Notas iniciais
Olá! Capítulo cheio de diálogos. Espero que não tenha ficado pesado. A imagem que abre o capítulo ilustra um quarto de núpcias chinês.

Shion olhou ao redor, para além das cortinas de cetim pintadas de flores na cama de dossel. Na penteadeira negra, um espelho largo com moldura de dragão disputava espaço com uma caixa de laca, uma ampulheta, frascos de perfumes, velas e uma escova de cabelos decorada com o desenho de um pavão. O banco suntuoso tinha pés arqueados e um estofado escarlate. Nas paredes, ilustrações homoeróticas, como um kamasutra, sugeriam abertamente as maneiras através das quais um homem poderia dar prazer a outro.

Shion suspirou, esfregando os braços com as mãos. Intimidado, encorajava-se com teorias que aquele não deveria ser o quarto verdadeiro de Lebre da Lua.

Os dan e os xianggong, antes de abraçarem o ofício, geralmente pertenciam a linhagens vulgares e pobres, ou famílias destruídas por tragédias financeiras, e eram vendidos aos grupos de teatro quando seus pais não possuíam mais meios de alimentá-los. Segundo os rumores, os meninos levavam uma vida miserável e de maus tratos e treinos intensivos até que, eventualmente, alcançassem o privilégio de atuar na Ópera ou algum outro teatro de prestígio. Até lá, encenavam suas apresentações em palcos menores, tentando desesperadamente chamar a atenção de um generoso mecenas. Os que não lograssem sucesso estariam acorrentados ao comércio de seus corpos.

Entretanto, mesmo se um dan fosse absurdamente talentoso e atingisse o estrelato em pouco tempo, não escaparia de conhecer o lado negro do caminho ao sucesso. Um ator precisava de proteção nas disputas de ego e poder dos bastidores, obtida usualmente através da influência de um amante respeitado. Além disso, os dirigentes das escolas de teatro necessitavam pagar suas despesas e o faziam vendendo desde cedo a companhia de seus pupilos aos espectadores dispostos a comprar tal luxo. Quanto mais reputado e promissor era um aprendiz, mais lucros ele gerava.

A objetificação dos artistas que representavam papéis masculinos e femininos era parte da cultura chinesa e um negócio rentável. Até Shion, estrangeiro, já tinha escutado lendas sobre isso — sobre como os cavalheiros eram contratados para servirem convidados em festas, tocar músicas e animarem seus jogos de beber, às vezes terminando a noite na cama do anfitrião. Sobre como circulavam nas altas rodas da sociedade contando anedotas e enchendo os copos de homens velhos, meros recreadores à espreita de um rico protetor. Sobre como quase leiloavam sua exclusividade aos seus clientes. Um fã muito rico poderia mesmo comprar a afeição deles em infinitas prestações.

A prostituição parecia mais sutil quando encoberta pelos véus da arte, mas não deixava de ser prostituição.

Aquele quarto era uma farsa. Shion apostava sua armadura que Lebre da Lua dormia em algum porão em dias de ensaio, e somente utilizava aquela suíte para seus encontros após os espetáculos .

Perdido em suas conjecturas, sobressaltou-se com o rangido da porta. O rapaz que entrou no dormitório trazia o rosto limpo e suas formas esguias cobertas por um zhiduo¹ verde. Ele jogou a trança negra por cima de um ombro, e só então o lemuriano o reconheceu.

— Shion de Áries?

— Lebre da Lua? — perguntou, incerto. Ele parecia menor ali do que no palco, mas era indubitavelmente um homem. Sua pele, mais escura sem a maquiagem, estava marcada por cicatrizes de acne nas bochechas magras. O nariz era mais rude e as sobrancelhas mais ralas sem o artifício da pintura. Seus olhos, entretanto, eram de uma complexidade maior desnudos: eram inteligentes e indecifráveis, ao mesmo tempo em que carregavam alguma malícia.

— Por favor, este é um nome de profissão. — uma fileira de dentes perfeitos revelou-se num sorriso contido. — Sou Yuan.

— Yuan. Encantado.

Trocaram vênias educadas, transmitindo uma boa primeira impressão. Então, Yuan dirigiu-se à penteadeira e virou a ampulheta — um lembrete de que seu tempo com os clientes era rigorosamente contado. Isto feito, arrastou o banco para perto da cama onde Shion se sentava.

O ariano estava tão ansioso escolhendo suas próximas palavras, que arfou em susto quando as mãos dele tocaram seu queixo sem aviso. Tentou afastá-lo, mas o ator o tranquilizou com mais um de seus sorrisos. Era um mestre em manipular os outros.

