Método Único
1 Capítulo 1
Mia
Sabe aquela sensação agradável que se pode sentir ao escutar uma musica boa? Você flutua... e cada oscilação de notas faz com que seu coração bata de maneiras diferentes, acompanhando os diferentes ritmos da música. De todas as coisas que existem, ela é a única que nos faz sentir estar entre o mundo real e o mundo ideal. Muitas vezes ela nos traz lembranças, que dependendo do ritmo, podem ser boas ou ruins.
Bom, para mim funciona desse jeito, e é por isso que amo tudo relacionado a música, se eu pudesse aprenderia a tocar todos os instrumentos inventados pelo homem... Mas os únicos que sei tocar (ainda) são piano e violão. E, modéstia a parte, sou tão boa cantando quanto tocando, e é por isso que participo do grupo mais legal do colégio: O Grupo de Música!
Neste exato momento, por exemplo, estou na sala de aula só esperando a professora terminar a equação. Assim que o sinal tocar, estarei livre para me encontrar com a professora Park Shin para mostrá-la a nova música que estou compondo.
Mas esse sinal deve estar atrasado, só pode! Ou talvez tenha parado de funcionar. Será que devo avisar a Sra. Lourdes que já está na hora? Porque já são...
Olhei para o relógio acima do quadro.
Han? Faltam quinze minutos ainda?! Como assim?! Não é possível que esteja tudo quebrado nesse colégio! --> crise interna
Encarei o relógio.
Argh, esse relógio não sabe marcar as horas direito, não?
Senti alguém jogar uma bolinha de papel em mim. Com certeza era a Camila. No papel amassado no chão, percebi que havia algo escrito.
Qual o problema com sua perna? Eu de longe já estou me irritando. PARE JÁ COM ISSO!
Parei no mesmo instante. De algum jeito Camila era assustadora quando brava, mas quando está em seu normal, ela é realmente carinhosa. Porém, acho que só eu sei disso, já que sou sua melhor amiga.
Virei para trás para olhá-la. Ela fazia sinal para eu prestar atenção na aula.
Ora essa, ela quem deveria prestar atenção na aula, ao invés de brigar por eu estar mexendo a perna.
O sinal finalmente tocou, e eu me apressei em sair da sala.
— Amélia!
Parei na porta imediatamente.
Ah não...
— Sim, Sra. Lourdes?
Ela fez sinal para que eu fosse a mesa dela.
Saco, saco, saco, saco...
— Você conseguiu tirar a menor nota da sala no teste surpresa, que eu passei na semana passada. Ainda estamos no começo do ano, então você tem tempo para corrigir sua postura nos estudos. Mas isso não acontecerá se continuar dispersa nas aulas como estava hoje.
— Hum...
Ela suspirou, ajeitando os papéis empilhados. — Pode ir...
Sério? Ela não dará um sermão enorme dessa vez?
— Tentarei fazer melhor na próxima. Então, já vou indo!
Corri para enfim aula de música. Assim, se ela mudasse de ideia sobre o sermão, eu já estaria bem longe.
— Cheguei!
Sra. Park me olhou com uma cara séria. — Posso saber aonde esteve para chegar atrasada?
— Han? Ah, eu... eu... – bufei – A Sra. Lourdes quis conversar comigo.
— Sobre suas notas de novo, eu creio.
Confirmei com a cabeça, me arrependendo de não ter dito que havia me atrasado por estar com diarreia.
Sra. Park suspirou e me mandou pegar o violão para prosseguir com o ensaio. Estávamos todos (principalmente eu) ansiosos para a apresentação do Festival Escolar, onde alunos de outras sedes visitariam a escola central, ou seja, a nossa. E como bons alunos, deveríamos recebe-los com várias atividades, incluindo o teatro e grupo de música. E é aí que eu entro!
Tocaríamos três músicas, covers das que mais gostamos, ou até mesmo músicas autorais (essa é a melhor parte).
