Notas iniciais
Tchaikovsky (1840-1893) foi um compositor russo e compôs várias sinfonias, óperas e ballets. Foi um o primeiro compositor russo a fazer sucesso internacionalmente, visto que na época era difícil uma pessoa ingressar-se no mundo da música devido a pouca educação musical existente. Compôs os seus primeiros bailados no final de sua carreira, sendo que O Lago do Cisnes foi o seu primeiro. É uma música que destaca principalmente a sua melodia, que começa suavemente e depois termina de uma forma brutal. Escute-a aqui: https://www.youtube.com/watch?v=S76CGGPqI3s (é uma das partes da música, já que sua apresentação é bem grande... tipo duas horas. -q)

Isso é sobre mim, no entanto, não se trata de nenhuma carta de despedida e muito menos sobre uma declaração. Eu sou um cisne, branco como a neve e suave como as minhas penas. Minhas cores não se distinguem, porém o bater das minhas asas expele toda a minha beleza. Sou gracioso, tenho a postura de toda a riqueza e minhas curvas traçam todo o meu caminho, caracterizando o triunfo. Tenho a total compreensão de que sou representado como um ser belo e admirável, como se fosse um verdadeiro poeta. Todos se referem a mim tratando-se de um elogio ou mesmo um toque para o belo. Eles dizem que a água que nado é recheada pela pureza e limpa para receber outros da minha espécie. Porém, faz tempo que já nado sozinho.

Em todo momento em que estou nadando, a água se suja por causa de toda crueldade, egoísmo, traição e orgulho. As impurezas afundam e mais uma vez consigo disfarça-las enquanto traço o meu caminho por cima da água. As pessoas que me enxergam, e algumas que me aplaudem, estão cegas demais para verem o que há no fundo do meu lago. Estou tão moralizado em manter minha postura que já nessa altura se torna impossível negar a minha transformação. Insisto, persisto, vou mantendo toda a minha beleza. A cada dia que passa, todo novo passo que segue se torna dolorido, meu lago já se tornou poluído! Mas, preciso nadar de qualquer forma. Pergunto-me se ainda estou tão branco como a neve.

Já estou acumulando tanta coisa que minhas penas estão pesadas, já me desmotivo em pensar sobre minha pureza. Esses dias vi uma de minhas penas caindo sobre a água plana, e a cada momento que passava mais penas agitavam todo o lago com sua caída. O desespero já batia em minha porta, avisando o inevitável.

Toda a sujeira acumulada no fundo começou a subir, cada um em sua vez. Primeiro, subiu o egoísmo. Logo depois, como se fosse um parceiro, subiu rapidamente o orgulho. A crueldade veio e trouxe junto a traição, a empatia e a inveja. Não devo negar que a responsável pela tragédia foi principalmente essa última. E assim estava concluída toda a poluição existente nesse lago. Por cada parte que nadava era impossível fugir. Meu corpo fugiu-se do branco, agora estava sujo e escuro. Minhas penas, metade já haviam afundado junto com a antiga lagoa que costumava a nadar sob. E agora minha postura já estava torta, pois constantemente tinha que fugir e me desesperar para não deixar a tristeza me afundar. As minhas curvas começaram a fugir do belo, porém aos poucos elas começaram a combinar com a impureza da recente poluição. Agora, se batesse as asas, era para poder fugir, não importava mais se aquilo era uma poesia ou não, tudo se tornou tão bagunçado e triste, talvez as lágrimas tornaram-se o único toque belo e significativo.

Não se ouvia mais aplausos. É claro, nesse momento sou um ser feio. Todo o dia para mim foi como uma guerra, era difícil e doloroso nadar no lago poluído. Sou um cisne em apuros, mas não há ninguém para socorrer-me ou presenciar a mesma dor. Em certo momento, senti que ia afundar e nunca mais voltar, no entanto, tive que lutar. Recuperei minhas penas, fui tentando arrumar minha postura e vencia a dor para poder traçar meu caminho novamente e, depois de certo tempo, a impureza foi sumindo e o lago tornou-se belo novamente.

Quando consegui sentir-me bem novamente, percebi que os antigos aplausos voltaram, porém nada mais importava. Agora, sou um cisne manchado pelas mágoas, o branco não é mais como a neve. As curvas entortaram-se com cicatrizes antigas de uma guerra, mas, em minha mente, ainda sou um belo cisne vivendo em um lago cultivado pelas minhas próprias lágrimas. Não ligo se minhas penas mancharem, elas continuaram exercendo o belo triunfo em meu caminho e ainda viverei aqui, e assim morrerei. Serei um cisne solitário e compreenderei as dores e felicidades alheias e, se os aplausos continuarem, que assim sejam, mas o que me movimentará será apenas minhas lembranças.

No final, posso concluir que o que antes podia me motivar, da mesma forma me destruiu. E o pior dos meus inimigos transformou-me no meu próprio fim. Mesmo assim, estou aqui nadando. Vocês conseguem ver... Sou um ser perfeito!

Notas finais
Obrigada por lerem até aqui ^-^