Em meio a emergência, a telepatia de Cass simplesmente funcionou sem falhas. Ao menos com isso ela poderia contar. Thomas, Agda e ela estavam no mesmo campo telepático.

— A gente pode deixar ele ir embora? – Cass olhava para Felipe saindo perturbado dali.

— A magia vai durar algumas semanas, depois disso ele vai conseguir falar sobre, mas eu duvido que alguém vá acreditar. – Tom explicou em pensamento.

— Eu acho que consigo resolver isso. – Agda parecia cautelosa e verificava algo dentro da bolsa que carregava consigo.

— Eu também quero saber o que está acontecendo. – André dizia, por fora da conversa dos três.

Cass pegou a mão dele, ainda sem dizer nada.

— Eu posso fazer com ele também. – pensou Thomas.

— Não. – Cass o impediu.

— Ele não pode ficar aqui podendo falar. – Agda parecia preocupada.

— Cass? – André a chamava.

— Eu não sei como te explicar. – Cassandra disse ao namorado, cobrindo o rosto de novo.

— Você não tem 16? – André estava confuso. Um cara mais velho se aproximou de sua namorada, ela parecia reconhecê-lo, ele diz que ela estava no ensino médio em 2001 e ela não conseguiu simplesmente dar risada e dizer que ele está maluco? – E por que parece que ele sabe de alguma coisa? – ele apontou Thomas. Essa era outra parte absurda. Por que parece que tem algo sobre ela que Thomas sabe, mas ele não?

Se ele não pode ficar aqui, para onde vamos levá-lo? – Cass pensava.

Para um lugar onde possamos usar muita magia sem sermos notados. – Agda respondia.

Quanta magia? O que você pretende? – Tom analisava.

Eu consigo alterar as memórias deles. – Agda informou.

Que? – Cass se surpreendeu.

Eu sabia que você escondia alguma coisa.

— O quarto da Cass é o melhor para isso. É a prova de som e de várias outras coisas. – Agda estava decidida.

— Meu amor, – Cass começava a falar tentando manter a calma – eu quero te explicar, mas não quero falar disso aqui.

André temia. Algo estava muito estranho, ele não parava de sentir calafrios, como se seu corpo avisasse que ele estava em perigo. Essa era a complicação com humanos da Terra, um planeta de magias tão sutis. Eles geralmente não acreditam em manifestações tão extraordinárias, mas não conseguem ignorar sua existência uma vez que as sentem e testemunham.

— Por que eu sinto que não sei quem você é?

Os olhos de Cass ficavam vermelhos, querendo chorar. Ela via os sentimentos de André, o desejo instintivo de se afastar dela, o medo como se agora ela, Thomas e Agda fossem assombrações.

— Você viria comigo pra gente conversar? – ela pediu já sabendo que não teria uma resposta positiva.

— Cass, só me fala que porra tá acontecendo! – algo dentro dele ainda gostaria de encontrar alguma explicação razoável.

Agda começou a juntar as partes da bateria que ainda precisavam ser guardadas.

— Eu não posso. – ela falou baixo, começando a chorar.

— Temos que ir já! – Agda expressava urgência.

— Se ele não vem com a gente, eu vou precisar fazer. – Tom avisou.

— Por favor, não. – Cass pedia em sua mente.

André se dividia em querer consolar Cass e querer mandar todos os três para os infernos. Ele pensava no que dizer quando percebeu Tom olhando para ele, o olhar estranho e sombrio que ele havia dado ao cara que acabara de fugir. Ele deu um passo para trás enquanto seu corpo se decidia entre bater ou correr.

O passo foi o gatilho, Thomas não arriscaria. Ele era inteligente demais para vacilar, como diria Tabata.

— Esse também é nosso segredo. – ele disse.

André teve uma sensação momentânea de estar perdendo o ar. Não durou muito, nem teve dor, porque não pretendia falar, mas de alguma forma já entendia que não conseguiria nem se conseguisse.

— Thomas! – Cassandra falava mais alto com ele, raivosa. – Eu te pedi pra não fazer!

