Lágrimas de Maroto - 1ª temporada
9 Capitulo 9 - O quase reencontro
Notas iniciais
Já era tarde da noite quando o cão negro finalmente abriu seus olhos brilhantes, fitando o céu estrelado que se estendia a sua volta. Levantou-se devagar, sentia seu corpo acordar lentamente, submergindo de um estado de cansaço extremo.
As horas de sono haviam lhe devolvido um pouco de suas forças, mas ainda se sentia fraco. Precisava de algo para comer, mas antes de se aventurar pela cidade, resolveu que seria bom se livrar da areia que se grudara em seu corpo como que por ventosas.
Enquanto se encaminhava novamente de encontro as ondas do mar, sua mente trabalhava no que faria a seguir. Precisava ter cuidado, aquela altura a noticia sobre sua fuga já deveria ter se espalhado tanto no mundo bruxo quanto no trouxa, o que significava que teria que se manter em sua forma canina, pelo menos por um tempo.
O mar o recebeu com carinho, as ondas levando para longe toda a sujeira e a areia que se impregnara em seus pelos, conjuntamente com o restinho de sonolência que insistia em se prender a seus olhos.
Agora que estava livre, tinha que planejar cada passo com cuidado. Embora sua vontade fosse a de correr até Harry naquele mesmo instante e contar-lhe tudo, sabia que precisava agir de forma cautelosa. O melhor seria que se livrasse primeiro de Pettigrew, assim, quando fosse ate seu afilhado, teria tempo para explicar-lhe tudo com calma, sem se preocupar com a ameaça que o traidor representava.
Antes que decidisse o que faria a seguir, entretanto, outra necessidade ligeiramente mais urgente roubou sua atenção. Seu estomago roncava alto, clamando por um pouco de comida. Uma ação altamente compreensível, já fazia quase 24 horas desde a ultima vez que comera alguma coisa.
Sirius deu as costas para o mar e seguiu em direção a cidade, precisava achar alguma coisa para comer rápido, ou em pouco tempo não teria mais energia para seguir em frente.
Aquela era uma cidade litorânea plana, com áreas residenciais e comerciais bem separadas umas das outras. Ele não tinha ideia de que horas eram, mas a julgar pela falta de luz nas janelas das casas e por não haver quase nenhum estabelecimento aberto, já devia ser bem tarde.
Para sua sorte, não demorou a encontrar uma refeição, um punhado de gordos ratos em uma viela da cidade. É claro que não era uma refeição digna de apreciação, não se comparava aos banquetes de Hogwarts (aliás não se comparava a nenhuma refeição que se recomendaria a um ser humano), mas dadas as circunstâncias, ele até que não tinha do que reclamar. Este jantar estava bem melhor nutrido do que aqueles que ele costumava encontrar se aventurando por sua cela de Azkaban.
Quando sentiu que seu estomago finalmente parara de roncar, Sirius afastou-se da viela, seguindo em direção ao centro da cidade. Continuava a caminhar para clarear sua mente e assim, conseguir decidir para onde iria.
Não podia voltar ao Largo Grimmauld. Não sabia se alguém estava morando na casa que fora de sua família, e mesmo que a casa estivesse vazia, aquele era o ultimo lugar para o qual ele gostaria de voltar. Aquela casa não lhe trazia nada de bom, apenas recordações de uma infância e adolescência rebeldes, onde ele era a ovelha negra, o desgarrado grifinório de uma família orgulhosamente sonserina.
Também não tinha a quem pedir ajuda. Todos no mundo bruxo o odiavam, o julgavam o traidor e perigoso assassino, e se aparecesse em alguma casa bruxa, com certeza seria facilmente apanhado. Teria que seguir viagem por sua própria conta.
Decidiu que o melhor lugar para ir era Hogwarts. Sua antiga escola era o seu melhor refugio. Conhecia cada canto daquele castelo e do terreno a sua volta, graças a ampla pesquisa de campo que fizera junto com o restante dos Marotos quando tiveram a ideia de criar o mapa; além disso, sua ida a Hogwarts lhe traria dois benefícios: teria uma boa chance de encontrar Pettigrew (e acabar com a raça daquele rato imundo!) e ficaria mais perto de seu afilhado.
