondi revirando os olhos. Tá, talvez eu precisasse de um tutorial, mas qualquer coisa era só eu seguir os passos da garota. Ia dar tudo certo. Eu tinha um cérebro. Tinha tantas opções de tudo a nossa frente que eu nem conseguia escolher. As pessoas realmente misturavam 50 mil tipos de comida. Isso era real? Eu apenas montei uma salada e peguei um pedaço de peixe. Mas quando estávamos perto do balcão, vi uma lasanha olhando para mim, não resisti e tive que pegar um pedaço. Mais uma vez, de olho no que Mel estava fazendo. Ela colocou o prato na balança. Pegou de volta. Pediu um refrigerante. Pegou um papel. Pegou garfos do lado. E fim. Minha vez. Fiz tudo do mesmo jeito... só não quis nada para beber. Talvez um suco cairia bem, mas achei melhor não.
— E agora? — perguntei segurando a bandeja enquanto analisava a garota.
— A gente procura uma mesa para sentar! — ela respondeu andando. Sentamos uma de frente para a outra. Coloquei a comanda debaixo do meu prato, pois fiquei com medo dela voar ou qualquer coisa assim.
— Fala a verdade, você nunca veio em um self service na vida! — ela falou rindo da minha cara.
— Ok, talvez eu nunca tenha vindo mesmo! Espero não me arrepender! — rebati rindo também. Era uma coisa tão boba. Como eu nunca tinha ido a um restaurante assim na minha vida? Tá que era bem parecido com buffets, mas não era a mesma coisa.
— Prova aí e me diz! Se não virar um dos seus restaurantes favoritos, eu desisto! Te agradar vai ser impossível! — Mel ficou me analisando por um segundo. E eu provei um pedaço da lasanha. Ok, a menina tinha razão! Era bem bom! E posso dizer que o peixe estava ótimo também! Bom, e a salada, salada é só salada, sem grandes mistérios.
Depois do almoço, fomos para o parque. Deitamos na sombra e ficamos conversando. Eu nem me importei de estar de uniforme fora da escola... o que era muito raro! Eu realmente odiava o uniforme! Tudo estava tão ótimo que eu não queria estragar... Foi por isso que fiquei quieta, nada de falar sobre DDA. Quando a preguiça passou, a gente foi andar de bicicleta.
— Eu já andei de bicicleta alugada antes! — falei em reflexo correndo quando vi que ela estava prestes a dizer qualquer coisa, e caímos na risada juntas.
— Aonde mesmo? — ela perguntou praticamente sabendo minha resposta. Impossível essa garota...
— Talvez em Amsterdã, talvez em Nova Iorque, talvez em Paris... O que importa aqui agora não é o onde, ok? É que eu já andei — respondi e sai pedalando correndo na frente dela.
Acho que demos umas 50 voltas no parque antes de devolver a bicicleta porque não queríamos que o dia acabasse. Um dia de paz entre nós duas, quem diria... Bom, nossa aventura acabou logo no por do sol. Pedimos um Uber para ir para casa...
— Ei, Mel — falei criando coragem para falar do assunto que não queria. O motivo de eu ter chamado ela para sair... eu estava torcendo para não estragar tudo. Como falar?
— Oi — ela me respondeu toda fofinha, encarando-me com seus olhões.
— Eu não sei como dizer isso... não sei se você já sabe... se eu to errada. Eu só to falando isso porque... — parei por um segundo para pensar. Por que mesmo? Por que eu queria que ela se cuidasse? Por que eu queria cuidar dela? Por que eu estava preocupada?
— Fala logo, Clara! Desembucha! — ela me apressou.
— Eu me preocupo com você... e eu acho que já te conheço um pouco. Você já considerou ter DDA? Sei lá, se você sabe se tem ou se não tem. Eu tava conversando com Noah esses dias e pensei que talvez... — ela nem deixou eu terminar a frase e já veio me atacando com 50 mil pedras na mão.
— Você estava conversando com Noah esses dias? Então, espera aí, além de ficar aí tirando conclusões sobre mim, você sai falando disso para todo mundo, inclusive com seu cunhado... Parabéns, Clara! Você é uma idiota! — ela estava muito, mas muito puta. Ela até ergueu as mãos. Ótimo, Melissa, vamos brigar no Uber mesmo para ele me dar uma estrela no final da corrida. Eu tinha uma reputação internacional de 5 estrelas que estava prestes a acabar.
— Cara, não é nada disso, ele tem DDA e estava me contando sobre como era na escola e tudo mais... Todas as dificuldades dele. Eu não to te chamando de burra, mas eu não pude deixar de notar enquanto a gente estava estudando juntas que vocês tinham algo em comum. Eu não to te julgando. Eu só quero que você fique bem! — falei a verdade. Eu já estava meio alterada nesse momento. Queria gritar com ela. Acabar com ela. Qualquer coisa, mas eu me mantive plena tentando explicar as coisas. Não sei se tem um jeito certo de dizer o que eu disse... eu só sei que eu acho que não fiz errado.
— Por que você não cuida da sua vida e me deixa em paz? Você não enxerga o tanto de coisa errada que tem em você? Para de fugir da sua vida usando a minha de desculpa. Cara, Clara, vai se tratar! Vai cuidar dos seus problemas! Você é uma bagunça... e quer tentar cuidar de mim? Você jura? Sério? Fica longe de mim, por favor! Só me deixa! — ela falou putíssima e virou para janela dando o assunto por encerrado. E eu não quis continuar. Só engoli seco. E virei para a janela do meu lado. O resto do caminho foi só silêncio. Chegando na porta da minha casa. Ela saiu do carro correndo e bateu a porta com certa força.
— Me desculpa, moço! Por tudo, sério... Desculpa! — falei saindo logo em seguida. Se alguém cruzou comigo no caminho até o meu quarto, eu não vi. Só tranquei a porta. Tomei um banho. E me joguei na cama. Fiquei em estado vegetativo um pouco. Então, liguei para o Ariel. Só queria um abraço de alguém. Afinal, eu era mesmo uma bagunça.
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