A segunda-feira começou com uma normalidade reconfortante. Ao menos era assim que Cass se sentia ao ser abraçada pelas costas por André, a pegando de surpresa.

— Bom dia! – ele dizia enquanto beijava a bochecha da bruxa.

Ela ria e tocava os braços dele com carinho.

— Bom dia! – respondeu virando seu rosto para beijar os lábios dele.

— Você fez os exercícios de química? – ele perguntava enquanto se colocava ao lado dela para andarem juntos até a sala de aula.

— Ah, eu esqueci. – ela torcia a boca

— Luquinhas e Laulau também não fizeram.

— Só tem uma pessoa que realmente faz todos os exercícios no nosso grupo.

Ela estranhou a falta do toque e buscou a mão dele com a sua, que a recebeu entrelaçando os dedos.

— Tom?

— Uhum.

— E ele empresta lição por acaso?

— Sim, você já copiou lição minha que eu tinha copiado dele.

— Então tá, né. – ele parecia desgostoso.

— Que competição mais boba, meu amor.

Ele torceu a boca sem responder. Se aproximavam da porta da sala de aula, Laulau estava cutucando Thomas e fazendo alguma piada da qual ele tentava não rir. Melissa sorria e parecia adicionar comentários ácidos, que faziam Laulau dar mais risada.

— Quanto bom humor para uma segunda-feira. – Cass comentava olhando para as meninas.

— Eu estou muito bem humorada mesmo! – Laulau fazia caras e bocas engraçadas.

— O que “novas amizades”– Tom fazia aspas com os dedos – não fazem, não é mesmo?

— Nem me fale! E pensar que só vou ver ela de novo no final de semana. – a emo fazia drama.

— Você logo acostuma, Laulau. – Melissa a acalmava – Passa rapidinho!

— Sortudos são estes dois! – a menina insistia no drama e apontava para Cass e André – Namorados dentro da mesma sala.

— É… – Cass concordava.

— Tem suas vantagens! – André sorria.

— Tom, você fez os exercícios de química? – Cass perguntou ao bruxo que quase já quase se afastava do grupo.

— Fiz, estão com o Lucas.

— Eu vou copiar depois do Lucas. – Melissa avisou.

— Eu copio depois de você. – Cass afirmou com a cabeça.

— Se um dia você começar a cobrar, amigo, vai ficar ricaço. – Laulau riu.

O grupo continuou a conversar tranquilo, fazendo piadas e rindo.

— Cass? – a bruxa ouvia a voz de Tom em sua mente – Ainda estou aprendendo a usar esse campo telepático.

— Eu o deixei aberto para você, é só querer se comunicar comigo.

— Ótimo! Isso é muito útil, obrigado. Eu só queria saber se você observou algo estranho.

— Nada digno de nota, ele tá bem normal! Pelo menos eu achei.

Tom olhava para André enquanto ele falava de alguma matéria da escola, e olhou para Cass em seguida. Os dois seguravam mãos, como sempre.

— Menos mal.

— Pode ser que apagar toda a memória dele não seja necessário! E vocês vão ter que admitir que eu estava certa. – ela dava um sorrisinho de canto.

— Quem diria… Você ficaria bem feliz, não é?

— Sim, você sabe.

— Vou torcer para estar errado.

Cass sentiu a mão de André apertar a dela e, como se essas coisas estivessem interligadas, Tom deixou o campo.

— Vamos entrar? – André disse se virando para Cass.

André nunca entrava na sala antes do sinal bater, mas não faltava muito tempo para isso, então não era algo totalmente estranho.

— Vamos. – ela respondeu, o seguindo.

Dentro da sala, Cass esperou ser segurada entre os braços dele, beijada enquanto o professor do primeiro horário não chega, qualquer coisa das que já estavam acostumados a fazer, mas André se sentou em seu lugar assim que entrou. Ele mesmo não sabia porque estava fazendo isso.

O vazio voltava em Thomas. Dessa vez estava mais forte, surgiu tão repentinamente que o fez parar de acessar o campo telepático de Cass. Tão rápido apareceu, passou, mas sabia que havia algo errado para observar.

