Mágica - Livro I
12 Antes de tudo mudar
Notas iniciais
— Cassandra Penelopiene Ometolemos Caristal Aerita, primogênita de Cícero e Ariane, criada nas montanhas de Aeritos. – ela repetia pela quarta vez, ainda longe de sentir sono. – Cassandra Penelopiene Ometolemos Caristal Aerita, primogênita de Cícero e Ariane, criada nas montanhas de Aeritos. – Já havia dias que repetia o ritual, mas havia algo estranho. Mais difícil que repetir tantas vezes o próprio nome era talvez redefini-lo. E resolveu tentar. — Cassandra Penelopiene Ometolemos Caristal Aerita, primogênita de Cícero e Ariane, criada em dois mundos.
Sim. Fizera sentido. Sentia algo se acender dentro dela.
— Cassandra Penelopiene Ometolemos Caristal Aerita, primogênita de Cícero e Ariane, criada em dois mundos. Cassandra Penelopiene Ometolemos Caristal Aerita, primogênita de Cícero e Ariane, criada em dois mundos.
Diferente das outras noites, agora o sono vinha forte. Realmente havia algo diferente em chamar por você mesmo. Percebia seu corpo relaxado, inconsciente, sua mente vagando para o que parecia um sonho ou uma memória.
Cassandra se viu criança, caminhava ao lado dos pais, de mão dada com sua mãe enquanto seu pai carregava Agda. Ela estava empolgada porque havia acabado de completar 8 ciclos e iria pela primeira vez ao templo para que alguém examinasse seus talentos e orientasse possíveis caminhos. Os primeiros passos para além de sua educação geral, que empolgante! Se lembrava de seu avô materno os aguardarem na entrada do templo, a levantando no colo enquanto esbravejava:
— Mais uma guerreira para a família!
— Pai, mantenha suas expectativas mais neutras. – Ariane pedia.
— Ela é igualzinha a nós, Ari.
O avô a carregava nos ombros, de onde ela via tudo do alto, inclusive os olhos revirados de seu pai, que não tinha grande apreço por soldados. O soar de uma corneta indicou que podiam entrar, o avô a carregou para dentro, mas lembrava que depois ela seguiu sozinha.
Se lembrava de ficar apreensiva em frente de testes, de precisar parar um grande pêndulo sem tocá-lo, dizer quantos cristais estavam em uma caixa, se concentrar em um objeto enquanto tocava um tambor leve.
— Excelente intuição. – Se lembrava de alguém dizer, mas hoje não diria isso dela mesma.
Em outro momento estava sozinha com dois examinadores, eles cochichavam como se houvesse um problema. Um deles dizia:
— Vou falar à família que tivemos um atraso.
Cassandra não sabia que estavam bem no horário na verdade. Conversaram mais um pouco quando uma examinadora chegou com um pergaminho, que parecia trazer uma resposta esperada. A mesma que trazia a resposta se aproximava com um sorriso doce:
— Olá, Cassandra. Vamos fazer mais um último exercício, está bem?
— Sim, senhora! – a menina respondia empolgada.
— Eu quero que você imagine um cofre, nós vamos colocar algumas coisas dentro dele. Consegue fazer isso?
Não lembrava de mais nada do exercício, mas de ser acompanhada por esta mesma examinadora até o lado de fora com várias folhas de resultados de exames em mãos. Sua família a aguardava, Agda dormia no colo de Ariane e a examinadora explicava algo que parecia estranho para a mãe da garota examinada.
— Ano que vem ela deve ter resultados mais conclusivos, até conseguimos identificar uma leve tendência a talentos que vêm da família materna, mas por enquanto ainda não despontou.
— Isso é no mínimo curioso, considerando o quanto ela já faz para essa idade. — Cícero comentou.
— Sim, ela parece ter facilidade para habilidades gerais. Não significa que existe um problema, só que não conseguimos apontar bons caminhos ainda. Isso é absolutamente normal.
