Mia


Um dos administradores do Clube de História veio falar comigo no corredor.
— Preciso de ajuda na biblioteca mais tarde. Diga ao seu amigo também. – ele deu o recado e saiu.
É melhor avisar o Sensei antes que eu esqueça. Mas como vou encontra-lo? Talvez esteja no seu clube.
Quando cheguei ao ginásio, o vi de longe, rindo com alguns amigos depois de fazer sesta. Meu coração deu cambalhota.
“...pensar no sorriso dele a todo tempo...”
Paul me viu e apontou para mim. Sensei se virou e começou a andar na minha direção. A cada passo dele, meu coração acelerava mais.
“...sentir o coração acelerar, pensar no sorriso dele...”
Eu... E-eu...gosto dele...
— Mia?
Arregalei os olhos e saí correndo.
EU GOSTO DELE!


Érick


Por que ela saiu correndo do nada? O que ela queria? Será que aconteceu alguma coisa?
— Ei, cara! – Paul gritou por mim no meio da quadra – Como faz mesmo aquele salto? Dou três passos... (ou é mais?)
Que seja, depois pergunto.
Assim que acabou o treino, tomei banho rápido e depois de pronto fui direto procurá-la.
O duro vai ser achar... Achei. Estava no corredor.
Toquei em seu ombro para que se virasse. — Mia, o que queria falar...
— Aah! – se virou, se posicionando em defesa de luta.
Mas que diabo...?
— Encontrei vocês! — o administrador do Clube de História veio até nós – Biblioteca. Os dois. Daqui a pouco.
Han?
— Pedi que ela te avisasse, mas acho que se esqueceu.
Tinha que ser a Dory mesmo. Vire- me para repreendê-la com o olhar, mas ela já tinha evaporado.
A partir dai, comecei a perceber que ela estava mais estranha que o normal.
Biblioteca – 10 h:
Estávamos arrumando a estante de livros.
— Mia, você pode me alcançar o livro de Maquiavel?
Nenhuma resposta. Só ouvi algo caindo perto de mim e passos rápidos. Quando me virei, vi que já tinha sumido e, no chão ao meu lado, o livro que pedi.
É impressão minha ou ela está me evitando?
Cantina – 12h:
— Mia, deixou cair seu dinheiro... – peguei do chão e fui entregar.
Sumiu.
Enfermaria – 14h:
Estava passando e a vi, soprava o ralado na mão.
— Se machucou de novo? – fui pegar o curativo – Deixa que te ajudo...
Sumiu de novo.
Essa garota... Ela definitivamente está me evitando.
Saí para tirar satisfações, mas a conversa de algumas meninas no corredor me chamou atenção.
— Você soube da Sasha?
— A do 1º ano?
— É... Parece que ela levou uma surra de algumas garotas do 2º ano, por ter começado a sair com o cara que elas gostavam.
— Aff! Que ridículo! Ainda existe gente fazendo bullying assim?
Isso me fez lembrar, por algum motivo, do dia em que Mia ficou trancada no depósito. Ela tinha dito que eu mandei um bilhete, mas eu nunca escrevi um.
Procurei ele na mochila, não lembrava de ter tirado dali. Achei... Essa letra é de uma aluna minha. E... só existem duas alunas minhas nesse colégio. A Mia e a...
— Érick! Está na enfermaria de novo?
Talia...
Peguei em seu braço, a sentei na maca e fechei a cortina.
— Isso é obra sua? – e mostrei o bilhete.
Ela se levantou rápido. Parecia surpresa e assustada. — E- eu... – foi indo para trás até encontrar a parede.
— Eu sei que é sua letra. Foi você que trancou Mia no depósito, não foi?
— E-eu não.
— NÃO MINTA! – gritei, socando a parede.
Seus olhos estavam arregalados e se tremia toda.
Ri debochadamente. — Está com medo de mim?
Ela engoliu seco.
— Então ouça com atenção. Fique longe dela, entendeu? Se não... – olhei para minha mão fincada na parede – Da próxima vez não vou errar.
Talia começou a chorar com a cabeça baixa. Estava colada na parede, tentando se afastar o máximo possível de mim.
Eu nunca bateria em uma garota, mas ela não sabia disso. Acho que a assustei o suficiente. Prometi a mim mesmo que não me exaltaria assim, mas pensar que alguém estaria fazendo algum mal a ela...
Só quando estava saindo, ela encontrou a voz de novo.
— Por que se importa tanto com essa garota? Você gosta dela, é isso?
Saí sem respondê-la.
Gostar da Mia? Eu me preocupo, isso é fato, mas...estar apaixonado?


Mia


Eu fugi de novo (chorosa). Eu são tão covarde! Minha nossa, eu decepciono até a mim mesma... (chorosa).
Será que ele percebeu que eu estou o evitando?
...
Hehe. É claro que percebeu...
Eu fico tão nervosa quando ele chega perto de mim.
...
Será que ele percebeu o motivo?
— Mia, posso falar com você?
Eu ia fugindo de novo, quando de repente ele me puxou pelo braço e me encostou contra a estante de livros.
Eu congelei surpresa.
Ele me olhava nos olhos. Até então eu conseguia olhar de volta, mas quando o susto passou, não consegui mais. Parecia algo tão difícil de fazer sem perder a compostura, então desviei o olhar. Meu coração batia muito rápido, como se tivesse corrido uma longa distância, senti algo estranho no estômago, não que fosse ruim, mas era algo tão diferente... Estava tão nervosa que minhas mãos, fechadas, estavam sendo perfuradas pelas unhas.
De repente, ele se afastou, e com calma colocou as mãos nos bolsos da calça.
Meus joelhos fraquejaram um pouco, então permaneci apoiada na estante para que eles não entregassem, pateticamente, meu nervosismo.
Mas como poderia estar diferente? Tãããoo perto!!!!

