Mia


Chegou o dia. Em poucos minutos vou saber a verdade. A professora de matemática abriu a porta. Segurava sua maleta marrom.
Engoli em seco.
Ah, aquela bolsa... ali estava a verdade. Meu coração não vai aguentar! Talvez... não seja tão ruim assim. Vamos lá, pensamento positivo! Eu estudei pra caramba, o Sensei disse que eu estava indo muito bem nos exercícios, e ele me fez fazer tantos que, a maioria dos exercícios que caíram na minha prova, eram parecidos com algum que eu já tinha feito.
Eu dei meu melhor!
A professora retirou os papeis da bolsa e começou a chamar os nomes respectivos ás provas.
— Amélia Dias.
AAAAH! E se meu melhor não tiver sido o suficiente? A titia vai ficar desapontada comigo, a Sra. Park também, o David, a Camila, até o Sensei Tirano! --> crise interna
— Mia?
Levantei de repente. OK, coragem!
Peguei a prova sem olhar. Só encarei o chão, não queria ver o rosto de ninguém. Sentei no meu lugar e coloquei o papel embaixo da carteira.
— Mia! – chamou Camila baixinho – Quanto?
Dei de ombros. Ela ficou brava. Então assim que o reboliço dos alunos começou, ela veio direto até mim e pegou o papel. Afundei a cara na carteira.
— Mia, você... não acredito!
Levantei o rosto para ver sua expressão. De repente ela se abaixou e me deu um abraço apertado.
— Você conseguiu, Mia! A nota mínima!
Peguei o papel de sua mão, já um tanto amassado, e nem acreditei quando vi, pela primeira vez, aquela nota azul no canto da folha. O sinal tocou para o intervalo e eu fui correndo mostrar para a Sra. Park.
Assim que viu, abaixou os óculos para me olhar nos olhos. — Eu não disse que você podia mais? Estava desperdiçando sua capacidade como boa aluna.
Ela começou a caminhar até sua mesa e pegou um papel.
— Ainda não é o boletim, mas... isso prova que está se esforçando e levando a sério meu pedido. — e estendeu o papel para mim.
VIAGEM ESCOLAR PARA INTEGRANTES DE CLUBES.
Mentira... — Eu posso ir?
Ela confirmou e eu lhe dei um abraço apertado. Mas só a deixei irritada, Sra. Park não era de muito contato físico.
Eu estava feliz. Muito, muito feliz!!
— Viu, Mia. Graças aos seus esforços. — disse Camila.
Concordei, mas era graças a mais uma pessoa também.

Erick

Fim das aulas, até que enfim. Estou morrendo de fome.
Quando ia saindo da sala dei de cara com uma folha de papel. Meio atordoado, fui me afastando e aos poucos consegui ler o que estava escrito nela.
7,2? Teste de Matemática – 2º Bimestre. Aluna Amélia Dias.
— Obrigada! — disse ela, aparecendo com um sorriso radiante.
— Quanta felicidade para uma nota sete.
— Sete vírgula dois! Olha, vírgula dois. – e apontou na folha.
Diferença...
— Mas não é só por causa disso que estou feliz. Eu vou poder participar da viagem escolar, que vai ser em um lugar muito importante para mim. – ela me olhou direto nos olhos – Sei que reclamei do seu jeito muitas vezes, mas... eu quero muito agradecer. Se não fosse o Sensei isso não seria possível. Muito, muito obrigada!
Hum. Ela estava realmente feliz. Seus olhos brilhavam e seu sorriso estava de orelha a orelha. Ela sempre agia de forma meio receosa comigo, parecia estar sempre incomodada com minha presença, mas agora, dizendo essas coisas e fazendo essa expressão... Isso me deixou um pouco sem jeito devo admitir.
Criança estranha...
Ela estava indo embora.
— Ei,ei!
Assim que se virou ainda havia o resto daquela expressão.
— Você é um peixe mesmo? Ou não quer cumprir a promessa que me fez?
— Han?
— Sinceramente... Você prometeu, tem que cumprir. Lembra-se? “Mais de sete no teste e te pago um almoço.”
— Ah, sim. (você levou mesmo a sério).
— Claro que levei.
— Certo, certo. Eu tinha me esquecido.
— Já esperava, não é atoa que você é a Dory.
Fui andando na frente e ela veio atrás de mim reclamando, tentando me convencer de que a Dory nunca tiraria 7,2 em matemática. Eu ri desse argumento até chegarmos ao Burguer King.

