Música para o mundo – Imaginação
4 Sarabanda
Notas iniciais
Todo dia, apresentamos a mesma dança. É o mesmo espetáculo, e ninguém se cansa. Vamos para as ruas, aos teatros e até aos bailes, avistamos a multidão reunida e dispersa em um mesmo chão, copiando os passos lentos do outro ao seu lado até conseguirem criar uma só melodia. Acordava para mais um dia sem poder pensar, pois tudo já estava pronto. Era a mesma música que ardia meus ouvidos e os mesmos passos que machucavam os meus pés. Tudo isso era chamado de humanidade, mas nada era humano.
Um dia, quando sai novamente para a rua, avistei uma dama que dançava fora de todos. Eram passos diferentes e inovadores de uma única formosura que pintaram no fundo de meus olhos. Podia ser mentira, mas pisquei tantas vezes que era impossível mentir ao dizer que tratava-se de um sonho – a delicada mulher dava seus passos diferentes de todos ao redor, era uma melodia única. Não demorou para que os olhares tortos fossem jogados aos pés da moça. As línguas afiadas violentavam-na de uma forma imperdoável, e todos queriam faze-la parar.
Atacada, ofendida, humilhada e calada, a mulher saiu do meio da multidão com lágrimas nos olhos e, assim que se afastou, todos voltaram a dançar os mesmos passos como se fossem seres apáticos. Por um segundo, me senti horrível por não tê-la ajudado, mas lembrei-me que sou o mesmo que todos eles; estava lá para ataca-la. Porém, nesse dia ignorei as minhas ordens e fui até ela.
“Minha senhora”, segurei-a pelo braço enquanto a mesma passava cabisbaixa por mim, “por que chora?”.
Ela olhou em meus olhos e disse: “Se está com dúvidas, então responda as minhas. Por que está com pena de mim?”.
“Porque foi atacada no meio da multidão. Não consigo compreender seus passos diferentes, quem pode ser você?”.
“Não choro por causa da humilhação, fui-me lá a carregando no coração”, ela soltou-se dos meus braços e expulsou as lágrimas com um sorriso, “sinto pena daquelas pessoas, obrigadas a dançarem um mesmo ritmo. Se não entende minha melodia, então não entende a liberdade.”.
“Quem é a Liberdade? Nunca a vi pela vizinhança.”.
“Sou eu.”.
E assim aquela bela moça foi se afastando de mim, correndo de toda violência que estava por vir. Ela havia me encantado, era uma mulher que nunca havia visto igual. Delicada, formosa, elegante e frágil – seus olhos eram mais bonitos que qualquer estrela no céu. E foi assim que nunca consegui a tirar de minha cabeça, aquela sua melodia própria enfeitava todos os meus sonhos, e seus passos repetiam-se como um filme em minha mente. Incrivelmente diferente, nunca mais a vi. Tornei-me triste.
Houve um dia que estava disposto a encontrar novamente o amor da minha vida. Pensei, escondido de todos, uma forma de poder atrai-la e ao mesmo tempo, conquista-la. E então, comecei a criar uma nova melodia junto de novos passos e sinfonias. Continuava saindo e dançando junto com todos, mas ao mesmo tempo usava minha imaginação de uma forma que ninguém descobriria. Juntei e formei a minha serenata e marquei o dia em que apresentaria para toda a humanidade.
Foi na noite mais iluminada do ano, as estrelas davam uma luz nunca vista para a lua. No céu, podia-se imaginar que aquelas estrelas dançavam no meio do escuro da noite. O espetáculo acontecia em baixo daquele conforto, todos estavam lá dançando mais uma noite monótona. Fui ao centro da multidão e coloquei toda a minha melodia para fora, indo em direção contrária de todos os corpos presentes ali com uma única harmonia, inventei uma nova sinfonia. Em um sentindo bagunçado, criava um amor épico.
“Ao amor que sempre sonhei, estou aqui para gritar a Liberdade.
Figura formosa e delicada, nunca houve uma chance de ser apresentada.
Sem conceito, humilhada e apedrejada – sua beleza cruelmente escondida.
Por que colocar o medo em alguém? Por que impedir uma mente de criar o novo?
e abrir os olhos para degustar da novidade, nunca viciar-se na mesmice.
Oh, se ao menos a dessem uma chance, veriam como é bonita,
podem ama-la como eu amo, e dançariam como eu danço.
Em uma nova sinfonia, gritariam uma nova harmonia, e apresentariam mais uma dança
se, por fim, abraçassem a esperança.”
Ouvi os primeiros ataques vindos até mim e, logo depois, comecei a ser chutado. Desesperado e ao chão, todos os pés pisavam meu corpo e até meu rosto. Amassado, preso e calado, não consegui me mover. Minha boca foi tapada e nenhuma palavra poderia mais pronunciar, nem sequer gritar o nome do meu amor. Aos poucos, faltou-me ar, faltou-me tudo. Fui apresentado para a morte sem excitação. Fui afastado cruelmente e mandado embora, sem poder ser lembrado por ninguém.
Ninguém nunca conseguiu alcançar essa bela figura. Todos que a amavam eram detidos ou obrigados a abandona-la. Espero que um dia alguém consiga o que não consegui.
Liberdade, onde se escondera?
Mostre seu rosto mais uma vez e ensine aos homens a ser livre, espante o medo. O seu amor machuca e ensina – não poderia ser mais divina.
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