Luzes da Rebelião
3 Capítulo 3 - Uma nova perspectiva
Na manhã seguinte, me sentia bem mais disposto, a luz que invadia o quarto mostrava que o dia não estava exatamente ensolarado. Me aproximei da janela, achei que encontraria a rua cheia de carros passando para lá e para cá, mas ao invés disso, a janela dava para um pátio com aproximadamente cento e cinquenta metros quadrados, pude ver o chão de pedras rústicas, alguns bancos daqueles que há em praças ao redor do jardim bem cuidado com canteiros floridos que cercavam o local. Havia algumas pessoas ali, adultos em sua maioria, mas vi alguns jovens por ali também. Estava pensando o que eles todos estavam fazendo ali naquele local, e pensei também quanto era insólito eu mesmo estar ali, convivendo com algo que me era tão estranho. Por volta das sete e meia da manhã, sai do meu quarto e segui pelo corredor acarpetado.
Cruzei com algumas pessoas pelo caminho, ao contrário do que imaginei, não me olhavam com estranheza, mas com uma naturalidade incômoda. Não falei com nenhum deles; encontrei-me com Edward, que me disse para eu me apressar, caso contrário perderia o café da manhã. Me indicou o local para onde deveria seguir pelo corredor e desapareceu ao descer as escadas.
O refeitório era de uma limpeza estéril. Ali estavam algumas poucas pessoas, que conversavam num tom muito baixo, bem diferente do ruído insano que pairava pelo refeitório da faculdade. Me senti mal ao me lembrar da faculdade, da falta que me faria, lembrei-me dos momentos de estudo intenso, de alguns amigos e me lembrei que meu sonho estava fadado a não se realizar.
Servi-me de pão, uma xícara de leite e frutas. Tudo estava muito saboroso. Há muito tempo não comia algo tão extraordinariamente bom como aquilo, embora fosse tudo muito comum. Sorri para mim mesmo, imaginando o que poderia ter sido feito àqueles alimentos para serem tão melhores que os habituais. Já me preparava para deixar o refeitório, quando um homem se aproximou de mim e me informou que Edward me pedia para encontrá-lo em seu escritório. Quando cheguei ao escritório, a porta estava fechado e então bati. Aguardei um pouco até ser atendido, em seguida Edward me perguntou se havia tomado meu café da manhã e pediu para eu me sentar.
—Gustavo, este é Petro, o instrutor designado para lhe acompanhar durante a sua transição.
O tom me pareceu solene demais, porém olhei para o tal homem, tinha entre vinte e cinco a trinta anos, era alto, cabelos castanhos, uma barba cerrada e olhos vibrantes. Usava um paletó. Tudo me parecia muito formal, também, naquele indivíduo.
—Desculpe-me, disse a Edward, mas sobre o que deverei ser instruído?
—Bem, não é de fato uma instrução formal, é mais como um direcionamento, uma vez que o despertar acontece espontaneamente. Só queremos que você esteja ciente de como evitar problemas, ele disse a última palavra num tom a frisá-la muito bem. Aquilo era um aviso.
Só então, estendi a mão ao Petro, me desculpei pelo descuido e ele sorriu para mim, balançando a cabeça de forma a deixar claro que eu não me importasse tanto com as formalidades e que tudo estava bem.
—Petro o acompanhará até o momento que estiver pronto para seguir sozinho, disse Edward.
Imediatamente após, levantou-se de sua cadeira, dirigiu-se à porta, abriu-a e se despediu de nós.
Permanecemos um tempinho diante da porta daquele escritório. Fiquei intrigado se Petro, talvez, pudesse responder às inúmeras indagações, que fervilhavam minha mente.
—Está pronto para começarmos? Perguntou.
—Não estou certo, respondi.
—Siga-me, por favor.
Andamos pelo corredor e à direita, Petro acionou o botão do elevador. Subimos até o quinto andar. Petro me conduziu através do corredor circular até encontrarmos a porta da biblioteca. Aquela seção em particular era um pouco diferente daquela que tinha visto no primeiro dia. Não era tão moderna e arejada, mas escura e claustrofóbica.
—Este é meu lugar preferido, sente-se, disse ele apontando uma cadeira diante de uma mesa de estudos.
Assim que me sentei, ele disse para que prestasse a atenção e então passou a falar-me.
Desde tempos imemoriáveis, o homem tem poderes latentes que de acordo com a nossa concepção, podem ser desenvolvidos. O homem comum sequer sabe da existência destes poderes que carrega em si e apenas poucos de nós conseguem controlá-los. A cada um de nós é dado uma série de nove dons especiais e embora todos eles sejam possíveis de serem desenvolvidos, alguns deles se tornam melhores que outros para cada indivíduo. Os poderes têm relação com a matéria, vida, primórdio, tempo, forças, espírito, correspondência, mente e entropia. Estes poderes, que como eu já disse, de alguma maneira são parte da existência de cada um de nós, pode ser usado voluntariamente pelo ser desperto a fim de modificar a realidade, equilibrar ou reequilibrar a existência.
— Sim, respondi sinalizando para que continuasse.
Meus poderes principais são Espírito, Matéria e Entropia, embora consiga realizar outros feitos usando os outros poderes.
—Como assim, perguntei.
—Eu vejo os espíritos, posso me comunicar com eles com facilidade e de alguma maneira também consigo incutir neles a minha vontade. Eu consigo modificar a matéria, fundir o metal por exemplo, é muito útil para derreter fechaduras e abrir portas, e estou me tornando bom e criar matéria, desde que eu já tenha conhecimento o suficiente sobre o que quero criar.
