Mágica - Livro I
13 Como tudo mudou.
O parque era interessante. Eu via a pista de skate, o palco montado ao lado, barraquinhas de comida e toda a juventude local reunida para ouvir as bandas da região. Eu lembro de quando eu fazia parte desse mundo. Dividir a vida entre trabalho e final da faculdade não me afastou do contrabaixo, mas tirou toda a disponibilidade que eu tinha para ter uma banda.
Me aproximei de uma barraca e comprei uma cerveja. Era estranho olhar ao redor e perceber que todo mundo se conhecia, mas ninguém fazia ideia de quem eu era. Parece que percebiam que eu era de fora, que eu não pertenço a essa cidade. Mesmo assim, eu me sinto pertencente a esse tipo de lugar.
Meu celular vibrou, era meu pai ligando. Eu atendi:
— Oi, pai.
— Felipe, sua tia quer saber se você volta antes do jantar.
— Eu não sei, mas deixa que eu como algo por aqui. O tio tá bem?
— Ele está na mesma, quem está em apuros somos nós. Você fez bem em sair pra dar uma volta, sua tia Carla também chegou com as crianças e agora não tem nem mais lugar pra sentar nessa casa.
— Isso porque foi um alarme falso.
— Imagine se seu tio tivesse morrido de verdade. Não, Deus o livre.
— Ele vai sair dessa.
— Ele vai. Fica bem aí e cuidado com o carro. Vê se abastece.
— Pode deixar.
Eu desliguei satisfeito pela minha decisão.
As bandas eram boas. Cada uma delas tocava por meia hora e era fácil ver os grupos indo para trás do palco para montar as coisas antes de subir. Eu sinto um pouco de falta do nervosismo pré-show, da ansiedade para tocar e mostrar o que eu sabia fazer. Quando eu vejo esses moleques subindo no palco, eu vejo quem eu era anos atrás.
A quarta banda subia no palco quando eu a vi. E se eu já me sentia transportado para o passado, naquele momento a sensação ganhou uma dimensão diferente. Não poderia ser. Mas estava logo ali, montando os pratos com aquela estranha disciplina militar, o jeito era inconfundível. Eu não poderia estar errado. Mas quais as chances, depois de tantos anos?
Minha mente vagou por todas as memórias que tenho dela.
Aline era nossa vocalista e foi quem a achou. Ela disse que nunca havia tocado em uma banda antes e eu disse que a ajudaria como se tivesse muita experiência. Erramos muito no primeiro ensaio, sempre na mesma passagem, quando eu a disse:
— Você tem que me seguir nessa parte. Você está conseguindo me ouvir?
E ela, tímida, com vergonha de algo que nunca entendi, disse:
— Na verdade, não.
Eu mudei o amplificador do baixo de lugar, deixando o falante um pouco atrás da bateria, enquanto explicava:
— Essas coisas você tem que dizer.
— Desculpa.
— Não precisa se desculpar.
— Vamos tentar de novo, agora vai dar certo! – Aline nos incentivava, sempre foi a mais animada.
Em pouco tempo criamos um entrosamento que acabava junto dos ensaios, mas ela me intrigava. Eu comecei a reparar nela no colégio, às vezes com Aline, às vezes sozinha, ela ficava tímida quando notava que eu estava a observando.
Um dia estávamos no mesmo grupo, conversando sobre nossa setlist, e, quando havíamos resolvido o necessário, ela se virou para me perguntar:
— Por que você fica me olhando?
— Deve ser porque eu te acho muito bonita.
Eu também fiquei tímido quando respondi isso, mas valeu a pena pelo sorriso bobo que ela deu em seguida, enquanto seu rosto ficava vermelho.
Eu lembro que a acompanhei até o ponto de ônibus todos os dias por meses. Que ficávamos sentados no chão da minha garagem depois dos ensaios, ela me mostrava a garota empolgada que era quando não estava tímida, e, em uma dessas vezes, eu tentei beijá-la. Lembro de estar perto, de tocar seu rosto, de ficar hipnotizado na pintinha que ela tinha entre o queixo e a boca. Lembro de ela recuar dizendo:
— Me desculpa. Eu não posso.
E ela nunca me explicou o porquê não podia.
Nós seguimos amigos depois disso, mesmo que nossos olhares se encontrassem às vezes e imaginássemos um futuro em que ela finalmente pudesse estar comigo. Mas isso demorou tanto que a paixão passou.
No final do ano, tanta coisa tinha mudado. Meu cachorro morreu em setembro e Aline me ajudou a enterrá-lo no quintal. Semanas depois, Aline era mais do que uma obsessão dos meus olhos, mas o alívio dos meus dias. Ela se perguntava o que nossa baterista acharia, se aceitaria fácil ao descobrir que estávamos juntos, e eu achava que não seria um problema. Insisti por um tempo e, quando aconteceu, a baterista tímida e amável sumiu. Em uma semana ela avisou que precisaria se mudar, um timing estranho, e no seguinte nós nunca mais ouviríamos falar dela.