Ao todo, formávamos três grupos: o da Abigail, Jorgia e Filip, que gostavam de tocar músicas mais antigas; o grupo que a Sra. Park montou e dava todo o apoio, pois o grupo era composto por três caras e uma garota que amavam músicas Coreanas (os garotos eram daqui de Duluth, Minnesota mesmo, mas Lee Eun Ah veio da Coréia do Sul) e por fim, o MEU grupo (na verdade, dupla).
David e eu somos um par e tanto, crescemos juntos e desde pequenos fizemos um acordo de fazer música juntos. David estava no segundo ano e era o favorito das garotas do colégio. Já eu passava despercebida por todos. Acho que pelo fato do meu talento não superar minha falta de beleza e meu senso de moda deprimente. Mas isso não me incomoda. Tenho amigos e faço o que eu gosto, nada mais importa.
O treino foi muito proveitoso, a cada dia os grupos melhoram cada vez mais. Estava guardando o violão no lugar quando David veio falar comigo.
— Está tudo bem?
— Sim! Por quê?
— Ouvi que a sua professora de matemática quis falar com você. Está com problemas com as notas de novo?
— Ah, sim. Eu resolvo isso, não se preocupe.
— Certo... Vai poder ir hoje né?
— Claro!
— Meu tio gosta muito das nossas apresentações, e diz que muitos clientes elogiam também.
— Sério?
Isso é incrível! Adoro quando os outros gostam do nosso som. Meus pais devem estar super orgulhosos de mim.
— Ah, Sra. Park! Eu estive compondo outra música...
Ela deu um suspiro tão alarmante, que achei que estivesse com falta de ar ou algo do tipo.
— Amélia, você tem um dom único com a música, sendo assim, não precisa se esforçar tanto. Sei que parece tolice dizer isso, mas tomando em nota a sua dificuldade com as disciplinas curriculares, você deveria estar ocupando seu tempo estudando ao invés de compor outra música.
— O quê...
Mais um suspiro. Uma ajeitada nos óculos. — Estou indo, feche a sala antes de sair. Mande lembranças a sua tia.
— Sim...
O que ela quis dizer com aquilo? E é impressão minha ou ela nem quis ouvir minha música?
Tudo bem, nem estava pronta mesmo...
— Não fica assim, ela deve estar de mau humor hoje. — David bagunçou meu cabelo.
— Ei! Não faça isso!
Ele riu. Malvado.
Tranquei a sala e devolvi a chave na diretoria.
— Cadê a Camila? Ela não vem com a gente hoje? – perguntou ele.
— Miaaaaa!
Falando nela, aí está. Toda esbaforida. Aposto que se perdeu de novo nos corredores do colégio. Ela veio transferida esse ano, mas também cresceu comigo e David. Não gosta muito de se socializar, pois diz que tem problemas em gravar nomes, e ter dois amigos para decorar data de aniversário já era bem complicado para ela.
— Você se perdeu de novo? — disse David em tom de reprovação.
— Você... Sr. Popular... Não brinque comigo.
— Agora que você chegou, nós já podemos ir. – disse.
— O quê?! Não...
Camila quase caiu. Ela nunca foi de muito exercício.
— Meus joelhos vão se partir se eu for andar agora. Deem-me um momento.
— Ei, deixe de ser mole! A tia da Mia ficará chateada com ela se chegar atrasada para o almoço.
Ah, isso é verdade.
— É uma causa nobre!
David bufou. Pensou um pouco e se agachou.
— Venha, suba nas minhas costas.
— Hein? Enlouqueceu?
Conhecendo Camila, ela nunca aceitaria ser vista sendo carregada por um garoto na frente de todos do colégio, ou seja, aquela discussão não teria fim, e estava quase na hora do almoço.
— Então suba na minha. – me agachei ao lado de David.
— Enlouqueceu? Já viu seu tamanho? – ele perguntou me tratando como doida.
— Ei! Sou baixinha, mas se duvidar sou mais forte que você.
— Minha nossa, vocês estão com tanta pressa assim? Está certo. Mia, me dê apoio por enquanto então.
Ela envolveu o braço no meu pescoço e foi arrastando os pés até a casa dela. Seus pais se mudaram para mais perto da escola, por isso a transferiram.
— Por que essa cara? – perguntou Camila no meio do caminho.
