Luzes do Oriente

2 A Estrela da Ópera


Notas iniciais
Olá! Esse segundo capítulo é um mergulho ainda mais profundo na cultura chinesa. Para mim, foi um tanto difícil de descrever, ambientar, etc. Assim, se qualquer coisa ficou confusa, por favor, me deem um toque. A imagem que abre o capítulo representa uma típica personagem da Ópera da China. Honestamente, desconheço sua autoria. Boa leitura!

O bairro de Huqiu transformava-se depois do morrer do sol. Era o lar dos prazeres proibidos de Suzhou, com suas belas casas — insuspeitas durante o dia — iluminando-se sedutoramente à noite. Lampiões acesos e lanternas coloridas sinalizavam todo tipo de diversão. As famílias e os comerciantes desapareciam das ruas de calçamento, e estas eram tomadas por turistas, apostadores e beberrões. Notavelmente, algumas das lindas mocinhas recolhiam-se aos bordéis, onde trocavam seus qipaos por robes e mascaravam seus rostos com maquiagem pesada. Os riquixás continuavam suas atividades em polvorosa, indo e vindo com fregueses assíduos. Por vezes, surgiam até liteiras — cadeiras de transporte particulares, cobertas por véus e carregadas por servos -, que marcavam a presença da mais alta classe no distrito dos pecados.

Shion olhava hipnotizado para uma senhorita recepcionando uma dupla de homens mais velhos na varanda de uma casa de chá. Ela vestia roupas tradicionais e muito distintas, as quais eram estampadas pelas mesmas flores brancas enfeitando sua trança negra. Se não fosse a pintura escandalosa em sua cara, dificilmente se concluiria que era uma prostituta.

— Entre! — ordenou Jin, que terminava de lutar contra as cordas que prendiam seu barco rente à orla do canal.

Num susto, o lemuriano saltou para dentro da embarcação simples, onde mal cabiam ele e o moleque. O embrulho de seda repousava sobre a caixa de Pandora, milagrosamente assentada entre os dois. Ligeiro, Jin guiava o caminho e se mostrava um barqueiro muito mais simpático do que o homem que o levara até o Monte do Tigre. Contava à sua moda inocente sobre a dinâmica dos estabelecimentos de diversão pelos quais passavam, e até apontava nas calçadas alguns figurões conhecidos no bairro. A água negra sob eles ondulava lentamente e refletia as luzes amareladas, vermelhas e verdes vindas das casas de jogo e de prostituição. Chorões debruçavam-se sobre eles, tocando o canal e estreitando a passagem até que ela se tornasse quase impossível.

— Já estamos quase lá! Chegaremos um pouco atrasados e perderemos os primeiros atos da peça. É uma pena! Hoje, Lótus Selvagem e Lebre da Lua protagonizam uma parte d'O Leque de Flores de Pessegueiro. O senhor gosta de ópera Kun¹?

Shion não saberia responder. Só tinha certeza de que não apreciava o modo estrangulado com que os chineses cantavam profissionalmente; na maioria das vezes, as vozes assemelhavam-se aos miados de um gato torturado.

No fim do canal, uma mansão branca de três andares tipicamente oriental e imponente destacava-se por seu telhado negro adornado por lanternas multicolores. Através das janelas de tela do primeiro andar, era possível ver uma silhueta com formas bufantes bailando ao som de um erhu². Shion reconheceu o som choroso do violino de duas cordas e sentiu sua curiosidade crescer com as sombras que se alargavam.

— Este é Lebre da Lua! Está fazendo a dança dos leques. — explicou Jin, aportando o barco junto aos fundos da mansão. O menino apanhou a pilha de sedas e correu afobadamente pela varanda da casa de espetáculos, obrigando Shion a imitá-lo. — Estamos muito atrasados! Pavão da Noite vai me castigar!

O ariano, todavia, estagnou ao ver a fila de homens que se aglomerava no pórtico. Eram homens extravagantes e de meia-idade, como os que vira descer das liteiras no centro de Huqiu. Eles tentavam a todo custo conseguir passe para a apresentação de Lebre da Lua, esbanjando influência e dinheiro. Então, Shion notou sua própria mediocridade: estava metido num camisolão azul desbotado que cobria seus quadris e braços, firmado na cintura por uma faixa marrom. As ataduras que envolviam seu tórax eram facilmente visíveis por entre o tecido sem botões, e as calças de linho claro faziam contraste com suas sandálias baratas de treino entrelaçadas até os joelhos. Para piorar, a pashmina vermelha denunciava suas origens estrangeiras. Sem muita solução, seus cabelos estavam em desalinho e sua pele brilhava, oleosa, devido à viagem no canal. Perto daqueles fidalgos era um mendigo.

