Método Único
13 Capítulo 10
Érick
Mãe: Érick, por favor, é um jantar muito importante para o seu pai. Você tem que vir hoje a noite.
Eu: Já disse que não posso. E também não quero.
Desliguei, mas ela me ligou de novo. Deixei tocar, até parar.
Jantar importante... Qual não era? Ele ainda vive para o trabalho mesmo depois de tudo o que aconteceu. E essa mulher ainda age como se se importasse com a família.
Meu telefone começou a tocar de novo, mas dessa vez era meu pai. Ele nunca mais tinha me ligado desde que sai de casa.
Pai: O jantar é ás 18h. Esteja aqui vestido a caráter, e com uma acompanhante de preferência.
Eu: Tenho aula como uma aluna.
Pai: Então a traga.
E desligou.
Ele continua do mesmo jeito...
Droga! Se eu não for, ele vai fazer de tudo para voltar a controlar minha vida.
Que seja. É só para posar de família feliz mesmo. Uma noite não mata.
Mas ainda tem essa besteira de acompanhante.
Sentei no sofá, peguei o celular e comecei a olhar a lista de contatos.
Inferno! Tantas garotas, mas nenhuma compreenderia o motivo de serem acompanhantes por algumas horas. Talia com certeza entenderia errado, e ai sim não desgrudaria do meu pé.
“Então a traga.”
Ah, só espero que ela não entenda errado.
Dia seguinte, durante o intervalo a procurei na cantina, mas ela não apareceu. Então fui a sua sala, mas estava vazia. Assim que me virei, trombei com alguém no corredor.
— Descu... — era ela – Ah, te achei.
— Han? Sensei estava me procurando?
— É. Tenho um favor a pedir.
— Certo. – disse ela concentrada no que estava prestes a dizer.
— Preciso que me acompanhe em um jantar.
— Certo. – ela pareceu pensar um pouco e, pela expressão, não tinha entendido muito bem – Mas... é algum tipo de “passeio educativo”?
Passeio educativo? Ela não sabe o que é “ser chamada para sair” não?
...
Bom, faz sentido. Bem provável que nunca tenham a chamado para sair.
— Na verdade, é só um lugar com música, pessoas e vários tipos de comida.
— Comida? (eu amo comida) – ela se virou para mim séria e apertou minha mão – Pode contar com a minha ajuda! Ficarei feliz em ser útil!
E saiu andando, continuando a tomar seu suco de caixinha.
Por que eu ainda ficava surpreso com as reações dela? Ela é garota mais estranha que já conheci. Ri disso sozinho.
— Esteja pronta às 17h! – disse antes que ela se distanciasse mais.
Ela se virou, esticou o braço e mandou um joinha.
Mia
— Mia, não se esqueça que você está encarregada das atividades pós-turno, já que você é representante de turma essa semana. – lembrou meu professor de biologia, assim que a aula terminou.
— Sim, senhor!
Parei de copiar.
Ai, não! Tenho que ajudar o Sensei hoje! Ele disse ás 17h né? Ok. Acho que dá tempo, se eu fizer tudo rápido, vou terminar tudo cedo.
***
ESTOU ATRASADA!!
Saí correndo da escola direto à estação. Não posso acreditar, eu jurava que daria tempo. Mas não podia imaginar que organizar o material da sala e preencher o livro do aluno fosse demorar tanto! E ainda tive que ajudar a carregar os materiais do festival. Aquilo estava realmente pesado, não deveriam pedir para uma garota fazer essas coisas..
Isso é mau... Nem os professores me veem como uma garota.(chorosa)
Sensei já estava esperando na estação e com uma expressão não muito boa.
— Des- descul- culpa – disse esbaforida, me apoiando nos joelhos. Parecia que iria desmoronar.
— O que houve? Por que não atende o celular? Sabe como eu fiquei preocu- — ele bufou – Você ainda está de uniforme?
— É que...
— Que seja, minha mãe deve ter alguma roupa sobrando.
O metrô chegou e nós entramos. Acho que o irritei de novo. Eu sou uma inútil, eu deveria ajudá-lo hoje, mas acabei atrapalhando.