Aline chorou quando percebeu que o número de telefone deixado era falso. Que os e-mails não tinham resposta. Ela sentia culpa, como se tivesse traído a amiga de alguma forma, dizendo que ela ainda gostava de mim e por isso não manteve contato. Eu nunca aceitei que este era o motivo, mas nunca consegui perguntar a real razão de ela simplesmente desaparecer. Nem a banda nem nosso grupo sobreviveu a isso, minha relação com Aline nunca mais foi igual.
E agora estava ali. Ela tinha alguns truques novos, mas o como batia nos pratos e mantinha a postura ereta só me confirmavam que era sim ela. Eu me aproximei do palco, mas a visão não era boa o suficiente ainda. Só haveria um jeito de confirmar isso de uma vez por todas: esperar. A banda tocou a última música, um pop-punk acelerado em que ela parecia se cansar bastante, mas parecia feliz. Até às expressões tocando bateria eram as mesmas, eu não poderia estar enganado.
A observei descer do palco carregando estantes de pratos, um pequeno grupo esperava a banda descer. Eles eram adolescentes, eu não entendi o que ela estava fazendo ali, nem por que ela ainda parecia uma adolescente, ela deve ter se formado em 2003!
Ela se afastou um pouco do grupo, eles voltavam para frente do palco enquanto ela continuou na parte de trás, guardando seus pratos em uma bolsa. Eu me aproximei devagar, estava a alguns passos de distância quando a chamei:
— Cass?
Ela ergueu seus olhos para mim e percebi pelo queixo caído que ela me reconheceu, mesmo que meu cabelo esteja mais curto, que agora eu tenha barba, use um alargador e tenha tatuagens. Eu mudei muito, mas ela me reconheceu. Eu me aproximava mais, queria estar feliz em revê-la, mas estava com raiva.
— Fefo. – ela disse muito baixo. Ninguém me chama assim há anos.
— Você tem noção da merda que causou quando simplesmente desapareceu? – eu não consegui controlar o que eu dizia muito bem, as palavras me escaparam.
Ela abriu e fechou a boca sem saber o que dizer, seus olhos enchiam de água.
O guitarrista da banda se aproximou, ele tinha um sorriso confuso, parecia uma versão melhorada de mim no ensino médio, e parou ao lado dela, tocando sua cintura.
— Oi, tudo bem aqui? – ele olhava para ela e para mim.
Eles eram namorados? Isso era bizarro ou no mínimo muito errado.
— Por que você está andando com adolescente? – eu a perguntei.
— Eu acho que você está confundindo ela com alguém. – o guitarrista disse.
— Não estou. Mas, foda-se, eu só quero saber por que você desapareceu. – eu tentava o ignorar.
Ele olhava para ela, esperando.
— Você o conhece? – ele a perguntou.
— Eu não… – ela ia mentir? Parecia em choque, muda, sem saber o que fazer.
Um outro garoto se aproximou, ele era um pouco mais alto, outro adolescente.
— Cara, você deve estar confundindo mesmo. – o guitarrista repetiu – Cass é nova aqui, estuda na minha sala-
— Da faculdade? – eu o interrompi – Cass estudou comigo no ensino médio em 2001.
O garoto mais alto deu um passo à frente, havia algo sinistro nos olhos dele.
— Esse vai ser o nosso segredo. – ele disse e, naquele momento, eu senti algo estranho.
Eu sabia que aquela garota era a mesma que tocou bateria comigo em 2001, e eu queria falar sobre isso, mas algo estranho oprimia minha capacidade de falar. Eu não tinha mais controle sobre minha boca! Uma pontada me acertava atrás da nuca toda vez que eu tentava falar com eles e eu me contorcia.
— O que foi isso? – o guitarrista perguntou olhando para o outro.
— Puta que pariu. – ela colocava as mãos sobre o rosto.
— O que está acontecendo? – ouvi a voz vindo de trás e me virei.
Eu reconhecia aquele cabelo castanho, elas eram diferentes mas tinham os mesmos olhos e nariz. Aquela era Agda? Ela deveria ser uma adolescente agora! Minha nuca doía mais com outra pontada e eu me abaixava, começando a me afastar.
— Eu também quero saber o que está acontecendo. – o guitarrista disse, mas nenhum dos três o respondia – Cass?
Eu me afastei. Cambaleei até o carro estacionado e percebi que a dor passava mesmo quando eu pensava sobre a baterista do meu ensino médio que não envelheceu praticamente nada. Mas não consegui falar a respeito. Tentando falar, a pontada vinha e algo me impedia.
Rodei aquela cidade minúscula o resto da noite, talvez procurando outros fantasmas. Cheguei na casa dos meus parentes encontrando a casa cheia, todos me perguntaram sobre o festival, mas não consegui mencionar o que houve para nenhum deles.
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