— Vem! — Jin surgiu por uma entrada alternativa e puxou-o pela manga. Caíram numa cozinha repleta de serviçais correndo de um lado para o outro atarefados, tanto que estes nem notaram a dupla que passou por ali sorrateiramente. O cheiro de álcool, fumo e chá impregnou as narinas de Shion quando se esgueiraram por um corredor, ao passo que crescia o volume da melodia instrumental. Então, passaram defronte a um quarto de porta aberta, lotado de criaturas vestidas em trajes fantasiosos da mais fina fazenda. Mal pôde ver o que esfregavam em seus rostos já transfigurados de tanta pintura, pois Jin o levou apressadamente por atalhos e só parou diante de um salão com piso de madeira, dividido por cortinas vermelhas.

A metade onde pisavam era uma bagunça: árvores e astros cenográficos espalhados pelo chão, instrumentos de música encostados nas paredes, caixas transbordando de fantasias, leques, fitas, bolas...Estavam nos bastidores do palco.

— Você deverá ficar escondido atrás deste baú por uma meia hora. — sentenciou o menino, apontando o maior baú de todos.

— Mas e a minha...mala? — a lembrança da caixa de Pandora abandonada no barco veio como num estalo.

— Tomarei conta da sua bagagem. Só não deixe que o vejam, certo? Quando a peça terminar, eu o buscarei para conversar com Lebre da Lua. — Jin lançou um último sorriso de dentes tortos e disparou em outra direção.

Abandonado em terreno estranho, onde era um intruso, Shion sentiu o coração subir pela garganta e um frio anormal congelar seu ventre. Olhou para os lados e, então, afundou atrás do baú de fantasias, conforme as instruções de Jin. Como havia terminado num palco em que se apresentavam os xianggong de Suzhou? Atena sabia que ele só pretendia buscar Dohko!

Enquanto se lamentava, as cortinas abriram-se um tanto, e por elas veio deslizando uma figura de faces marcadas de maquiagem branca contrastando com bochechas e lábios rosados. Suas sobrancelhas eram cor de piche e também artificiais, tais como a peruca que usava — esta sobrecarregada de tantos adornos dourados e grampos com pendentes florais, os quais balançavam ao redor do seu rosto ao menor movimento. Aplausos irrompiam por toda parte, à altura em que o ator deu meia volta e fez uma última vênia com seus leques vermelhos abertos. Afinal, ele adentrou os bastidores arrastando o longo vestido branco com brocados em dourado, verde e roxo — representativos de árvores em florescimento.

Lebre da Lua.

— Bai! Sua vez! — ele chamou em tom contido, e um outro ator usando uma roupa de duas peças azuis largas e um chapéu de estudante, claramente um personagem masculino, surgiu piscando um olho muito realçado de rosa. Enfiou-se por entre as cortinas e uma nova salva de palmas começou.

Shion conhecia o enredo da peça que protagonizavam. Era um romance trágico entre uma cortesã e um acadêmico, com o pano de fundo da queda da dinastia Ming. Lebre da Lua era Li, a protagonista que se enamorava de um estudante convocado à guerra e de quem recebia como presente de casamento um leque rabiscado com poemas, somente para manchá-lo de sangue ao tentar suicidar-se, assim fugindo de um outro homem que a desejava. Consistia numa peça longa e intrincada, com mais de cinquenta atos e muita crítica social.

Uma flauta e uma cítara abriam o novo ato, mas Áries não desviava os olhos de Lebre da Lua. O jovem ator retirava o vestido com pressa pela cintura, íntimo daquelas vestes femininas, revelando um corpo pálido e bastante andrógino, de ancas arredondadas. A roupa foi atirada sobre o baú aberto, a centímetros da cabeça de Shion, e a estrela saiu depressa pelo corredor usando apenas ceroulas.

— Yuan, não vai dar tempo! — gritou-lhe do camarim um colega.

Yuan. Esse era o nome verdadeiro de Lebre da Lua.