De uma hora para a outra o metrô encheu. Eu estava sendo engolida pela multidão, quando Sensei me puxou. Colocou-me encostada numa das portas e ficou na minha frente bloqueando qualquer contato com qualquer pessoa.
Ele está mais perto que o normal. Por que estou ficando nervosa de repente?
— Você... Não aconteceu nada né? – perguntou, fazendo alguns fios no alto da minha cabeça balançar.
— Han?
— O motivo do atraso.
— Ah, não. É que eu sou representante de turma da semana, então eu tive que...
O metrô começou a frear e eu tombei para o lado. Sensei foi rápido em colocar o braço na barra de ferro, impedindo que eu batesse a cabeça.
— O-obrigada.
Aquilo me fez ficar acanhada por algum motivo.
Assim que chegamos à casa dele eu nem acreditei. Era enorme e... LINDA!
— Essa é sua casa? – estava encantada... Os enfeites para festa ajudavam também.
— Não. Essa é do meu pai. A minha você sabe aonde é.
— Ah, sim.
O Sensei era rico. Quer dizer, o pai dele era. Isso explicava algumas coisas. Agora entendo da onde vem o bom gosto para se vestir, a disciplina e o olhar superior. Se bem que este ele não fazia mais.
— Érick! – uma mulher linda, em um vestido verde justo, vinha a nossa direção – Que bom que veio!
Olhou para mim. — Ah, por esse uniforme suponho que é do mesmo colégio que meu filho.
Hein? Filho? Nossa, ela parecia tão nova...
— Prazer, Soraya!
Ela apertou minha mão sorrindo. Que gentil!
— Amélia! – retribuí o sorriso.
Olhou para o filho, e voltou a olhar para mim.
— Bom, não se preocupe, eu lhe empresto um vestido meu. – disse ela já me levando para dentro.
Não entendo. Por que ele tinha ficado tão calado? Nem cumprimentou a mãe. Será que eles discutiram mais cedo? Ah, eu me lembro quando discutia com a mamãe, mas eu tinha sete anos, então não demorava muito para fazermos as pazes. Sempre foi minha parte preferida da briga, porque toda vez eu recebia um abraço e um beijo grátis.
Érick
Fiquei a esperando no bar de coquetéis. O lugar já estava repleto de pessoas desconhecidas. Como de se esperar em um jantar desses.
— Érick Carter...
— Alissa Franco...
Ela pareceu surpesa. — Lembra-se de mim?
— Claro. – te carreguei bêbada de volta para casa e você me beijou a força, quis acrescentar.
— Como estão as coisas? Ouvi que saiu de casa. -ela riu — Mas sei que são boatos, você não aguentaria nem um dia sem as mordomias ao qual está acostumado.
Eu ri. Você ficaria surpresa...
Ela continuava a mesma, e não tinha perdido a mania de me examinar dos pés a cabeça. A única diferença é que estava mais loira, mas a ousadia em usar vestidos com decotes exagerados, e fendas compridas não tinha sumido.
— Um Martine para a moça, por favor. – pedi para o cara do bar.
— Você se lembra da bebida que eu gosto?
Sorri. Você pediu centenas dessa até cair bêbada...
Alissa me olhou com os seus olhos devoradores. — Fico feliz que continue um cavalheiro.
Olhei em volta, vi minha mãe, mas não vi Mia.
— Com licença...
— Vai para aonde?
— Buscar minha acompanhante.
Ela levantou uma sobrancelha e se virou para pegar sua bebida.
— Licença, mas viu a garota que chegou comigo? Uma baixinha? – perguntei para uma das empregadas da casa.
— Ah, acho que a vi na sala, senhor.
Agradeci.
O que ela estava fazendo lá? Do jeito que ela é, provavelmente se perdeu. Se é que tem como se perder aqui.
Parei assim que a achei. Ela estava perdida admirando os quadros da sala. Quer dizer, eu acho que é ela...
— Mia?
Eu nem acreditei quando ela se virou. Usando um vestido preto justo, maquiagem e com o cabelo solto parecia... Uma mulher.
