Luzes da Rebelião

2 Capítulo 2- O despertar


Por um instante, senti como se uma lufada de vento passasse por mim e fui tomado por uma tontura igual àquelas que sentimos quando alguma coisa dentro de um carro em movimento. Em seguida me vi em pé. A falta de luz à noite e a náusea que sentia, me impediam de ver com clareza, mas podia sentir a brisa e soube que o mar estava diante de mim, o som das ondas me diziam isso. Aos poucos aquele halo de luz verde foi se dissipando atrás de nós e no momento seguinte estávamos sozinhos numa praia. Olhei ao redor, era uma praia na qual já havia estado muitas vezes com a minha família. Minha mãe costumava me levar ali para brincar. Naquele local, eu e meu pai tivemos muitas conversas muito interessantes, aprendi muito com ele, sempre me pareceu um homem sábio e digno de confiança.

Ohana estava em pé ao meu lado, olhou para mim, seus olhos já não eram indistintos. Eram negros e brilhantes, ela sorriu para mim e disse o quanto foi bom por ter podido resgatar-me.

—Por que diz que me resgatou? Perguntei a ela. Nunca estive preso ou sob custódia de quem quer que seja que não fosse minha família, disse.

—Sua prisão nunca foi física, o que de fato aconteceu, durante muito tempo, foi que esteve em uma prisão de consciência. Você foi treinado para esquecer, para se iludir, para aceitar o mundo baseado em uma crença de acordo com a visão adormecida e não como é na realidade, o mundo real é muito maior, muito mais significativo. Você poderá comprovar isso em breve.

Suas palavras não soavam bem aos meus ouvidos, aquilo que dizia parecia um avalanche de insanidades. Como poderia haver um mundo maior do que aquele no qual estávamos, perguntei-me. O que ela dizia não fazia o menor sentido e não pude deixar de dizer isso a ela.

— Olhe ao seu redor, disse ela, há dois minutos atrás estávamos em seu apartamento, agora estamos aqui diante do mar, sob a luz da lua. Se lembra de ter pego o elevador ou ter descido as escadas, ou de ter caminhado até aqui. Não, não é mesmo. Nós simplesmente atravessamos o espaço entre dois pontos distintos, fazendo com que esses pontos se aproximassem quase a ponto de se tornar um só.

—E como fizemos isso? Indaguei.

—Através da vontade, respondeu ela.

—Você deve estar louca. Isso é impossível.

—Não se sua vontade for verdadeira.

—Explique um pouco melhor, por favor.

—Este não é o momento, você terá a oportunidade de sanar suas dúvidas em breve. Há alguém que poderá fazer isso. Alguém muito mais experiente neste assunto do que eu. Eu, certamente não encontraria palavras que explicasse este fato com clareza o suficiente para te fazer entender o que apenas a verdade pode dizer.

Ohana sentou-se na areia da praia e sentei-me ao seu lado. Durante muitos minutos permaneceu no mais completo silêncio. Olhava para o céu, respirava fundo e nada dizia. Subitamente olhou para mim e perguntou.

—Você sente as vibrações que emanam do céu.

Olhei para o céu tentando entender o que ela estava dizendo. Sempre gostei de olhar para o céu e isso me acalmava, porém não podia afirmar se sentia as tais vibrações das quais ela estava falando.

Ela olhou para mim, no fundo de seus olhos pude ver algo como um fogo ardente. Assustei-me e ela me perguntou o que havia acontecido. Disse a ela que pude ver o fogo em seus olhos. E ela me disse que podia ver claramente a névoa fria nos meus.

—Vamos, disse ela, precisamos sair daqui.

—Vamos voltar ao meu apartamento?, perguntei.

—Não, temo que não volte à sua casa por muito tempo, por enquanto é importante que saiba que ela está segura.

—Como assim, do que está falando?

Ohana hesitou por um instante, depois me disse que a sorte estava do nosso lado. A roda girou a nosso favor, disse ela, temos uma pequena vantagem. Aquela situação estava se tornando perturbadora, não obtinha respostas e as perguntas fervilhavam na minha cabeça.

A maré começou a subir, a água do mar molhava nossas roupas; os cabelos de Ohana que pendiam longos de sua cabeça dançavam ao sabor da água salgada que nos cercava. Ela se levantou e pediu para que eu a seguisse. Ela caminhava pela praia e me pediu para permanecer em silêncio e caminhar ao seu lado. Ouvia ela pronunciar palavras ininteligíveis, pareceu-me uma oração. Lembrei-me que muitas vezes vi meu pai rezando baixinho, principalmente quando me colocava para dormir, depois de rezar, tocava-me a testa com a ponta do dedo e eu adormecia tranquilo.

Caminhávamos despreocupadamente, quando avistei dois faróis de carro apontando na nossa direção, Ohana parou um instante, em seguida, aflita, me disse que ficasse sempre junto dela e que em nenhuma hipótese desobedecesse suas ordens. Eu não entendi a princípio, mas um segundo depois ouvi disparos de arma de fogo na nossa direção.

—Temos a escuridão da noite a nosso favor, disse ela apressadamente; eles terão dificuldade de nos pegar se fizermos tudo certo. Agora corra para a encosta da montanha e se esconda entre as pedras. Vá, agora.

Corri o mais rápido que pude, deixando Ohana para trás, Eu ouvi alguns outros disparos e quando me virei para ver o que estava acontecendo, vi-a diante dos atiradores, ela também atirava na direção deles e ao mesmo tempo estendia o braço esquerdo diante de si formando uma espécie de cúpula protetora que impedia que os tiros a atingissem. Um raio rasgou a noite e atingiu o veículo. A seguir Ohana fez um gesto e uma cortina de areia foi lançada contra os dois atiradores que foram projetados longe e ficaram incapazes de enxergar. Enquanto eles lutavam para se levantar, ela correu na minha direção e mesmo sem saber pra onde eu tinha me dirigido, alcançou minha mão, corremos juntos dali e um segundo depois os atiradores e a praia ficaram para trás.

