Notas iniciais
Olá de novo, simpáticos leitores! Demorei mais do que o calculado para esse capítulo, e para quê? Isso mesmo, para que ele tivesse a metade do tamanho de todos os outros já postados. Acabou que o penúltimo capítulo seria muito comprido com alguma cenas de conexão, então acabei optando por transformar a introdução num capítulo à parte. O próximo deve ficar pronto em pouco tempo (ou não). A imagem que abre o capítulo é uma captura de tela de uma novela chinesa ambientada na dinastia Qing, chamada Huan Zhu Ge Ge. É mais conhecida no ocidente como "My Fair Princess" e é uma espécie de "Cinderela" em versão oriental. Foi provavelmente a série de maior sucesso na China até hoje, tanto que ganhou um remake em 2011. É bem pastelão, mas muito colorida e bem adaptada ao período histórico. Boa leitura!

Quando Jin veio ao encontro de Shion no quarto, encontrou um homem de olhos desfocados e faces molhadas. Perguntado sobre o que acontecia consigo, o lemuriano encarou-o sem qualquer embaraço e abriu um sorriso triste.

– Por que você está chorando? — espantou-se o servente.

Afinal, como o cavaleiro explicaria a uma criança que estava às lágrimas porque perdera as esperanças de ter a pessoa amada? Como fazê-la compreender que um amigo poderia ser mais que um amigo? Mesmo se estivesse disposto a palestrar sobre seu amor platônico, a epifania proporcionada por Yuan devastara o ariano a ponto de arruinar qualquer disposição para esclarecimentos. Apesar de tanto, devia uma resposta ao seu gentil anfitrião.

– Todos os dias dos últimos cinco anos, eu acordei e me deitei fazendo o mesmo pedido aos deuses: que uma pessoa especial sentisse por mim o que eu sinto por ela. Por cinco anos, eu estive ao lado desta pessoa, mas nunca contei a ela sobre meus desejos. Alimentei-me de sua amizade, quando tinha fome de seu amor, e achei que isso poderia bastar enquanto os deuses não me atendessem. — o menino franziu a testa e Shion desabrochou um sorriso dolorido. — Os adultos às vezes são medrosos demais, cegos demais. Eu poderia ter contado? Sim. Mas e se a pessoa não gostasse do que eu tinha a dizer? Preferi esperar.

"Veja só, demorei todo este tempo para reconhecer que talvez o céu tivesse outras prioridades, e que meu ideal poderia acabar se apaixonando por qualquer um que não eu. Bem, você ainda é jovem, não entenderia."

Jin demorou um tanto a encontrar uma resposta educada para o que, de fato, não compreendia.

– Sinto muito por não ser um bom confidente, senhor Shion. Suponho que seu amigo, Dohko, possa fazer esse trabalho melhor que eu. Ele está nos bastidores, aguardando o número musical de Lebre da Lua.

Áries quase saltou da cama.

– Ele está aqui?

– Sim! — Jin comentou alegremente, satisfeito em ver o outro demonstrar outra reação além de lamentar-se. — Podemos ir até ele agora, o que acha?

– Eu...eu não sei. — encolheu os ombros, perdido entre receio e obrigação de encontrar-se com o Cavaleiro de Libra.

– Se não sabe, posso deixá-lo sozinho mais um pouco para decidir...

– Não! Vamos! — pôs-se de pé agilmente. — Só, por favor, não diga a ninguém uma única palavra sobre como me encontrou.

– Será nosso segredo! — Jin estendeu o dedo mínimo, sinal de promessa.

Shion suspirou e entrelaçou seu próprio mindinho ao do garoto, selando o pacto.¹ Não deixou de notar, com saudades, como as negociações das crianças eram simples. Secou os olhos e ajeitou os cabelos, para então saírem do quarto.

Quando se aproximaram outra vez do bastidores, pediu que o menino andasse mais devagar. Eis que, no fim da linha, avistou Dohko e sentiu-se quebrar mais um tanto — se é que isso ainda fosse possível. Sofreu com a familiar fisgada no peito, intensificada por um amargor profundo.