O bruxo bufou de raiva, ele não precisava explicar, ela sabia muito bem que não poderiam deixar André falar a respeito disso! André de repente se afastava, se misturando aos que estavam na frente do palco. Cassandra soluçou, secando lágrimas. Ela se arrependia de ter gritado com Tom assim como parecia se arrepender de todo o último mês. Ajudou Agda com o restante das coisas, era para momentos como este que havia desenvolvido tamanha disciplina e agilidade para montar e desmontar sua bateria.

— Desculpe. – ela disse quase seca, ainda processando tudo que estava acontecendo.

— Tudo bem. – ele pegou a bolsa com os pratos enquanto ela levantava a bolsa com as estantes desmontadas.

— Como a gente vai entrar no quarto sem o papai ver? – Agda procurava um canto discreto com os olhos, de onde os três poderiam desaparecer.

— Não é só aparecer por lá? – Tom fazia o mesmo.

— Nossos quartos são pedaços de matéria que vagam pelo nada e revezam sua ligação com a materialidade acessada por uma chave de portal dentro de casa. – Agda explicou e Tom estava impressionado com o quanto isso aumentava sua carga, embora demorasse para entender.

Cass começou a caminhar apontando para o vão entre um muro e uma fileira de banheiros químicos.

— Eu consigo chegar lá. – ela disse.

— Mesmo? – Agda buscou confirmar.

— Fica vagando no nada, mas ainda é meu quarto.

O cheiro de urina e desinfetante não era nada agradável, mas ninguém estava verificando os banheiros. Foram por trás deles sem que ninguém notasse, Thomas e Agda tocaram Cass e, no instante seguinte, estavam dentro do quarto da garota.

Thomas percebeu que não estava em um lugar possível de se apontar geograficamente, a sensação era estranha, mas digeria isso ao mesmo tempo que entendia como tudo ali tinha cheiro e energia de Cassandra. Como ela conseguia se teleportar sem compreender a localização de seu destino? Isso era avançado, será que ela sabia? Mas não era hora de pensar nisso.

Agda abriu a bolsa e tirou um caderno e uma caneta de lá. Avançava por várias páginas buscando a primeira em branco com velocidade.

— Desde quando você altera memórias? – Cass a perguntava, se sentando na cama.

— Desde que ficou muito chato ter que fazer várias amizades de novo e de novo… – Agda não tinha remorso algum em admitir, a carga de Thomas subia um pouco mais.

— Funcionaria com aquele cara? – Thomas se sentou ao lado de Cass, estava preocupado com ela.

— Felipe é o nome dele. – Cass dizia, ainda sem acreditar que depois de 8 anos ela havia o reencontrado.

— Sim, eu consigo, só preciso de tempo para escrever. – a mais nova se sentou no chão com o caderno no colo. – Eu não consigo alterar memórias mais antigas, mas consigo fazer ele achar que, ao se aproximar de você, percebeu que era outra pessoa.

— Sensacional. – Tom não estava animado, mas reconhecia o quanto aquele poder era grandioso.

Ele observou Cass, preocupado, ela torcia as mãos e admirava o nada, trêmula. A névoa laranja de sua aura se movia como se levada por fortes rajadas de vento. Foi um gesto que ele não parou, não era hora de poupar ajuda, tocou as costas dela acariciando sua pele sobre o tecido da camiseta com seu polegar. Ao sentir o toque confortável, Cass puxou o ar com força pela boca, se permitindo chorar e colocar os sentimentos para fora. Tom se aproximou mais, a aconchegando em seu ombro, deixando que ela chorasse ali, soluçando.

— Agda. – ele chamava a bruxa enquanto deixava Cass chorar – E André? Você consegue alterar a memória dele?

— Então… – a mais nova começou a dizer – Posso, mas geralmente eu invento ou altero coisas sem importância. Eu consigo garantir que a alteração do Felipe vai durar porque ele provavelmente não vai nos encontrar de novo, ele não deve ter contato com a origem da memória que foi alterada. Agora o André…

— Ele nos encontra todos os dias. – Tom entendia as complicações.