Ele se pegou observando Cass e André mais algumas vezes, em uma delas torcendo para perceber algo desastrosamente errado para poder resolver essa situação de uma vez por todas. Então assim que ele era? Ele não podia torcer pela infelicidade de Cass, não era esse egoísta. Na verdade sempre se achou um pouco egoísta sim, admitia, mas não tanto. Tinha que tirar ela do foco de seus pensamentos, era a única solução.

Além disso, pensando friamente, que garantias tinha de que Cass gostaria de… de o que? De sair com ele? De beijá-lo? Que garantias tinha de que Cass o enxergaria de forma diferente? Nenhuma! A julgar por André e pelo pouco que viu de Felipe, ele obviamente não era o tipo dela. Cass se atraía por seus semelhantes: garotos barulhentos e expansivos, que fazem piadas que todos gostam e não parecem ter segredos ou motivos para se manterem nas sombras. O exato oposto dele.

Ele e Cass reagiam, sim, reagiam. As ondas que as auras deles faziam juntas na noite após o festival não saíam de sua cabeça. Deveria ter a beijado, foda-se! Não, ela pensaria que ele só estava fazendo mais um segredo para ficar mais forte, ou matando uma curiosidade. E ela gostava dele, do parte artista, parte atleta, parte palhaço, parte arrasa-corações, André. Via que ela o apreciava mesmo. Como seria do contrário? Ele conseguia ser tudo! Mesmo assim, ficava inconformado em perceber que estava perdendo para quem sequer tinha capacidade cognitiva para a compreender em sua integridade. Mais inconformado ainda ao perceber que, em sua cabeça, estava competindo.

Não havia linha de chegada, não havia prêmio, apenas a vontade conveniente de duas pessoas. E enquanto passou o dia todo se sentindo egoísta e culpado por querer que André se lembrasse da única coisa que ele não deveria saber, observou de longe o casal agindo normalmente. A sensação de vazio ia e voltava, e talvez fosse só a necessidade de esquecer Cassandra de vez.

Cass, por outro lado, tinha uma percepção muito diferente da situação. Na terça-feira, ela já conseguia enumerar comportamentos sutilmente estranhos demais. O curioso era que o problema não parecia ser o feitiço de sua irmã. André estava irritadiço, mas não o tempo todo. Se aproximava a querendo, a beijando, sendo o carinhoso que sempre fora, e depois de algum tempo parecia estar com ciúmes demais. Piorava quando estava na presença de Thomas. Mesmo assim, Cass tinha certeza que ele não se lembrava de nada. Ele a abraçava, ainda a procurava todas as manhãs, mandava mensagens à noite, tudo exatamente como ele sempre fez. O ciúme já vinha de antes, talvez essa fosse uma nova fase do namorado, uma que ela ainda não conhecia, mas que esperava que passasse logo.

Na quarta-feira, dia de educação física e de ensaio da Ruína, Cass e André conversavam do lado de fora dos vestiários feminino e masculino.

— Tem certeza, amor? – ele perguntava, na esperança que ela mudasse de ideia.

— Tenho, amor. – ela sorria – É a volta do Diogo, deixa ele se sentir à vontade.

— Mas ele não vai se incomodar se você só estiver lá assistindo.

— Mas eu vou me incomodar vendo ele errando as coisas que eu já arrumei. – ela ria, era para ser engraçado, mas ele ainda torcia a boca.

— Parece que você nem liga.

André não sabia dizer porque estava tão desconfiado da namorada. Às vezes tinha a sensação de que o relacionamento deles só não podia ser real.

— Amor, não é que eu não ligo, eu só… preciso fazer outras coisas também!

— Precisa fazer outras coisas, mas você nunca compartilha comigo quais são essas coisas. – ele suspirava, sabia que agora estava passando dos limites. Odiava se sentir assim! – Não, desculpa. Eu não sei por que eu falei isso.

— Amor…

— Não, eu sei. – ela congelhou por um instante – Ou eu acho que sei, mais ou menos.

— Sabe?

— Eu compartilho muita coisa com você, dos meus problemas, você não costuma fazer o mesmo comigo. – ele estava confuso, buscando motivos para a própria irritação – E tudo bem, eu sei que uma hora você vai confiar em mim pra falar. É que eu queria que você já confiasse.

— Mas eu confio em você. – só não o suficiente para o contar de sua origem – Talvez eu só não tenha tantos problemas… – Cass começava a pensar em por quanto tempo poderia continuar mentindo, mesmo que ele não sentisse que há algo errado.