O cavaleiro da sétima casa estava parado do lado de fora do camarim, cercado de cavalheiros conversando em voz baixa, enquanto esperavam Yuan terminar de produzir-se para sua cena musical. Virado de costas para a dupla, Dohko mirava o teto, braços cruzados e ar impaciente, como se contasse os minutos para sair dali. Usava um bonito traje de passeio — uma jaqueta tradicional vermelha e um par de calças negras de treino justas, revelando pernas elegantes e pés metidos em sapatilhas da mesma cor. Os cabelos curtos, uma afronta ao regime Qing², estavam bem penteados e exalavam um frescor de banho recente. Aquilo só feriu ainda mais Shion, que nunca tinha visto o companheiro asseado de tal forma antes. Remoeu-se de ciúmes — seria possível que ele gostasse tanto assim de Lebre da Lua para tamanho cuidado com a aparência?

Dohko, por sua vez, soltou um largo suspiro e lançou um olhar cansado à porta trancada do camarim.

– Como vai sua vida com os homens-fantasmas?³ — um xianggong com uma peruca ruiva e travestido de sacerdotisa taoista alisava-lhe o ombro, insinuante.

– Muito bem. — ele respondeu, nada convincente. Libra falava o dialeto de Suzhou, as palavras cheias de vogais bailando em sua língua com a fluência e a graça típica dos nativos.

– Há muitas lebres* na Grécia? — outro ator o abordou com genuína curiosidade nos olhos maquiados nas cores da cauda de um pavão.

– Com certeza não tantas quanto nesta casa. — Libra, sarcástico. Então, desencostou da parede, livrando-se das mãos assanhadas no processo, e bateu à porta do camarim. Lebre da Lua respondeu que já estava quase pronto, enquanto o xianggong repelido inflou-se de ar em despeito. Aqueles atores eram homens vaidosos em demasia e desacostumados ao descaso, coisa que o libriano praticava entre eles sem cautela. Não sairia impune.

– Está tão cheiroso hoje, tem certeza que somente veio ver Lebre da Lua? — o homem ruivo postou-se diante dele com uma piscadela, pondo em prática o que sabia fazer melhor: provocar. — Se busca alguma diversão, posso conferir se há quinze minutos livres na minha agenda desta noite...

Dohko ergueu uma sobrancelha. A sugestão de que era um homem de baixa resistência na cama não o ofendera realmente. Era bastante seguro de si para se melindrar com tão pouco.

– Guarde seus quinze minutos para aquele grupo de jovens oficiais sentados na última fileira, Rouxinol Vermelho. Aposto que você consegue acabar com todos eles antes da ampulheta se esvaziar.

O rosto do cavalheiro absorveu a cor de seus cabelos à medida que seus colegas explodiam em risadinhas. De repente, a graça terminou e os cavalheiros voltaram-se numa única direção, o que também Dohko fez com certo atraso.

– Olhem quem vem aí! Temos carne nova? — ronronou apreciativamente um terceiro artista, o mais alto do grupo.

Shion parou no corredor, intimidado com toda aquela atenção. Gostaria de acreditar que eram os atores fantasiados de belas garotas os responsáveis por seu recuo, mas a verdade é que Dohko, mais do que todas as espalhafatosas criaturas do teatro reunidas, o apavorava. Mirar seus olhos verdes abertos em susto derramava-lhe garganta abaixo uma angústia doce, uma ansiedade antiga, triplicada pelas circunstâncias. O reencontro tinha gosto de confronto, para o qual não estava preparado — algo raro a um dos cavaleiros mais estrategistas e bem-treinados do Santuário. No entanto, estava determinado a colocar tudo que havia escutado de Lebre da Lua em pratos limpos; não permitiria que mais um minuto sequer fosse desperdiçado com covardia.

– Mais respeito! Ele é meu amigo! — agitou-se Libra, dividido entre saudar Áries e controlar os cavalheiros em polvorosa com o visitante. — Shion, o que faz aqui?

– Vejo que é verdade o que dizem sobre homens bonitos andarem em bando. Você tem um companheiro muito interessante aí, pequeno tigre... — O xianggong alto intrometeu-se e o ariano inevitavelmente corou com a malícia do comentário.

