Notas iniciais
Quando lhe tiram o chão.

Por fim se lembrava. Não era urina o que desviara na noite anterior. Erasangue. De seu irmão, provavelmente. Lembrou-se das dores terríveis antes de perder a consciência e de reacordar de pé em uma plataforma rochosa, apenas para perder a consciência de novo no instante seguinte. Lembrou-se de ter sido atacado por aquele monstro quando saía do banheiro, e do sangue que o cobria. Lembrou dos barulhos estranhos que o acordaram, provavelmente de ossos se quebrando e alguém engasgando com o próprio sangue.

Urrou de raiva, angústia e ressentimento. Tudo veio ao mesmo tempo e quando deu por si, na sala de estar de Nehemiah, estava descontrolado atirando móveis para todos os lados. Seus olhos opacos transpareciam seu espírito, que começava a sobrepujar o corpo.

- Arilla! Saia de perto! — Disse o velho robusto ao pegar Tomas pelos braços para controlá-lo. — Pare com isso, Tomas! Não há nada que você possa fazer! — Os braços fortes e grossos do homem conteram o garoto, que foi perdendo as forças e recuperando a sanidade lentamente. Logo não apresentava mais resistência, e quando solto apenas se ajoelhou no chão, sem forças.

- Eu... Só queria acordar no dia seguinte e continuar minha vida normalmente! — Tomas disse, e depois gritou como nunca antes havia gritado. O barulho convidativo que antes preenchia a vila foi substituído pelo urro do garoto que depois de perder o fôlego começou a chorar.

- Entendo... — Disse Kristopher, com a cabeça baixa. Estava no portão da casa do chefe do clã, conversando com Arilla. — Então foi por isso. O resto do povo ficou um tanto quanto preocupado. Afinal, o que ele tem de diferente? Para o velho ter que segurá-lo pessoalmente...

- Não sei, mas foi incrível. Não é como se fosse se transformar, mas parece que liberou uma força latente. E algo daquele nível, ainda mais durante o dia... Eu não tenho bons pressentimentos. — Arilla falou, pensativa.

- Ah, isso não me importa. Eu trouxe o garoto pra cá, fiz minha parte. Agora é com vocês. — O homem falou, começando a andar de volta para casa.

- Espero que você esteja preparado, Kris. — A garota falou alto, para ter certeza de que o homem ouviria. Ele não se virou, displicente. — Nehemiah não vai deixar barato desta vez. Ainda mais se tratando de um garoto tão estranho assim.

Kristopher suspirou e olhou para o chão, coçando o cavanhaque mal cuidado.

- Sei lá, não to afim de pensar nisso. Vou dormir. — Colocou ambas as mãos no topo da cabeça e saiu andando em direção à sua casa.

Tomas estava sentado de novo no sofá, no meio da sala desordenada. Estava de cabeça baixa, com os braços pendendo ao lado do corpo. Nehemiah estava sentado na poltrona novamente, com o olhar rígido à frente.

- Eu sei que tem certas coisas que não são justas, garoto. Mas esta é a vida, e não há mais como fugir do que aconteceu. Você agora é um de nós, e mesmo que não tenha escolhido este destino, está preso a ele.

- Por que... Por que vocês atacaram a minha família?! O que nós tínhamos a ver com vocês?

- Não fomos nós, garoto... Na verdade isto também é um mistério e depois eu devo conversar com Kristopher para saber exatamente o que aconteceu na sua casa. Mas por enquanto a prioridade é controlar você. — O velho acrescenta, apoiando o queixo nos punhos.

- Me... Controlar?

- Sim. Como você deve imaginar agora, você foi amaldiçoado por Kristopher e agora é um de nós. Você é um Lobisomem, ou como nós chamamos em nosso clã, um Garou. Aparentemente, sua família foi atacada por um grupo de Vampiros, ou como nós chamamos,Hemfil.

- Atacada... Então eles estão mesmo...