Antes de partir rumo a escola, cedeu ao mais profundo desejo de seu coração. Iria passar na casa dos tios de Harry. Se tivesse sorte, o afilhado estaria passando lá suas férias, e quem sabe ele poderia vê-lo, mesmo que fosse de longe, já seria alguma coisa.
O endereço dos tios trouxas de Harry não seria difícil de descobrir. Sabia que eles moravam em algum lugar de Little Whinging, Surrey, numa tal de rua dos Alfeneiros (Lily uma vez havia contado a Sirius que a irmã dela morava em uma pacata cidade trouxa, em uma rua com nome engraçado), ele só não conseguia se lembrar do numero, mas este não seria um grande problema. Uma vez na rua, acharia a casa sem grandes dificuldades.
Foi com este destino em sua mente que o maroto retornou momentaneamente a sua forma humana (não é possível a aparatação quando a pessoa estava em sua forma animaga), não sem antes verificar se estava realmente sozinho. Fechou os olhos com força, focando sua mente no destino que escolhera, torcendo para que tivesse se lembrado do endereço correto.
Sentiu seu corpo ser arrancado do chão, suas entranhas se revirando com o súbito deslocamento. Quando deu por si, sentia novamente o chão solido abaixo de seus pés.
Estava parado no começo de uma rua cumprida, que serpenteava e se bifurcava em determinado ponto. A rua era iluminada por muitos postes de luz, tornando difícil que ele se mantivesse sobre a proteção das sombras. Estava exposto demais. Embora não houvesse nenhuma luz vinda das casas da rua, ele se sentia ameaçado com todas aquelas luzes, como se de alguma forma elas pudessem denunciar sua presença.
Retornou a sua forma canina e se abrigou atrás de alguns arbustos que havia em uma praça próxima. Passaria o restante da noite ali, e de manha, com alguma sorte, encontraria a casa que seu afilhado morava.
Sirius acordou com um sol forte batendo em seus olhos. Estava agitado, tivera mais um pesadelo. Esperava que conforme o tempo passasse eles melhorassem, mas pelo jeito só pioravam.
Aquele sonho fora ligeiramente diferente dos anteriores. Geralmente, ele sonhava com Lily e James ou com sua mãe, todos os sonhos ruins, dos quais ele acordava atordoado. Daquela vez, no entanto, sonhara com Bellatrix, uma luz verde brilhante e um véu branco...acordara com uma profunda sensação de vazio e silencio. Sacudiu a cabeça e procurou livrar-se dos resquícios do sonho. Não tinha que se preocupar com isso, era só um sonho idiota. Não tinha nenhum significado maior.
Levantou-se e se espreguiçou, soltando um longo bocejo. Estava na hora de começar a procurar. Decidiu começar pela ponta da rua na qual chegara, seguindo as numerações pregadas nos batentes.
Enquanto andava, Sirius teve a impressão de que se tratava de uma produção em serie, como ocorria com as motos trouxas, todas as casas eram praticamente idênticas. Para o bruxo, era difícil entender porque os trouxas gostavam tanto de se parecerem entre si. Oque eles viam de tão errado em ser diferente?
Apesar das semelhanças entre as residências, fora fácil para Sirius encontrar a casa de seu afilhado por ter contado com a ajuda do próprio Harry. Enquanto descia a rua dos Alfeneiros, a procura de algum sinal que o ajudasse a descobrir qual era a casa certa, o maroto divisou, no telhado de uma das residências do lado esquerdo da rua, a figura de um menino magricela, de cabelos muito negros e rebeldes. A semelhança o assustou, seus olhos se enchendo de agua. Por um momento acreditou estar diante de seu melhor amigo. Por um glorioso momento acreditou que Pontas estava de volta.
Aproximando-se um pouco mais (tomando o cuidado para que não fosse notado), Sirius pode ver o intenso verde esmeralda que brilhava nos olhos do garoto. Os olhos de Lily. Ele conseguira, finalmente reencontrara seu adorado afilhado. A emoção que tomava conta do coração de Sirius era enorme, parecia que um peso enorme tinha-lhe saído das costas. Seu menino parecia estar bem, apesar de por muito tempo seu padrinho não ter podido cumprir a promessa que lhe havia feito.