– Dohko, sinto muito por aparecer de surpresa e nessas circunstâncias, mas precisamos voltar à Grécia. — o lemuriano foi frio e taxativo.

– Por que tão cedo? — Rouxinol Vermelho quase atropelou Jin ao acercar-se de Shion, cheio de motivações escusas. Uma delas era vingar-se do cavaleiro de Libra. — Há tanta diversão na noite e, principalmente, nesta casa...

A balbúrdia dos artistas estava condenada a terminar num grande vexame, mas, para a sorte de Áries e Libra, Yuan veio em socorro deles. A porta do camarim abriu-se com um ruído seco e ele surgiu numa fantasia de camponesa, as tranças na peruca enfeitadas com jasmins brancas e amarelas, o rosto cuidadosamente pintado. Estaria lindo e muito feminino, se não fosse a carranca nada amigável, a voz grossa e os gestos exasperados:

– Jardim de Nuvens, Rouxinol Vermelho, Crisântemo de Seda — todos para fora! Pavão da Noite vai ter chiliques se souber que estão criando confusão em vez de agradando nossos clientes!

Shion já esperava que Yuan, tão persuasivo e talentoso, tivesse um papel de liderança entre os cavalheiros. Entretanto, não imaginava que fosse temido; os três cavalheiros acataram sua ordem e dispararam dali aos tropeços, enquanto Jin aplaudia a cena, às gargalhadas. Então, o servente também foi dispensado pela camponesa e o lemuriano viu-se por ele abandonado.

– Se não fosse seu bom senso, essa casa de espetáculos já teria sido rebaixada a um circo. — agradeceu Libra.

– Palhaços não faltariam. — bufou Lebre da Lua, aborrecido. Então, seus olhos realçados passearam de Dohko para Shion, gerando grande desconforto no último.

Ninguém ousou dizer coisa alguma por alguns segundos de tensão. A defrontação por si só já era bastante complexa — os três, finalmente reunidos. Os cavaleiros de ouro, entretanto, tinham suas próprias pendências, e Yuan soube exatamente que aquela era sua hora de sair de cena.

– Fico contente que tenham se reencontrado. — e abriu um sorriso ilegível. — Dohko, seu amigo veio de tão longe procurá-lo, mas você não deixou recados, como sempre. Foi Jin quem o resgatou na cidade e o trouxe até mim. Tomei a liberdade de ser seu anfitrião em Suzhou nas últimas horas, tivemos bons momentos juntos... — e jogou uma piscadela irônica ao ariano — ...mas é você quem ele busca. Por favor, seja cortês e faça-lhe companhia enquanto eu estiver no palco.

O artista deu um passo rumo às cortinas, porém Dohko segurou-lhe o pulso, lançando-lhe um olhar implorante e assustado. Em resposta, Lebre da Lua inclinou a cabeça e abriu um sorriso cheio de carinho, livrando-se dele num gesto fluido. No teatro, um rufar crescente de tambores o chamava.

Notas finais
¹ Este gesto é originário da China e está associado à crença no fio vermelho do destino - todas as pessoas nascem conectadas pelo tornozelo (ou dedo mindinho, em outras versões) por um fio mágico a quem será o grande amor de sua vida. Calha com o conceito ocidental de alma gêmea. ² Os homens chineses, especialmente, tiveram seus cortes de cabelo e penteados influenciados pela ordem do período histórico. Na dinastia Qing, o penteado socialmente aceito era uma mistura de cabelo raspado até o topo da cabeça, com o restante mantido longo e preso numa trança (vide a imagem do início do capítulo). Era considerado transgressor usar cabelos curtos ou presos no alto, especialmente o último, por estar relacionado aos períodos de outras regências. Mais tarde, com o regime comunista, os cabelos curtos entraram em voga, enquanto o antigo penteado da era Qing caiu no conceito de transgressão. ³ Guilao, ou "homem-fantasma" é como os chineses se referem pejorativamente aos europeus. O termo tem conotação racista. * Outra vez, para reforçar: "lebre" é uma menção aos homens homossexuais na China. Até a próxima!