Luzes da Rebelião
4 Capítulo 4- O chamado da natureza.
As duas semanas seguintes se arrastaram, minha rotina era basicamente me alimentar e estudar. Todos os dias pela manhã, após o café da manhã, ia direto para a biblioteca e lá passava as primeiras horas do dia lendo tudo o que me era indicado por Petro, ou melhor, eram indicações deixadas num bilhete sobre minha mesa de estudos. Alguns textos eram complexos demais e fazia minhas anotações para quando me encontrasse com Petro, o que era raro, pois me parecia que ele estava fugindo de mim.
Dentre tantos livros que li, um deles me chamou a atenção particularmente, era um tomo antigo sobre extratos e poções mágicas, usados para a cura ou como venenos terríveis. Todavia, este livro em particular foi um dos que mais gostei, com certeza aquele com o qual mais me identifiquei. Em uma das raras vezes em que me encontrei com Petro e comentei sobre isso ele olhou para mim e disse:
—Curioso, curioso.
—O que é curioso, perguntei, porém minha pergunta pareceu inaudível para ele, que simplesmente a ignorou e me dirigiu apenas um sorriso incompreensível.
Normalmente, passava parte das tardes no pátio, pensando sobre algo que tinha lido e tirando conclusões. Percebi que conforme o tempo passava, as coisas se tornavam mais naturais para mim e aos poucos comecei a entender que de fato pertencia àquele lugar, àquela vida tão nova e de muitas maneiras fantástica.
Como Petro aparecia muito pouco, algumas vezes busquei conselhos com Edward, o qual sempre se mostrou acessível, embora muito reservado; isto talvez devido a sua origem. Edward tinha uma visão muito peculiar sobre a realidade mágica e quando mencionei isto a ele, me respondeu que isso se dava por causa do seu paradigma. Me lembrei o que Petro havia me explicado sobre paradigmas e fiquei pensando qual seria o meu, se é que eu um dia desenvolveria poderes.
Cerca de uma semana depois da minha última conversa com Edward, estava na biblioteca, lendo um tratado sobre a reação paradoxal quando Cassie se aproximou de mim.
—E aí novato, como vai?
—Não me chame assim, eu tenho nome, me chamo Gustavo.
—Relaxa aí novato, só passei para saber como vão as coisas. Não te vejo por aí há semanas, a não ser durante o jantar, sentado sempre sozinho e sem amigos.
Aquele comentário dela me fez perceber que de fato não tinha feito amigos naquele local, as pessoas pareciam sempre muito ocupadas ou distantes.
—Apenas fiquei envolvido demais com as tarefas que Petro me determinou, não pensei muito nisso, respondi a ela.
—Tudo bem novato, qualquer hora destas você aparece, aí todos vão te notar.
Aquele comentário me deixou furioso. Quem ela pensa que é para dizer-me tais coisas. Por um instante quis que ela sofresse para pagar pelo que havia dito e no momento seguinte senti que o meu desejo era o desejo mais forte no mundo, senti meu coração acelerar por um momento, um calor me invadiu a alma, eu imaginei-me fazendo com que o nariz daquela idiota metida a besta sangrasse e de repente um fio de sangue escorreu pelo nariz de Cassie, que nem um pouco perturbada levou a mão ao nariz para confirmar o que estava acontecendo. Ela gritou alto demais para quem estava com um simples sangramento no nariz e em seguida algumas pessoas estavam ao seu redor. Um membro do alto escalão que estava passando naquele momento se aproximou e pediu passagem. Assim que viu Cassie sangrando se prontificou a ajudá-la. Achei que ela pudesse ter se ferido gravemente.
—Quem fez isso com ela, perguntou.
Alguns olharam para mim e em seguida aquele homem estava ao meu lado.
Cassie ria-se e tampava o nariz para estancar o sangue.
—Pronto novato, você conseguiu o que queria, disse ela, Todos estão te notando.
