Mútuo
4 Capítulo 4
Kuina carregava sua mochila, a única bagagem que trouxera para passar alguns dias na casa dos meninos e, naquele momento, ela se encontrava na estação de trem junto de seu irmão. Pretendia voltar pra casa.
— Eu não acredito que vocês passaram a morar juntos e ainda continuam nesse lenga-lenga! Zoro, já faz quase 1 ano que vocês estão morando juntos! E toda vez que venho aqui, não vejo progresso nenhum! Não é possível que não tenha rolado nada! Vocês já se beijaram, né? Não? Se na próxima visita estiver ainda assim, eu vou ter que me meter.
Por todos os dias de sua estadia, Zoro ouviu pacientemente a tagarelice de sua irmã. Toda vez que se encontrava a sós com ele, ela começava a falar de Sanji até Zoro ficar tonto. Mas, ali na estação, mudou de postura por ela ter entrado num assunto tão íntimo como o de já ter beijado o sobrancelha enrolada. — Kuina, seu trem chegou. — Tinha paciência para respondê-la, mas dessa vez disse puto e agradecendo mentalmente que ela ia embora finalmente.
A garota olhou para trás e enrugou o cenho ao ver o trem. — Já?! Zoro, por favor, deixe o pai de Sanji de lado ou parte pra outro, pelo amor de Deus!! — Ela se afastava dizendo tais palavras. — A propósito, estou namorando Reiju.
Reiju era a irmã mais velha de Sanji, tinha cabelos rosados e também com uma franja sobre um dos olhos. Era muito bonita.
— O quê?! — Exclamou chocado. — E você só me diz agora?!
Kuina se misturava na multidão, mas ainda conseguia ouvir seu irmão. — Aproveite agora que nós duas abrimos o caminho. Tá liberado!
Zoro não se aguentou e mostrou o dedo do meio para Kuina, que não pôde ver por estar espremida demais na multidão. Como assim "liberado"? Parece até que se esqueceu de tudo o que aconteceu no passado.
Chegou no apartamento exausto, todas as tagarelices de sua irmã passavam na sua mente e pensou em tomar um remédio para amenizar a dor de cabeça. Pensava em dormir também, uma "atividade" que gostava muito de fazer, mas antes resolveu ouvir uma música pelo aplicativo do youtube na tv. Ele colocou pra tocar Something dos Beatles e viu Sanji surgir na sala depois de passar pelo corredor do apartamento.
— Essa música é boa demais, fazia um tempo que não ouvia. — Disse alegre, olhando para Zoro sentado no sofá.
Sanji estava sem camisa e com uma toalha no ombro, provavelmente estaria indo tomar banho, mas parou ali intrigado com uma das poucas faixas de George Harrison preenchendo o espaço livre do apartamento. Zoro o observava e o achava lindo com o corpo seminu, prestando atenção na música.
— Essa semana voltei a ouvi-la, é a minha favorita da banda. — Respondeu.
Sanji desviou o olhar da tv e passou a vê-lo novamente, sorriu ao se encontrar com o sorriso de Zoro. Ficaram ouvindo a música em silêncio, até Sanji se aproximar mais do amigo e fazer uma pequena mesura.
— Será que o cavalheiro me concede uma dança?
Zoro riu e acenou que sim, depois se levantou para Sanji pegar nas suas mãos. — Só não garanto se vai ser bom, você sabe, nunca fui bom nisso...
— Você é muito bom nisso, marimo.
A voz de Sanji soava agradável por estar carinhosa. Zoro sabia muito bem que não era bom na dança e seu amigo estava sendo muito gentil dizendo o contrário. Sanji passou a guiá-lo, dando dois passos pra trás e pra frente. Zoro conseguia acompanhar, até porque qualquer criança conseguiria fazer esses passos.
— Ei, por que estou fazendo o papel de mulher?
— Eu quem fiz o convite, marimo.
Passaram a rir novamente, mas seus olhos se encontraram e os pés pararam. Uma lembrança surgiu na mente de Zoro, de quando viu aqueles olhos azuis tão perto como agora. Tinham apenas 15 anos e na tarde desse dia chovia, os dois se protegeram numa marquise de uma rua deserta e Zoro beijou Sanji pela primeira vez ali.
Kuina estava certa, os dois já haviam se beijado, e mais de uma vez.
Ainda sentia o calor emergindo dos ombros e da palma da mão de Sanji, ele parecia transpirar de nervoso e Zoro podia apostar que também suava de desespero. Seria aquele dia mais um dos dias em que tinha uma recaída e beijava os lábios rosados que tanto incitavam a sua vontade?
No entanto, não esperava ver Sanji pegar a toalha, que ainda estava sobre o ombro dele, e cobrir sua boca com ela para se aproximar e o beijar por cima do pano. E como se houvesse mesmo um contato direto, ambos passaram a fechar os olhos. Sanji até mesmo chorou.
Sabia que o marimo se sentiria muito mal se fosse diretamente, e arrumou uma forma improvisada para que se saciassem de algum jeito a vontade que surgia derrubando todos os empecilhos como se isso fosse possível.
— Você melhorou na dança, marimo.
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