— Deixe-me vê-lo mais de perto. Você é mesmo lindo, Shion! Ouvi tantos elogios sobre você e agora comprovo que todos eles lhe fizeram justiça. — o ariano corou diante do exame que Yuan lhe fazia. Ele penteou seus cabelos com uma mão, num gesto quase carinhoso, e tateou-lhe as têmporas, deslizando os dedos até suas sobrancelhas. Inexplicavelmente, Áries não sentia mais ganas de repeli-lo. Seus toques eram tão gentis...fechou os olhos, embevecido. — Que significam estes sinais?

— São estigmas do meu povo. — confessou em tom baixo.

— É tibetano, verdade?

— Sim. — preferiu omitir a parte em que pertencia a uma raça quase extinta. — Quem lhe falou sobre mim?

O ator inclinou seu sorriso presunçosamente, como se a resposta fosse óbvia:

— Dohko, é claro.

Shion abriu as pálpebras, voltando a encará-lo com indisfarçada desconfiança. — E o que exatamente ele lhe disse?

Yuan empurrou a franja dele para trás com delicadeza. — Que é um cavaleiro de Atena leal e forte, admirado por muitos por sua beleza e carisma.

Súbito, Áries segurou os punhos do xianggong e estreitou os olhos num claro aviso de que não cairia em suas armadilhas de sedução. Os cabelos caíram-lhe revoltos ao redor do seu rosto algo feroz; Lebre da Lua, em contrapartida, manteve sua serenidade e até achou graça da situação, rindo comedidamente.

— Como sabe sobre os cavaleiros de Atena?

— Dohko me contou. — olhou para suas mãos presas, num pedido mudo para que fosse libertado. Shion, ainda que receoso, o soltou. — De que outro jeito eu saberia?

— Não sei. Há inimigos por toda a parte. Por que Dohko lhe contaria tais coisas?

— Porque somos amigos. — o cavalheiro respondeu com simplicidade, deitando os cotovelos sobre os próprios joelhos e aproximando-se a centímetros de Shion. Não obteve nenhum recuo.

— Onde está Libra?

— Você busca muitas informações, cavaleiro. Vamos com calma, quero conhecê-lo melhor.

— Já sabe muito sobre mim, aparentemente.

Yuan apenas riu seu riso suave e contido, enigmático, mirando de soslaio a ampulheta na penteadeira.

— Tive uma ideia para melhorar nossa comunicação. Como há pouco tempo até meu próximo espetáculo, podemos jogar um jogo rápido de perguntas e respostas. — Shion enrugou a testa. — Para cada pergunta minha respondida, você ganha o direito de perguntar-me de volta qualquer coisa sobre Dohko, e somente sobre ele.

O lemuriano não estava seguro. Aquele homem era um um ator, um especialista em disfarces...

— Não é o que já estamos fazendo: conversando?

Yuan voltou a dar atenção às areias em queda.

— Só estou estabelecendo algumas regras por aqui, Shion. Nós, atores, gostamos da segurança de acordos pré-estabelecidos.

E finalmente entendeu que estava à mercê daquele cavalheiro. Se desejasse encontrar Libra, primeiro teria que aceitar as condições de Lebre da Lua para convencê-lo a abrir a boca. Já podia prever que jogariam um jogo de gato e rato, um xadrez de palavras viciado — sua dívida pelos minutos com o xianggong. Dobrar outros homens mais fortes deveria ser o tipo de entretenimento favorito de párias da sociedade como Yuan.

— Eu aceito. Onde está Dohko?

— Precisa responder minha pergunta primeiro...

— Então pergunte! — suspirou ao ter sua paciência testada, arrancando-lhe mais daquelas risadas etéreas.

— Desculpe-me por atentá-lo, mas é que você é tão sério! — Shion nada disse, e foi essa a vez de Yuan suspirar. — Por que veio até Suzhou?

— Atena me enviou aqui atrás de Libra. Posso perguntar agora?

— Não me deu uma resposta completa, mas vou aceitar.

— Onde está Dohko?

Encararam-se duramente em silêncio.

— Em Suzhou.

— Onde?

— Sinto muito, agora é minha vez! — Yuan ergueu uma sobrancelha, desafiador. — O que Atena quer de Dohko?

Áries tomou uma decisão e engrossou o tom de voz:

— Estamos com um problema sério na Grécia. Ele precisa retornar, e rápido!

Acertou em cheio o movimento de suas peças no tabuleiro. Lebre da Lua titubeou, repentinamente atingido pela gravidade da situação. Parecia mesmo algo culpado pelas brincadeiras que fazia com o outro, enquanto deveria ser mais colaborativo.

— Isso é verdade?

— Não é meu turno agora? — a alfinetada de Shion serviu para acalmar os ânimos. Causar pânico não fazia parte de seus planos. — Em que parte de Suzhou ele está?

— Difícil adivinhar, meu caro. Mas arrisco que em breve virá a Huqiu e poderemos ter com ele.