— A verdade é que eu não sei o quanto isso desfaz as coisas que eu tenho que fazer. – Agda continuou – Mas o mais seguro seria apagar essas memórias até a raiz. Que seria… apagar todo o relacionamento dele com a Cass, deixar o mínimo.

— Não. – Cass pedia, levantando o rosto do ombro de Tom – Por favor. A gente pode ao menos testar apagar só o que aconteceu hoje depois do show e descobrir o que acontece, não pode?

— Cass, pensa bem. É arriscado! – Agda argumentava.

— E todas as pessoas que sabem que a gente namora, Agda? Você vai alterar a mente de cada uma delas?

Cass ficava mais ereta para falar, se segurando no meio abraço de Tom. Agda engoliu a seco, mas para ela havia algo empolgante na possibilidade de testar seus poderes.

— Eu só precisaria de um tempo maior pra preparar tudo e de energia emprestada.

— Você tá maluca! – a irmã mais velha respondia.

— A gente precisa de algo imediato, não dá pra esperar tanto. – Tom analisava a situação da forma mais fria que conseguia. – Agda, priorize alterar a memória do André agora. Hoje é um dia importante, ele tem que procurar Cass como se nada tivesse acontecido, apenas comemorando o show bem feito deles.

— Mas pode não resolver de vez. – Agda o lembrava.

— Enquanto isso, nós preparamos todas as alterações para resolver a raiz. Se começar a falhar, vamos ter como agir rápido.

Agda fez que sim com a cabeça.

— Sensato. – a mais nova trocou de página e começou a escrever.

— Mas só vamos usar se for extremamente necessário, certo? – Cass olhava para Thomas e Agda.

— Essa situação já não te parece extrema? – ele perguntava.

— Se substituir apenas as memórias de hoje for deixar tudo como estava antes, não!

Tom olhou para Cass, ele se irritava com a capacidade dela de amar tão generosamente as pessoas. Era triste pensar que, nessa situação, um sentimento tão nobre se tornava um inconveniente.

— Você realmente gosta muito dele.

— Gosto. Mas não estou levando só isso em conta! – ela sofria para explicar ou para mentir para si mesma, se agarrava a qualquer esperança – Mexer nas memórias de tanta gente também pode ser arriscado, se consertarmos a situação de hoje, nós não precisamos-

— Tá. – ele a cortou, estalando a língua e se irritando porque não conseguia ir contra aqueles olhos marejados e desesperados. – Vamos ver.

*

André se colocou no meio do público para não ter que pensar. Com sua guitarra nas costas, só pensou em levar o instrumento até o carro do irmão de Lucas e evitar perguntar, evitar explicar, evitar qualquer coisa relacionada ao que estava sentindo. Afinal de contas, o que estava sentindo? Medo? Sentia que não fazia sentido, era Cass. A mesma que ri de suas piadas, sorri quando ele se aproxima, o beija apaixonadamente na saída de emergência do colégio às sete da manhã.

Se afastou do grupo evitando encontrar qualquer pessoa, porque ainda não entendia o que tinha acontecido e, se lhe perguntassem onde Cass estava, ele não conseguiria segurar algum tipo de choro desesperado onde respondesse “não sei, não sei nem quem ela é, muito menos onde está agora”. Sentou-se em um banco de praça perto da entrada no parque, deixando a guitarra ao seu lado, e pensando. Seu coração saltitava, pulsava dentro de sua boca, quando lembrava da expressão de Cass sem conseguir responder a aquele homem. Por que ela não conseguia? Era para ser uma resposta simples, era só dizer que ela não era quem ele achava. Mas ele sabia o nome dela! Ele tinha certeza, insistiu quando o próprio André disse que ele tinha se enganado. Ele só parou quando Thomas disse aquilo, quando parecia que sentia dor. E seja lá o que Thomas fez com ele, havia feito com André também.