Os três adultos que estavam com ela se entreolharam, achando o parecer estranho, mas prometendo retornar no ano seguinte.
*
— Você está bem?
Agda perguntou para a irmã no dia seguinte enquanto conversavam no ônibus. Ela observava Cassandra mais quieta que o normal, evitando olhar para fora.
— Acordei com dor de cabeça. Acho que o ritual começou a fazer efeito.
— Você já se sente mais forte?
— Longe disso. – Cass não queria pensar nisso, apenas torcia para em algum momento a dor de cabeça parar. – Eu li os capítulos que eu tinha perdido.
— Mesmo?!
— Aquele personagem novo, o Roy.
— Sim! O que tem ele?
— Eu não achei que você colocaria um interesse romântico para a Cordélia.
— Por que você acha que ele é um interesse amoroso?
— Não é? Eles funcionam bem, se complementam a certa medida…
— Engraçado você dizer isso.
— Engraçado por quê?
— Se eu contar vai ser um spoiler.
Não falaram muito pelo resto do caminho. No colégio, Cass foi direto para dentro da sala, saindo do tumulto do corredor. Os sons estavam altos demais.
Tom foi o primeiro a notá-la dentro da sala, debruçada sobre a carteira, com uma aura que ele definia como rasa e tímida. Tinha impressão de que sabia do que se tratava, embora isso tivesse lhe acontecido bem mais cedo. Saiu da sala sem ser visto pela garota. Laulau foi a segunda a notar Cassandra e sua falta de ânimo.
— Cass? – ela se aproximou devagar – O que houve?
— Enxaqueca… – a bruxa levantou os olhos para a amiga que parecia até bem humorada para uma terça de manhã. Rapidamente se lembrou do que deveria perguntar – Você não falou do retiro. Como foi?
— Ah! Eu estava esperando algo acontecer ontem para contar. – A menina respondeu se sentando na carteira da frente, empolgada.
— Só fala mais baixo, por favor.
— Foi mal. Mas… – Laulau não conseguia conter um sorrisinho no rosto – Eu conheci uma garota lá.
Cass deu um sorrisinho de canto pequeno, era o máximo que conseguia para o momento.
— Uma garota que beija garotas? – ela perguntou sussurrando.
— Uma garota que beija garotas!
Laulau passou a explicar quem era Ana Clara, uma garota de sorriso bonito com quem trocou olhares no primeiro dia do retiro. Elas haviam conversado o suficiente para reconhecerem que teriam alguma afinidade.
— Bom, e lá elas sempre apagam as luzes às nove. Eu tenho insônia, então já me acostumei a levar um livro e uma lanterna. E também sempre faço uma cabaninha. – a menina de franja rosa explicava.
— Na beliche?
— Isso! Eu pego um lençol e fecho toda a lateral da beliche, como a outra lateral fica na parede, é bem tranquilo de eu usar a lanterna enquanto tá todo mundo tentando dormir. E eu tava lá, lendo meu livro…
— Aham.
— Do nada eu percebo uma movimentação, vou olhar, e é Ana Clara só com a cabeça para dentro da minha cabana, me olhando. Eu assustei e ela “o que você tá fazendo aí?” Eu falei que tava lendo e aí ela deu um sorrisinho e foi entrando na minha cabana! – Laulau agitava as mãos e cobria o próprio rosto, empolgava com a própria história.
— E aí do nada ela tava já direto na sua cama?
— Aham! – a resposta empolgada era um tanto alta, o que fazia Cassandra se encolher. – Desculpa, mas sim! – Laulau continuava, controlando mais sua voz. – Ela foi me perguntando o que eu estava lendo, a gente foi sussurrando, e nossa, ela é tão linda. Aí ela falou “como você não está mais lendo, você podia apagar a lanterna” e eu estranhei ela dizer isso, mas eu apaguei e aí quando eu percebi… a gente tava se beijando.