Ela acenou de longe, mas ficou parada no mesmo lugar, então eu fui até ela.
— O que foi? A festa é lá fora sabia?
— Espera, espera! — ela me segurou — É que esses saltos... Sabe como foi difícil descer as escadas com isso?
— Você nunca andou de salto? – por que isso não me surpreende...
— Por que usaria algo tão desconfortável? — perguntou sincera.
Aposto que estava pensando em suas pantufas agora.
Lacei seu braço no meu. — É só se apoiar em mim.
Ela pareceu relutante, mas comecei a andar, então ela não teve outra escolha, a não ser me acompanhar. Realmente não estava acostumada, ela trotava algumas vezes, o que era engraçado. Achei que garotas nascessem com um dom para esse tipo de coisa... Mas nem sei porque tento aplicar essas regras a ela.
Mia
Eu estou me sentindo tão desconfortável! O vestido é muito colado e... preto! Eu nunca mais usei preto na vida! Mas o pior são esses sapatos. Vou valorizar mais minhas pantufas daqui para frente. Mas o fato de poder me apoiar no Sensei deixa a minha situação menos pior.
— Olha só! Não é que ele realmente trouxe uma acompanhante?
Uaau! Que garota linda!
— Alissa, essa é a Amélia.
Ela deu um belo sorriso e me cumprimentou.
— Sabe Érick, eu estava pensando há um tempo (já que me deixou sozinha aqui) e me lembrei das coisas do passado. Aquele beijo que eu te dei aquela noite, eu queria me desculpar. Você cuidou tão bem de mim, então eu só quis agradecer. Mas sinto muito se passei dos limites.
— Alissa...
— Ah, é porque o Sensei é muito gentil, mesmo que no começo não pareça.
— Sensei?
— É, ele me ajudou muito lá na floresta, e eu não sabia como agradecer, então ele me pediu um favor e eu fiquei muito contente em poder ajudar, mesmo que eu sinta falta das minhas pantufas agora...
— Pantufas?
— Aham, elas são de coe- — de repente Sensei tampou minha boca com a mão.
Ele riu. — Mia, está com fome?
— Uhum! – disse saindo abafado.
— Com licença. – pediu ele com uma voz gentil e me levou até a mesa mais distante da área da festa.
Rapidamente, os garçons serviram nossos copos com refrigerante e colocaram na mesa uma cesta de salgadinhos variados, e outros pratos repletos de aperitivos diferentes.
Fui experimentando cada um deles.
— Sensei, aquela garota era sua namorada?
Ele se engasgou com a soda.
— Nunca mais diga algo assim. Eu não tenho nada, NENHUM relacionamento com aquela mulher. – disse nervoso, ainda tossindo pelo engasgo.
— Sem estresse...eu já entendi. – e dei alguns tapinhas em suas costas para ele parar de tossir de vez.
Peguei um aperitivo que parecia uma torradinha, mas tinha algo verde em cima.
— Ei, isso é meio...
Quem começou a tossir fui eu. — Ardido!!
Ele me alcançou o copo com refrigerante e depois de eu virar todo o copo de uma vez, ele é quem me deu tapinhas nas costas...Se acabando de rir.
***
A noite foi longa. Sensei disse que estava tarde por isso me levaria para casa. Estava tão cansada que nem discuti, só fui colocar de volta o meu uniforme.
Os banheiros estavam ocupados, então Sensei pediu para me trocar no porão mesmo e disse que estaria esperando por mim.
Fui rápida em colocar o uniforme de volta. Aquele era um lindo vestido, mas preto realmente não era minha cor.
Hoje... Foi bem legal. Tirando a parte do salto e a torradinha picante, o resto foi divertido. É um mundo tão diferente do meu, talvez por isso o Sensei riu tanto de mim, eu parecia uma alienígena no meio de um monte de coisas que nunca tinha visto. Mas estou feliz. Aprendi bastante, como sempre quando estou com ele. Espero que eu tenha sido útil... De alguma forma.
Aonde eu coloquei minha mochila? Coloquei em cima de algo parecido com uma mesa rebuscada...