Pela primeira vez em longos anos, o maroto sentiu crescer dentro de si um sentimento de genuína felicidade, que o inundou por completo, preenchendo o vazio que se instalara dentro dele desde aquela fatídica noite de dia das bruxas.
Ouviu-se um berro com voz de mulher que vinha de dentro da casa, alguém chamava com insistência por Harry. Sobressaltado, o garoto se levantou e voltou para dentro da casa.
Sirius praguejou contra quem gritava. “Quem ousa gritar assim com o meu afilhado? Mas que trouxas mais sem educação!” pensou, desejando que tivesse tido mais tempo para observá-lo. Sentira muita falta de Harry, mais do que ousara admitir, e ver que o garoto se parecia tanto com James, fez a saudade que sentia do amigo submergir de forma sufocante.
Já que não tinha como ver Harry enquanto este permanecia no interior da casa, o maroto pôs-se a observar a residência dos Dursley. Era uma casa de dois andares, com um jardim impecável e um carro caro na garagem, mas desprovida de qualquer detalhe exterior que a diferenciasse das demais casas daquela rua.
Por mais que tentasse, ainda não conseguia entender o porquê de Dumbledore ter resolvido deixar Harry ali. Estava claro que aquele não era o lugar certo para ele, percebera isso no minuto em que ouvira aquela voz estridente gritar para chama-lo, era nítida a raiva e o ressentimento que emanavam dela.
O restante do dia transcorreu de forma monótona. Sirius acabou se instalando no jardim da frente da casa do Dursleys, protegido por um canteiro de flores que havia em um dos lados da casa. Dali, ele podia ver através de uma janela parte do que acontecia no interior da residência.
Não voltou a ver Harry até o finzinho da tarde, quando os raios de sol começavam a serem encobertos pelas sombras da noite, então seu dia se resumiu a observar a rotina do resto da família, o que não ajudou a melhorar seu estado de espirito.
Pelo pouco que observava, Sirius começou a compreender perfeitamente o porquê de Lily ter-lhe dito que não queria o filho dela perto da irmã. A família toda parecia ser, por falta de palavras melhores, desinteressantes e egocêntricos. Do tipo de pessoa com o rei na barriga, como dizem os trouxas.
Haviam duas mulheres, uma magra e ossuda, com um pescoço anormalmente cumprido, que mais tarde Sirius descobriu tratar-se de Petunia, a irmã de sua amiga; e a outra baixa e muito gorda, assemelhando-se no formato a uma rolha de poço, que andava com passos pesados e era seguida a todo canto por um cachorro de aparência mal encarada. As duas fofocaram durante o dia todo, primeiro sobre o filho da vizinha da frente que fora preso por arruaça, depois, sobre como os jovens daqueles dias se vestiam mal (“excerto Duda, é claro! O Dudoca tinha um excelente senso de estilo!”), e por fim, falaram sobre Harry.
A mais gorda das duas, que o maroto descobriu chamar-se Guida, reclamava que o garoto era um peso para aquela família tão respeitada, “um traço ruim em uma família excelente!”, enquanto Petunia apenas acentia, dizendo que fizera a bondade de acolher o garoto, mas que se soubesse no que ele se tornaria, o teria largado em um orfanato.
Ouvir aquilo foi à gota d´água para Sirius. “Como ela pode dizer isso do meu afilhado?” “Como pode dizer que teria preferido larga-lo em um orfanato? Pois fique sabendo que eu não permitiria que isso acontecesse, ouviu? Jamais deixaria que você fizesse isso, sua gralha velha e estupida!”. A raiva que ele sentia por aquela mulher só aumentava. Não conseguia suportar que Harry tivesse crescido tendo que aguentar aquelas grosserias...como Dumbledore pudera deixa-lo com aqueles trouxas?
Tentando manter a calma para não fazer nenhuma idiotice que o entregasse, Sirius resolveu sair para caminhar e caçar alguma coisa que pudesse comer, começava a sentir que seu estomago voltava a reclamar, e seria bom que se mantivesse longe daquela casa por algum tempo, para se acalmar.
Perambulou pelo bairro por algumas horas, mas não teve muita sorte o quesito comida, tendo que se conformar com algumas sobras que encontrou no chão ao lado de fora de um restaurante.
