Mia


— Por que não contou tudo para o diretor? Deixou mesmo aquela desgraçada sair impune depois do que te fez?
Estávamos na praça tomando sorvete, mas acho que nem isso foi capaz de esfriá-la.
— Não é isso. Só achei que depois do que ela fez, levar esporro do Sensei deve ter sido pior que um castigo (ele é bem assustador quando fica bravo).
Num primeiro momento na enfermaria, achei que ele tivesse agredido a garota, mas sei que ele nunca faria isso. Então entendi o que quis dizer em assustá-la... Só sei que, para me proteger, ele até tinha se machucado.
— Hum. Sabia que ela tinha mandado a bola na sua direção de propósito naquela vez.
— Bola? Espera, ela é a oriental do 2º ano?
Camila me olhou como se dissesse “ você só percebeu isso agora?”.
Sabia que conhecia esse nome de algum lugar!
Pigarreei. — Bem... com esse castigo vou poder voltar a passar mais tempo com ele.
Falar isso em voz alta era tão constrangedor...
Ela me olhou com os olhos arregalados. Mais um pouco e pulariam para fora. — Isso que dizer que...
— É... – disse me sentindo tímida.
— Até que enfim! – comemorou ela – Quando vai se declarar?
...
— Han?
Camila rolou os olhos, chupando o resto do seu milk-shake de morango. — Mia, descobrir o que você sente foi o primeiro passo, o segundo agora, é deixar ele descobrir seus sentimentos.
Isso não é bom...
— Calma, não precisa ser agora. Primeiro se acostume com a ideia de ficar na presença dele sabendo o que sente. Quando se sentir pronta, você se declara. (se ele não fizer primeiro).
— Mas eu nem sei se ele sente o mesmo que eu! – senti a garganta fechar.
— Descubra! – ela sorriu – Ah e...É melhor que não demore porque esse tempo juntos vai acabar, já que você não tem mais aulas com ele e as férias estão quase aí. Logo depois do festival.
É verdade! Eu preciso de mais tempo!
— Só pra você saber, nas férias também se estuda. – ela parecia ter um plano.
No caminho para casa, fui pensando na ideia de Camila. Teria que pensar a respeito.
Quando cheguei em casa, milagrosamente titia estava lá.
— Tia, você não tem plantão hoje? – levei um susto com a pessoa sentada no sofá – Dona Soraya!
Ela sorriu largo, estava mais radiante do que quando a conheci. Deixou a xícara de café na mesinha de centro e veio com os braços abertos em minha direção.
— Oi, bonequinha! – me abraçou carinhosamente.
— Ela estava te aguardando, Mia.
— E vejo que a gentileza é de família. – disse olhando para titia e depois voltou- se a mim de novo – Só não use mais esse “dona” comigo, está bem?
Sorri, confirmando.
— Com licença, fiquem a vontade. — titia recolheu as xícaras, nos deixando sozinhas.
— Mia... – e segurou minhas mãos como eu tinha segurado as dela naquela vez – Eu vim aqui te agradecer.
Ela estava diferente. Sempre a vi sorrindo daquele jeito, mas sua áurea estava mais iluminada.
Sorri de volta. — Fico feliz que agora possa sorrir com os olhos também.
Soraya pareceu surpresa e seus olhos marejaram. — Mia... – e tocou calorosamente o meu rosto – Você é uma garota muito especial.
Agora quem estava surpresa era eu. Escutar isso dela era... Não sei explicar.
“Mamãe, mamãe, eu consegui tocar minha primeira música completa no violão!”
“Haha, minha menina sem dúvida vai ser alguém especial, não é amor?”
“Com certeza! A futura nova star (risos)”.
— O-obrigada. – disse sinceramente, tentando controlar a emoçao pela lembrança repentina.
Soraya me abraçou calorosamente e eu retribui.