Shion assentiu, um tanto impaciente. Estava frustrado pela demora, mas entendia que não podia culpar Yuan — o outro estava sendo bastante gentil cedendo sua hora livre para atender às suas demandas sobre Dohko. Contudo, mantinha a impressão de que tal atitude não era totalmente gratuita. Confirmou suas suspeitas ao vê-lo apertar seu ombro e insistir no jogo:

— Vamos esperá-lo juntos, sim? Prometo ajudá-lo no que eu puder. Por enquanto, podemos apenas jogar para que o tempo passe mais depressa. Diga-me: o que pensa do meu amigo?

Uma pergunta arriscada.

— Como assim? Somos irmãos de armas. — tentou contornar, todavia, foi vencido pelo olhar insatisfeito do cavalheiro. Respirou fundo e reorganizou a estratégia. — Certo. Dohko é um grande camarada. Nós crescemos juntos e para ele eu só tenho bons adjetivos. É um homem honrado, mas não como estes tipos rígidos que habitualmente vestem as melhores armaduras; ele tem um espírito livre e guiado pelas próprias convicções. Talvez até seja um pouco confiante em excesso e gozador demais para um cavaleiro de ouro, porém nada arrogante. Muito pelo contrário: é extremamente sensível às necessidades das pessoas. É um altruísta. Creio que seja impossível não se encantar por suas qualidades.

Contente com a honestidade do jogador, o artista encurvou seus lábios com malícia.

— Vejo que o tem em alta conta, cavaleiro.

— Na mais alta conta, Lebre da Lua. — Yuan entortou a boca e Shion quase comemorou sua revanche. Havia mais uma dúvida. — Você viu Libra desde que ele partiu do Santuário?

— Sim, em algumas...noites. — observou com satisfação seu interlocutor corar como se fosse exatamente seu intento. — Shion, acha Dohko um homem atraente?

— Quer mesmo saber isso? — o olhar de Yuan não deixava espaço para outra interpretação. Estava mais e mais encurralado à medida que o jogo tomava rumos estranhos. — Várias pessoas comentam que o cavaleiro da sétima casa é, digamos, bonito.

— E você? Concorda com essas, digamos, "várias pessoas"?

— Sim. — Não havia outra saída, senão admitir. Se mentisse, seria facilmente desmascarado. Irônico, mas agora era Áries que abusava de rodeios contra seu adversário. Passado algum tempo com aquele rapaz e penando para esquivar-se de sua lábia, conseguia até imaginar como Dohko acabara nas mãos dele. — Como você e ele se conhecem, afinal?

Então, a fachada atrevida do xianggong desmoronou.

— Combinamos que eu responderia apenas sobre ele.

— Mas esta é uma pergunta sobre ele.

O artista se tornou sério.

— Nosso amigo é um homem discreto, não acho que ficaria contente em ter seu passado exposto dessa maneira. Dohko confia muito em mim, e eu gostaria que continuasse assim. Pergunte você mesmo a ele quando tiver oportunidade.

Um silêncio pesado se instalou, até que Yuan inesperadamente retomasse a palavra:

— Parece ser uma pessoa solitária, Shion. Por acaso tem uma namorada...ou namorado?

Shion quase engasgou. Estaria se vingando por seu questionamento incauto?

— Ei, você não respondeu minha pergunta! Eu tenho direito a outra, não?

— Não. — categórico.

— Você está trapaceando! — Shion exasperou-se, enquanto o outro reassumiu seu ar tranquilo. — Homem, como pode esperar que eu adivinhe quais perguntas sobre ele são ou não permitidas?

— Estou apenas seguindo as regras.

Era impossível driblar aquele rapaz. Áries remexeu-se na cama, desconfortável.

— ...OK. Você acertou. Não tenho ninguém.

— E o que escolheria? — Yuan distendeu os lábios. — Uma namorada ou um namorado?

Já era zombaria, e Shion estava farto dos jogos. Se àquela altura ainda não conseguira informações concretas sobre a localização de Dohko, então era hora de abandonar o tabuleiro.

— Aonde quer chegar com todas essas perguntas pessoais? E não pense que não percebi que pulou a minha vez!

— Responda-me, e lhe contarei sobre a vez em que Dohko tentou roubar um beijo de um garoto.

Era como se Lebre da Lua adivinhasse todos os seus passos; aquela era uma cartada final, um recurso a fim de mantê-lo ali, como um malabarista na corda bamba, para sua diversão.

— Você está blefando! Disse que não falaria sobre o passado dele.

— Esse é um passado recente. — o cavalheiro piscou-lhe um olho.

Shion lançou um olhar desesperado à ampulheta com bastante conteúdo por cair. Havia sido fisgado. Estava fervilhando de ciúmes, entretanto, queria saber mais sobre as peripécias de Dohko e seus segredos: visitas ao bairro dos prazeres, um amigo xianggong, beijos de outros rapazes...