—Tenho que encontrar um local segura para te levar, disse ela. Caso contrário eles te encontrarão.

— Como assim, por que estão atrás de mim.

— Não faça perguntas, apenas me siga, por favor. Ela acenou para um táxi que parou em seguida, me empurrou para dentro do carro e pediu para o motorista nos levar para o centro.

Quinze minutos depois descemos do carro.

—Está com fome perguntou-me.

—Sim estou, respondi.

—Venha.

Entramos num barzinho discreto. As pessoas ao redor olharam para nós, estávamos com a aparecia horrível, sujos, molhados e suados. O local era antigo, as paredes forradas com painéis de madeira e nelas havia pequenos quadros feitos de ilustrações de baratas emolduradas. Acredito que ornamentaram assim, na tentativa de dar um pouco de vida àquele ambiente em quase nada convidativo. O garçom se aproximou, eu relutei um pouco, nõ estava seguro que aquele local seria um bom lugar para fazer uma referição, mas pedi um filé com fritas. Ohana pediu apenas uma salada. Embora o local fosse velho e não me sentisse seguro em comer ali, ao final descobri que a comida estava saborosa.

Durante o jantar, ela me disse que Santos já não era segura para mim. Eu precisa ser levado para um local mais seguro, onde ninguém pudesse me encontrar e só então eu estaria definitivamente em segurança.

Antes de deixarmos o bar, Ohana verificou os arredores e só me permitiu sair quando se certificou que a barra estava limpa.

—Para onde iremos a seguir, perguntei a ela.

—Precisamos ir para São Paulo, é para lá que fui incumbida de te levar.

—São Paulo, o que tem lá?

—Espere e verá, disse ela.

Já era tarde, quase uma da manhã. Nem percebi o quanto a hora havia passado rapidamente. Ela acenou para um outro táxi. Quando entramos ouvi-a dizer ao motorista que seguisse para São Paulo. O motorista disse a ela que a corrida seria cobrada em bandeira dois, ela não respondeu a ele e simplesmente deu ordem para seguirmos. A estrada à noite revelava pouco. Via tudo passar pela janela como se fossem borrões, pela velocidade empregada pelo carro. Em pouco mais de uma hora chegamos ao centro de São Paulo. Ela pediu para pararmos na Avenida São João, em frente a uma galeria antiga. Achei que iriamos ficar ali, mas ela atravessou a avenida rapidamente, seguimos pela praça e paramos em frente ao que me pareceu uma livraria. No letreiro dizia “Pó Arcano”, através da janela pude ver prateleiras de livros e objetos exotéricos à venda. Um autêntico local feito para pessoas que se interessam por coisas da nova era, cosmologia e coisas do tipo. Eu toquei a maçaneta da porta de vidro, estava fechada. Ohana me empurrou de lado, girou a mesma maçaneta e abriu a porta.

—Anda logo.

Segui atrás dela. O local tinha uma decoração relativamente moderna, o cheiro de incensos estava pelo ar. Seguimos até o fundo da loja, Lá havia uma porta com inscrição que se lia “Entrada permitida apenas para funcionários”. Atravessamos a porta e onde eu achei que encontraríamos um simples escritório, havia uma biblioteca gigantesca circular, um enorme vão no centro da estrutura com uma grande claraboia no alto, se erguia por cinco andares. Eu estava estupefato com o que via, mesmo porque a simples fachada externa do prédio em nada condizia com o seu interior. Permaneci ali, por longos minutos, estupefato com o que meus olhos viam e nem percebi que Ohana havia me deixado sozinho. Quando dei por mim, ela caminhava na minha direção acompanhada por um homem branco, alto, de cabelos louros escuros penteados de lado. O bigode num estilo handlebar dava um ar de sofisticação à sua aparecia.

—Gustavo, este é Edward, apresentando-o a mim.

Edward estendeu a mão na minha direção cumprimentando-me com um sotaque inglês.

—Suponho que esteja cansado, disse Edward. A noite foi muito longa e os últimos acontecimentos em sua vida, com certeza levantaram muitas questões a serem respondidas.

—Sim, de fato, respondi a ele. Podemos conversar, indaguei.

Claro que sim, mas não neste momento. O importante é que agora o senhor está em segurança. Vou levá-lo ao seu quarto.

Seguimos por um corredor circular, subimos um lance de escadas à esquerda e só então entramos em um elevador.

—Aqui será o seu novo lar, Gustavo, Neste local você será esclarecido por assim dizer, e se quiser…, poderá ser um homem livre das amarradas da ilusão mundana e se tornar um desperto, assim como nós.

Eu ia lhe perguntar algo, mas ele me interrompeu apontando a porta à nossa frente.

—Eis seu quarto. Aqui poderá descansar a partir desta noite. Amanhã tornaremos a nos ver

Quando abri a porta encontrei um dormitório completo. Uma cama espaçosa, lençóis de um muito bom tecido e cobertores felpudos. Na parede ao lado havia cortinas fechadas. Do outro lado uma porta, quando a abri, vi que se tratava de um armário com roupas e calçados, ao fundo havia uma outra porta que dava para um banheiro branco com louças muito finas e metais dourados na pia, chuveiro e banheira. Quando me virei para Edward e fiz menção de lhe falar, ele me disse. Há muitos anos, este quarto foi de seu pai, agora ele é seu. A seguir virou-se e saiu dali me deixando com muitas mais perguntas a serem respondidas. Tomei um banho bem quente. Me deitei e adormeci quase instantaneamente.