Lágrimas de Maroto - 1ª temporada
8 Capitulo 8 - A fuga
Notas iniciais
Quem o visse naqueles últimos dias diria que seu estado havia piorado visivelmente. Estava se é que isso era possível, ainda mais magro, e haviam profundas olheiras ao redor de seus olhos. Sua aparência era a de alguém que a muito não dormia nem comia direito.
A despeito de seu estado físico, algo parecia ter mudado naquele prisioneiro. Seus olhos, apesar de cansados, ostentavam um novo brilho, e não era mais possível encontra-lo absorto em devaneios, como geralmente acontecia até pouco tempo atrás. Ele parecia estar em estado de alerta, como se estivesse a espera que algo acontecesse.
A mente de Sirius estava a milhão, trabalhando a todo vapor para encontrar uma saída para o problema que lhe afligia. Tinha que descobrir um jeito de sair daquele lugar, e o mais rápido que pudesse. Sabia muito bem os riscos que corria, todos haviam fracassado na fuga, mas ainda assim, tinha que tentar, não podia simplesmente desistir.
Decidiu que fugiria a noite e em sua forma canina. Tomara essa decisão por dois simples motivos: Azkaban não era iluminada à noite, então ficaria difícil que alguém o enxergasse; e porque, em sua forma canina poderia correr e nadar mais rápido, aumentando sua chance de sobrevivência. Contava também com o fato de que os dementadores não enxergavam muito bem, aumentando sua proteção se tentasse fugir amparado pelas sombras da noite.
Faltava ainda resolver um problema: como passar pelas grades de sua cela? Elas não eram trancadas a chave, mas sim por magia. Mesmo que tentasse passar por entre as barras, um feitiço de barreira o impediria, lançando-o de encontro a parede ao fundo da cela. Não possuía uma varinha, nem ninguém que pudesse abrir a cela pelo lado de fora. Como faria?
Enquanto encarava as barras que o inclausuraram por tantos anos, algo lhe ocorreu. Nunca tinha tentado transpor as grades em sua forma canina (Amaldiçoou-se por nunca ter pensado nisso antes). É claro que em outros tempos ele jamais conseguiria. Costumava transformar-se em um majestoso e gigantesco cão negro, mas não fora apenas sua forma humana que sofrera mudanças durante aqueles longos anos em Azkaban, sua forma canina também fora duramente afetada.
Seu pelo, antes de um tom de preto brilhante, estavam agora com uma tonalidade mista, alternando entre o preto e o cinza; e seu corpo, antes forte e imponente, por conta da má alimentação, estava mirrado e magérrimo. Talvez realmente conseguisse se espremer pelas barras.
Aquela possibilidade o alegrou. Realmente começava a vislumbrar uma chance de finalmente se ver livre daquele pesadelo. Não poderia testar agora no entanto. O dia ainda estava claro, e os dementadores estavam vigilantes e irritados. Fazia tempo que não chegava um novo detento, e a falta de carne fresca estava começando a incomoda-los, afinal, não havia muito mais que pudessem tirar dos moradores habituais da prisão, já haviam lhes sugado cada gota de felicidade e esperança, bem, pelo menos quase toda.
Por conta desta irritabilidade de seus carcereiros, que infelizmente os tornava mais atentos aos movimentos dos prisioneiros, o maroto decidiu que não teria muita chance se tentasse fugir naquela noite. Era melhor esperar até que chegasse um novo preso, assim as atenções estariam voltadas para ele, e Sirius teria mais liberdade para agir.
Durante os dias que se seguiram, Almofadinhas começou a se impacientar. Ansiava por sua liberdade, e por mais que não tivessem passados mais do que cinco dias desde que vira a foto de Rabicho no Profeta Diário, sabia que a cada dia que adiava sua fuga era um dia que aquele traidor imundo continuava impune, e o pior, prestes a embarcar de volta a Hogwarts.
Na manha do sexto dia, no entanto, a sorte pareceu finalmente sorrir para o maroto. Ainda era cedo quando um grupo de dementadores passou por sua cela, escoltando um novo detento.
Tratava-se de um homem baixo e extremamente magro, com feições que lembravam a uma ave de rapina. O novo hospede foi conduzido a uma cela a cima da que Sirius ocupava (o antigo ocupante morrera não muito tempo atrás), e enquanto ouvia os gritos desesperados que vinham da cela agora ocupada, o maroto decidiu que tentaria fugir aquela noite. Não havia mais oque esperar. Nenhuma outra oportunidade seria melhor que a que se apresentava no momento, e podia ser que se esperasse mais, suas chances piorassem.
Quando a noite finalmente caiu, Sirius já estava pronto. A verdade é que, pensando em tudo que vivera ao longo daqueles anos, talvez ele sempre tivesse estado pronto, apenas não tinha consciência deste fato.
Deixou que a noite avançasse sobre o dia, que as sombras cobrissem cada canto de Azkaban antes de decidir a se arriscar a passar pelas grades. Aquele era um ponto crucial. Se conseguisse transpor a barreira, tanto a física quanto a mágica, tudo ficaria mais fácil. Tudo que teria que fazer era cuidar para que não fosse visto ou ouvido, e isso, graça a seus tempos de Hogwarts, ele sabia fazer muito bem. Não era atoa que o haviam apelidado de Almofadinhas.