—Venha comigo, disse o homem. Acompanhe-me até o escritório do Edward.
Eu fiquei muito apreensivo, não queria ter feito aquilo a ela embora não simpatizasse com Cassie.
Assim que entrei no escritório, achei que fosse ser punido fortemente pelo que havia feito. Sentei-me na poltrona ao lado do homem que só naquele momento soube se chamar Ronnie.
— O que houve, perguntou Edward.
—Este rapaz acabou de realizar seu primeiro ato mágico.
Edward, ouviu em silêncio o relato feito por Ronnie. A todo momento manteve o olhar sobre mim, estudando-me. Seus olhos me penetravam a alma. Quando Ronnie ficou em silêncio, Edward levantou-se dizendo:
—Chame-a aqui. Quero vê-la agora mesmo.
Cassie entrou pela porta minutos depois. Explicou o que havia acontecido, descreveu o que sentiu e como aquilo a tinha afetado.
—Não resta dúvida que um ato tão espontâneo assim, só pode ter sido produzido pela vontade desperta, falou Edward solene.
Olhei para Cassie com muito arrependimento. Sentia-me muito mal pelo que havia feito. Cheguei a pedir-lhe sinceras desculpas e ela simplesmente me deu um tapinha no ombro e sorrindo me disse:
Até que emfim, achei que você nunca despertaria.
Petro entrou na sala ofegante e Edward sorrindo e apontando para mim disse:
—Eis o mais novo membro de nossa ordem antiga e poderosa.
Petro se aproximou de mim e sorrindo repousou a mão em meu ombro. Ele era um homem bom, e ao lado dele me sentia bem.
—Agora levem este Verbena daqui e preparem a cerimônia para a próxima sexta-feira, disse Edward com ar de satisfação.
Petro me segurou pelo braço e me retirou da sala, Cassie estava do lado de fora e nos acompanhou até a biblioteca e após nos sentarmos, perguntei ao Petro o que havia acontecido, porém Cassie olhou para ele e disse para deixá-la explicar.
Gustavo, o que aconteceu foi que você naquele exato momento, num ato de raiva, ou sei lá o que conseguiu produzir seu primeiro efeito mágico através da vontade e isto é grande coisa.
Sim, eu fiquei com raiva do que você me disse e acabei desejando, queria vê-la sangrar.
—Viu só, você desejou com a sua vontade verdadeira e o que você quis aconteceu.
Eu olhei para ela e já ia me desculpando de novo, quando ela me interrompeu e disse que estava tudo bem. Que ela tinha se proposto a ajudar-me a despertar desde o momento em que me viu, nem que ela tivesse que sofrer tentando.
—Isso é verdade, disse Petro.
Eu olhei para ele incrédulo.
—Cassie chegou a comentar comigo que ficaria por perto até que o momento chegasse.
—E você, aquele em quem eu mais confiava, deliberadamente se manteve distante.
—Eu precisei, disse ele com uma lágrima nos olhos.
Você está chorando? Perguntei.
—Não, respondeu ele. Cassie olhou para ele que enxugou os olhos e balançando a cabeça como quando queremos tirar algo da cabeça. -Não foi nada, deixa para lá. E mudou de assunto.
—Bem, então você é um Verbena, disse ele, enquanto Cassie olhava para um e outro alternadamente. Os Verbenas são um grupo bastante requisitado embora muitos vivamreclusos.
—Como sabem que sou Verbena? Perguntei.
—Normalmente o primeiro ato mágico revela a qual grupo o mago pertence. Os verbenas costumam performar mágicas com sangue em seu primeiro ato mágico e foi isso que o denunciou.
Cassie é…
—Sou uma Ordem de Hermesm respondeu ela antes que Petro pudesse dizer algo.
Àquela altura, depois do que havia acontecido achei que até pudesse estar me afeiçoando a ela e então lhe pedi para explicar-me um pouco sobre a família a qual pertence.