André se distraiu com formigas que faziam um caminho pelo chão. Um peso subitamente saiu de seu peito e, voltando a olhar ao redor, ele viu JP indo para o carro do irmão de Lucas, carregando a bolsa do contrabaixo. O que ele estava fazendo ali mesmo? O cérebro humano não gosta de lacunas, ele tenta as preencher rapidamente para se dar algum conforto. Então o que André estava fazendo ali sozinho? Ele estava esperando o carro chegar para avisar a Cass que ela pode trazer as partes da bateria para guardar no carro, é claro! Mas por que ele já não tinha a ajudado a trazer tudo de uma vez e esperaram juntos ali? Ele foi até ali por algum motivo. Ele estava seguindo o cara estranho que havia abordado Cass depois do show, para ter certeza de que ele ia embora, agora sim ele se lembrava! E ele havia mesmo ido embora, que bom, porque ele não gostaria de brigar com alguém logo depois do primeiro show deles. Então pronto, ele poderia finalmente avisá-la. Pegou o celular discou o número dela, aguardando até ouvir o:

— Oi?

— Oi, amor. O carro do Lucas já tá aqui na frente e aquele maluco foi mesmo embora. Você precisa de ajuda para trazer as coisas, né? Eu vou até aí.

Ele ouviu uma risadinha fofa dela do outro lado da linha, feliz em ouvi-lo.

— Não precisa, meu amor. Estou com Agda e Thomas, eles vão me ajudar. – ela disse do outro lado da linha.

— Claro que ele tá aí. – André girava os olhos. – Estou te esperando aqui na frente.

— Ok, estou indo!

André desligou e foi ao encontro dos amigos ao redor do carro.

*

Voltar ao parque com tudo que Cass havia levado da bateria era trabalhoso, mas algo que ela fez determinada para manter a história inventada por Agda e o cérebro confuso de André. Se encontraram na frente do parque, onde o carro os esperava, Cass aliviou o peso das costas colocando os pratos no carro e olhando para o namorado, esperando o como ele reagiria ao vê-la.

— Que foi? – ele a perguntou.

— Nada. – ela sorriu, se aproximando dele.

— Fizemos um ótimo show, né? – ele a abraçou, também sorrindo.

Ela suspirou, respirando fundo e tentando acreditar que estava tudo normal, mantendo um sorriso no rosto.

O grupo foi para perto de uma barraquinha de lanches na entrada do parque e juntou duas mesas de plástico para caberem todos. Laulau estava com Ana Clara, elas pareciam amigas muito próximas e Dudu as observava com inveja. Lucas e JP demoraram para se sentar porque conversavam com duas garotas que tinham se aproximado para elogiar as músicas da banda. Diogo havia assistido ao show e elogiado bastante, ele se sentou perto de Thomas, Agda, Cass e André, esperando conseguir falar sobre as linhas de bateria que Cass tinha aprimorado.

Embora Diogo tivesse bons apontamentos e perguntas, Cass não conseguia o responder apropriadamente. Suas respostas eram curtas, mesmo quando ela gostaria muito de falar sobre algo, mas porque sua atenção se mantinha em André, aos seus gestos, seu olhar. Ela tocou a mão do namorado, em resposta ele agiu de forma automática, entrelaçando seus dedos nos dela. A ação fazia Cass respirar aliviada, mas percebia que o olhar de André pareceu confuso por um segundo. Ele balançou a cabeça.

— Tudo bem? – ela perguntou.

— Tudo. – ele a respondeu, olhando para o cardápio – Você está com fome?

— Um pouco, sim.

Estavam decidindo o que pedir quando Melissa se aproximou, ela estava no festival com Thiago, uma prima dele e mais uma amiga de outro círculo social.

— Parabéns, foi incrível! – ela abraçava um a um dos integrantes da banda – Cass, eu não entendo nada, mas você arrasou!

— Ah, obrigada! – ela se levantou para abraçar Melissa e se sentou de novo.

— E Tom, você também arrasou. – a garota de sorriso perfeito disse, olhando para Thomas.

— Eu? – ele estranhou.

Todo o grupo olhou confuso para Melissa. E Cass teve um frio na espinha, ela teria visto alguma coisa? Se tivesse visto Tom usando seus poderes em Felipe, ela teria conseguido entender o que houve?