A lua já estava alta no céu quando o enorme cão negro se levantou e caminhou a passos leves até as grades. Não havia nenhum dementador a vista, e sua audição aguçada não captou nenhum som que as capas das horrendas criaturas produziam, como se arranhassem o ar a sua volta. Encarando fixamente a abertura entre as barras de ferro, o cão completou a distancia que o separava dela, esperando algum tipo de colisão.
Embora estivesse mais do que disposto a fugir, bem lá no fundo o maroto duvidava de que realmente conseguiria passar pelas grades. Acreditava que acabaria ficando preso, ou que seria lançado de volta ao fundo da cela, como acontecera quando tentara passar em sua forma humana. Para sua surpresa, no entanto, não houve qualquer colisão, nem mesmo um ruído.
Roçando de leve nas geladas barras, Sirius conseguiu transpor a grade, uma pata de cada vez. Quando se viu do lado de fora, seu coração estava acelerado, e pela primeira vez em muito tempo, sentiu algo que chegava bem perto de felicidade. Ele conseguira! Cumprira seu objetivo mais imediato, saira da cela que lhe fizera às vezes de moradia por longos e solitários anos.
Apesar de seu contentamento pelo êxito obtido, não parou para apreciar o momento. Ainda tinha muito o que fazer se quisesse realmente ser livre novamente. Olhando a sua volta para garantir que não havia sido descoberto, começou a correr em direção a base do rochedo o mais rápido que podia, tão rápido que suas patas mal tocavam o chão.
Enquanto corria sua mente praticamente voava, inundada de pensamentos cada vez mais parecidos com aquilo que se chamava de “pensamentos felizes”. “estou livre!! Eu vou conseguir, vou deixar este inferno para trás! Vou reencontrar meu afilhado, e vou afastar aquele verme de perto dele. Vou consertar as coisas Pontas, prometo que vou consertar tudo!”.
Apesar do imenso alivio que sentia ao se ver ao ar livre, sentir o vento sobrando sobre si, Sirius fez o máximo para focar sua mente. Ainda não estava completamente fora de perigo, tinha que conseguir chegar ao mar, e depois disso, nadar ate a outra margem. Ai sim, poderia dizer que estava realmente livre, que havia conseguido.
Completou a distancia até a base do rochedo que abrigava Azkaban em poucos minutos, sem encontrar nenhum problema em seu caminho. Parou por um instante para recuperar o folego, abrigado atrás de uma antiga cela (que por pura sorte estava vazia). Seu coração estava novamente acelerado, batendo com tanta força e rapidez que mais se pareciam com doídas marteladas.
Tentando acalmar-se o suficiente para ter folego para completar a ultima etapa da travessia a nado, o maroto aproveitou a pausa e ergueu o olhar em direção ao céu. Não havia estrelas aquela noite, apenas a lua, reinando solitária. Apesar da falta da luz das estrelas, mais tarde, ao recordar-se dela, o maroto se lembraria de ter pensado que aquela era uma noite com um dos céus mais bonitos que ele tivera o privilégio de ver.
Com o coração finalmente batendo em um ritmo mais calmo, Sirius caminhou sorrateiramente até onde a faixa de terra encontrava o mar. Não havia dementadores a vista, o que significava que nenhum deles havia dado por sua falta ainda. Isso era bom, realmente muito bom.
Sem perder mais tempo, o cão pulou na agua e começou a nadar o mais veloz que conseguia. Por conta de seu tamanho considerável, ele cobriu rapidamente uma boa distancia em relação a prisão. Esforçava-se o máximo que podia, deixando apenas sua cabeça para fora da água. O maior problema que enfrentava agora não eram os dementadores, mas sim o frio.
A água estava extremamente fria, e enquanto nadava, Sirius sentia as ondas baterem em seu corpo, extremamente doloridas. Era como se a cada onda que batesse, seu corpo fosse perfurado por milhares de agulhas.
Já devia fazer muitas horas que ele estava em alto mar, e começava a se cansar, a perder as energias. Sentia que cada musculo de seu corpo se retesava, dolorido. Mas sua mente o impelia a continuar. Não podia desistir agora, estava quase conseguindo, tinha que continuar...
E ele continuou. Nadou com todas as suas forças, recusando-se a desistir. A cada hora que passava parecia ficar mais difícil. O enorme cão lutava para manter-se a superfície, mas o mar levava vantagem na batalha, puxando-o para o fundo sem esforçar-se demais.
A mente do maroto começava a ser inundada por pensamentos não tão otimista. Ele estava cansado, quase sem forças para continuar, não tinha como prever por mais quanto tempo conseguiria se manter na superfície. Apesar de estar evidentemente exaurido, ele não desistiu. Pensar no porque de ter que continuar lutando o ajudou a permanecer ativo naquela luta, mesmo seu oponente sendo bem mais forte do que ele.
Estava lutando por sua liberdade. Por justiça. Por Harry. Sim, seu afilhado era o maior motivo de ele não desistir. Tinha que protegê-lo, mostrar-lhe a verdade. E ainda havia Pedro...tinha que faze-lo pagar por toda a dor e o sofrimento que o antigo amigo causara.
Os primeiros raios da manha já se anunciavam quando o cão, encharcado até os ossos, conseguiu emergir da água com grande dificuldade. Completara seu objetivo, mas não lhe restavam forças. Caiu ali mesmo na areia, próximo a arrebentação, desabando em um sono sem sonhos que duraria por muitas e muitas horas.
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