—Sim Cassie, explique a ele um pouco mais sobre a sua Tradição,, pediu-lhe Petro,
—Nós, da Ordem de Hermes, somos estudiosos natos, buscamos uma realidade perfeita e para isso praticamos testes e ensaios; quando chegamos a uma conclusão libertadora, isso transforma a nossa essência, nos reinventamos e então damos um outro passo na busca, agota para alcançar o que chamado de Divinal, quando alcançamos esta nova realidade, ela se torna parte o que somos de fato, ou seja, um ser divino. Esta percepção nos permite evoluir constante e incansavelmente.
Por um segundo achei que não tinha entendido o que ela me disse, mas a seguir tudo ficou claro para mim, Os Herméticos eram uns senhores de uns metidos a besta, porém contentei-me em dizer a ela que a perspectiva hermética sobre a realidade era realmente profunda, Olhei para Petro e este sorriu para mim de uma forma significativa, ele tinha entendido perfeitamente o porque dei aquela resposta. Cassie por sua vez, me deu um tapa nas costas e disse toda orgulhosa:
—Você aprende muito rápido novato, disse ela e saiu da biblioteca em seguida toda presunçosa e dona de si.
Daquele momento em diante, a pedido de Edward, Petro esteve mais ao meu lado. Com seu auxílio e explicações tudo ficava cada vez mais claro em minha mente, As aulas se tornaram mais interessantes e durante uma delas descobri que também Forças é uma das minha esferas de aprendizado. Consegui dar um curto num relógio digital.
Na sexta-feira à noite, depois do jantar, todos se reuniram no hall sob a cúpula de vidro no centro do edifício. Luzes de velas por todas as partes, No ar exalava um odor cítrico e suave, o qual me agradava muito, Edward estava parado no centro do hall acompanhado por Cassie. Petro estava ao meu lado, seguíamos até o centro ´por um corredor que se formava enquanto passávamos. Assim que chegamos diante de Edward e Cassie, Petro me deixou ali e se postou ao lado de Edward. O trio me olhava com olhares bastante singulares. Pressentia esperança nos olhos de Edward, curiosidade no olhar de Cassie e dor nos olhos de Petro.
—Eis o momento em que o espírito Verbena suplanta a realidade mundana de um ser e o lança para a verdadeira realidade. O traz para casa; para o mundo ao qual pertence, disse Edward em voz alta para que todos ouvissem.
Tudo agora estava em silêncio. Um flautista começou a tocar uma música profunda, como um lamento da natureza. A música soturna preenchia o local e subitamente vi Ohana se aproximava em meio a multidão, Ela trazia uma ânfora nas mãos. Todos ao redor a observavam.
Assim que ela chegou até mim, Edward reiniciou a falar:
—Eis o momento em que o praticante das artes Verbenas entra em contato com a natureza através do seu corpo, mente e espírito. À partir deste momento, tornar-se-á ciente das maravilhas que a natureza e a vida lhe podem trazer.
Ohana me estendeu o cálice com a bebida da ânfora, Um líquido âmbar e cristalino e em seguida me disse:
—Beba o conhecimento, absorva a Vida. Disse esta última palavra com certa ênfase.
Eu tomei de suas mãos o cálice, levei-o á boca e sorvi um grande gole da bebida Por um instante pareceu-me que perderia o sentido e no instante seguinte estava no meio da mata fechada, índios me cercavam e dançavam rituais ao meu redor. A lua nova no céu testemunhava aquele momento único. Eu era a natureza e a natureza era eu. Um ser único, simbiótico.
Em seguida recobrei o sentido completamente e por um instante todos me olhavam.
Ohana olhou nos meus olhos e perguntou:
—O que os antigos espíritos da natureza lhe disseram?
—Eles me disseram que de agora em diante me chamo Gus.
O batismo está concluído, disse Edward. Deste momento em diante nasce um novo homem, inteiramente desperto.
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