— Sim, arrasou o coração da minha amiga Letícia. – Mel apontava com um gesto discreto de cabeça para a garota que estava perto do portão, tentando não parecer ansiosa. – Ela quer saber se você não quer ir ali falar com ela.

Cass respirou aliviada. Thomas era bonito, isso era um consenso entre as garotas, mas ela não achava que ele aceitaria. Ele é tão quieto no colégio e, além disso, passaram por um grande susto hoje. Ela não achava que ele deveria estar no clima para ir.

Thomas, por outro lado, considerava que poderia ser bom não ficar tão perto de André para evitar desgastar o feitiço. Além disso, assistir o casal enquanto Cass resolvia arriscar todo um grande segredo para ficar com ele, não era sua definição de entretenimento.

Os adolescentes começaram com suas exclamações e risadinhas:

— Olha ele, o novo garoto misterioso da cidade tá fazendo sucesso! – Laulau ria.

— O cara não teve que falar nada, a menina mandou a amiga atrás dele, por que isso não acontece comigo? – Dudu reclamava.

— Porque você já tem fama de galinha. – explicou JP.

Os comentários pareciam até distantes, Cass gostaria de poder aproveitá-los um pouco mais. André agora parecia uma incógnita, ele mantinha um sorrisinho no rosto, mas estava ainda esperando a resposta de Thomas, como se aquilo fosse um experimento.

— A de blusa lilás? – Thomas perguntou.

— Sim! E vamos fingir que você reparou só na blusa. – Melissa respondeu rindo, sabia que a amiga era atraente e tinha curvas que chamavam atenção de um adolescente.

— Então acho que você poderia me apresentar a ela. – ele disse para Melissa, já se levantando.

A mesa ficava repleta de exclamações e risadinhas enquanto Cass se sentia ainda menos segura.

Você tem certeza? – ela perguntou para Thomas telepaticamente.

Se qualquer coisa acontecer, eu volto imediatamente. – ele respondeu.

Eu preferia que você não fosse.

Só você pode se divertir? Foca no seu namorado, Cass, a gente tá se arriscando bastante para isso.

Eu não quero ficar brigada com você, a gente pode conversar depois?

— Não estamos brigados. Mas podemos, quando? E onde?

— Na sua casa hoje à noite, eu apareço lá.

— Te espero no quintal.

Ela voltou a atenção para a mesa de novo, André conversava com Diogo, Agda parecia cansada.

— Quer ir pra casa? – Cass a perguntou.

— Sim. – a irmã mais nova respondeu, cruzando os braços sobre a cadeira e inclinando a cabeça para trás, quase dormindo.

Cass não queria que ela fosse, sem ela e Thomas ficaria um tanto desamparada, mas ao mesmo tempo não sentia que poderia cobrar mais de Agda.

— Vocês vão embora já? – André olhou para as duas, não querendo que elas fossem.

— Agda achou que sabia bater cabeça e se arrebentou toda… – Cass respondia dando uma risadinha.

— Pede pro papai me buscar, aí ele já conhece o André.

— Boa ideia. – Cass pegou o celular, seria interessante recuperar certa normalidade.

— Sério? – André sorria, mas parecia preocupado.

— Sim. Algum problema? – ela parou de digitar o número do pai esperando ele responder.

— Eu esperava estar com pose de bom moço. – André olhava as próprias roupas. Calça rasgada, tênis all-star surrado, duas correntes, o colarzinho de palheta, camiseta de banda…

— Isso não é um problema. – Cass o tranquilizou.

— Nem de longe… – Agda deu uma risada fraca.

Cass ligou para o pai explicando que Agda estava cansada e queria que ele a buscasse. Ele disse que iria.

Foram pouco mais de 15 minutos de conversa, onde a mesa fazia barulho, dava risada alto. Em outras situações como essas, André sempre puxava sua mão para dar um beijo, ou beijava sua boca acariciando seu rosto quando o assunto da mesa interessava pouco. Mas desta vez estavam de mãos dadas e isso era tudo. Cass se incomodava. Havia algo errado com André ou era apenas algum tipo de nervosismo por conhecer Cícero?