Mas quando a encontrei, percebi que na pressa nem reparei que a “mesa rebuscada" era na verdade um piano.
Érick
Ela está demorando. Deve estar é enrolada com o vestido.
...
Droga. Por que fiquei nervoso por imaginá-la se trocando? Não é como se tivesse algo que eu queira ver.
De repente me lembrei das caras que ela fez ao ver aquelas comidas diferentes. E quando ela comeu caviar? Ela é uma palhaça...
Sem perceber estava rindo de novo. Tão boba...
Até que ela foi útil, é a primeira vez que me divertido em uma festa dessas.
...
Mas que demora! Será que ela caiu? Será que se machucou?
Desci as escadas correndo. Argh, aquela desastrada!
Parei assim que escutei o som do piano saindo dali. Esse som... Que droga estava acontecendo ali?
Abri a porta num solavanco.
Mia
Parei de tocar na mesma hora pelo susto.
— O que pensa que está fazendo?!
Ele veio depressa até o piano e fechou com tudo a tampa dos teclados.
Se não tivesse tirado rápido minha mão... Olhei para ele e estava transtornado.
Levantei-me imediatamente. Meu coração estava a mil, meu corpo começou a tremer. De todas as vezes que pensava tê-lo visto nervoso, essa era a primeira vez que o via realmente bravo.
— Des... des.. – as palavras não saíam.
É melhor não dizer nada.
Ele nem mesmo me olhava nos olhos, estava estático, encarando o piano, fechando cada vez mais as mãos.
É melhor eu sair daqui.
Peguei minhas coisas e fui embora, impossibilitada de falar alguma coisa, nem mesmo pedir desculpas.
Sou uma idiota...
Érick
O som do piano... Toda a lembrança voltou. Acabei me irritando.
Eu gritei com ela. Devo tê-la assustado.
...
Droga... eu sou um babaca!
...
Ela saiu sozinha...
Peguei meu celular. 23h! Ela é idiota?! Ir para casa sozinha tão tarde assim!
Peguei o casaco e subi as escadas correndo.
— Filho, sua amiga já foi?
A ignorei.
— Érick!
Fechei a porta na pressa e corri pela rua até a estação, desejando que a alcançasse logo.
A estação estava cheia.
Droga, droga, droga! Se algo acontecer com ela... A culpa vai ser toda minha!
Avistei alguém com o uniforme do colégio e uma bolsa de coelhinho. Entrou no metrô e assim que se virou, meu corpo relaxou. Encontrei... Ainda bem.
Entrei no mesmo vagão, mas pela outra porta. Pedi licença para algumas pessoas que bloqueavam o caminho, mas assim que a vi, parei no mesmo instante. Suas mãos tremiam, sua expressão estava assustada e confusa... E era minha culpa.
A cena de eu gritando com ela veio no mesmo instante.
Parado ali, eu deixei as pessoas passarem por mim, deixando também a distancia aumentar.
Segui Mia o caminho todo até sua casa, sem ser percebido.
Estava sã e salva em casa agora.
Que alívio... Mas... por que eu ainda sinto um aperto no peito?
Mia
Aquilo me assustou. O rosto furioso dele não quer sair da minha cabeça.
Eu fui tão imprudente...
Joguei-me na cama.
Mas eu achei aquele piano tão encantador e ao mesmo tempo sombrio... eu deveria saber que ele estava isolado por algum motivo. Quem guarda um piano no porão? Achei que estava quebrado, mas quando toquei uma tecla e ouvi o mais perfeito som da nota, fiquei empolgada.
Argh, eu nem me desculpei!
Um vento forte vindo da janela começou a fazer rebuliço nos meus papeis. Corri para fechá-la. Mas lá fora, uma imagem familiar me chamou a atenção. Foquei mais na pessoa que andava com um ar de tristonha na rua escura de uma noite tão fria.
Se-Sensei? O-O quê? É ele mesmo!
Mas o que ele...? Será que veio atrás de mim? Será que me seguiu até aqui? Ele ficou... preocupado?
Sem chance!
O acompanhei com os olhos até ele sumir na virada da esquina.
Amanhã eu tenho que me desculpar...
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