— Eu… – André pensava que talvez estivesse deixando os traumas do relacionamento passado falarem mais alto – talvez eu não esteja acostumado com um relacionamento calmo, desculpa. Você sabe que pode me contar qualquer coisa, né? – ela se conteve em afirmar com a cabeça, mesmo não sendo verdade – São minhas paranoias, eu vou ficar bem.

Cass não respondia, essa também não era uma situação onde muitas palavras cabiam como resposta. Ela tocou a mão dele o olhando com carinho e foi suficiente para que ele se aproximasse a abraçando.

— Desculpa. – ele pediu de novo.

— Tá tudo bem. – ela mentiu, retribuindo o abraço.

Os colegas de sala já saíam do vestiário, apressados para irem embora. Eles trocaram um beijo carinhoso, mas meio desencontrado.

— Vou me arrumar e correr para o ensaio. – ele disse a soltando.

— Me manda uma mensagem depois!

— Está bem.

Os dois não se encontraram saindo do vestiário depois.

Cassandra encontrou Thomas no corredor a caminho da biblioteca. Ele não falou nada quando ela chegou, estava com um olhar preocupado e um tanto distante, que ela estranhou.

— Tudo bem?

— Hm? Ah, oi. – quando ele olhou para ela, percebeu que ele parecia ter acabado de acordar e estava com uma feição abatida – Tudo bem sim. Vamos?

— Vamos.

Cass respirava fundo, a avó e a mãe de Thomas passaram os últimos dias preparando algo para ajudá-la em seja lá o que estava lhe dando tantas dores de cabeça dias atrás. Os dois passaram por colegas de outra sala e entraram na biblioteca, se posicionaram na esquina entre algumas estantes e sumiram.

Apareceram no quintal da casa de Thomas, ao lado da parreira, e Cass tinha certeza que viu o bruxo puxando o ar pela boca. Antes que ela perguntasse qualquer coisa, ele tossiu e se colocou a caminhar para dentro.

— Que sede. Você quer beber alguma coisa?

— Não, obrigada. – ela estranhou, mas o acompanhou para dentro da casa.

Na sala de estar, Yago analisava algumas esferas de vidro

— Oi, pai. – Tom entrou o cumprimentando.

— Oi, filho. Oi, Cassandra! – Yago acenava para a garota, sempre muito simpático com a aparente motivação do filho.

— Boa tarde, seu Yago. – ela respondia acenando e seguindo Thomas.

O adolescente entrou na cozinha da casa, buscou um copo de água e em seguida subiram as escadas até a biblioteca. Aos poucos se criava uma rotina, Thomas permanecia por perto, mas como um observador do que Cass conversava com sua mãe e avó. Às vezes fazia anotações mentais sobre o trabalho de sua avó, coisas que ele não teria como saber sem assistir ela atuar na prática. Sua mãe e sua avó gostavam de Cass, achava que sua irmã gostaria também. Ele não gostava de insistir nesse tipo de pensamento.

Para Cassandra, as interações com Ayla e Ariela eram preciosas, ela aproveitava cada segundo. Naquela tarde, a conversa acontecia enquanto Cassandra estava sentada em uma cadeira e com os dois pés mergulhados em uma bacia do que parecia apenas água.

— E o que é isso mesmo? – a bruxa mais nova perguntava.

— Um jeito de chegarmos ao fundo da trava está dificultando sua evolução. – Ayla respondia – Repita seu nome mentalmente, querida, com intenções de despertar sua potencialidade.

Cassandra o fez, fechou seus olhos e pensava em seu nome todo. O curioso em fazer isso ali, acompanhada, é que passava a perceber a energia de cada bruxo por perto. Achou curioso, repetia seu nome mais uma vez e via a assinatura de Ayla, um tom violeta à sua frente. Percebeu Ariela ao seu lado, abaixada enquanto observava a bacia. Ela era cor de rosa e preocupada, conseguia dizer. E repetindo seu nome mais uma vez, Cass começava a se preocupar com o que Ariela parecia temer.

— Relaxe, querida. – Ayla reforçava.