Um tanto longe dali, do lado de dentro do parque, com o ombro apoiado em nas paredes de um depósito da prefeitura, Thomas ouvia Letícia falar sobre ela mesma. Ele olhava para ela e depois para fora, onde via um homem de cabelos longos sair de um carro vermelho e se aproximar de seu grupo de amigos. Pela semelhança com Agda, ele sabia dizer quem era. Voltou os olhos para a garota de novo, sorrindo e acenando com a cabeça.

— E você tá gostando daqui? – ela o perguntou.

— Ah, sim. Para uma cidade pequena, tem bastante opção do que fazer. Você sempre morou aqui? – ele dava essa resposta em todas as cidades.

Olhou para fora de novo enquanto ela respondia. André recebia um aperto de mão do pai de Cass enquanto ela abraçava a cintura dele, sorrindo. Por que Thomas se sentia mal com isso? Não conseguia mais negar para si mesmo.

Olhou para a garota de novo, ela tornava a conversa mais sugestiva:

— Tem algumas coisas interessantes pra se fazer por aqui, se quiser eu posso te mostrar.

Ele se aproximou um pouco, passando a olhá-la nos olhos.

— Me parece que a coisa mais interessante de se fazer já está bem aqui. – geralmente essa funcionava.

Ela sorriu. Ele a beijou e era intenso. Intenso porque precisava tirar da cabeça o que acontecia do outro lado daquela cerca de alambrado ou o que já vinha acontecendo há semanas. Se iria manifestar inveja de alguma forma, que fosse descontando o que sentia vontade de fazer na boca e na língua de outra pessoa.

Já André parecia encantado em conhecer um adulto artista, e não com alguma profissão que ele considerasse chata. Cícero usava uma camisa de botão e calças sujas de argila seca com tênis all-star tão surrados quanto os dele.

— Vocês são um grupinho grande. – Cícero observava a mesa, se perguntando qual deles deveria ser Thomas.

— Pois é, e nem tá todo mundo. – Cass falava. – André queria conhecer seu ateliê, pai.

— Ah, mesmo?

— É, é sim. Deve ser muito interessante. – André confirmava com a cabeça.

— Eu tenho que arrumar tempo, mas aviso Cass quando ela puder te levar. – ele enrolaria o máximo que conseguisse.

A frase criou um estranhamento em André, a sensação de estar esquecendo alguma coisa.

— Pai, quero ir. – Agda reclamava.

— Claro, vamos. Barulhenta, se precisar de qualquer coisa, já sabe!

— Pode deixar, pai! – Cass sorriu para ele.

— Foi um prazer, André. – Cícero apertou a mão do menino de novo.

— O prazer é todo meu. – ele ficou vendo Cícero e Agda se afastarem antes de se virar para Cass – Não tinha algum lugar que você queria me levar hoje?

— Um lugar?

Cass se lembrou de mais cedo, de como ela o pedia para sair do festival com ela e ele não foi. Ele poderia estar se lembrando disso, ela temeu, mas tentou não expressar nada.

— É, um lugar… ou fui eu que falei?

— Eu tinha te perguntado se tinha alguma sorveteria aqui perto. – ela inventou.

— Ah, sim! Tem sim. Você quer um sorvete, meu amor?

Já do outro lado da cerca de alambrado, fazendo Letícia ficar na ponta dos pés, Thomas envolvia a garota em seus braços e se continha apenas para não deixar marcas no pescoço da menina. Ela suspirava, um tanto surpresa com o quão direto ele era. Soltou a garota para poder a olhar nos olhos, havia algo estranho. Um calafrio, uma pequena sensação de vazio nas costas, não sabia explicar o que era.

— Você é bom. – Letícia parecia um tanto perdida.

Thomas sorriu confiante. A sensação de vazio passou tão rápido quanto veio e ele achava que sua aura ainda buscaria algo com o que conectar, garantindo algum prazer por alguns minutos.

*

À noite, Thomas esperava Cass aparecer sentado sobre o chão de pedra, embaixo da parreira de seu quintal. Não sabia muito bem sobre o que ela gostaria de conversar, pelo menos agora que a decisão já estava tomada.