Em questão de minutos, nova chuva de aplausos tirou o ariano de seus pensamentos, mas o ator chamado Bai não retornou pelas cortinas. Em vez disso, uma porção de figurantes em fantasias alegres invadiram o palco, e Lebre da Lua saiu do camarim num vestido de seda pura vermelha com motivos florais brancos. Seu impressionante costume era de uma riqueza de bordados e detalhes em ouro na gola e nas mangas, que davam ao espectador muito o que admirar. Na cabeça, trazia um ornamento semelhante a uma tiara turquesa e dourada, esculpida em desenhos de flores — alta e aberta como um cocar de índio. Pérolas e outras pedras desciam tremelicando pelas laterais de seu rosto, à semelhança dos grampos que antes usava. Uma noiva.

Eis que Shion acercou-se da fresta no cortinado para assistir melhor. Bai cantava:

"Na companhia de ilustres flores e salgueiros
Escrevo todos os dias sobre amor em rimas preciosas
Agora mesmo a primavera se inicia
E minha sede febril logo será esquecida
Mas, oh, como mergulha devagar este poente!
Entrementes, beberei outra taça de vinho"

O noivo ergueu um cálice no ar e ofereceu um brinde à platéia. Na sequência, Lebre da Lua cantou seus versos, revelando uma voz em falsete surpreendentemente agradável:

"Flores sacodem no terraço, véu esvoaçante
Meu senhor, tão belo e tão elegante
Não carrega marca de favorecimento
Aos seus olhos serei esposa, não escrava.
E a ele devo provar meu valor:
Uma flor comum e ainda inebriante
Uma erva selvagem, não menos fragrante.
Sob o brilho de mil lanternas vermelhas,
Hoje como noiva escolhida me tomará."³

Os figurantes comemoraram as bodas do casal com uma dança acrobática, e um personagem coadjuvante sugeriu que o noivo escrevesse um poema à sua amada.

— Não preciso de papel, já que tenho um leque. Nele, escreverei um poema para que minha princesa o guarde, como símbolo eterno do meu amor. — Bai entregou à noiva um leque branco e caligrafado com versos.

Lebre da Lua, então, deixou que ele tomasse sua cintura e o beijasse diante do público.

Shion estava certo de que a peça original não continha tanta sensualidade. Do lado onde estava, nos bastidores, podia ver claramente os lábios de ambos os protagonistas colados num beijo explícito. Afinal, a noiva abriu o leque com um movimento rápido, cobrindo seus rostos conectados, e encerrou o ato. A platéia desabou em assobios e palmas.

Então, os atores se apresentaram um a um, agradecendo os espectadores com lisonjeiras mesuras. Os nomes eram os mais esdrúxulos possíveis — Rouxinol Vermelho, Jovem Primavera, Cristal de Orvalho, Jade Imperial, Crisântemo de Seda, Lótus Selvagem...Lebre da Lua*.

O cavaleiro de Áries voltou ao baú, confuso. Aquele era o final da peça? Onde estava toda a tragédia: o estudante na guerra, o vilão cobiçoso, a princesa suicida, o leque sangrado? Por fim, lembrou-se de que aquele era o bairro das diversões, não uma ópera de verdade; ninguém ali estava inclinado à lágrimas, apenas aos prazeres. Aristocratas e oficiais aplaudiam generosamente a apresentação, já ébrios. Saciados seus desejos por álcool e arte, agora salivavam como lobos famintos pela carne dos belos atores.

Os rapazes em questão atravessaram as cortinas, alguns desfazendo-se de suas fantasias, enquanto outros não — estes tinham amantes que preferiam se deitar com personagens. Deram lugar a um número de pipa², o violão chinês, executado por um garoto que se introduziu no palco como Curva do Riacho. Roupas e mais roupas eram arremessadas quase em cima do lemuriano, que se mantinha imóvel, de olhos arregalados e com o coração na mão. Viu Lebre da Lua receber ajuda dos colegas para retirar o enfeite coroado em sua peruca, e logo em seguida se livrar desta. Seus próprios cabelos eram ainda mais negros e lustrosos, presos numa trança que alcançava seus cotovelos. Ele tinha alguma coisa que remontava a Albafica e sua cara de menina, porém modos de homem. No entanto, por mais que os traços delicados e os quadris do ator pudessem enganar um desavisado, seu pomo de Adão e braços delineados não deixavam dúvidas sobre o quê realmente era.

Shion nunca imaginaria que Dohko se interessasse por aquele tipo de homem.