A jovem respirou fundo voltando a mentalizar seu nome. Percebeu Thomas no quarto, ela já havia visto seu azul profundo na Antessala, e lá estava. Com pequenos pontos em cor de ametista. Era bonito, ela pensava. Talvez assim que Thomas enxergasse a ela o tempo todo? Ela o percebia analisando sua aura em suas conversas. Pensou em seu nome mais uma vez e agora percebia algo estranho, a aura de Thomas diminuía, passava a parecer um fino lençol o envolvendo, e em seguida voltava.

— Concentre-se. – Ayla pedia.

Cass tentou. Repetiu seu nome mais uma vez, e, de repente, uma estranha falta de ar.

— Sentiu isso?

— Sim. – era difícil responder.

— Me diga se doer.

Thomas observava as três mulheres do outro lado da sala com curiosidade. Pelas expressões de sua avó e sua mãe, percebiam que o que se passava com Cass não era comum, e muito menos desejável. Via a aura das três, a de Cass crescia desde o momento em que fechou os olhos, mas parecia limitada. Seus contornos irregulares pareciam encontrar paredes invisíveis que limitavam seu tamanho. Se preocupou, mas o vazio vinha novamente, parava de ver as cores das três. Ele se sentia sonolento, bocejava, mas em seguida sua visão parecia voltar ao normal.

Observando de novo, preocupou-se quando percebeu a cara de Cass. Ela estava com dor, percebia.

Sua mãe repetia:

— Cass, me diga se-

— Sim, dói! – a garota disse entre os dentes.

Pela cara da avó, Thomas conseguia dizer que aquilo tinha um culpado, fora feito de propósito, porque com certeza ela o xingava mentalmente agora.

Em sua mente, Cassandra se dividia em duas. Uma que percebia o ambiente em que estava, suas energias e as oscilações preocupantes de Thomas. A outra parte voltava para a memória de sua avaliação. Se lembrava principalmente da parte final, de um cofre, de dizer a primeira parte de seu nome.

Agora vamos definir a senha do seu cofre. – se lembrava de ouvir.

Era incômodo, como se a memória tentasse a expulsar dali, mas ela resistia.

— Eu achei. – Cassandra avisava.

— Achou o que, querida? – a voz de Ayla parecia distante.

— A senha.

— Diga! Agora é só dizer!

— Não posso! É um juramento. – e ela não gostaria de fazê-lo.

— Serão apenas palavras. – a voz de Ariela tentava a acalmar.

— Tem certeza? – a garota temia.

— Não há ao quê você jurar aqui. – Ayla confirmava.

Thomas observava Cass com seu coração revirado. Percebia que ela sofria se segurando na cadeira, o corpo encurvado para frente, a água da bacia deveria estar quente porque a via evaporar aos poucos. Percebeu que ela engoliu e tomou ar antes de dizer:

— Eu, Cassandra Penelopiene, me apresento à nossa farda, ao Concílio, e me coloco a serviço de nossa nação.

As bruxas adultas da casa sentiram medo dessas palavras. Um juramento militar, ainda que feito inapropriadamente e sem intenção de cumpri-lo, não era pouca coisa. E deixava claro que os potenciais de Cassandra deveriam ser estrategicamente interessantes, já que só a liberariam no dia de seu alistamento.

Cassandra sentiu como se todo seu corpo de repente fosse novo e leve. Aquilo ardia, mas com certeza saía de seu corpo para a deixar em paz. Ela tinha arrepios, arfava quando finalmente abriu os olhos. Se sentia exausta, mas estranhamente aliviada. Só uma coisa lhe preocupava agora: as oscilações de Thomas.

— Cassandra? Como se sente? – Ayla a perguntava.

— Melhor. – ela respondia engolindo a seco, viu que entre seus pés na bacia agora existiam vários pedaços de metal preto, mas nenhuma água – O que é isso?

— O que sobrou do feitiço, só isso. Fique sentadinha aí mais um pouco, tente descansar. – Ayla retirava a bacia debaixo dos pés da jovem. – Vamos cuidar disso, tente não fazer esforço.

Ayla e Ariela deixaram a biblioteca, Thomas observava a aura de Cassandra se expandir por metade da sala, queimando mais viva, aos poucos voltando para uma forma e um tamanho mais naturais. O que estranhava era que, vez ou outra, parava de ver.

— Você está se sentindo bem? – se surpreendeu com a voz de Cass.

— Eu que devia te perguntar. – ele respondeu.