Ela apareceu no gramado, estava com uma calça xadrez larga e uma regata de alcinha que ela usa como pijama. Olhou ao redor procurando Tom e se sentou ao seu lado dizendo um tímido:

— Boa noite.

— Boa noite. – ele respondeu – Foi tudo bem o resto da tarde?

— Acho que sim. Estou com minhas inseguranças, mas ainda não sei dizer se tem realmente algo a se preocupar.

— Bom, o plano é observar, né?

— É… E garota lá? Letícia, né?

Ele deu de ombros.

— Ela é legalzinha. Deu pra aliviar a tensão.

— Sei…

Fizeram silêncio. Ao longe, ouvia-se os grilos e cigarras.

— O que você queria falar? – ele perguntou.

— Eu achei que você ficou meio ressentido por eu tomar uma decisão mais arriscada.

Ele estalou a língua, desviou o olhar para as folhas da parreira acima deles.

— Não fiquei ressentido, mas fico tenso, é algo que temos que observar com muita atenção.

— Sim, com certeza.

— E não acho justo você querer que eu cuide da situação por causa de um risco que só você escolhe tomar.

— Eu não queria que você cuidasse da situação.

— “Eu preferia que você não fosse” queria dizer o que então?

Cass suspirou. Se não fosse Thomas, tudo teria sido muito pior hoje. A quem queria enganar?

— Desculpe. – ela começou – Eu estava me sentindo mais segura quando você estava comigo mesmo, se não fosse por você eu estaria muito fodida hoje e… Nem te agradeci. Obrigada por estar lá.

Aos poucos ele passava a olhar para ela. Ali, sentada à sua esquerda, de cabeça baixa e desenhando com um graveto no chão.

— Tudo bem. Nem precisava agradecer.

— Mesmo assim… – ela levantou a cabeça para olhar para ele, parecia cansada pelo dia – Eu sei que não tomei a decisão mais prática. – ela esperava talvez um consolo, que não veio. Respirou fundo – Eu sei que pra você e pra Agda é muito mais simples, mas eu realmente não consigo só aceitar que vou perder o André, ele… – ela suspirava antes de dizer – ele me faz eu me sentir normal.

A voz de Cass até embargava, mas ela rapidamente se recuperava. Já Tom achava esse raciocínio ainda mais quebrado e insuficiente. Ele dava uma risada fraca antes de falar:

— “Normal”?

— O que é que tem?

Ele a observava. Os raios amarelos se moviam de forma calma e cautelosa, e talvez esse fosse o momento em que ela mais estivesse verdadeiramente aberta com ele. Para Tom era difícil, mas ele resolveu que também se abriria um pouquinho.

— Cass, eu não sou ninguém para te dizer o como você deveria querer se sentir.

— Hm, tem um “mas”.

— Mas… – ele dava um sorriso fraco confirmando com a cabeça – Se eu fosse seu namorado, eu não buscaria que você se sentisse normal. – ele pensou que talvez isso tivesse sido aberto demais – Digo, se eu tivesse uma namorada, eu gostaria que ela dissesse que eu a faço se sentir aceita como é. – ele estalava a língua. – E insuperavelmente fantástica.

— Insuperavelmente fantástica. – ela deu uma risada fraca. Entendia o raciocínio de Thomas, mas ainda tinha suas considerações – Eu acho que você faz bem em pensar assim. Quer dizer, se eu tivesse os poderes que você e Agda têm, eu acho que gostaria de me sentir desse jeito, mas eu me frustro bastante com meus poderes. Tudo que eu faço parece tão pequeno! Às vezes até esqueço que posso teleportar, ler um pensamento…

— Cass-

— Eu não faço nada realmente impressionante. Não controlo a fala de ninguém, não altero memórias, não altero o espaço…

— Você percebeu que usou a telepatia corretamente hoje? – ela engoliu a seco, não havia notado – Você colocou eu e Agda no mesmo campo, eu ouvi vocês duas.