- Sim. Apenas um deles sobreviveu, e foi este que Kristopher foi buscar. Seu irmão, Tomas. Ele sobreviveu ao ataque e nós fomos buscá-lo para entregá-lo a uma Família de Hemfil aliada. Não sei por que Kristopher resolveu te amaldiçoar, mas depois que ele o fez vocês começaram a ser perseguidos, e fatalmente tiveram que lutar. Durante esta luta, você teve sua primeira transformação, tida como a mais forte e descontrolada dentre todas. Para te dar mais detalhes, vou precisar antes conversar com ele. O importante agora, Tomas, é que você aprenda a canalizar sua raiva e controlar sua metamorfose, por que enquanto isso não acontecer, todas as pessoas queridas para você serão seu alvo durante as noites de Lua cheia. E, fatalmente, esta semana é uma fase cheia.

- C-como assim...? — A menção à pessoas queridas o fez acordar do seu torpor.

- Veja bem. — O homem se estica, fazendo com que suas palavras sejam o mais contundentes possível. — Garous foram conhecidos na história como lendas. Homens que se transformam em um monstro durante a Lua cheia, e atacam pessoas. Isso é verdade, em parte. Durantetodas as noites você poderá viver normalmente, mas sua transformação será inevitável na fase cheia caso não consiga controlá-la. E quando isso acontece, seus primeiros alvos serão as pessoas mais caras a você, aquelas por quem suas lembranças são mais fortes. A sua contraparte monstruosa tentará destruir a sua existência, eliminando todos os relacionamentos que servem de pilar de sustentação para você.

- Então... Se eu não me controlar...

- Você irá caçar e matar impiedosamente, noite após noite, todas as pessoas de quem tem lembrança, e depois vai partir para estranhos.

Novamente, a cabeça do garoto pendeu sobre o peito.Afinal, que loucura era aquela?! Vinte e quatro horas atrás estava tendo aulas de Polinômios no colégio, ou pensando em animes e mangás!

- O que... Eu devo fazer...? — Sua voz saiu como um suspiro. Lágrimas novamente.

O homem se levantou, estalando os ossos.

- Você deve descansar, por hora. Esta é uma situação atípica, então seu treinamento será diferenciado. Tem um quarto no andar de cima, você deve usá-lo e descansar durante este dia inteiro. Quando for a hora, eu irei buscá-lo e entregá-lo ao seu mentor.

Dúzias de perguntas inundavam a mente do garoto, mas estava emocional e fisicamente cansado demais para retomar a conversa. Levantou-se e mais morto que vivo, subiu as escadas lentamente. Virou e falou sobre os ombros, quase inaudível.

— Obrigado... — Subiu.

O homem se virou e encarou o espaço a frente. Seu rosto se encheu de rugas, como se estivesse cansado.

- Garoto... Quem lhe deve desculpas somos nós.

Sentiu seu ombro sendo balançado, e acordou lentamente. Seu rosto amassado transparecia seu cansaço. Quem o acordou era Kristopher.

- Parece que eu vou ter que pagar o pato e ser seu mentor. Vamos logo, come alguma coisa e me segue. — Ele disse carrancudo.

Obediente Tomas desceu, não encontrou ninguém, imaginou que ele estaria o esperando do lado de fora. As lembranças vieram novamente em sua cabeça, mas ele tratou de esquecê-las. Imaginou que tipo de comida um Garou comeria, e não se espantou com a quantidade exorbitante de carne que encontrou na geladeira. Comeu algo rapidamente e saiu pela única porta, que o levou ao quintal. Kristopher o esperava lá. Assim que o viu, começou a andar. Logo estavam fora da vila, e Tomas pode ver em que tipo de terreno em que se encontravam.

Estavam em um tipo de floresta, com predominância de árvores coníferas. Era fim de tarde e o Sol se punha no horizonte, escondido pela elevação de pedras que ficava no centro da floresta.

- Onde estamos indo? — Ele perguntou, enquanto subiam alguns barrancos.

- Espere um pouco, você vai ver. — O homem disse sem se virar.