— Dentro do convento, igual a várias outras freiras. – Cass estava de queixo caído, mas feliz pela amiga.
— Para! – Laulau ria. – Isso é pecado.
— Desculpa. Mas e aí ontem o que aconteceu?
— Ela me mandou mensagem à noite, ficamos conversando até uma da manhã e vamos fazer isso hoje de novo.
— Que fofo!
O sinal tocou, fazendo Cass se encolher e trazendo os alunos para dentro. André entrou olhando para os lados, claramente procurando a namorada. Ele sorriu quando os olhos deles se encontraram, se aproximou notando que algo estava errado.
— Eu te procurei a escola inteira!
— Fala baixo. – Laulau advertia.
— O que foi? – Ele se abaixou ao lado da namorada, passando a mão em seus cabelos.
— Enxaqueca.
Ela se inclinou para receber um selinho que ele deu prontamente.
— Tomou algum remédio?
Não, já que nem sempre faziam o efeito esperado.
— Já sim, é só esperar.
André torcia a boca pensando se havia algo que pudesse fazer para ajudar a namorada. Talvez um chocolate? Talvez cabular as aulas da manhã? Ele estranhou quando percebeu Thomas se aproximando com dois copos da cantina na mão, um de café e outro de suco de laranja, e os deixou na mesa de Cass.
— Oi, e aí. – Thomas o cumprimentou.
— E aí. – André o respondeu – O que é isso?
— Café preto e suco de laranja. – o jovem bruxo respondeu.
— Isso estou vendo.
“Por que esse cara quer cuidar da minha namorada?” André pensava. E Cass, mesmo sem ouvir esse exato pensamento, percebia intenções e sentimentos se revirando na altura do estômago do namorado, reviravoltas que esclareciam o suficiente.
— É para a Cass, como ela está se sentindo mal. – Thomas explicava, incomodado em precisar explicar. Não era necessário ser um telepata dotado de um senso mágico de empatia para notar que o namorado devoto estava com ciúme.
— Eu pedi pra ele. – Cass inventou, pegando o café – Obrigada, Tom.
— Vou abrir uma conta para você. – ele respondeu, entendendo que ela gostaria de evitar um problema, mas levemente surpreso por ela ter pensado em uma mentira tão rápido.
— Se vai cobrar, podia só ter dito “não”. – ela disse soprando o café, erguendo os olhos para o bruxo.
— Não se diz “não” pra moribundo. – Thomas respondeu por fim, saindo de perto do casal.
— Café e suco? – ele ainda ouviu André perguntar a Cass.
— É… Cafeína e eletrólitos.
André ainda estava com ciúme, mas tentou não dar atenção a isso. O café e o suco realmente funcionaram, Cass agradeceu a Thomas depois.
*
Era o último ensaio da Ruína antes do grande festival de bandas independentes no half-pipe do parque. O quanto haviam evoluído era indiscutível, os instrumentos haviam se encaixado, podiam ficar felizes tocando. Estavam comemorando após o ensaio, com refrigerante como sempre, Dudu havia levado a câmera fotográfica de seu pai para fazer fotos e a banda conversava animadamente sobre o show no final de semana.
Em meio a bagunça, Tom se pegava fazendo o que estava tentando parar de fazer há alguns dias: admirando o sorriso de Cassandra. Desde que buscou parar de tocá-la, passou a sentir falta. Respirou fundo, desviou o olhar, notou André olhando para ele de novo e percebeu que talvez já estivesse ficando óbvio antes do incidente com o café e o suco. Mas como poderia ser óbvio? Quando ele mesmo tinha muitas dúvidas quanto aos próprios sentimentos. Gostava dela ou gostava do quão conveniente seria? Se afastou porque era melhor, notando Agda em uma mesa mais ao canto, escrevendo em um caderno brochura que parecia perto do fim.