E-eu pensei que fosse me be... argh por que eu pensei isso? Mas também, do jeito que ele estava tão próximo... Argh! Esse mau hábito dele de contato físico e proximidade... nunca vou me acostumar com isso... --> crise interna
— Eu sei por que está me evitando?
O QUEEÊ?! O QUÊ? O QUÊ? O QUÊ?!
Ele sabe? Que eu... Por ele?
— E eu já resolvi isso.
Resolveu? Como assim... O que isso quer dizer? Ele vai me dar uma resposta ou algo assim? Agora?
Olhei para ele.
Mas ele parece tão sério e...bravo.
— Não! – tampei os ouvidos, abaixando a cabeça – Eu não estou pronta para saber ainda.
Ele puxou minhas mãos e nossos olhos se encontraram de novo. E mais uma vez senti aquela sensação no estômago. — Deixe de ser criança! – disse irritado.
Suspirou e me soltou. — Não precisa mais se preocupar, Talia não vai te incomodar mais.
Eh? Quem... O quê?
— O bilhete...ela que escreveu se passando por mim. Ela que te trancou no depósito.
Ela...me trancou? Então a porta não bateu sozinha? Mas por que ela fez isso? Eu nem a conheço...
Espera, como ele descobriu? Será que ele estava preocupado comigo? Mas essa tal Talia nunca me fez nada... Tirando o lance do depósito.
...
Ele achou que estava o evitando por ela estar me ameaçando ou algo assim? --> pensamento muito rapido
Ah, eu sou uma idiota...
Mas, mesmo o evitando, ele ficou preocupado comigo? Eu...estou feliz.


Érick


— Vem, vamos falar com o diretor, eu tenho provas de que foi ela...
Senti ela me segurar pela blusa. — Não precisa.
Virei para ela confuso.
— O Sensei derrubou a porta do mesmo jeito, então ainda vai ter que cumprir o castigo.
— Mas você pode se livrar.
Ela sorriu. — Tudo bem, eu prefiro ajudar o Sensei.
...
Vou esgana-la.
— Você... Sua idiota! Acha que me ajuda em quê me evitando daquele jeito? --> Alterado.
— Descu...
— Não adianta pedir desculpas!
— Ta-ta bem...
Ela ajeitou a postura e levantou a mão direita em forma de juramento.
— Eu, Amélia Diaz, juro, solenemente, nunca mais evitar o Sensei. Palavra de escoteira.
O quê...? Que diabos...?
Não me aguentei. Não tinha como não rir daquilo.
— Pera, você foi escoteira?
— Não.
—_-
— Então por que deu sua “palavra de escoteira” se nem é uma? --> Sendo muito paciente.
— Ah, eu vi nos filmes. Achei legal.
............SEM COMENTÁRIOS...........
Ela de repente pegou a minha mão. — O que isso?! Está sangrando! – de uma hora para outra ela estava com o rosto preocupado.
— Não é nada...
Sem hesitar, e continuando séria, me puxou até a enfermaria. Praticamente jogou-me na cadeira e começou a procurar, desesperadamente, por curativos.
— Mia...
Ela nem me escutou, continuou a abrir todas as gavetas, resmungando baixinho.
— Mia, está na prateleira de cima.
Ficou na ponta do pé. — Ah, achei. — se agachou e apoiou a caixa de curativos no chão.
Puxou outra cadeira, sentando- se na minha frente. Pegou minha mão com cuidado, e começou a limpar o ralado, com a gaze umedecida de álcool.
Ardeu um pouco, mas tentei me controlar. A expressão séria e concentrada dela ajudou a me distrair.
— Sensei, não sei fazer isso muito bem, mas vou dar meu melhor. – disse ela, enrolando a atadura na minha mão.
Do nada ela soltou uma risadinha baixa.
— Qual a graça?
— Eh? Ah... Sensei também se machuca que nem eu... – parecia se divertir – Ta-dah! Acabei!
— Hum... Nada mau.
Ela sorriu satisfeita.
Puxei sua cadeira de rodinha, a aproximando de mim, que pareceu surpresa. — Sabe, esse machucado... A culpa é sua de novo.
Arregalou os olhos.
Apontei para o local em que estava alguns minutos atrás com Talia, e lhe mostrei a parede com a mancha de sangue. — Quando descobri que era a Talia te incomodando, tive que assustá-la de algum jeito para que aprendesse a lição.
Esperava que depois de ver e escutar aquilo, ela fosse ficar assustada e com medo de mim. Abaixei a cabeça, rindo irônico, começando a me arrepender de ter contado. Mas de repente, senti afagar minha cabeça, do mesmo jeito que eu fazia com ela.
— Obrigada... – disse sorrindo.
Pensei que a surpreenderia, mas o único surpreso era eu. Meu coraçao batia num ritmo descontrolado. Nunca tive tanta vontade de abraçar alguém. Só queria puxá-la para mais perto de mim e beijá-la.
“ Você gosta dela, é isso?”.
É...talvez.