— Han?
— A Sra. Lourdes te deu sermão de novo, né?
— Dessa vez não. – disse achando estranho também.
— Sério? Hum... Mas então o que houve?
— Sra. Park não quis ouvir minha música hoje... Ela sempre aprovou meu empenho para compor. Não entendi sua reação.
— Já disse que ela devia estar de mau humor. Não pense muito nisso, Mia. – pediu David, tirando a franja dourada olho, que teimava em cair.
— Aquela lá sempre está mau humorada, não vou com a cara daquela senhorinha. Não se preocupe, Mia, deve ser só questão de uma noite mal dormida...velhos tendem a ficarem desestabilizados quando saem da rotina, e descontam nos outros.
Ah, tomara...
— Obrigada, Mia! Com certeza você é mais forte que o Sr. Popular. Já vou indo!
Esperamos ela entrar em casa.
— Sr. Popular? Qual é a desse apelido?
Ai! Acho que desloquei meu ombro. Massageei-o um pouco — Não liga, no fundo ela te ama.
— Ah, eu sei disso. – ele apontou para seu próprio rosto – Tem como não me amar?
Dei um tapinha em seu braço. — Recomponha-se!
— Parei.
Pegamos o metrô e, acho que por demorarmos um pouco, estava mais lotado que o normal. Porém, no vagão em que entramos havia um assento livre e, como eu já esperava, David o cedeu para mim.
De repente, um cara passou voando na minha frente e se sentou no único lugar vago ali. Meu lugar prioritariamente. O lugar que David cedeu para MIM. E dá onde aquele cara apareceu?
David, que estava ao meu lado, falou para o Sr. Flash, segurando os nervos (percebi em sua voz).
— Ei, seja mais educado e deixe a garota sentar.
Sr. Flash nem olhou para o David, pegou os fones, colocou-os no ouvido e deitou a cabeça na janela.
Ora, que atrevimento! Eu deveria dar....
— Argh, vou dar um soco nesse bastardo.
Peguei o braço dele e pedi que se acalmasse, não valia a pena. Seriamos expulsos do metrô por causar tumultuo. Sr. Flash era mal educado, mas era o Sr. Flash, fazer o quê? Ele se sentou primeiro mesmo.
A casa de David eram duas ruas antes da minha, o que o deixava incomodado por eu voltar (só duas ruas!) sozinha. Levei um tempo para convencê-lo de que não era necessário ele me deixar em casa para depois voltar de novo. Isso na verdade nem fazia sentido.
— Já vou indo! — disse.
— Toma cuidado!
Prestei continência para ele de brincadeira, e voltei a caminhar para casa.
No caminho de volta, vim me enchendo de perguntas a respeito de como a Sra. Park agiu mais cedo hoje. E eu nem consegui mostrar o começo da música para ela. Tudo culpa da Sra. Lourdes!
Não, foi minha culpa mesmo. Sou muito lenta. Deveria ter sido mais rápida ao sair da sala. Não é a toa que o Sr. Flash passou na minha frente.
Como sempre, quando cheguei em casa o cheiro da comida da titia estava no ar.
— Mia, já chegou? – perguntou da cozinha.
— Yep.
— Pois venha almoçar, meu bem, que já está tudo pronto.
Acho que hoje é o dia de deixar os sermões de lado. Mas não vamos abusar.
Subi as escadas correndo, joguei a mochila no quarto e não me lembro de como cheguei de volta a cozinha. Na mesa, um purê de batata esperava por mim. Minha comida preferida! Comecei a devorá-la, quando só então me toquei.
Espeeeera! “Meu bem” no meio da frase, meu prato favorito... Ah, não.
Fingi não ter percebido e continuei comendo sem levantar os olhos da comida.
Ela pigarreou. Fiquei tensa, os ombros encolheram.
— Mia, precisamos conversar.
Soltei os ombros. Conversa séria enquanto eu comia? Eu teria uma indigestão!
Mas ela continuou:
— Sua professora de música ligou para casa e falou comigo hoje.
Hein?