Mia

Minha tia ficou super orgulhosa de mim. Eu fiquei meio receosa em pedir para ir na viagem escolar, mas quando fui perguntar, ela nem me deixou terminar de falar e só disse “aonde eu assino?”.
A viagem seria na minha cidade natal, é por isso que eu estava tão empolgada. Havia um lugar especial que eu queria ir, meus pais me levavam para lá nos fins de semana. “A caichoeira mágica”, na verdade era uma cachoeira comum, mas digamos que a magia estava implícita na beleza. Só teria que dar um jeito de falar com a Sra. Park para passarmos lá.
Já de noite, meu celular começou a tocar.
Eu: David! Advinha... Eu tirei 7, 2 na prova!! Eu consegui!
David deu risada da minha empolgação.
David: Sabia que conseguiria. Mas... hã...hoje... você voltou sozinha pra casa?
Eu: Não, não. Eu voltei com o Sensei.
David: Quem?
Eu: O meu tutor de aula particular que eu disse antes.
David: Ah... (você realmente se empolga com as coisas que Eun Ah te diz)
Eu: É que eu prometi pagar um almoço se conseguisse uma boa nota na prova. E ele mora pelo bairro também.
David: Entendo. Mas da próxima vez avisa. Eu fiquei... Quer dizer, eu e a Camila ficamos preocupados.
Verdade, tinha ido embora sem dizer nada.
Eu: Ah, sim. Desculpe. Eu vou me lembrar de avisar, mas foi dessa vez, não é como se fosse ter uma próxima.
David: Sério? (ah, que bom).
Eu: Han?
David: Não, nada. Ah, quase me esqueço. Será que sua tia te libera para vir tocar comigo de novo no bar do pai?
Eu: Não posso, ela ficou contente pela nota, e mesmo me liberando para viagem disse que não estava totalmente livre, já que ainda não é o boletim.
David: Pera, você vai na viagem? A desse fim de semana?
Eu: Yep!
David se empolgou e ficamos conversando até tarde.

Érick

A campainha tocou. Espero que não seja o vizinho pidão de novo. Parei antes de abrir.
Droga, eu já disse para ela não vir mais aqui.
— Talia, já di-
— Talia?
— Paul?
— A Talia já veio para cá? Cara, você fica com as alunas também?
Ele entrou sem cerimônia.
— Não é isso.
Eu tenho que mandar por um olho mágico nessa porta.
— Vim porque briguei com a Kara. – ele tirou a caixa de cerveja da sacola.
— De novo? – sentei no sofá.
Paul estendeu uma garrafa pra mim. — Na verdade, foi uma discussão boba. – e se sentou também – Ela apontou para um pingente na vitrine da loja e ficou meia hora dizendo como ele era bonito. Eu fiquei de boa, e concordei. Mas ai quando comecei a puxá-la para continuarmos a caminhar, ela ficou puta do nada! Cara, sério... Eu realmente não entendi. Ai ela começou a falar alguma coisa sobre substituir anel, ah, sei lá. Só sei que ela ficou emburrada comigo até deixa-la em casa. E nem me deu beijo de despedida!
— Hum...
...
— Já disse que você é um ótimo ouvinte? – disse ele com sarcasmo.
Acho que devo dizer algo. — Talvez ela quisesse que você comprasse o tal pingente para ela.
Ele deu um gole na cerveja. — Então por que ela só não pediu?
— Ela nunca pediria. Ela queria o colar, então ela deu os sinais, mas você os ignorou.
Ele parecia pensar no assunto.
— Certo, certo. Mas o que o anel tem haver com isso?
— Que anel?
— Sei lá. Ela disse “ainda não tem anel nenhum aqui, então talvez um colar para substituir”. Tipo, o quê?
Suspirei impaciente. — Anel de compromisso. Não sei por que as mulheres dão tanto valor. Elas veem como algo romântico enquanto o único objetivo é marcar território.
— Ah, saquei. Mas se é assim, pra marcar território prefiro dar um chupão no pescoço dela todo dia. É bem mais econômico. – e riu da própria piada.
Espero que ele nunca diga isso a ela.
— Ah, fazer o quê? Os dramas dela deixam minha vida mais agitada. Eu meio que gosto disso.
Vai entender...
— Já falou para ela da viagem do clube?
— Nem... Estou adiando isso, ela odeia os comentários das garotas enquanto estou jogando.
— Hum...
— Você vai?
— Claro, quero sair um pouco. Assim não preciso ficar inventando desculpa para não ir no jantar da “família feliz” nos fins de semana.
— Hum...
Paul não demorou muito, porque depois que entendeu o que eu disse, resolveu comprar o tal anel para Kara, dizendo que podia aproveitar e já contar sobre a viagem. Provavelmente eles discutiriam de novo.
Bem, tinha sobrado cerveja mesmo...