Cass não via mais a aura de Thomas, nem nenhuma aura desde que abriu os olhos, mas sabia que algo estava estranho.

— Eu estou bem, mas tive a impressão de que você estava meio capenga.

— Você que deve estar se adaptando! – ele riu, como se fosse bobagem.

Cass ouvia seu celular vibrar dentro da bolsa jogada no chão ao seu lado, mas não conseguiria ver suas mensagens agora, ou sequer se importar com elas.

Tom se levantou e moveu um pouco a poltrona para ficar de frente para Cass.

— Cass, acho que podíamos começar a pensar na sua mãe quando você se recuperar. – ele começou.

— O que tem?

— Eu andei pesquisando com os cristais do meu pai, eu não sei sobre trazer ela pra cá, mas talvez a gente consiga estabelecer algum contato.

A jovem bruxa tinha poucas energias, mas sorriu. Só podia se sentir grata por Thomas existir.

— Eu nem acredito…

— Mas a gente precisa voltar lá- – ele parou de falar quando perceberam Ayla voltando para dentro da biblioteca.

— Tudo bem aqui? – a mãe perguntava.

— Tudo. – Cass respondeu enquanto Thomas fazia que sim com a cabeça. – Eu só queria entender, o que foi aquilo?

Ayla fez que sim com a cabeça, parando ao lado da poltrona com o filho.

— Querida, aparentemente seu caso é uma evidência de que, o país de onde você veio, durante a guerra, condicionou alguns talentos para serem utilizados apenas em favor do próprio país. – Ayla parecia perturbada com a ideia – Isso é absolutamente miserável, provavelmente não queriam que alguém com seu potencial pudesse agir de forma independente.

— Mas qual é esse potencial? – Thomas estava bastante curioso.

— Não sabemos ainda. Quando Cass estiver mais descansada, poderemos investigar. – Ayla respondeu ao filho e se virou para a garota, que estava pensando no que acabara de saber. – Você está bem? Consegue ir embora sozinha?

— Consigo. – Cassandra sorriu já se levantando. Na verdade sentia que conseguia muito mais agora. – Ayla, eu só posso agradecer, de novo.

— Não se preocupe, querida.

Se despediram e Thomas a acompanhou mais uma vez até o quintal. Ela ainda estava achando o amigo estranho, muito quieto. Pararam ao lado da parreira, prontos para teleportar.

— Depois você me explica o plano. – ela disse.

— Explico. – ele fez que sim com a cabeça e alongou as costas, respirando fundo – Eu acho que estou com sono, semanas dormindo mal… Tudo bem se você voltar sozinha hoje?

Aquele não era o Thomas que ela conhecia. Cass sentia a energia dele tão sutil, escondida.

— Tudo. Tente descansar, você tá parecendo estranho mesmo.

— Não é nada demais.

— Tem certeza?

— Tenho, é só meu sono desregulado.

— Você é meu melhor amigo, então se cuide, por favor.

— Sou?

— Estou mal de amigos. – eles deram uma risada fraca. E ele a deixou sem resposta? Ele realmente estava mal. – Até amanhã, descanse.

— Você também. Até.

E ela desapareceu.

Ela reapareceu na biblioteca, o relógio de parede marcava 16:03, o que Cass reparou porque significava que estava atrasada. Agda já a esperava no ponto de ônibus, mas ainda estavam com tempo para o ônibus da linha que pegavam passar.

— Você está diferente. – pensou a irmã mais nova, analisando a mais velha.

— Estou?

— Sim. Como foi lá?

— Eu… preciso processar melhor antes de contar.

Subiram no ônibus assim que passou, Cass finalmente pegou seu celular decidindo ver porque o aparelho havia vibrado tanto. Se assustou, eram várias chamadas perdidas de André. Mesmo cansada, ligou para ele.

— Oi. – a voz dele não parecia nada boa.

— Oi, meu amor. – ela estranhou, mas tentou agir normalmente – Só agora vi suas chamadas.

— Onde você tava, Cass?

Onde ela estava? Por que isso seria relevante? Ele estava no ensaio.

— Onde eu estava quando?

— Agora há pouco.

— No colégio.

— Onde no colégio?

— O que aconteceu?

Ela ouviu André bufar do outro lado do telefone.