— Sim, é verdade. – ela dava um pequeno sorriso – Uma pena, foi um uso breve da Antessala.

— A Antessala é ainda mais incrível, é seu próprio cinema interativo. Mas o que você fez de diferente hoje?

— Eu não sei, eu só… fiz. Não fiquei pensando em como faria, só fiz.

— Então agora você já sabe um pouco mais. E seu quarto?

— Ele não é criação minha, é do meu pai.

— Mas você teleportou nós três para lá! E ele não fica em um espaço fixo, é um lugar que sequer está em algum lugar, sua irmã não parecia saber como fazer isso e eu muito menos.

— É meu quarto, eu só segui minha própria energia.

— Seguiu sua energia?! Midalis tinha dispositivos elaborados para fazer isso e você faz naturalmente, sem auxílio! Nós podemos muito bem testar os limites disso em outro dia, porque eu fiquei bem curioso. – Cass tentava esconder um sorriso, era bom receber esse tipo de validação, não se sentir totalmente incompetente. – Você precisa se dar mais crédito com o que já faz para tentar novas coisas. Reparou também que seu raciocínio é bem rápido, você que achou nossa rota de fuga hoje. Você sabe o que precisa fazer, só é muito cabeça dura para aceitar o que é preciso às vezes. – ele ria – E porra, você ainda tá represada, cheia das travas, imagina quando estiver simplesmente fluindo de verdade?

Ela riu começando a chorar, o que fez Tom amolecer. Ele se surpreendeu ainda mais quando ela avançou em sua direção e abraçou seu tronco, mantendo o rosto apoiado de lado em seu peito, soluçando ou rindo, ele não compreendia bem. A abraçou. Era o abraço confortável de quem se compreende. Ele via o verde da combinação deles se espalhar sobre os dois, o sentimento acolhedor em seu peito, e se permitiu não interromper dessa vez.

Para Cass, a sensação de conforto também crescia, junto do que ela chamava de sensação de carinho nas costas. Era realmente carinho. Se permitiu relaxar no abraço de Tom até parar de chorar, sentiu a mão dele acariciar seus cabelos, a aconchegando com ele. Estava recuperada, pronta para abrir os olhos, quando sentiu um arrepio sair de sua cabeça e se espalhar por todo o seu corpo. Não era um arrepio ruim. Era como o formigamento de antes, mas no corpo todo, mais forte, melhor, a fazia se lembrar que seus mamilos existiam e criar uma estranha vontade de beijar Thomas.

Os braços dele se arrepiaram, ele via a aura dos dois se agitando, reagindo. Havia passado uma hora se enroscando com a outra garota e agora estava ali, encontrando o que procurava com um simples abraço. Era um sentimento tentador, imaginava se ela sentia o mesmo que ele sentia quando ela tocou sua mente. Não sabia se esperava que sim, porque deixaria as coisas ainda mais complicadas!

Se soltaram ao mesmo tempo. Tentaram não parecer constrangidos, seria melhor se evitassem demonstrar o que estava acontecendo. Ela estalava os dedos e evitou contato visual por alguns segundos, até tomar coragem de olhar para ele e sorrir.

— Obrigada pela conversa. – ela agradecia.

— Tudo bem. Quando quiser.

— Tem certeza? Eu posso ficar meio abusada. – ela riu.

— Tudo bem, desde que você me deixe usar isso de munição quando a gente voltar a trocar farpas.

— Desde quando eu tenho que autorizar alguma coisa? Tá amolecendo, é?

— Você anda muito sensível, eu quero te irritar, mas preciso que você seja suportável.

Eu ando muito sensível?

— Eu não queria jogar na sua cara, mas… você quem estava chorando ainda agora.

— Tsc! Aceita perder uma vez, vai! – ela deu um tapinha no braço dele.

Eles riram, se observaram por mais alguns segundos em silêncio, apenas ouvindo os grilos e as cigarras de novo.

— É melhor eu ir. – ela disse.

— Está bem. Boa noite, Cass.

— Boa noite, Tom.

E ela desapareceu.

Notas finais
Eu queria uma música para essa cena final. Consegue pensar em alguma?