Andaram por mais 15 minutos, chegando a uma espécie de clareira. No centro dela, uma espécie de mesa circular, de algum material desconhecido. Havia amarras e algemas em grande número em cima dela. Um frio percorreu o estômago do garoto, que parou no limiar da clareira enquanto o homem continuou.

- Vamos! Não temos tempo! — Ele disse, olhando para trás.

Ainda hesitante, o garoto se adiantou.

- Deite. — O homem mandou, enquanto abria as algemas.

- Como assim \"deite\"?! Você não espera que eu me acorrente nisso, espera?!

- Sim, eu espero, e vocêvaideitar ali.

Bufando, se deitou na mesa, enquanto o homem começava a fechar as algemas em suas mãos e pés. No princípio, Tomas não achou que fosse sério. Aquelas algemas pareciam frágeis demais, de forma que seria fácil para ele se soltar, quando se metamorfoseasse. Mudou de idéia quando ele não parou de fechar algemas, por toda a extensão de seus membros. Não conseguia se mexer.

- O que eu tenho que fazer aqui? — Ele disse emburrado, tentando não parecer tão preocupado.

- Não é óbvio? Você tem que resistir. Preso nisso aí você não vai conseguir machucar ninguém, então trate de se controlar.

Se indignou.Afinal, quem aquele imbecil pensava que era? Não tinha nenhum direito de fazer isso, afinal eraelequem o havia transformado. Ele não tinha o direito. Não podia fazer aquilo. Nãoiriafazer aquilo.

Pensando nisso, Tomas não notou a Lua cheia no alto do céu, acima dele. Não sentiu dor afinal, desta vez, elequeriaaquilo. Queria matar. Queriasangue.

Kristopher o assistia se transformar, com os músculos inchando e os pêlos crescendo. Na segunda transformação em diante não havia dor, uma vez que os músculos e ossos adicionais já se formaram. A maior mudança era no subconsciente da pessoa, que se abria para a raiva incontrolável. A transformação estava completa, e ele via a massa de músculos e pêlos se remexendo.

Subitamente um rugido, e as correntes farfalharam debilmente. Nos arredores pássaros saíram voando, assustados.

- Isso... Não ajuda... — Disse baixo homem, ao pensar no que deveria fazer.

Pulou em cima da mesa, fora do campo de visão do Garou, que não conseguia mexer o pescoço. Apesar disso, ainda conseguia sentir as vibrações e cheiros. Sem mais pensar nos riscos, Kristopher jogou sua camisa para o alto, iniciando ele mesmo sua metamorfose. Em segundos, estava pronto e rosnando, se jogou em cima do outro.

Ambos começaram a rugir, rosnar, uivar, um de frente para o outro.

Acordou nu novamente, na mesma cama em que dormira na manhã do dia anterior.Não se lembrava de nada. Descendo, encontrou Kristopher comendo e assistindo televisão no sofá.

- Bom dia. — Cumprimentou, sem resposta. Bufou sem surpresa.

Entrou na cozinha e se serviu de algo da geladeira. Esquentou no microondas e foi para o sofá, acompanhar o programa que seu mentor assistia. Era um noticiário local.

- As buscas por provas sobre o assassinato de uma família de classe média da cidade ainda continuam na pequena cidade de Tremmonsie no Canadá — O repórter bruscamente interrompido pelo braço de Kristopher, que desliga a televisão.

- Acho que... Não tem nada de bom passando agora. — O garoto ficou ainda mais brabo.Vocênão tem direito de ter piedade.

- Sabe... Acho que como seu... Mentor, eu devo comentar. Você foi um fracasso ontem. Eu me cansei por nada.

- Obrigado pela ajuda. Se eu soubesse o que devia ter feito, com certeza seria mais fácil. — Respondeu, displicente.

- Mas era completamente óbvio! Você devia resistir!

- Resistir a que?! Eu realmente estava morrendo de vontade — Ele parou a frase no meio, pensando pela primeira vez.