Quando retornou a casa do Dursleys, deparou-se com uma discussão acalorada:
— Isso é mentira! (a voz de Harry estava alterada e soava extremamente irritada) Meu pai não era bêbado, nem imprestável, e eu também não sou!
— Mas é claro que não!! – pensou Sirius, rosnando baixinho.
— Tem orgulho do que seus pais eram não é garoto? – a voz debochada de Guida soou como um guincho nos ouvidos do maroto.
Sirius não conseguiu ouvir a resposta de Harry, ou a tentativa do tio do garoto de amenizar a situação. Tudo que pode ouvir foi um berro, que parecia ter vindo de Guida.
— Socorro! Socorro! – a mulher parecia apavorada. “O que estava acontecendo? Porque essa maluca esta gritando??” De onde estava, Siriu não conseguia ver a cozinha do Dursleys, então apenas podia ouvir a gritaria que estourara no interior da casa.
De repente, a barulheira irrompeu para o lado de fora, conjuntamente com um enorme balão, ou melhor dizendo, uma pessoa que virara um balão. Guida, que pelo que Sirius observara durante o dia, já possuía uma forma avantajada, flutuava cada vez mais alto, inchando cada vez mais, como se estivesse sendo inflada por uma bomba de ar.
Vendo a cena, o maroto não pode deixar de rir com aquilo. Aquele era um excelente castigo para aquela gorda estupida! Isso era para ela aprender a não falar sobre quem não conhece! “Muito bom Harry, muito bom mesmo!”.
Foi quando ouviu o som de algo muito pesado sendo arrastado porta a fora que ele se deu conta do que acontecia. Harry estava saindo de casa em disparada, sem nem olhar para trás. “A briga deve ter sido demais para ele”, pensou Sirius, preocupando-se de imediato.
O garoto começou a subir a rua, seguido pelo enorme cão, que cuidava de manter certa distancia. Por fim pararam umas cinco ou seis ruas depois daquela na qual se situava a casa dos Dursleys.
Sirius sentiu seu coração apertar com a situação do afilhado. Queria ajuda-lo, fazer alguma coisa para que ele sentisse melhor, para que não se sentisse sozinho, mas não sabia o que fazer. Muito provavelmente Harry nem mesmo sabia de sua existência, ele não podia simplesmente aparecer e se apresentar, iria dar um susto no garoto.
Antes que Sirius tivesse tempo de decidir o que fazer, a luz da varinha de Harry se vira em sua direção, incidindo diretamente em seus olhos. Assustando-se com o repentino holofote, o enorme cão negro encara o garoto, rosnando (uma reação à surpresa).
Assustado ao perceber que não esta sozinho, Harry acaba tropeçando, erguendo sua varinha para o alto no momento da queda. Aproveitando o momento de distração, Sirius se esconde, encolhendo-se nas sombras novamente. “Não, ainda não é o momento de aproximar-me de Harry”.
Um clarão irrompe na noite, um conhecido e enorme ônibus azul surge do nada, estacando ao lado de Harry, que continua caído no chão. O “Noitibus Andante”. Sirius conhecia bem demais aquele transporte mágico. Ele, Pontas, Aluado e Rabicho o usaram muitas vezes durante a juventude...trazia tantas recordações...
Por um momento, Almofadinhas permanece perdido em seus pensamentos, em suas lembranças. Como eram bons aqueles momentos, em que ele e os amigos ainda estavam juntos. Tempo de brincadeiras, de “marotices”... aquele era um tempo em que eles acreditavam que poderiam consertar o mundo, torna-lo mais leve, mais suportável. Um tempo que infelizmente não voltaria mais...
Quando deu por si, Harry estava entrando no gigantesco ônibus, seguido pelo condutor, que carregava o malão. Agora ia ficar tudo bem, o garoto iria pedir para deixarem-no em um lugar seguro, ia dar tudo certo.
Quando o noitibós sumiu de vista, tão rápido quanto quando havia aparecido nas ruas do subúrbio trouxa, o cão se virou na direção contraria, descendo a rua. Era ora de seguir viagem, tinha um longo caminho até Hogwarts.
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