— Ela disse que está preocupada com você, pois não está levando seus estudos a sério. Suas notas continuam baixas e parece que você não se importa com isso. Se você se dedicasse nas outras matérias como se dedica na música, se destacaria também na sala de aula. Poderia ser até a melhor da turma.
Heein?
— Ela quer que você dê um tempo no grupo de música e que, se você não conseguir pelo menos a nota mínima em todas as disciplinas, você não precisa mais voltar para as aulas dela.
Heeeeein?! Por isso ela estava estranha comigo de manhã? Por isso ela nem quis ouvir minha nova composição? Ela não me quer mais como aluna? Ela não acha mais que eu tenho talento?
— Eu já contratei um tutor particular para você. Na verdade, ele é jovem, mas todos elogiam sua boa reputação. Disseram que todos seus alunos tiveram as notas elevadas. Falam muito bem dele, pois apesar de ser muito jovem e cobrar barato, ele tem um tipo de método único...
Eu já não escutava mais nada. Professor particular?
— Mia?
— Eu... eu vou subir.
— Mas e sua comida? Você não terminou.
— Ah... Desculpe, eu... perdi a fome.
As escadas pareciam infinitas. Até chegar ao meu quarto pareceu levar um ano. Estranho, há minutos nem parecia que havia tantos degraus. Talvez tenham se multiplicado.
Entrei no quarto e pulei na cama, afundando o rosto no travesseiro.
A Sra. Park foi bem cruel dessa vez. Barrar-me do grupo de música com uma condição tão exigente... Nota mínima em todas as matérias?! Quem nesse mundo conseguiria?
Levantei-me e fiquei sentada.
Ok. A sala toda conseguia, já que eu era a última colocada da turma.
Tudo bem, é só eu me acalmar. A Sra. Park não deve estar falando sério, amanhã falarei com ela e resolverei tudo. Darei minha palavra que vou me dedicar aos estudos também.
Mas e se ela estiver séria quanto a isso? Nota mínima... Sete? Sete em todas as matéria? Ou seja, sete em matemática também? Isso é um absurdo!
Joguei a cabeça na cama novamente, e sufoquei meu grito com o travesseiro.
No final das contas, acabei dormindo.
***
Minha tia me acordou, chamando meu nome de um jeito doce. Segurava uma bandeja na mão e sobre ela uma xícara que, certamente, deveria ser chá de camomila.
— Obrigada.
Dei um gole e, como sempre, estava uma delícia.
— Mia, seu amigo ligou aqui agora a pouco e...
Oh, minha nossa! David! A apresentação!
Levantei-me depressa, derrubando chá na minha roupa.
— Quente, quente, queente!
Minha tia apressou-se em pegar um pano enquanto eu desbotoava a camisa o mais rápido possível.
— Mia, porque toda essa pressa?
— A apresentação começa às seis horas!
— Você...
Ai não, meu uniforme estava arruinado!
— O que disse, tia?
— Você não pode ir.
Parei o que fazia na mesma hora, e me virei para olhar pra ela.
— Han?
Ela respirou fundo como se estivesse tentando concentrar sua coragem. — Disse que não pode ir. Já falei com seu amigo, não se preocupe. Ele disse que entende, e espero que você também entenda. Quero que você descanse hoje, pois amanhã começarão suas aulas particulares.
— Não pode tirar a música de mim desse jeito. Você mais do que ninguém sabe o quanto ela é importante para mim.
Senti que minha tia estava prestes a chorar e se controlava ao máximo. Meu coração se apertou, vê-la assim me fazia achar que eu a estava machucando por dentro... e só percebi isso agora.
— Você quer que seus pais sintam orgulho de você, então trate de melhorar suas notas. — ela saiu do meu quarto, deixando-me ali, completamente sem chão.
Ela tinha razão, talvez meus pais não estivessem orgulhosos e sim decepcionados comigo. Afinal, quais pais poderiam se orgulhar de uma aluna que está em último lugar da turma? Passei tanto tempo achando que ficariam satisfeitos se desse meu melhor para seguir os passos deles e me tornar uma artista. Talvez estivesse enganada.
Eu sinto muito...
As lágrimas já escorriam sem parar e sem eu perceber.
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