Como suas vestes eram mais trabalhosas, Lebre da Lua ficou para trás, ocupado com camadas e camadas do belíssimo traje vermelho de noiva. Foi quando Jin reapareceu:

— Yuan! — saltitou para perto do xianggong. Shion começou a suar frio, pois sabia o que estava por vir. — Deixe-me desfazer estes laços!

O ator mostrou-se contente com a gentileza do pequeno, e logo eles engataram uma conversa animada, a despeito de sua diferença de idade. Ou talvez Yuan fosse mais jovem do que se presumia...

— Por que hoje você está com tanta maquiagem rosa?

— É porque neste espetáculo eu fui a mocinha. No teatro Kun, quanto mais nobreza e caráter uma personagem possuir, mais corado seu rosto deverá ser. Bai também estava enrubescido, ele era o mocinho.

Jin perguntou outras amenidades, ocupando-se em desalojar botões, até que colocou as cartas na mesa.

— Yuan, trouxe uma surpresa para você.

— O quê? — sorriu, livrando-se de anéis de bijuteria, que eram jogados um a um no baú de Shion.

— Um amigo de Dohko.

— Um amigo de Dohko? — o sorriso de Lebre da Lua sumiu. — E Dohko, por onde anda?

— Ele não está. Só veio o amigo dele.

— E quem é este? — perguntou, amuado, já se desfazendo das roupas sem cuidado.

— É o senhor Shion.

O lemuriano estremeceu, encolhendo-se atrás do baú aberto. Desenhava-se em Yuan uma expressão mesclada de incredulidade e esperança.

— Não é possível! — desdenhou, mas Jin confirmou o fato. — E onde está o camarada?

— É segredo. Posso levá-lo até seu quarto?

O menino não mirou o local onde Shion se escondia uma única vez, muito sagaz. O lemuriano torcia para que Yuan recusasse, já que não saberia como se comportar dentro da câmara de um xianggong. Estava a ponto de revelar-se e sugerir que conversassem num lugar aberto — como a varanda dos fundos. Já estivera em todo tipo de situação difícil antes, mas aquela era definitivamente a mais estranha. Dohko teria muito o que lhe agradecer (e explicar) depois daquela noite. Se fosse outro cavaleiro em seu lugar, naquela missão, sua reputação estaria perdida.

— Tenho uma hora livre até o próximo número. Seja rápido, Jin. Vou me trocar e logo mais subirei.

Antes que o ariano pudesse ter outra reação além de uma crise de ansiedade, Lebre da Lua foi em direção ao camarim, balançando a cabeça e rindo:

— Veja, Dohko: Tu-Er-Shen está atendendo às suas orações! Shion de Áries, nesta casa?

E bateu a porta atrás de si.

Notas finais
¹ A ópera Kun é uma das formas mais antigas de ópera chinesa e teve suas origens como teatro popular, na região de Suzhou. Tornou-se a principal variante de ópera no país entre os séculos XVI e XVIII. Combina uma estrutura dinâmica que inclui recitais, músicas, coreografias e acrobacias complexas. Os personagens, sempre vestidos em roupas tradicionais, usam maquiagem conforme seus papéis - os vilões apresentam-se com o rosto quase totalmente branco, enquanto os mocinhos têm os olhos e as bochechas reforçados com a cor rosa. As sobrancelhas também são detalhes que merecem atenção na produção, aparecendo fortes e marcadas. "O Leque de Flores de Pessegueiro" e "O Pavilhão das Peônias" são duas das peças mais conhecidas e são originalmente enormes. A primeira demora mais de 20 horas para ser encenada. ² Erhu e pipa são talvez os instrumentos musicais mais emblemáticos da China, depois dos tambores. Para quem quiser escutar: https://www.youtube.com/watch?v=OZQdO1ikSqQ ³ Tradução livre do trecho original de "O Leque de Flores de Pessegueiro". Desculpem, não fiz um bom trabalho aqui. * Era recorrente que os dan inventassem outros nomes para si, às vezes até adaptando os seus de nascimento para uma versão feminina. Como os nomes orientais às vezes tem um significado meio literal, optei criar esses codinomes já "traduzidos". Lebre da Lua, mais especificamente, tem a ver com a lenda do coelho na lua. O termo "lebre" é usado aqui como um trocadilho - lebre é o "veado" dos chineses...enfim. Existe toda uma explicação mitológica para isso, que vai ser explorada mais adiante na fic. Espero que não tenha ficado muito pesada a leitura! Obrigada aos que acompanharam. Até o próximo capítulo!