— Muitas anotações? – se sentou ao lado dela, evitando olhar para o grupo que estava rindo de alguma coisa.
— Ideias para a minha história. – ela fechou o caderno, protegendo os próprios pensamentos.
— Olha só quem é cheia de segredos…
Agda deu de ombros.
— Você também tem os seus. – ela olhou para o grupo, mais distante – Está fugindo deles por quê?
— Não estou fugindo, só cansado. E você, está aqui no canto por quê?
— Porque eu gosto mais de escrever do que de conversar.
Ouviram palmas, era André rasgando seda para Cass e os amigos apoiando o casal favorito das últimas semanas. Cassandra ficava vermelha, mas seu olhar para André era apaixonado.
— Eu me preocupo com isso. – disse Agda.
— Com o que?
— Com ela e ele… Quer dizer, chega o fim do ano e teremos que nos mudar de novo, eles vão fazer o que?
— É… Quando eu dei essa ideia, não imaginava que seria “meu amor” pra lá, “meu amor” pra cá.
— Foi você?
— Ela parecia muito travada, achei que faria bem se ela tivesse umas experiências diferentes…
— Minha irmã se apega muito às pessoas, ela sofre toda mudança. Imagine agora.
Ela suspirava, ele estalou a língua.
— Sim, eu consigo ver isso agora.
— Mas enfim, espero que desbloqueando os poderes ela consiga se importar menos com garotos.
Thomas olhou para Agda. Definitivamente, ainda era uma menina de 11 ciclos, pensando que conexões românticas são desperdício de tempo. Deu uma risada fraca.
— Por falar nisso – ela continuou – ela tem tido dores de cabeça todos os dias. Isso é normal?
— Eu só soube de um ou dois dias.
— Não, faz mais. Ela tem tomado café e suco de laranja todos os dias de manhã e de noite. Sei lá como dorme.
Não parecia normal.
— Eu vou perguntar sobre isso. – iria mesmo, sua memória era excelente – E você? Achei que também participaria.
— Eu? Ah, não acho que eu precise de ajuda.
Ele levantou as sobrancelhas fazendo que sim com a cabeça. Deu uma olhada no caderno fechado sobre a mesa e sentia que sabia do que ela estava dizendo.
*
Cass guardava seus pratos dentro do estúdio, se preparando para ir embora. André a fazia companhia, mas apesar dos sorrisos e risadinhas que estavam mantendo do lado de fora, a conversa entre os dois era cansativa e chata para a bruxa.
— Eu sei do que eu tô falando. – André repetia, encostado na parede de espuma do estúdio. – Eu não tenho ciúmes à toa.
— E eu estou te dizendo que não vi nada demais no comportamento dele.
— Sim, ele não vai fazer nada chamativo, ele não é doido!
Cass suspirava, tinha a mais absoluta certeza de que ele estava errado. Thomas interessado nela era uma hipótese absurda, ele sequer queria tocá-la.
— Eu não sei o que você quer que eu te responda.
— Eu só quero que você me ouça. – ele estava frustrado, Cass sentia. Terminava de fechar a bolsa dos pratos e já se virava para consolá-lo, quando ele continuou: – O que ele queria falar com você aquele dia?
— Que dia?
— Na primeira vez que você foi me encontrar no Jocão. Ele tentou falar com você outras vezes?
Era cômico já que ela mesma quem sempre ia falar com Thomas, e não o contrário.
— Que eu saiba eu posso falar com quem eu quiser. – ela olhou para ele, a resposta com certeza havia desagradado – Naquele dia ele me chamou porque percebeu que estava me confundindo com outra pessoa e por isso estava sendo rude comigo. Ele pediu desculpas. Depois disso ele não foi mais estranho comigo, pode reparar.
— É, agora ele só gosta de ficar te provocando gratuitamente.
André girava os olhos. Para ele era óbvio, não conseguia entender como ela não via. A amizade deles era um ciclo de gentileza e provocação até nas atividades escolares.