— Aconteceu que o JP passou mal e a gente não teve ensaio, eu voltei pra te fazer companhia. Te procurei no Jocão, no pátio, no gramado e nada de você. Por que não atendeu minhas ligações?

— Eu não estava com o celular em mãos, meu bem, não vi.

— Nenhuma vez? Eu encontrei Estela perto da cantina, ela me disse que viu você e Tom indo para a biblioteca. – Cass mordeu seu lábio, preocupada, não o respondeu. – E daí eu fui até a biblioteca, mas vocês não estavam lá também!

— Eu passei pela biblioteca, encontrei Tom no caminho, mas depois eu não fiquei lá!

— Cass, eu não sei por que – ele parecia segurar um choro na garganta – mas eu sinto que tem algo errado. Tem algo que você não tá me contando, isso é óbvio, mas eu não achei que tivesse mesmo a ver com o Thomas! Eu quero acreditar que não tem! Mas eu não tô conseguindo acreditar em você, tem algo muito estranho.

— André, por favor, você já tá tirando conclusões sem nem me ouvir. – Cass tremia, Agda observava a irmã ao telefone sem surpresa, mas preocupada.

— Se eu te ouvir, você vai me contar a verdade?

— A esse ponto, eu tô achando que se eu te contar a verdade você pode simplesmente não acreditar!

— Cass, eu amo você. E que inferno, eu não queria te falar isso assim! Mas se tem algo acontecendo, eu preciso que você confie em mim, porra!

— Você que não tá confiando em mim, André!

— Agora eu não tô conseguindo mesmo. – ele suspirou do outro lado da ligação – Olha, se você quiser conversar sobre isso, eu quero te encontrar e te ouvir, mas por favor tente ser sincera comigo.

— Eu vou deixar a Agda em casa e vou te encontrar.

— Eu tô esperando você me ligar.

Ele desligou. Ela baixou a mão com a qual segurava o celular, chorando.

— Cass… – Agda queria consolar a irmã, mas não sabia se conseguia.

— Eu vou ter que falar com ele.

A garota buscou o campo telepático da irmã para responder.

— Se liga, Cass, o feitiço tá perdendo o efeito.

— Não é o feitiço, ele só tá com ciúmes do Tom!

— Como você sabe que não é o feitiço?

— Porque ele já estava com ciúmes antes do festival, não é novidade! E sinceramente eu acho que ele me acolheria se soubesse, ele só tá bravo porque não sabe!

Agda não gostava de André. Ele era muito bonzinho, muito legal, muito engraçado, gente boa, o material perfeito para o vilão de uma de suas histórias. Mas pelo que conhecia dele e o que a irmã dizia sobre as intenções dele parecerem sempre genuínas, acreditava que sim, ele talvez entendesse mesmo. Era capaz de aceitá-la. Tinha apenas um porém:

— Esse não é um segredo grande demais para um mundano? Ele pode entender, mas como você espera que ele vá lidar com isso?

— Eu não sei, mas acho que vai ser do melhor jeito que ele conseguir. Acho que ele só quer o que todo mundo espera, um relacionamento livre de… – ela entendeu – Thomas.

— Livre do Thomas?

A sobriedade alcançava Cassandra. Seu rosto perdia quase toda a expressão, pegou o celular e observou os horários das chamadas perdidas.

15:25;

15:38;

15:42;

15:47;

15:51;

15:59;

16:01.

Aproximadamente o horário em que começou a reparar na aura de Tom e em como ela parecia diminuir, até o horário em que ele desistiu de acompanhá-la até a biblioteca. Sua irmã estava certa, o feitiço estava perdendo o efeito, em algum nível André já se lembrava. O segredo delas, e de Tom, já estava vazando. O maior segredo que ele tinha e provavelmente a maior fonte de seus poderes. Cass sentiu o coração apertar, a água subiu aos olhos. “Você sabe o que precisa fazer, só é muito cabeça dura para aceitar o que é preciso às vezes.” lembrou de Tom a dizer.

Cass respirou fundo, secava lágrimas que começavam a querer sair.

— Aquilo que que tínhamos planejado, que você deixaria as memórias prontas para serem alteradas… Você fez?

— Sim, faltam poucas. Por quê?

— Vamos fazer essa noite.

— Assim? Do nada você foi iluminada?

— É… Vamos dizer que foi do nada.

E foi uma noite longa.

Notas finais
Sem despedidas.