—Entendi. O que é entropia?
—Entropia é uma arte muito especial.
—Como ela funciona.
—Esta não é uma coisa fácil de se explicar, e este poder específico nem sempre esteve dentre minhas especialidades.
Para alguns a entropia tem relação com a vida e a morte, tudo o que nasce tem que morrer, tudo faz parte de um ciclo. Outros dizem que está relacionada ao destino.
—E para você, como ela se parece?
—Para mim é nada mais nada menos que mexer com as probabilidades.
Pensei por um bom tempo e confesso que esta última foi bastante difícil para eu compreender. Tenho a impressão que este é o mais desafiador dos poderes.
Petro continuou…
A partir de agora você será encorajado a desenvolver seus próprios poderes com a maior responsabilidade possível uma vez que seus feitos são parte da sua vontade, podem se tornar catastróficos se não foram bem controlados. Muitos homens e mulheres sucumbiram ao poder e acabaram ficando completamente insanos.
Quando um desperto decidi realizar um efeito, tem a responsabilidade de pensar até que ponto seu efeito vai mudar a realidade que o cerca; quando um efeito é produzido, este está impregnado com a ressonância do agente, assim, se mal pensadas, algumas mágikas saem pela culatra, trazendo ao desperto efeitos reversos que chamamos de paradoxo.
Ficamos ali conversando pelo resto da manhã, até que o aroma da comida nos fez lembrar que já era hora do almoço.
—Vamos comer, disse Petro, a tarde te demonstrarei alguns efeitos.
Saí daquela aula muito satisfeito, pois muitas perguntas que eu tinha, foram respondidas. Segui para o refeitório que estava lotado. Cumprimentei Ohana que estava sentada à mesa com Edward e outras pessoas, os quais fazem parte da diretoria do local.
Após me servir, segui com Petro até uma mesa vaga e logo depois de termos nos sentado, se aproximou de nós uma garota mais ou menos da minha idade.
—Com licença, disse ela, posso me sentar ao lado de vocês, perguntou.
—Claro que sim. Deixe-me apresentá-la. Cassie, este é o Gustavo.
—Muito prazer Gustavo, sou a Cassie, ao que parece você ainda é um novato, sequer um nome você tem.
Aquelas palavras me fizeram ruborizar de raiva, como assim não tinha um nome, Petro havia acabado de dizê-lo a ela que mesmo percebendo meu estado, riu abertamente sem o menor pudor diante da minha irritação.
—Vai com calma novato, disse ela, não se irrite com facilidade.
A seguir passou a dar atenção praticamente apenas ao seu alimento. Petro e ela trocaram algumas palavras, mas como estava fuzilando de raiva, nem prestei a atenção neles. Nem mesmo a comida que estava muito saborosa me tirou daquela vibração e somente quando estava de volta à biblioteca é que expressei minha indignação ao Petro.
—Tenho certeza que vocês se darão bem. Cassie e você ainda serão muito amigos, disse Petro, eu sei disso.
Bem, depois do que ele me disse sobre as probabilidades, não sabia se ele tinha uma simples intuição ou se estava mexendo os pauzinhos na minha realidade.
—Bem, como te disse, nessa primeira aula, vou demonstrar alguns efeitos para que comprove a realidade das minhas afirmações.
Em seguida, ele pegou uma chave do bolso, colocou-a sobre a mesa e simplesmente olhou para ela; a chave se transformou em uma moeda.
—Já via a Ohana fazer um pássaro morto voltar a viver, disse a ele.
—Não é a mesma coisa, disse. Ohana não modificou a matéria, ela insuflou vida onde ela já não existia, a essência da matéria do pássaro em si, ainda estava toda nele.
—Para que ela tenha feito isso, suponho que Vida seja uma das especialidades dela.
—Sim, Vida é uma das especialidades de Ohana, você está inteiramente certo.
A seguir, retirou um baralho do bolso e me pediu para pensar em uma carta, mas sem tocar o baralho. Eu fiz o que me pediu, mas nada disse a ele. A seguir, sem sequer tocar no baralho, fez com que a carta na qual pensei deslizasse para fora do baralho e ficasse a mostra sobre a mesa. Tentei argumentar que muitos ilusionistas podiam fazer aquilo. Ele riu e depois de ter repetido o feito umas vinte vezes fui obrigado a admitir que ele estava mesmo controlando as possibilidades.
Era quase quatro da tarde quando ele falou que nossa aula estava encerrada.
—Mas você não me demonstrou ainda um efeito da esfera Espírito que também é sua especialidade, disse-lhe, Acabei de perder meu pai, argumentei, talvez você consiga entrar em contato, gostaria muito de saber algo sobre ele se fosse possível.
Petro não me respondeu imediatamente, um momento depois vi que rolavam lágrimas dos seus olhos. Ele tentava enxugá-las, mas eram muitas, ao final, após longos minutos de silêncio, ele olhou para mim e disse;
—NÃO POSSO FAZER ISSO.
Me despedi de Petro com a mente perturbada pelo que havia presenciado. Por que ele se sentira assim quando mencionei a morte do meu velho. Segui diretamente para meu quarto, pretendia descansar e refletir sobre tudo o que havia escutado e visto. Estava deitado após o banho e entre um pensamento e outro lembrei-me onde tinha visto aquele paletó que Petro estava usando, era igualzinho ao do meu pai.
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