Cassandra olhava bem para o namorado. Ela não gostava de mentir para ele, gostaria de poder ser completamente honesta, se perguntava se um dia poderia fazer isso. Mas sabia que por enquanto não. Respirava fundo e se aproximava dele, com tantos sentimentos se revirando. Ele já havia se sentido trocado uma vez e percebia o medo nele de passar por isso de novo. Ele a olhou com uma expressão cabisbaixa, ferida. Ela tocou os braços dele tentando ser doce, buscando suas mãos.
— Confia em mim. – ela pediu.
— Eu confio em você. – ele ficava inquieto, olhando para os lados.
— Então para de pensar nele que daqui a pouco eu que vou estar com ciúmes.
Ele soltou uma risadinha fraca e a puxou gentilmente para mais perto. A proximidade dela o acalmava, mas ainda estava preocupado.
— Só fico maluco imaginando a remota possibilidade de…
— Mas eu sou apaixonada por você.
Ele sorriu ficando mais calmo.
— Também sou apaixonado por você.
Cass também sorriu. Ela sentiu a mão dele alcançando sua nuca e cintura, colando seus corpos e alcançando seus lábios. Ela adorava o beijo de André, mesmo que agora sua aura nem buscasse mais outra para reagir quando eles se beijavam. E era estranho, porque mesmo apaixonada, mesmo se enroscando no pescoço dele, mesmo sentindo o calor do corpo dele colado no seu, havia um obstáculo que a impedia de o sentir verdadeiramente perto.
E pensaria em como resolver isso mais tarde.
*
Cícero não gostava de fazer isso. Se lembrava de esconder suas coisas toda vez que voltava das temporadas de estudo para a casa dos pais, odiava ter sua privacidade invadida, e ainda sim estava ali. Jamais acreditaria que havia se tornado esse tipo de pai, ainda que fosse muito menos invasivo que os seus. Ao menos ele negociou consigo mesmo, se prometendo que, seja lá o que encontrasse, falaria com a filha a respeito apenas depois do show de sua banda, que parecia ser a coisa mais importante dos próximos dias. Não queria estragar este momento para ela.
Abriu o quarto da filha mais velha se convencendo de que estava lidando corretamente com a situação. Muito havia mudado em menos de dois meses: as perguntas, a disposição para uma vida social, a prática de bateria todos os dias. Sentia que algo fazia bem à filha, mas não poderia encontrar conforto enquanto não tivesse absoluta certeza de que, seja lá o que havia mudado, as duas meninas estavam bem.
Observou tudo evitando tocar. As roupas estavam levemente desorganizadas, assim como os calçados, o material escolar, a bateria, o que era típico de sua Cassandra, mas algo chamou atenção na mesa de cabeceira. Na prateleira inferior, uma antiga caixa de presente preta e lilás estava sendo usada para guardar alguma coisa. Pegou a caixa, era leve, ele se sentou na cama e respirou fundo antes de abrir, torcendo para ser apenas algo normal de adolescentes.
Abriu. Havia uma folha seca sobre um pedaço de papel dobrado. A folha, sabe-se lá de qual árvore, era curiosa, mas não tão intrigante quanto o papel amarelado e de alta gramatura que repousava abaixo dela. Pegou o papel o abrindo, se assustando ao reconhecer seu antigo alfabeto em uma estranha caligrafia.
“Querida Cassandra, espero que esteja bem.
Tom me avisou sobre sua dor de cabeça e indisposição constante. É algo normal de se sentir por um ou dois dias, mas não por mais de uma semana, como tem sido. Minha mãe tem algumas teorias do que pode estar lhe causando estes sintomas. Você saiu de Eivar ainda muito cedo, chegou a testar suas aptidões quando criança?