— Um namorado. Mas não disponho de tempo e nem de paciência para isso.

Yuan alisou uma prega em sua roupa e ergueu os ombros, fazendo com que a trança negra saltasse:

— Talvez você não precise ir atrás de tempo ou paciência para ter um namorado, meu caro. Não quando pode ficar onde está e simplesmente abrir seus olhos... — e voltou-se para Shion com um sorriso conciliador, tirando-lhe qualquer chance de reflexão. — Bem, vou cumprir minha promessa. Havia nesta casa, antes do Ópera Municipal afanar-nos alguns dos nossos melhores meninos, um cavalheiro que cantava divinamente.

— Um cavalheiro? — mais um, torturava-se o ariano. — Como posso ter certeza de que não é nenhuma invenção sua?

O ator claramente não gostou da interrupção.

— Tem o meu juramento de que cada um destes acontecimentos é verdadeiro. Bem, voltando ao cantor, não me lembro de seu nome de batismo, nem de seu nome artístico. Mas, ainda hoje, quando fecho meus olhos, posso recordar-me de sua aparência. Tinha cabelos longos e muito claros, assim como sua pele e seus olhos. Creio que estes eram cor de avelã, se minha memória não me falha agora. Posso afirmar que a postura dele era de um nobre, e seus modos, perfeitos; um verdadeiro príncipe. Diziam que sua família era estrangeira. Suas irmãs, que moravam no prostíbulo no final da rua, poderiam ser fadas ou ninfas...ele foi apelidado de anjo pelos nossos professores.

"O anjo foi muito popular desde o dia em que aqui pisou. Era uma destas pessoas agraciadas com muitos dotes artísticos e uma personalidade determinada, muito embora um tanto gananciosa."

Yuan balançou a cabeça, como se censurasse alguém invisível.

— Dohko foi um dos vários que caíram de amores por ele. Num dos verões em que veio à Suzhou, viu-o cantando e não quis saber de mais nada. No começo, não entendi como ele, dentre todas as pessoas, se apaixonaria tão depressa por um xianggong. Entenda: Dohko já estava com o coração comprometido com outro amor, através do qual me aborrecia com suas lamúrias ao me tomar por confidente todas as vezes em que me visitava.

— Outro amor?

— Sim. Dohko está apaixonado há anos. Nunca percebeu?

Shion negou, atordoado. Eram informações demais para um único dia e seus nervos já davam os primeiros sinais de esgotamento. Yuan, alheio a isso, continuou a falar:

— Mas, pelo anjo, sofreu uma paixonite, uma febre. Implorou-me ajuda e conselhos, e eu lhe arranjei um encontro com ele. Meu amigo não tinha um vintém! Ainda assim, saiu escondido com o cavalheiro.

"Quando o anjo descobriu que não haveria dinheiro envolvido, enfureceu-se. Então, Dohko tentou remendar, tentou dizer-lhe a verdade sobre seu amor recolhido além da China. Contou sobre como ele era parecido com seu amado, como tinha os mesmos cabelos claros, a pele bonita e os olhos amendoados. O jeito de príncipe exilado idêntico ao dele."

Yuan correu os dedos sobre uma mecha loira de Shion com um ar sonhador.

— E, no final, Dohko se precipitou e tentou arrancar dele um beijo. Não deu certo, obviamente. O cavalheiro, ultrajado em servir de substituto e de graça, rechaçou meu amigo. Foi assim que todo o feitiço se acabou. Depois do desastre, escutei o cavaleiro admitir que havia cometido um engano. O anjo tinha menos coisas em comum com seu amor do que presumia. O verdadeiro dono do seu coração era gentil e compreensivo, e jamais desprezaria os sentimentos de outra pessoa. Era único. Dohko não tentaria mais se enganar. Ele esperaria o tempo que fosse...

"Naquela ocasião, ele me pediu que eu não esquecesse essa estória. Um dia, quando ele trouxesse seu amado à China, eu lhe contaria sua desgraça e nós riríamos dela juntos."

Eis que a areia na ampulheta caiu por completo. Ambos a fitaram e trocaram um olhar significativo. Shion estava abatido e trêmulo, e assustou-se quando Yuan estendeu-lhe uma mão para enxugar uma lágrima em seus cílios.

— Preciso ir, Áries. Venha assistir a meu próximo número em alguns minutos. Você, assim como Libra, é meu convidado especial.

E levantou-se do banco, deixando-o só.

Notas finais
¹Zhiduo: vestimenta antiga e informal, uma espécie de quimono, porém bastante mais simples. A grosso modo, é um roupão sem estampas, muito comprido e de mangas longas preso por um laço na lateral. Até o próximo capítulo!