- Ame matar? Sim, garoto. É contra isso que deve resistir. Quando se transforma contra a vontade, você pensa em qualquer motivo para matar qualquer um. Para controlar sua metamorfose, você tem que lutar contra esta influência, custe o que custar. Normalmente, como não tendemos a criar novatos em semanas de Lua cheia, não temos o problema da transformação ser involuntária, e o treinamento consiste apenas de tentar se transformar em uma noite comum. No seu caso, é completamente diferente. A única saída é te prender naquele trambolho e fazer com que você tome o controle de sua consciência. E para isso, não há melhor maneira que te fazendo ter medo. Por isso eu preciso subir e te ameaçar.

Estava estupefado, mas agora Tomas entendia. Sentiu-se derrotado, e terminou de comer em silêncio. A tarde transcorreu sem grandes novidades. Tomas fez questão de se entocar dentro da casa de Nehemiah — que não apareceu por todo o dia — sem ter contato com ninguém. Não teve coragem de ligar a televisão, aproveitou o tempo para pensar em tudo que havia acontecido e descansar da noite anterior.

No final da tarde, novamente, a porta se abriu e Kristopher o chamou.

- Está pronto? — Perguntou, sem emoção.

- Hmm. — Foi a resposta que obteve.

Tomas saiu andando antes dele, com passos firmes. Com certeza os outros habitantes o reconheceram dos rugidos da noite anterior, pois muitos acenaram, ao que ele respondeu abaixando a cabeça e andando mais rápido ainda. Chegaram em pouco tempo na clareira, e por vontade própria, Tomas se deitou esperando apenas por ser amarrado.

- Está decidido? — Perguntou seu mentor ao começar a amarrá-lo.

- Não vou mais fugir. Estes Vampiros, Hemfil, sei lá. Depois eu vou poder ir atrás deles?

- Isso é com o velho, mas em linhas gerais... Não iremos ficar imóveis quanto a um assassinato na área pública.

- Bom. Vamos logo com isso.

Amarrado, eles esperaram. Trocaram poucas palavras. Tomas fez o possível para manter sua cabeça fria e sem pensamentos enquanto via a bola prateada crescer acima dele. Tentou se manter calmo, e quando a raiva por tudo começou a atingi-lo, tentou pensar em outras coisas. Tentou se ater às memórias mais felizes. Pensou emEvelyn.

Kristopher não podia acreditar. Era o segundo dia, e parecia que eleestava conseguindo! Ele viu a fera, completamente imóvel entre as correntes pesadas. Seu respirar pesado era visível na noite fria.Seria possível que desta vez nem mesmo precisaria agir?Chegou perto lentamente, com a chave mestra dos cadeados.

\"Acho que posso... Começar a libertá-lo e começar a usar as palavras para trazê-lo completamente de volta.\" Pensou, hesitante.

Chegando mais perto, viu os olhos do Garou. Amarelos, porém, não opacos.O garoto estava conseguindo o que ninguém jamais havia conseguido! Lentamente abriu o primeiro cadeado.

Não entendeu muito bem o que aconteceu depois. O aço voou, junto com os pedaços de seu peito. Urros de agonia e desespero foram ouvidos por todo lado, e desta vez os pássaros não haviam ficado para ouvir. Kristopher viu de relance o gigantesco vulto libertando cada membro, um por vez, e finalmente usando as garras para liberar também o peitoral. Quando se viu livre pulou para o longe na floresta.

Não era bom. Ia na direção da cidade.

Notas finais
--
╚ Não foi tão longo quanto eu queria que fosse, afinal. Não tive muito tédio hoje, mas acho que ficou bom. .-.
╚ Não betei e nem tive tempo pra uma revisão decente, espero que me desculpem a apontem qualquer erro gritante com reviews! Assim que tiver tempo eu farei a revisão apropriada!
╚ Comentem, por favor! É muito importante para que o autor tenha apoio, e vocês tenham xp e histórias novas! ╚ Última revisão feita pelo autor no dia 12/07/10.