Em todo caso, tenho duas sugestões para lhe fazer: a primeira é de que pare de realizar o ritual por alguns dias e observe se a dor persiste. A segunda é que mencione com seu pai o que está acontecendo. Tom não me falou quais são seus motivos para esconder tantas coisas, e eu imagino que os tenha. Mesmo assim, pelo pouco que falou quando nos conhecemos, imagino que ele possua um grande interesse em incentivar seu desenvolvimento.
Caso queira nos visitar, sempre será bem-vinda. Mantenho o convite aberto ao seu pai e sua irmã.
Ayla”
*
— Quando Yago deu a ideia, eu fiquei com medo de que você não entendesse a mensagem e pensasse algo ruim. – Ayla trazia xícaras de chá para a sala, deixando-as sobre a mesa de centro.
— A primeiro momento eu pensei que teríamos um problema maior, mas ainda estou transtornado com essa garota! – Cícero estava sentado pouco à vontade no sofá da sala. – O quanto eu temo por elas e…! – ele não conseguia terminar a frase.
— Acho que se fosse algo sério ou perigoso de fato ela teria sentido e te avisado. – a mulher respondia.
— E além disso todos escondemos algumas coisas de nossos pais. – Yago disse enquanto se servia do chá.
— Eu genuinamente acreditei que quando tivesse filhos seria diferente. – Cícero também pegou uma xícara, ele observava Yago e Ayla sentados lado a lado e estava um tanto constrangido pelo como o encontro deles se deu. – Me desculpem por vir sem avisar.
— Não há problema algum. – o pai de Thomas o tranquilizava.
— Eu prometi a mim mesmo que não falaria nada com ela antes do show neste sábado, vocês devem estar sabendo. – o arquiteto continuou.
— Sim, Tom vai assistir. – Ayla confirmava.
— Mas depois disso teremos uma boa conversa, estou arrasado com tantos segredos.
— Espero que Tom não sinta tanto… – Yago refletia em voz alta.
— Nosso filho tem uma fonte de magia complicada, ele se mantém com segredos. – Ayla explicou.
— Não só por isso – Yago continuava, agora olhando para Cícero –, mas sua filha é a melhor coisa que aconteceu ao Thomas nos últimos anos. Ele sempre foi do tipo inteligente e desinteressado, mas agora vira as noites estudando, pensando em inventar os próprios dispositivos. Eu ainda não sei se ela foi apenas uma motivação ou se estão planejando fazer algo, mas para mim, como pai, estou achando ótimo.
Cícero suspirou. Era só o que lhe faltava! Um namorado mundano era uma coisa, um bruxo que poderia realmente ter algo com sua filha era totalmente outra, era preocupante. Agora entendia as perguntas! Entretanto, não poderia negar que Cassandra parecia muito melhor.
— Isso explica tanta coisa… – ele dizia dando uma risada fraca, bebendo chá – Ela também tem estado mais disposta.
— Nós a adoramos, ela é um tesouro. – Ayla disse pousando o chá sobre a mesa. – Talvez a gente possa conversar sobre como lidar com isso juntos?
— E enquanto isso eles não sabem que nós sabemos? – Cícero terminou o chá.
— Talvez seja até melhor se você quiser manter um certo nível de controle, e nós entendemos que você queira, afinal de contas você é o pai da garota. – ela continuou.
“Que jeito curioso de dizer que a minha filha é quem engravida em uma possível relação.” Cícero pensou.
— Eu vou pensar nisso. – ele disse se levantando – Agora tenho que ir, em breve Thomas chegará em casa, não é?
— Sim, creio que sim. – Ayla respondeu enquanto ela e Yago se levantavam – Volte sempre que quiser!
— Como sabe, é muito bom ver mais dos nossos. – Yago afirmava com a cabeça.
— Sim, foi um prazer conhecê-los. – Foi mesmo. Fazia muito tempo que não se sentia entre os seus. – Até mais.
— Até! – o casal respondeu antes de Cícero desaparecer.
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